quinta-feira, 10 de março de 2005

ÂNGULO CULTURAL - O QUE CULTURALMENTE EM BRAGA ACONTECE!

angulocultural2.JPGComeçou por ser uma experiência em jornal, com o número 1 editado em 29 de Março do ano passado (está pois a fazer o seu primeiro aniversário). Doze páginas, com uma série de destaques na primeira página. A imagem de capa remete para o circo Atlas, de passagem por Braga.

Terá sido o único número? O certo é que, olhando para a ficha técnica, aparece a indicação de tiragem: 5 exemplares. Falar de trabalho artesanal aqui num blogue de indústrias culturais merece explicação. Porque se trata de um objectivo óbvio: o trabalho experimental numa redacção baseado no curso de jornalismo em Braga. Aliás, a redacção funcionava no local de residência das alunas: Andreia Pereira, Carla Neves, Eliana Faria e Madalena Barbosa.

angulocultural1.JPGDestaco o inquérito que seria feito nesse mês de Março a 90 bracarenses em termos de práticas culturais a jovens (15-30 anos) e idosos (acima dos 65 anos). Os resultados apontam para a maior aceitação de espectáculos musicais, seguindo-se o cinema (para os jovens) e o teatro (para os mais velhos).

Hoje, o projecto adquiriu outras roupagens, sob a forma do blogue Ângulo Cultural, e animado por outras activistas: Vanessa Silva, Eliana Rodrigues (a única que vem do grupo anterior) e Alexandra Faria. Quanto a Andreia Pereira, ela dinamiza o forum Conversas Paralelas, embora nem sempre activo.

Obrigado a Andreia Pereira pelo envio deste número histórico do Ângulo Cultural em papel.
PUBLICIDADE NO ESTADO NOVO

Saíu, no final do ano passado, um livro de Rui Estrela, com o título A publicidade no Estado Novo, em dois volumes. Só ainda conheço o primeiro, que cobre o período de 1932 a 1959 [a imagem que aparece na capa do livro pertence à publicidade ao sabonete Arêgos, anúncio da ETP - Empresa Técnica de Publicidade, empresa de Raul Caldevilla, no Porto (ver pág. 94 do livro)].

A leitura deste trabalho, inicialmente uma tese de doutoramento que o autor defendeu em Salamanca em 2002, é muito fácil e agradável. Dividido em três capítulos, o texto aborda períodos históricos relevantes para Rui Estrela: 1) 1932-1938, 2) 1939-1945, e 3) 1946-1959 (o segundo volume abrange o período até 1973). A distinção destas marcas permite detectar continuidades e rupturas, a maior delas a segunda guerra mundial. As áreas abrangidas pela publicidade aqui estudadas são: 1) imprensa escrita, 2) cartaz, 3) cinema, e 4) rádio.

Partindo da definição de publicidade como "um negócio gerador de potencial lucro e emprego que assenta na transacção de um produto - a mensagem publicitária - difundido por determinados meios pagos, visando chamar a atenção dos consumidores para um produto ou marca, com o intuito de gerar atitudes ou comportamentos favoráveis à organização anunciadora" (pág. 18), Rui Estrela descreve os agentes envolvidos no negócio, o primeiro dos quais são elementos dos jornais que vendiam espaço dedicado à publicidade, a troco de uma comissão. Estes agentes eram também os responsáveis pelo design do anúncio. Com o correr dos tempos, o serviço profissionalizou-se, com a entrada em cena de agências de publicidade autónomas e, mais tarde, de agências de serviço completo.

Estilos publicitários

O autor remete para um conjunto de estilos: informativo, atmosférido (onde se associa uma imagem a um produto, de modo a fomentar o seu consumo), símbolo de personalidade, comparativo (tipo este produto tem vantagens, relacionando-o com a concorrência), estilo de vida, promocional e outros.

Não me quero estender na apreciação do livro, que aconselho a leitura. Deixo apenas imagens de duas áreas que tenho trabalhado e que o autor faz uma referência apurada: as telecomunicações e a rádio.

telefone1.JPGtelefone2.JPG

radio6.JPGDas características iniciais da publicidade em Portugal, o autor nota o volume reduzido de negócio, o que torna difícil a vida das agências, o predomínio da publicidade na imprensa escrita e um crescimento da importância da rádio (apesar dos constrangimentos provocados pela proibição de publicidade neste meio num determinado período), a pouca profissionalização do sector (entregue a jornalistas e a gráficos em tempo parcial) e a pouca teorização sobre o tema. Se, em 1926, Fernando Pessoa dedica alguma atenção à área, só em 1942 é que surge o primeiro livro verdadeiramente sobre a matéria. Trata-se da obra de António Araújo Pereira, Técnica da publicidade.

Número de páginas: 218. Preço: €13.

quarta-feira, 9 de março de 2005

ANDREY TARKOVSKY E CLINT EASTWOOD

[para Alexandra Barreto, do blogue seta despedida]

1) Escrevo de memória sobre Andrey Tarkovsky. Vi Andrei Rubliev (ou Andrei Rublyov), Nostalghia e Stalker na primeira metade da década de 1980, num cinema provavelmente já desaparecido do Porto. A água (em jorro ou em pingos, a que a montagem sonora dava mais relevo), o fogo (ou as velas em Nosthalgia), o caminhar circular dentro de um vagão de reparações num espaço estranho guardado por soldados e máquinas de guerra (Stalker), ou a pintura que se redescobre passando do preto e branco para a cor em Andrey Rubliev, fizeram-me apreciar aquele cineasta russo, prematuramente desaparecido. Aquando da sua morte, eu interroguei-me sobre a injustiça da perda de alguém que prometia - se não um corte epistemológico no cinema - um repensar da estética: os temas, as inquietações mentais, os planos cinematográficos, a ligação entre cinema, literatura, pintura e música (ou sonoridades). Lia avidamente o que ele e dele se dizia. Ficou uma memória - a que, como em qualquer biografia pessoal, eu juntei as minhas próprias vivências, leituras e amizades da época.

2) De Clint Eastwood, mantenho uma memória antiga de intérprete de filmes ligeiros, que se consomem e se substituem pelo próximo. Se quisermos, a aplicação da mcdonaldização ao cinema. Eastwood aparece-me como o protótipo de intérprete de cowboy, sujeito de pensamento rápido mas superficial. Logo: longe da metafísica ou das questões de consciência estética e moral de Tarkovsky. E sem sequer o crédito de ter morrido cedo e longe da sua pátria, que o amava pouco na altura do seu desaparecimento (vivia na Itália, que o protegeu).

Mas Clint Eastwood tornou-se, ele também, alguém que faz filmes a reservar na memória. Trabalhando gente comum (pessoas vulgares), que tem profissões quase no extremo inferior: polícias, antigos bandidos ou gente que trabalha num sítio sem qualquer atractividade mas pela necessidade vital do dinheiro. Foi o caso de Mystic River. Se quisermos, na narrativa do filme, o único rosto feliz e despreocupado acabaria por desaparecer assassinada. Já no filme mais recente, Million dollar baby, o realizador volta a entrar no nível mínimo da subsistência humana. Uma candidata a pugilista vale muito menos que uma discreta empregada de mesa. É neste fio da navalha (a expressão vale o que vale) que eu vejo a grandeza do filme.

3) Em Portugal, os temas de Tarkovsky e Eastwood são, com toda a certeza, alheios ao nosso modo de pensar ou agir. Excêntricos, no sentido de fora do centro das nossas preocupações. Mas em ambos há pontos comuns: o olhar os rostos, o perder-se na imensidão da matéria. Já quanto ao sentir religioso não poderei equiparar ou distanciar, pois ele é permanente em Tarkovsky e pontual em Eastwood. E noto óbvios pontos divergentes: no russo, o cinema é artesanato, sentimento profundo na construção de cada plano; no americano, o cinema é indústria, os planos obedecem a um ritmo da cultura do seu país, o tema é próximo das pessoas comuns. No russo, a aproximação ao destino incompreendido dos indivíduos, que lhe reservam um olhar místico; no americano, uma quase aceitação pragmática desse destino incompreendido.
MANGA

Saíu recentemente no mercado nacional, em edição da Taschen, o livro Manga design, de Amano Masanao. A manga - como já fiz alusão neste local - é a banda desenhada japonesa, vendida aos milhões naquele país em livrarias, quiosques, centros comerciais ou lojas de conveniência, produzida em papel barato, lidas em viagem rápida de metro ou noutro meio de transporte. A sua leitura progride das últimas folhas para as primeiras e da direita para a esquerda, para além de códigos semânticos nem sempre compreensíveis mas que se ligam à tradição das artes criativas do Japão, ao cinema, aos desenhos de animação e à publicidade. Aliás, a manga não seguiu a cultura comercial.



Julius Wiedemann, na introdução ao livro, escreve que a manga é "publicada em séries antológicas, normalmente a preto e branco, sendo introduzida em cada edição uma nova aventura com novas personagens".

osamutezuka.bmpApesar do uso da palavra manga remontar ao séc. XIX, o seu sucesso deu-se quando Osamu Tezuka (1928- 1989) começou a publicar as suas histórias. Até aí, continua a ler-se na introdução ao livro, os leitores deixavam de consumir as mangas após o liceu. Osamu Tezuka projectou "um desenho mais dinâmico, com o recurso a ângulos, close-ups, perspectivas e técnicas cinematográficas inspiradas nos filmes alemães e franceses da altura". O seu trabalho inicial, New treasure island, de 1947, tornou-se um marco neste tipo de literatura.

O livro de Amano Masanao apresenta 150 autores famosos no Japão, mas também inovadores, precursores e fontes de inspiração de filmes, acompanhado de um DVD. No final, tem um pequeno glossário de termos e páginas de internet. O livro não é, assim, um local com histórias mas uma volta ao mundo dos criadores do género manga.

Número de páginas: 576. Preço: €32,99.

terça-feira, 8 de março de 2005

HOLANDA: PROGRAMAS DOS ANOS 1950 DISPONÍVEIS ONLINE

Segundo o blogue Media Network Weblog, já está disponível na internet parte do arquivo da televisão pública holandesa (sítio NCRV) dos anos 1950 (nomeadamente fotografias, sons, entrevistas), em formatos Windows e Real, de alta qualidade para banda larga ou dialup.

Entretanto, em Portugal, o grupo Lusomundo está a digitalizar o arquivo dos seus jornais (nomeadamente o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias). Segundo a informação que obtive, o serviço a disponibilizar será pago. A sua implementação representa uma grande vantagem: até agora, só as pessoas que moram em Lisboa e Porto é que tinham acesso ao arquivo de jornais, nas respectivas sedes dos diários ou bibliotecas e hemerotecas. A investigação agradece.
LANÇAMENTO DE LIVRO DE RITA FIGUEIRAS

Rita Figueiras, professora universitária, vai lançar o seu livro Os comentadores e os media, na próxima quinta-feira (10 de Março), pelas 18:30, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), na rua Palma de Cima, em Lisboa. Rita Figueiras é docente na UCP.

O livro, com prefácio de António José Teixeira (Jornal de Notícias), será apresentado por Isabel Ferin, da Universidade de Coimbra. Os comentadores e os media sairão com a chancela dos Livros Horizonte, na colecção de jornalismo que aquela editora tem em parceria com o CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo).
INDÚSTRIA DISCOGRÁFICA VALE MENOS 25%

Citando os valores publicados pela Associação Fonográfica Portuguesa, Nuno Galopim, do DNMúsica, na sexta-feira passada, destacava uma perda de 25% no mercado fonográfico português no ano passado. Uma indústria que valia €100 milhões em 2002 e €81 milhões em 2003, baixava para €61 milhões em 2004. Na venda de CDs, a quebra foi da ordem dos 21,9% e as cassetes áudio desvalorizaram 37%, ao passo que os DVDs mantiveram o nível do ano transacto.

musica2.JPG

Quais as razões da quebra, numa altura em que os mercados americano e inglês estão a recuperar? Apontam-se as seguintes razões: 1) pirataria digital e física, 2) indiferença das rádios nacionais face às novidades discográficas, e 3) preço elevado dos discos.

Compilações e criação de futuras velhas canções

A editora melhor sucedida em 2004, continua a escrever Galopim, foi a EMI Music Portugal (23,43% da facturação total), seguindo-se a Universal (18,84%). As editoras Farol (9,01%) e Som Livre (8,99%) foram as surpresas do ano, sobretudo no mercado das compilações. Neste último caso, pode dar-se o fenómeno chamado mercado futuro de velhas canções. Explico-me melhor, através da leitura da peça assinada por John Leland, do New York Times de sábado último (encarte do Le Monde).

musica1.JPG

Escreve Leland que, embora se considere a pop music um território da juventude, com os vídeos muito sugestivos sexualmente que passam nas listas do canal MTV, a verdade é que os velhos cantores e músicos ganham mais. Embora não produzindo novos êxitos, são os que vendem mais. Assim, Phil Collins, Cher, Elton John, Simon & Garfunkel e Sting contam-se entre os que mais discos venderam em 2004.

Isto pode ser um trauma para as jovens bandas, a quem se diz que o melhor modo de ganhar dinheiro é vender bilhetes de concerto e camisetas. A realidade, contudo, é a venda de discos - o que pode ser um choque para os fãs. E aqui entra a ideia do mercado futuro de antigas canções. O que quer dizer que, daqui a cinco ou seis anos, Echo and Bunnymen, New Order ou Cure estarão na linha da frente em vendas de discos, mesmo que já hajam desaparecido ou não tenham músicas novas para lançar.

Os músicos mais antigos criaram uma marca e exploram-na. Isso aproxima-se do conceito de lovemark, termo pertencente Kevin Roberts, director executivo da Saatchi & Saatchi, como escrevi aqui no fim-de-semana. Uma lovemark desperta afectos e sentimentos, logo é vendável.
AQUAROMA

Através do Yahoo!Korea, um leitor procurou-me, através da palavra AquaRoma, um centro comercial perto de minha casa. Não sei se ele me entendeu; eu não consegui perceber a linguagem dele. Fica aqui a página.

segunda-feira, 7 de março de 2005

UM BLOGUE SOBRE CINEMA

Só agora dei por ele. Chama-se O charme discreto da bloguesia, e é animado por um conjunto de cinéfilos e professores oriundos de várias partes do país. Trata-se de um "espaço de diálogo sobre cinema e sobre as questões que se colocam no âmbito dos estudos fílmicos, promovido pelo grupo de trabalho criado no seio da SOPCOM [Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação] "GT - Estudos Fílmicos".

Nos posts de hoje, há a referência a um ciclo de cinema no Instituto Franco-Português, aqui em Lisboa. Como a sessão desta segunda-feira já começou há muito, remeto para a próxima fita, no dia 14 (21:00): História de um segredo, de Mariana Otero.

Ao primeiro nome dos animadores do blogue, Vítor Reia-Baptista, desejo muitos sucessos no blogue.
EXIBIÇÃO CINEMATOGRÁFICA EM PORTUGAL – 2004

Recentemente, o ICAM apresentou os números respeitantes à exibição cinematográfica no país. A informação apresentada - e que a direcção do ICAM teve a amabilidade de me fornecer - é "fruto de um ano de trabalho no âmbito do processo de informatização de bilheteiras e de transmissão de dados electrónicos pelos exibidores cinematográficos – promotores de espectáculos – nos termos do disposto no decreto-lei nº 125/2003, de 20 de Junho".

ecra2.GIF


Assim, de 278 concelhos listados, há 172 deles que possuem salas de cinema, totalizando 274 recintos e 592 ecrãs. O distrito de Lisboa lidera (43 recintos e 159 ecrãs), seguindo-se o Porto (21 recintos e 88 ecrãs), Setúbal (18 recintos e 60 ecrãs) e Faro (18 recintos e 41 ecrãs). Há distritos com um número razoável de recintos mas menor quantidade de ecrãs, caso de Leiria (19 recintos e 21 ecrãs), o que ilustra a questão dos multiplexes e megaplexes, centrados nos principais centros urbanos.

ecra3.GIF

Salas e espectadores

O quadro seguinte ilustra o número de espectadores de cinema ao longo de 2004. Assim, os meses de maior quantidade de entradas nas salas são Julho e Agosto, meses tradicionalmente de férias. Isto induz a ideia de que, passando férias perto de casa, os portugueses alternam uma ida ao cinema com outra à praia. Dezembro e Janeiro são os meses seguintes com maior procura nas salas de cinema.

ecra4.GIF

O número total de espectadores é de 16,28 milhões, dando, grosso modo, 1,6 idas anuais dos portugueses ao cinema, valor bastante escasso - e que eu já reflectira há algum tempo, quando li as primeiras informações na imprensa. Quanto a receitas por distrito, Lisboa vai à frente (€28,9 milhões), seguindo-se o Porto (€14,7 milhões) e Setúbal (€6,9 milhões). Portalegre é o distrito que menos rende em termos de cinema (€22 mil).

Exibidores e distribuidores

Quanto aos principais exibidores, a Lusomundo lidera (25 recintos e 148 ecrãs, equivalente a 9% do total do existente no país), seguindo-se a Socorama - Castello Lopes (23 recintos e 89 ecrãs, 8% do total) e o grupo Paulo Branco (10 recintos, 64 ecrãs e 4% do total do país). Já em número de espectadores, a Lusomundo lidera folgadamente (7,7 milhões), após o que vem a Castello Lopes (3,3 milhões) e Paulo Branco (1,9 milhões).

Além de liderar o mercado da exibição, a Lusomundo também ocupa o lugar cimeiro em termos de distribuição, como mostra o quadro seguinte, uma ilustração da hegemonia que exerce em grande parte da cadeia de valor do cinema em Portugal.

ecra5.GIF

ecra6.GIF

Das longas metragens estreadas no país em 2004, as americanas levam grande vantagem (120, a que corresponde 42,7% do total), seguindo-se as europeias (76 e 27%). Portugal estreou 18 filmes (6,4%). Dos filmes mais vistos, Shrek 2 vendeu 743.156 bilhetes, seguindo-se A paixão de Cristo (685.974 bilhetes) e Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (513.957 bilhetes), ranking a que eu já fizera alusão num outro post. Os 44 filmes mais vistos o ano passado foram produzidos ou co-produzidos pelos Estados Unidos. Balas e bolinhos, de Luís Ismael, seria o filme português mais visto (em 93º lugar, com 46.671 espectadores).

ecra7.GIF

Últimas notas: como referimos noutro post, há ainda uma discrepância em termos de números relativamente ao Instituto Nacional de Estatística (INE). Os números do INE são mais elevados, dado que os dados do ICAM reportam somente às bilheteiras informatizadas. Além disso, não temos dados qualitativos, do género que públicos e faixas etárias são predominantes. Contudo, uma vez que dois dos três filmes mais vistos se orientam para públicos jovens, julgo natural que os frequentadores mais assíduos sejam os jovens.

domingo, 6 de março de 2005

RECOMENDO O SÍTIO

FABRICAVARIADA, apesar da lentidão de acesso e procura dentro do sítio. O sítio vem de Estremós.
EM DEFESA DE LUGAR AO SUL

Apoio o que Manuel Pinto, do blogue Jornalismo e Comunicação, escreveu hoje sobre o programa Lugar ao sul, da Antena 1. Lê-se: "Acabou há pouco mais uma edição do programa da Antena 1 Lugar ao Sul. Começa depois das notícias das 7 e vai até cerca das 9, em cada sábado. É um clásssico da RDP que tem muitos ouvintes em segmentos diversificados da audiência. Colocar um programa destes ao sábado e a uma hora destas é, de algum modo, liquidá-lo para muitos interessados em o ouvir".

No programa, desenrolam-se conversas amenas, diria de recolha antropológica, com pessoas velhas (ou menos velhas), que falam das suas memórias e das músicas que ouve(ia)m, canta(va)m e toca(va)m. O Lugar ao sul é uma marca fundamental do registo da cultura nomeadamente alentejana, de uma fantástica riqueza em termos de repertório musical. A par de selecção invejável de música portuguesa de todo o país (e não a dos tops ou da linha pimba).

Por favor, enviem mensagens simpáticas mas firmes para a Antena 1, para o director de programas da estação ou para a secretária do presidente do grupo Rádio e Televisão de Portugal. A cultura e o património de um país também precisam de gritos de alerta, como o que aqui fizemos o ano passado acerca do Museu da Rádio, exactamente pertencente à mesma entidade pública.
LEITURAS

1) Morangos mais doces. É o que se lê no Diário de Notícias de anteontem. Isto a propósito da estreia de mais três personagens na série televisiva Morangos com açúcar no canal TVI. No texto assinado por Diogo Sousa, "a produtora NBP decidiu apimentar o argumento", com o colégio da Barra a "ter um novo sex symbol e o típico marrão que os professores adoram e os colegas detestam". A sex symbol é Dânia Neto, modelo, 21 anos, que "admite que as cenas de maior intimidade «não vão ser pêra doce, mesmo não tendo namorado»". O texto que estou a citar refere ainda o êxito da série junto de audiências mais juvenis do que é habitual. Segundo dados fornecidos pela TVI, o perfil dos seguidores da série abrange a faixa etária dos 4 aos 14 anos (20% da audiência) e dos 15 aos 24 (15,6% da audiência). A audiência média é de 10,6%, o que perfaz cerca de um milhão de telespectadores que assistem à novela.

2) A biblioteca virtual e gratuita do Google. Escreve Claudine Mulard, na edição de ontem do Le Monde, sobre o programa de digitalização de milhões de obras que ficarão acessíveis na internet, como iniciativa dos fundadores do motor Google e em colaboração com grandes instituições americanas e inglesas. Tema recorrente no jornal parisiense, o receio maior é que a cultura francesa fique marginalizada deste processo. Mas parece-me que cada país deve seguir o exemplo de Sergey Brin e Larry Page, os co-fundadores da empresa californiana. O projecto, chamado Google Print, conta já com a colaboração das bibliotecas de três universidades americanas (Harvard, Michigan e Stanford), da New York Public Library e da Bodleian Library, ligada à universidade inglesa de Oxford. Os primeiros livros serão colocados na rede em Junho deste ano, devendo a operação terminar em três anos. A universidade de Oxford, por exemplo, disponibilizará milhão e meio de obras dos seus fundos do séc. XIX. A universidade de Michigan digitalizará sete milhões de obras, a de Stanford oito milhões e a biblioteca nova-iorquina 17 milhões, enquanto a universidade de Harvard começará apenas com 40 mil dos seus quinze milhões de obras. Isto são números esmagadores, que nem lembram a antiga biblioteca de Alexandria! A tecnologia, continua o texto que cito, é secreta: se se pode aceder de qualquer computador e ler a obra integral, não há possibilidade de a imprimir (as funções de copiar e imprimir são desactivadas). Mas haverá possibilidades de comprar cópias digitais, se as bibliotecas de origem das obras assim o permitirem. Embora acusada de privilegiar as colecções anglo-saxónicas - motivo do principal receio dos franceses em geral e do Le Monde em particular -, a responsável pelo projecto, Suzan Wojciki, salienta que o Google está a procurar criar protocolos com bibliotecas de todo o mundo, incluindo a francesa. Pergunta minha: e a Biblioteca Nacional, ali ao Campo Grande, está atenta a este movimento?

3) Lovemark. O termo pertence a Kevin Roberts, director executivo da Saatchi & Saatchi, em livro que está (ou estará disponível no mercado castelhano), segundo o El Pais de hoje.

Ora, o que quer dizer? Significa uma marca que evoluiu no sentido de perder "a sua mera atribuição funcional e ganhar sentimentos de paixão, uma lealdade que vai para além da razão, algo cheio de mistério, sensualidade e intimidade e que parece irresistível". Por exemplo, o Benfica, para muita gente que vive em Lisboa, é irresistível; mas no Porto já é o F. C. Porto. Isto é, a paixão vai além dos resultados, do treinador, do modo como se joga: sente-se um amor. Assim, cataloga-se a lovemark com uma emoção humana. E, se durante 40 anos, continua a explicar Kevin Roberts, se ouviu falar de preços, valor, saldos, distribuição, rendimento, hoje, dada a qualidade semelhante das marcas, a distinção reside nessa afectividade.

sábado, 5 de março de 2005

A MORTE DE MATOS MAIA

Li agora, no blogue A Minha Rádio, a notícia da morte de Matos Maia, o autor do livro Telefonia, um texto de referência a quem quer estudar a história da rádio em Portugal. No primeiro post que editei hoje, eu fiz alusão a esse trabalho, ignorando tal desenlace.
BARÓMETRO DA COMUNICAÇÃO

O Obercom (Observatório da Comunicação) lançou esta semana a primeira edição do seu Barómetro da Comunicação, dedicado ao sector audiovisual (televisão, cinema, rádio, áudio, multimedia, edição e distribuição de vídeo e consolas e videojogos). Segundo a newsletter do Obercom, distribuida hoje, o "barómetro pretende essencialmente, a partir da leitura dos grandes indicadores, constituir-se como um útil instrumento de análise e gestão para operadores e contribuir para os quadros decisórios das políticas públicas sectoriais".

Com preço de capa de €20, o número inicial cobre o primeiro semestre de 2004.
OUTRA VEZ OS MUPIS

vogue.JPGsaberviver.JPG

maxmen.JPGAs imagens não têm grande nitidez, mas um dos objectivos era esse. Os mupis são mais visíveis de noite que de dia.

O que se vê nos cartazes? Publicidade a revistas: Vogue, SaberViver e Maxmen, todas com recurso a modelos femininos ou pós-adolescentes, como a filha de Cinha Jardim, figura conhecida das revistas cor-de-rosa.

Moda, roupa íntima e produtos de limpeza e higiene

decenio.JPGgarnier1.JPG

intimissimi.JPGO que se vê nestas outras imagens? De novo, a mulher, como tema e público-alvo. Será porque elas fazem mover o mundo, comprando e aconselhando as compras?

Cinema e teatro - ou espaços ilegais para colocação de publicidade?

Além dos mupis, dou também relevo aos cartazes colocados nos tapumes das obras de rua, onde é vulgar encontrarmos publicidade a concertos ou a peças de teatro. Ao Arco do Cego (Lisboa), onde funcionou até há pouco uma central de autocarros expresso, encontrei aquilo a que chamei o "cantinho do teatro", um conjunto de cartazes anunciando peças. Notei uma solidariedade espacial entre peças de empresas teatrais privadas e estatais, como o teatro D. Maria II e o Camões. A tapar a fachada de um edifício, fotografei um painel fazendo alusão a uma exposição de conservação e reabilitação urbana.

leonelvieira.JPGteatro1.JPG

teatro2.JPGteatro3.JPG

teatro4.JPGteatro5.JPG

tapume3.JPG
OITENTA ANOS DE RADIODIFUSÃO EM PORTUGAL?
E PORQUE NÃO OITENTA E UM?


No dia 1, o Diário de Notícias editou, no guiaDN, três páginas intituladas Os dias da rádio. Há 80 anos começavam as emissões regulares em Portugal [na imagem, microfone de CT1AA, um dos pioneiros da rádio em Portugal. Gentileza do Museu da Rádio].

Nessas páginas, surgem duas peças assinadas pela jornalista Ana Pago, uma sobre o programa Oceano Pacífico, da RFM, e outra sobre o Museu da Rádio. A meu ver, duas belas peças - em especial a dedicada ao museu da rua do Quelhas, o ano passado tão publicitado por se temer o seu fim.

As duas peças da jornalista não referem uma só vez a data dos 80 anos da radiodifusão. Aliás, numa das citações atribuidas a Alexandra Fraga, do Museu da Rádio, lê-se: "Convivemos diariamente com 90 anos da história da rádio portuguesa".

Eu fora alertado pelos blogues da rádio, nomeadamente por um post de A Rádio em Portugal, chamando a atenção para notícias publicadas no Comércio do Porto e Diário de Notícias. Coloquei lá um comentário e parti para a investigação. A estranheza é: porquê o título apontar para 80 anos de radiodifusão em Portugal? A dúvida é: e porque não oitenta e um anos?

A minha defesa

No livro de Gordon Bussey (1990), Wireless. The crucial decade, 1924-34, escreve o autor que, no começo de 1924, as estações de rádio existentes emitiam com baixa potência, exceptuando "5XX e, curiosamente, Portugal" (pág. 25). Bussey não referencia o nome da estação portuguesa, e inclusive pode ter a data errada no respeitante à nossa emissora.

A revista Rádio Lisboa Magazine, de Junho de 1925, destaca que, em finais de 1923, foi pedida regulamentação para TSF, isto é, autorização para emitir rádio. E conta a história do amador Sousa Dias Melo - proprietário da mesma revista - que faria, alguns meses mais tarde, a primeira emissão radiofónica, mesmo sem legislação aprovada. Isto num pequeno emissor de 50 watts de potência mas chegando a ouvir-se a quatrocentos quilómetros de distância. A data 1924 não aparece no texto, mas um documento pessoal do mesmo amador assinala esse ano como o começo da sua actividade.

Trata-se de um pedido de renovação da licença de radioamador, feita em 1947. Nesse pedido, ele salienta que os seus trabalhos, "em matéria de radiocomunicações, [com] uma estação própria, datam de 1924". O mesmo radioamador escrevera noutra ocasião: "O funcionamento da estação emissora experimental que possuo desde Julho de 1924 com o indicativo internacional de chamada CT1AB, que me foi fornecido pela Rede dos Emissores Portugueses, de que sou filiado. [...] Trata-se efectivamente da primeira estação nacional de amador [de] emissões musicais, ouvidas naquela época em muitos pontos do país" (texto citado no meu artigo Nos 75 anos de emissões regulares de rádio - histórias de pioneiros, editado pela revista Observatório, em 2000).

Na página 118 da revista TSF em Portugal, correspondente à edição de 28 de Dezembro de 1924 - que se visualiza, na sua totalidade, no blogue Rádio em 1924 - lê-se: "1PAA tem feito interessantíssimas experiências tendo já por diversas vezes transmitido concertos que têm agradado imenso a todos os que o têm ouvido tanto em nitidez, como em intensidade" (esta e cópias de outros documentos da época podem ler-se em dimensão grande no mesmo blogue, imagens alojadas no sítio A Minha Rádio, do meu caro amigo António Silva, do Porto, a quem agradeço a gentileza).

Curiosamente, Abílio Nunes dos Santos Júnior, com o indicativo CT1AA (inicialmente P1AA), considerado pioneiro da radiodifusão no nosso país, em documento também feito em 1947, para renovação da licença de radioamador (como acima indiquei para Sousa Dias Melo), não refere correctamente a data de início de actividade, avançando para 1926.

A meu ver, a razão é uma falha de memória. Ou, então, porque queria agradar à entidade licenciadora, lembrando 1926 como a data da fundação do regime.

Os erros

O facto de terem sido publicadas notícias comemorando os 80 anos de radiodifusão em Portugal no passado dia 1 não é muito grave em si. Recordou-se a história da rádio e deu-se relevo ao belo espaço que é o museu da Rádio, propriedade da RTP. Não se pode imputar o erro à jornalista, que escreveu muito bem sobre o tema.

O problema deve atribuir-se à falta de estudos sistemáticos sobre a história da rádio e dos media em geral no nosso país. Eu próprio, no texto que escrevi em 2000 acima referido, questionei as datas de início e apresentei uma proposta. Reconheço agora que ela também não estava certa. Até então, o começo da radiodifusão era considerado em Outubro de 1925, nomeadamente no livro de Matos Maia (Telefonia, 1995), até hoje o livro mais completo que temos no país, e no catálogo do RDP (60 anos de rádio em Portugal, 1925-1985, lançado em 1986).

Fantasiara-se até que o princípio da radiodifusão estava atribuido a Fernando Medeiros, com a sua rádio Hertz, em 1914. Mas a experiência, que o próprio relatou anos depois, não pode considerar-se radiodifusão. Na época, o procedimento habitual era iniciar-se em radiotelegrafia (sinais Morse), passar-se a radiofonia (voz) e, havendo dinheiro e vontade, chegar-se à radiodifusão. Foi o que fizeram CT1AA e CT1AB, que eu referenciei no cimo deste post [na imagem, datada de documento escrito em 1933, vê-se o esquema do emissor de CT1AB. Aí, são visíveis o microfone e a chave Morse, mas não há uma entrada para gira-discos. Possivelmente, representa um regresso à radiofonia do antigo radiodifusor]. Os primeiros programas de radiodifusão - embora não seja correcto empregar-se o termo programação para esse período - seriam concertos de música clássica ao vivo, numa espécie de continuidade dos concertos em sala, mas chegando a muito longe, aos lares, através das ondas do éter. Os radiodifusores amadores procuravam ter uma continuidade no tempo, a exemplo das temporadas de música lírica. Assim, o sábado e a quarta-feira eram dias habituais de transmissão. No resto do tempo, as emissoras estavam em silêncio.

Repito: o erro não pode atribuir-se à jornalista, mas a quem lhe forneceu a informação. O ônus recai sobre os historiadores. Se quisermos, embora haja analogias entre os dois tipos de profissionais, existe uma diferença fundamental: o jornalista é o historiador do efémero e do presente; o historiador procura como se fosse um jornalista de investigação, cotejando fontes e referências, em trabalho de longa duração, e confrontando-as em redor da verdade e da exactidão. Não havendo dados exaustivos e correctos, o trabalho do jornalista que escreve sobre história não acaba bem.

Observação: dedico esta mensagem ao Museu da Rádio e aos blogues que escrevem sobre este meio de comunicação. Os contributos de todos são importantes para fazer e ampliar a nossa memória cultural.

sexta-feira, 4 de março de 2005

A SOCIEDADE EM REDE SEGUNDO GUSTAVO CARDOSO

Hoje de manhã, no ISCTE, Gustavo Cardoso defendeu tese de doutoramento, com o título Os media na sociedade em rede. A cidadania entre montras, filtros e notícias. Uma tese classificada com a nota máxima por um júri de luxo: Manuel Castells, Fausto Colombo (italiano), João Caraça, António Firmino da Costa, Paquete de Oliveira (orientador) e João Ferreira Almeida (que presidiu). Ao Gustavo, parabéns duplos: 1) pelo brilhantismo do seu trabalho, e 2) pela "programação", para hoje à tarde, do nascimento da sua filha. Apetece dizer que, numa sociedade em rede, não se brinca em serviço.

Literacia informacional e comunicação sintética

Gustavo Cardoso abordou a questão dos media na sociedade em rede ou a forma como se organizam os meta-sistemas de informação e entretenimento na sua vertente produção (mas também no seu consumo e fruição). Ele destacou as biografias, as dietas e as matrizes dos media para os portugueses, explorando: 1) dimensão geracional da sociedade em rede em termos de informatização e direitos da cidadania, 2) relação entre essa prática de cidadania e os media, 3) contextualização como participação cívica plena e da valorização económica. Colocou a ênfase no domínio da literacia informacional, diferente da tida com a televisão, rádio e jornais.

Segundo o novo doutor, também os media clássicos acabaram por se organizar em rede, modelo dependente das opções dos próprios media mas também dos seus fruidores. Isso não significa que se tenha seguido um quadro de convergência, que foi o discurso dominante durante anos, mas antes uma articulação entre tecnologias diferentes, com uma autonomia das interfaces (caso da comunicação interpessoal que atravessa os novos media, como o SMS, o email e a internet). Tal propósito leva à definição do conceito de comunicação sintética: 1) globalização comunicativa, 2) alteração dos modelos informacionais e de entretenimento, 3) redes articulando a comunicação de massas e a interpessoal.

Os sistemas dos media operam com duas redes: a televisão e a internet, com níveis de interactividade distintos (baixa na tele, alta na internet, embora isso não queira dizer que esta vai "matar" aquela). Para o tecnólogo Gustavo Cardoso (como foi definido por Paquete de Oliveira), a centralidade que a televisão ainda ocupa na nossa informação e entretenimento é também preenchida pelo cinema e pelos jogos multimedia. Ele fala de três gerações de televisão (iniciática, transição e multimedia) e de quatro gerações informacionais (a que nasceu em finais dos anos 1960 e começos da década seguinte ainda combina literacias dos diferentes media).

Relação entre cidadania e media

Cardoso fez trabalho empírico assente em quatro case studies: 1) os media no quadro parlamentar nacional e europeu, 2) o encerramento do portal Terràvista, 3) o fim da RTP2, e 4) o movimento por Timor. Algumas das características destes movimentos sociais (ou acções cívicas) incluem a participação e o protesto, mas ainda incluem o uso de diferentes literacias através de diferentes media.

Tese de sociólogo, como frisou Manuel Castells, o segundo eixo do texto aborda aquilo a que ele designou no subtítulo da tese: montras, filtros, notícias e cidadania. E usou uma polarização conceptual muito feliz, quanto a mim. Assim, partindo da distinção entre "ver montras" e ir às compras", Gustavo Cardoso conclui que navegamos na internet ou vemos televisão com zapping sem um objectivo concreto. É a ideia de "ver montras". Já a participação nas sociedades informacionais implica um conhecimento alargado da realidade mediada.

Pela outra quase metáfora - os filtros - o jovem autor e professor quer dizer que a internet diminuiu o filtro de outras instituições (Igreja, escolas, jornais) para criar outros filtros: os motores de busca. Chamando a atenção para duas questões. A primeira é que a pesquisa através dos motores de busca nos remete para mais informação sobre as instituições (o poder) e menos para a dos indivíduos. A segunda, a que designou de paradoxo, é que poucos usam o espaço simbólico de mediação oferecida pelos meios de massa e também poucos têm literacia para mudar o paradigma da comunicação.

quinta-feira, 3 de março de 2005

TÓPICOS

Até aqui, abordei os seguintes tópicos nas aulas:

1) cultura e indústria cultural. Nesta: a teoria de cultura mercantilizada, através do desenvolvimento tecnológico e da capacidade de reprodução (cópias), em Adorno e Horkheimer,

2) apropriação do conceito, no plural, de indústrias culturais, caso de Ramón Zallo (voltarei a ele proximamente). Para este autor basco, as indústrias culturais são actividades mercantis de produção de conteúdos simbólicos, a partir de um trabalho criativo, organizado por um capital que se valoriza e destinado aos mercados de consumo,

3) articulação com o determinismo tecnológico: a tecnologia é um marcador fundamental na caracterização das sociedades. Desaparecimento (Virilio) e simulacro (Baudrillard) representam a passagem da realidade para a virtualidade. Ou seguindo a análise de Iharco ao determinismo tecnológico: o que é tocado pela tecnologia da informação transforma-se numa outra realidade,

4) olhamos o módulo numa perspectiva filosófica (Adorno e Horkheimer), sociológica e cultural (Hesmondhalgh), económica (Zallo) e tecnológica (Murphy e Potts). Agora regressemos à sociologia,

5) abordando os conceitos de divisor digital (ou fosso digital), acesso e territorialidade (de valor e não-valor em Castells), e distinguindo nado-digital e migração para o digital (Gustavo Cardoso), para se entender o modo como se caracterizam hoje as indústrias culturais,

6) é, pois, altura de voltarmos à economia, com o conceito de cadeia de valor (Carla Martins e colegas). Em discussão: a produção, reprodução, circulação e consumo dos bens e serviços culturais produzidos industrialmente (isto é, com tecnologias e novas tecnologias).
INDÚSTRIAS CRIATIVAS

Para Caves (2000), as indústrias criativas fornecem bens e serviços associados aos valores culturais, artísticos ou de entretenimento e incluem a edição de livros e revistas, artes visuais (pintura, escultura), artes performativas (teatro, ópera, concertos, dança), registo sonoro, cinema e telefilmes, mesmo a moda, brinquedos e jogos.

O autor define diversas propriedades das indústrias criativas, tais como o ninguém sabe, expressão que indicia o risco elevado associado a um dado produto criativo. Isto é: os produtores e gestores sabem muito sobre os sucessos comerciais antigos e procuram extrapolar esse conhecimento para novos projectos. Mas a sua capacidade de prever o sucesso comercial de um novo produto a partir de uma etapa anterior é quase impossível.

Algumas actividades criativas precisam de um só autor: o artista que pinta um quadro a óleo. Mas muitas exigem emprego especializado e diferenciado, cada um trazendo gostos pessoais quanto à qualidade ou configuração do produto. Um filme resulta dos esforços de muitos artistas diferentes, com diferentes capacidades e valores estéticos, que podem entrar em conflito com prioridades e preferências. É o que Caves chama de propriedade da arte por causa da arte.

Em terceiro lugar, como há várias etapas na produção criativa, algumas delas podem desenvolver-se com proficiência e conformidade. A actividade criativa envolve pois uma função de produção multiplicativa.

Os resultados culturais tendem a diferir em características, modos e estilos, independentemente dos juízos dos compradores sobre os níveis de qualidade. Duas canções, duas pinturas, dois filmes podem assemelhar-se nas características e qualidade vistas pelo consumidor embora não sejam idênticas. Quando produtos diferenciados culturalmente (A e B) são vendidos ao mesmo preço, algumas pessoas preferem um enquanto outras compram o outro produto. Há aqui a propriedade da variedade infinita, com implicações na organização das actividades criativas. Por exemplo, quando muitos casos de um produto criativo estão disponíveis para consumo, os consumidores podem ficar indiferentes.

Finalmente, as artes performativas e as actividades criativas envolvem equipas complexas – a propriedade da equipa variada –, o que requer uma coordenação temporal e apertada de actividades. Por exemplo, um filme é eficientemente realizado no decurso de semanas, durante as quais toda a actividade é disponibilizada.

Os prémios do blogue novaiorquino design*sponge

Como se vê na síntese acima do texto de Richard Caves e da própria capa do livro, as indústrias criativas abrem-se a áreas para além das indústrias culturais - como aqui tenho defendido. Por isso, não estou de acordo com a abrangência de actividades, embora tenha reflectido longamente na designação dada pelo professor de economia política da Universidade de Harvard.

Penso, por exemplo, no product placement que ocupa um espaço crescente na ficção, nomeadamente na televisiva, para fixar telespectadores que mudariam de canal caso houvesse um separador para publicidade. Ora, o product placement refere-se a marcas e produtos e não às indústrias da cultura. Daí o alargamento para as indústrias criativas servir de análise neste blogue.

Mobiliário, design e moda são três áreas privilegiadas no product placement. Por isso, faço a ponte para um blogue - que anunciei há dias - que se interessa por estas áreas criativas, e dentro da linha do que gosto de ler e de ver -, o sítio de design*sponge, a partir de Brooklin, Nova Iorque. No passado dia 28, miss design*sponge atribuiu prémios em modalidades como mobiliário (que ela não gostou; idem para mim), produtos, joalharia, papel/parte gráfica, e outros.



Obtenho de empréstimo duas imagens do blogue dela, mas aponto apenas para a da direita - a de pequenos animais (em feltro?, em papel? noutro material?), feitos pela Mary. Miss design*sponge, como eu também, admira-se de haver gente tão talentosa e que gasta tempo nestas coisas. Outras pessoas dirão o mesmo dela e de mim, do lado ocidental do Atlântico, gastando tanto tempo a escrever em blogues.

Leitura: Caves, Richard E. (2000). Creative industries. Cambridge, MA, e Londres: Harvard University Press

quarta-feira, 2 de março de 2005

AUDIÊNCIAS

1) Cinema

Na semana de 10 a 16 de Fevereiro, os filmes mais vistos, segundo o sítio do ICAM, foram: 1) Uns compadres do pior, de Jay Roach, com 53127 espectadores (52 ecrãs), 2) O aviador, de Martin Scorsese, com 42388 espectadores (54 ecrãs), e 3) Blade trinity, de David S. Goyer, com 42163 espectadores (43 ecrãs).

2) Televisão

Em Fevereiro, a SIC liderou as audiências nos canais de sinal aberto. O share médio foi de 29,4%, mais 2,9% que o da TVI. Quanto ao prime-time, a SIC também ficou à frente, num share médio de 30,5% contra 28,8% da TVI. Por seu lado, a RTP1 registou um share médio de 24,4% (fonte: Meios & Publicidade).
AS INDÚSTRIAS CULTURAIS ATRAVÉS DE PUBLICAÇÕES

As imagens seguintes referem-se a publicações (três em papel e uma em CD-ROM) dando conta de actividades das indústrias culturais [no sector de consumo, dentro da cadeia de valor dessas indústrias; também podemos designar como indústrias criativas, pois envolvem representações teatrais, bailado, performances e espectáculos].

Oito anos de 30 Dias em Oeiras

Nas duas primeiras imagens (revistas 30 Dias em Oeiras, Agenda LX), observam-se: 1) o 8º aniversário da agenda cultural de Oeiras, a quem endereço os meus parabéns, 2) a referência à abertura da exposição de Rafael Bordalo Pinheiro, a 21 deste mês, comemorativa do centenário da morte do famoso humorista e caricaturista. O tema de capa da publicação de Oeiras é a actriz Eunice Muñoz, entrevistada por Guiomar Belo Marques. Já quanto à agenda de Lisboa, o tema central são os encontros lusófonos na Universidade de Lisboa.

30dias1.JPG

bordalo.JPG

ccb7.JPG12 anos de CCB

Da revista do CCB (Centro Cultural de Belém), com uma capa belíssima, retiro a informação da Festa da Primavera, em 19 e 20 de Março, com entrada livre. O CCB comemora neste momento o seu 12º aniversário. Parabéns - espero que as nuvens negras sobre problemas financeiros desapareçam.

Finalmente, o CD-ROM do Expresso remete para um universo mais alargado que a oferta em Lisboa e concelhos próximos. Como de costume, contém informação sobre a oferta de filmes, música, espectáculos, livros, exposições, desporto, crianças e videojogos. Dos videojogos destaco o SIMS 2 University, agora chegado ao mercado. Diz a informação que acompanha o CD-ROM: "dá aos jogadores a oportunidade de acompanharem ao vivo os estudos dos jovens adultos que se desenvolveram nas famílias do jogo". Há onze cursos, distribuidos por quatro meses de estudo e que culminam na graduação final.

expressomarco.JPG

terça-feira, 1 de março de 2005

CULTURA E JORNALISMO

Um blogue discreto mas de muita qualidade é o As Imagens e Nós, de José Carlos Abrantes.

jca1.jpgAntigo professor universitário (Coimbra) e actual provedor do leitor do Diário de Notícias, este blogue trabalha a "informação e reflexão sobre as imagens e as nossas relações com elas". Na mensagem de ontem, ele escreve sobre a crónica que publicou no DN, Algumas reflexões sobre jornalismo cultural.

Mais recentemente criou um sítio com o seu próprio nome, José Carlos Abrantes. A consultar.
VENDA DA LUSOMUNDO

A notícia vem de ontem, mas os jornais fazem referência a ela hoje: a PT vendeu o grupo de media Lusomundo à Controlinveste (que detém o grupo Olivedesportos) por €300,4 milhões.

Assim, a nova proprietária dos media da Lusomundo passa a detê-los a 100%. A venda fica ainda sujeita à apreciação da Autoridade de Concorrência e ao parecer da Alta Autoridade para a Comunicação Social, mas tudo deve passar bem, dado que a Controlinveste não tem problemas de concentração dos media, como outros concorrentes à compra tinham. A cara visível do negócio é Joaquim Oliveira, sócio do canal por cabo Sport TV e do diário desportivo O Jogo.

Acaba assim, para a PT, um negócio fora do seu core-business, as telecomunicações, iniciado na segunda metade da década passada, e que nem sempre correu bem. Do grupo agora vendido fazem parte dois jornais nacionais (Diário de Notícias e Jornal de Notícias), uma rádio regional (TSF) e interesses em outros jornais e empresas gráficas.
ECONOMIA CULTURAL

Angela McRobbie (2003: 97) trabalha as consequências do crescimento recente de emprego nas indústrias criativas e a convergência das noções de cultura com trabalho. Num contexto específico, a cultura refere-se às actividades criativas, expressivas e simbólicas nas práticas dos media, artes e comunicação, onde se registam alterações substanciais nos anos recentes, o que leva a renovação e reinvenção contínuas. Tais alterações projectam um permanente trabalho transitório.

O trabalho cultural implica hoje uma actividade de risco e com altos níveis de mobilidade, assim como a caracterização de um tipo de empregado muito individualizado. Nunca anteriormente as diferenças de geração e o factor idade desempenharam papéis decisivos na modelação de trajectórias de carreiras. Hoje, há uma divisão entre trabalho antigo (e trabalhadores mais velhos) e trabalho jovem, com uma força de trabalho mais juvenil. Isto é evidente no campo cultural e dos novos media, com uma inversão do modelo burocrático de trabalho, associado às profissões, trazendo modificações também no sector público e na lei do trabalho.

A alteração no modelo de trabalho organizado e profissional no campo mediático foi denominado por Ursell como ruptura discursiva. Onde a juventude e o talento – e, sem dúvida, recursos infindáveis de energia – estão em primeiro lugar, e onde a cultura abraça o campo vasto das indústrias culturais. Daí, surgem novas modalidades de desigualdade. Isto não substitui as variáveis de classe, género e minoria racial, mas impõe determinações sociais desestabilizadas, desorganizadas e recompostas permanentemente. Assim, McRobbie fala em três características distintivas: 1) juventude, 2) trabalho permanentemente transitório, e 3) criatividade.

No Reino Unido, a cultura, enquanto elemento central às economias nacional e local, está a ser subtraída aos pequenos produtores culturais pelas grandes empresas, com aqueles reduzidos a dependerem de subcontratação dos independentes e transformados em fornecedores de serviços destes. Os pequenos produtores culturais não são empregados mas trabalhadores freelancer, franchisados ou de ocasião. É o caso da produção de televisão que compreende agora uma maioria de freelancers.

Leitura: Angela McRobbie (2003). “From Holloway to Hollywood: hapiness at work in the new cultural economy”? In Paul du Gay e Michael Prike (eds.) Cultural economy. Londres, Thousand Oaks e Nova Deli: Sage