terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

  • CARICATURAS DO (OU SOBRE O) DITADOR JOÃO FRANCO

    1906 foi um ano polémico, governado por João Franco, um dos últimos primeiros-ministros do rei Carlos I (este seria assassinado dois anos depois). No período, discutia-se a lei da imprensa, que o ditador Franco queria amordaçar. Apesar da violência da governação, jornais como as Novidades caricaturavam o governante. Pelos cartunes da época, percepciona-se um homem com feições orientais (representado mesmo pelo penteado, parecendo um mandarim), sempre decidido e contribuindo para os já frágeis equilíbrios sociais (como a questão vinícola do Douro, entre produtores e comerciantes do vinho, e a proposta da lei da imprensa).







    [imagens editadas no jornal Novidades, respectivamente nos dias 24, 28 e 30 de Julho, 7 de Agosto, 12, 20 e 25 de Setembro e 5, 11 e 12 de Dezembro de 1906. À altura, o diário era dirigido por José Barbosa Colen, que sucedera ao outro fundador do jornal, Emídio Navarro, após a morte deste]

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

O MEU PEQUENO CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA DA IMPRENSA DO SÉCULO XIX

O Diário de Notícias de hoje merece ser guardado, pelo seu número 50 mil. Após a morte do Comércio do Porto, é o diário mais antigo de Portugal continental.


Retenho do editorial do director, António José Teixeira: "Os jornais da época eram muito partidarizados, mais instrumentais de luta política do que veículos de notícias. O DN introduziu a reportagem na imprensa portuguesa, na altura dominada pela crónica e pela opinião. Criou os ardinas, que aproximaram o jornal dos leitores. Inovou nas artes gráficas, tirou partido da rádio e do cinema, abriu espaço ao pequeno anúncio, iniciou a publicação de caricaturas, fez ponte com escritores e artistas, acolheu nas suas páginas os mais importantes vultos da cultura portuguesa".

Sem contestar directamente todas as informações - até porque há poucos dados sobre a história da imprensa na passagem do século XIX para o XX e eu sou um leitor habitual do Diário de Notícias -, parece-me que alguns dos valores atribuidos a este jornal de 142 anos também devem ser estendidos a outros diários, que, infelizmente, já desapareceram e não têm historiadores ou jornalistas para lhes fazerem elogios. Não esquecendo os longos períodos de deriva político-partidária do próprio Diário de Notícias durante o século XX [isto não é uma crítica radical, porque jornalistas e leitores ao longo de século e meio nem sempre pensaram a mesma coisa, dependendo da época em que viveram].

Retenho apenas um livro, de Lourenço Cayolla (que foi director do Correio da Noite, órgão do Partido Progressista, e mais tarde articulista, crítico literário e secretário geral do Diário de Notícias). De um jornal antigo e do seu director, respectivamente Jornal da Noite (1871-1892) e Teixeira de Vasconcelos, escreveu ele: "Era sobretudo um artista, caprichando sempre em dar ao jornal que dirigia um aspecto moderno, atraente pela sua leveza e carácter literário, em contraste com o tom mazorrão e pesado que tinham os órgãos da imprensa nessa época, à excepção do Diário de Notícias que então era quase um jornal de anúncios, com um reduzido texto exclusivamente noticioso" (Cayolla, Revivendo o passado, 1929, Lisboa: Imprensa Limitada, p. 140).

O mesmo Cayolla (1929, p. 139) escreveu ainda o seguinte: "Foi o primeiro [o Jornal da Noite] que se atreveu a despertar a Lisboa moderna dessa época fazendo estrugir nas suas ruas, ao findar do dia, as vozes dos garotos apregoando o Jornal da Noite".


[caricatura retirada do jornal Novidades, de 25 de Setembro de 1906, que tenciono republicar amanhã - num conjunto alargado - com a devida explicação]
A CAPA LITERÁRIA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS DE SEXTA-FEIRA

[texto reconstruido após o apagão local no meu blogue em finais da semana]

A primeira página do jornal do dia 17 de Fevereiro foi a entrevista dada por António Lobo Antunes na revista "6ª". Uma nova promoção da revista das sextas-feiras, agora com a literatura como tema de capa.

Vale a pena folhear e ler a nova revista, agora em sexta edição.

  • EDUARDO CINTRA TORRES EM SEMINÁRIO

    Com obra recentemente editada, conforme tive aqui ocasião de destacar, Eduardo Cintra Torres estará presente no 4º seminário do Ciclo de Seminários de Investigação em Ciências da Comunicação (CSI 2), da Universidade Católica Portuguesa, no próximo dia 23, pelas 18:30. O tema é precisamente A Tragédia Televisiva: um Género Dramático da Informação Audiovisual. A sessão terá lugar na sala dos Descobrimentos Portugueses, no edifício da Biblioteca João Paulo II, da referida universidade.
A GUERRA DAS CERVEJAS

Sem comentários, retiro o texto de Sara Martinho, na newsletter de hoje da Meios e Publicidade:

"As duas principais empresas cervejeiras do país, marcaram para amanhã mais um episódio da guerra comercial e de comunicação em que têm estado envolvidas nos últimos meses. Desta vez, a Unicer e a Central de Cervejas convocaram os jornalistas para conferências de imprensa. A Unicer apresenta um novo produto às 10h. Três horas depois a Central de Cervejas divulga os resultados financeiros da empresa".
AS PÁGINAS DOS MEDIA DOS DOIS JORNAIS DE REFERÊNCIA DE LISBOA

Uma vez mais, o Público (uma página) perde no confronto com o Diário de Notícias (três páginas). Para mim, custa ver um jornal ter tão pouca informação sobre os media, apesar de recentes alterações na secção.

O que nos oferecem os dois jornais? Do lado do Diário de Notícias, uma página repartida entre um excelente artigo de Miguel Gaspar ("Zero de audiência") a fazer parceria à informação sobre audiências e pequenas mas úteis informações (colóquio no ISCSP, rubrica diária na rádio Radar, outras), mais duas páginas sobre os treze anos da TVI (Paula Brito e Sónia Correia dos Santos, mais Filipe Morais). Já do lado do Público, o principal do noticiário vai para a rádio, por satélite e por DRM, ambos assinados por Ana Machado (AM).

Ora, o texto sobre o DRM (Digital Rádio Mondiale) parece-me ter alguns problemas de construção. Primeiro, AM diz que o Digital Rádio Mondiale promete ser a solução para todos os problemas de emissão digital na Europa, pondo como contraponto o DAB (Digital Audio Broadcasting). E serve-se da explicação de José Faustino, presidente da Associação Portuguesa de Radiodifusão, para quem o DAB não será a melhor tecnologia ("apesar de eu achar que o DAB nunca se vai conseguir impor", diz; "haverá por aí meia dúzia de pessoas com esses aparelhos. E há marcas que até já tiveram mas deixaram de fazer aparelhos DAB porque não vendiam", continua a dizer). A pergunta que apetece colocar é: qual a razão do sucesso do DAB no Reino Unido? Porque o governo e a indústria se uniram no objectivo de o promover, coisa que em Portugal não é assim, como noutros países, aliás. O DAB é uma tecnologia, como o DRM o é; logo, a sua adopção poderá ser política e não de ordem meramente económica.

Segundo, a ideia básica seria abandonar as antigas frequências do espectro radioeléctico em favor de estações digitais. No texto da jornalista, percebe-se que antigas frequências e FM seriam a mesma coisa. Errado, o DRM poderá até revitalizar as frequências de ondas médias, gama de frequências que os nossos pais ouviam mas que desapareceram quase integralmente dos nossos receptores. E ainda a gama de ondas curtas, com frequências mais altas. É como se se voltassem a cultivar terrenos há muito improdutivos mas que sabemos que são ricos.

Terceiro, e apesar de referir o IBOC americano, AM esqueceu-se de nomear o sistema japonês de rádio digital e, especialmente, a rádio pela internet. Agora que se anuncia a 3,5 geração de telefones celulares, a rádio será eventualmente ouvida pela internet dos celulares (ou dos computadores sem fios). O DAB, o DRM e outras tecnologias ficarão fora do futuro. Mas enquanto este não chegar, o DAB ou o DRM farão parte das lutas das empresas para imporem as suas tecnologias.
UM COMENTÁRIO À MINHA ENTRADA SOBRE O "POST-IT" VERDE DO PÚBLICO

Recebi de uma leitora do meu blogue "back up" localizado no
Sapo o seguinte comentário:



  • Se reparar, há a artimanha de o "post it" ter deixado visível as 3 primeiras letras do nome do jornal, coincidentemente, ou não, as mesmas que costumam aparecer num dos cantos do espaço dos anúncios (PUB), embora sem o acento. Assim, poderão sempre argumentar que a indicação de publicidade está lá.
    É evidente que não concordo com tal prática, sobretudo, por ser leitora do referido jornal e achar como que uma falta de dignidade do mesmo o facto de usar o próprio título para tal artimanha. Mas, nos últimos tempos, o PÚBLICO tem vindo a habituar-nos a estas "habilidades" publicitárias. Ora pinta a capa de azul (publicidade da TMN), ora faz de parte do título um "capacho" para a publicidade do BES. Como cada um sabe de si... Resta-nos subentender.

domingo, 19 de fevereiro de 2006

"MORANGOS COM AÇÚCAR" NO NOTÍCIAS MAGAZINE DE HOJE

A razão do texto prende-se com o recente casting para uma nova série dos Morangos com açúcar, a popular novela para jovens que passa há três anos na TVI. Aliás, o tema vem na capa da Notícias Magazine, que eu ampliei (texto de Ana Markl e fotografia de Adriana Freire).



Amanhã, a TVI faz anos (13 anos), com uma confortável liderança de mercado de audiências no prime-time (39% no share da semana passada, seguida pela SIC com 24,7%). E o programa Morangos com açúcar foi o sétimo mais visto da mesma semana.

Eu, confesso, não gosto da série, mas sigo com atenção o sucesso e procuro entender as razões (já aludi aqui ao programa, mais do que uma vez). E, da leitura do texto de Ana Markl, parece-me que ela também não gosta.

A primeira parte do texto é impressionista e dá para perceber o que as pessoas esperam do programa. Disse uma mãe das conversas que o filho teve com ela: "Ó mãe, se não me deixas ir estás a cortar-me as pernas para o meu futuro. Eu posso ir e ter futuro!". Outra mãe disse para o gravador da jornalista: "Houve crianças de oito anos com crises de hipotermia que tiveram de se ir embora, cheias de frio, todas roxinhas. Amanhã vou ligar para o programa do Manuel Luís Goucha e vou contar-lhe isto tudo".

O meu comentário, tipo moralista, para não ir mais longe: num país com uma situação complicada, com 500 mil desempregados, muitos deles jovens recém-licenciados mas cheios de ilusões e de vontade para fazer coisas, vale a pena ir fazer queixa num programa de televisão por algo tão insignificante? Se ao menos fosse para falar de novas actividades nas escolas ou contribuir para voluntariado, capazes de dignificar o ser humano. E não será um futuro enganador, como aquele do Mário do primeiro Big Brother, agora preso por roubos à mão armada? O futuro faz-se com trabalho e perseverança, ou com castings e reality-shows?

Na segunda parte do texto de Ana Markl, ela apoia-se num trabalho de uma psicóloga (Madalena Fontoura), para quem a série se traduz em superficialidade e lugares-comuns e reforça a banalidade e a pretensão de saber tudo. A referida intelectual precisa mesmo que o ideal seria proibir televisão às crianças e jovens, com os pais a assumirem firmeza nessa assunção. Eu não quero ser tão radical como a psicóloga e entendo que a jornalista devia ouvir uma posição diferente, no princípio do contraditório. É que se o programa tem sucesso (15% do auditório televisivo vê o programa), há razões para essa popularidade, acrescida da corrida ao casting, afinal o objecto de trabalho da jornalista.
UM POST-IT VERDE

Na passada segunda-feira, a primeira página do Público trazia, mesmo por cima do título do jornal, um post-it de cor verde com a indicação "Se não tem pais ricos nem ganhou a lotaria. Pág. 7". E, abrindo a página 7, via-se um anúncio do Banco Espírito Santo (BES), com um produto (Crédito Habitação), dentro da nova imagem de marca.




Curiosamente, nenhum dos blogues atentos às questões da publicidade nos media se manifestou nos seus espaços públicos. Certamente, até lhes escapou: se alguns deles acompanham a edição online com maior assiduidade, outros nem viram, dada a pequena dimensão, embora em lugar de visibilidade. Quanto aos leitores, presumo que nenhum tenha levantado qualquer dúvida, pois certamente o provedor do leitor responderia de imediato e a leitura da sua página na edição de hoje não traz qualquer reacção a esse tema.

Mas eu recebi um e-mail de um leitor, que me dizia o seguinte: "gostava realmente de saber a sua opinião sobre o autocolante colocado precisamente em cima do nome do jornal. Também não me foi possível saber se o referido autocolante foi colocado noutros jornais ou se «afectava» apenas o Público (ou se foi alguma brincadeira e apenas a minha cópia do Público foi alvo de publicidade)".

Na realidade, foi prática do Público do dia 13 a inserção desse post-it, coisa que não se verificou, por exemplo no Diário de Notícias. Trata-se de uma campanha de publicidade por parte do BES. Ora, olhando o que diz o Livro de Estilo do Público, "a publicidade é uma área autónoma e perfeitamente demarcada nas páginas do PÚBLICO, segundo critérios de prioridade e ocupação de espaço definidos pelas direcções editorial e comercial" (p. 172). Apesar da ressalva de inclusão de publicidade em rodapé, conforme o ponto 3 (p. 173 do Livro de estilo), o jornal deve, em meu entender, pedir desculpas aos seus leitores. Primeiro, porque o post-it verde não tem qualquer indicação de publicidade. Segundo, um autocolante por cima do nome do jornal não é um espaço de publicidade, mas uma área de identificação do próprio jornal, conforme se pode ver na imagem que tirei à parte superior da edição do Público de segunda-feira.
APAGAMENTO DE MENSAGENS

O blogueiro, ainda sem perceber o que se passa, viu serem apagadas pela Blogger, as mensagens que editou nos últimos dois dias. Não tendo ficado com cópias das referidas mensagens, vê-se impossibilitado de as reproduzir. Assim, vai ficar sem editar mais entradas até perceber o que está a acontecer (continuarei a escrever, nestes dias, aqui e aqui, embora com deficiências de design).

sábado, 18 de fevereiro de 2006

PUBLICIDADE DE HÁ MAIS DE CEM ANOS (II)

[conclusão da entrada colocada em
16 de Fevereiro]

Em finais de 1904, saltam à vista os anúncios de automóveis (Mercedes, Panhard, Richard-Brasier, Peugeot), garagens (Auto-Palace). Mas também são publicados em jornais como as Novidades anúncios do restaurante café Internacional (rua do Arco da Bandeira, 56 a 60), farinha láctea Nestlé, ateliê de moda Madame Brito, livro de Sousa Martins, pianos de Rönisch, escola Académica, Le Chic Parisien (praça D. Pedro, 121-122), livrarias Clássica Editora e Ferin, médicos & cirurgiões (mais de meia coluna), instituto Pasteur, raios X, médico de doenças de estomago, oficinas fotográficas, ascensores Monte Charges (de C. Mahony & Amaral), oficinas a vapor e fundição, fundição de ferro e bronze (antiga fábrica Bachelay), máquinas e ferramentas L. de Oliveira Belo & Cª, fábrica de moagens do Beato, camas de ferro (fábrica Portugal) e cofres à prova de fogo, perfumaria Dias (rua da Praça da Figueira, 39-40), charutos havanos (depósito na rua Nova do Almada, 18,1º), vinhos de Colares, joalheiro E.A. Canongia, salão Mozaert (rua Ivens, 52-54), Berlitz School (inglês, francês, alemão, italiano), companhia de seguros Previdência, companhia açucareira de Angola, salão Neuparth (que Valentim de Carvalho compraria anos depois) e armazém da Patriarcal.

















sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

  • EXPOSIÇÃO "O PODER DA ARTE"

    Patente na Assembleia da República (Palácio de S. Bento, Lisboa), até 16 de Abril.

AINDA SOBRE O JORNAL ABERTO

João Paulo Meneses (JPM), do
Blogouve-se, escreveu anteontem o seguinte sobre o sítio Jornal Aberto: "Rogério Santos chama a atenção de uma experiência de jornalismo cívico que acompanho desde o início, principalmente porque o seu criador, José Vinha, é um valoroso jornalista, agora no digital, depois do fecho de O Comércio do Porto. O Jornal Aberto é uma experiência muito recente e por isso sujeita às crises de crescimento (tal como o próprio jornalismo cívico). Mas há uma aposta que contesto, que já transmiti ao JV e que partilho com os leitores: a republicação acrítica de informações institucionais, por exemplo as notas de imprensa das câmaras municipais. É certo que aparece a referência à origem, mas como acho isso anti-jornalístico, não o concebo mesmo numa lógica de... jornalismo cívico! O JV acha que eu sou bota-de-elástico, relativamente às novidades, mas...".

  • Registo a referência, bem como o número de comentários colocados no Blogouve-se, sinal claro de interactividade e de inovação. Não, o JPM não é bota-de-elástico, pois manobra bem as novidades tecnológicas.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS CHEGA AO NÚMERO 50 MIL

Segundo a newsletter de hoje da Meios e Publicidade, em texto assinado por Hugo Real, o jornal mais antigo de Portugal continental vai lançar na próxima segunda-feira, dia 20 de Fevereiro, o seu número 50 mil. Segundo a mesma newsletter, António José Teixeira, director do Diário de Notícias, "está a ser preparada uma edição especial para assinalar" a data.

Na edição comemorativa, o jornal publica um suplemento com cinco marcos históricos do jornal - números 1, 10 mil, 20 mil, 30 mil e 40 mil, que oferecem uma "avaliação da evolução da história do país e do mundo, sob o olhar do Diário de Notícias". O blogueiro fica atento.
HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA A PARTIR DA COLECÇÃO GEORGE EASTMAN

O subtítulo do livro indica "de 1839 até ao presente". O director da colecção, Anthony Bannon, abre o apetite logo nas páginas iniciais: o livro, editado por altura do 50º aniversário do
museu George Eastman, é um convite para a descoberta, afinal a missão do museu.

georgeeastman.jpg

Ao lado da colecção de fotografias, encontram-se máquinas fotográficas, panfletos e livros. Desde o arranque do museu que a compra de equipamentos e colecções relacionadas com a fotografia foi um objectivo essencial dos seus responsáveis, que actualmente atingem 400 mil elementos. Por isso, é possível verem-se revistas (Humphrey's Journal, o primeiro jornal americano sobre fotografia), filmes (Greta Garbo, cinema de Weimar, colecção MGM com os negativos Technicolor, colecção privada de Martin Scorsese, cinema americano de arte pós 2ª guerra mundial) e objectos (a primeira máquina mundial comercial, a Giroux, o daguerreótipo de Bemis de 1840, o cinetoscópio de Edison de 1894) desde o arranque desta tão importante indústria cultural.

Para além da visão institucional, o museu George Eastman refinou a sua missão de preservação, educação e interpretação. Assim, nos anos 1980, puseram-se questões de maior amplitude cultural sobre os objectivos do museu e o lugar da fotografia dentro dele. Entre essas questões, colocaram-se as funções interpretativa e educacional, bem como a relação directa com as audiências que demandam o espaço.


Leitura: William S. Johnson, Mark Rice e Carla Williams (2005). The George Eastman House Collection. A history of photography from 1839 to present. Los Angeles, CA: Taschen, 766 páginas, €9,99.

O alemão Benedikt Taschen abriu, com dezoito anos, uma loja de venda de livros de banda desenhada em Colónia, sua cidade natal. Um ano depois, estava a editar catálogos com as suas colecções. Em 1984, tinha 40 mil exemplares de um livro do pintor surrealista René Margritte, que vendeu a um preço mais baixo que o inicial. A partir daí, Taschen passou a reimprimir obras dentro de preços acessíveis ao grande público. No ano de 1985, lançava um livro de Picasso, seguido de um sobre Van Gogh. Hoje, em qualquer livraria, encontramos obras com esta chancela, com muita qualidade e a preço baixo.
  • APRESENTAÇÃO DO Nº 8 DA REVISTA AGUASFURTADAS

    A aguasfurtadas, revista de literatura, música e artes visuais, promove no dia 23 de Fevereiro, uma sessão de apresentação do seu mais recente número. A sessão terá lugar na livraria Sem Mais Nem Menos (Rua Mártires da Liberdade, 130, Porto), às 22:00. Contará com a presença e participação de Ana Luísa Amaral, Rui Lage, José Carlos Tinoco, António Pedro Ribeiro e outros. Haverá também espaço para um concerto com o clarinetista João Pedro Santos que interpretará, entre outras, a peça de Rui Miguel Dias incluída no CD do número das aguasfurtadas agora em promoção, de que já dei conta abaixo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

JORNALISMO CULTURAL, SEGUNDO O SÍTIO CULTURA E MERCADO

Escreveu, com data de ontem, André Fonseca no sítio Cultura e Mercado (S. Paulo, Brasil):
  • O jornalismo cultural nos últimos anos tem virado quase sinônimo de agenda cultural. Os cadernos e seções de cultura de jornais e revistas dedicam-se a criticar burocraticamente filmes, espetáculos e cds, divulgar grandes eventos supostamente culturais e criar pautas baseadas em releases de assessorias de imprensa. O espaço para análise e reflexão é cada vez menor, e o comprometimento dos grandes veículos com anunciantes e parceiros poda a independência e a imparcialidade do que se publica. Em 2000, Julio Daio Borges lançou o Digestivo Cultural, no qual atua até hoje como Editor e Redator. Ele conta que o projeto inicial era revelar novos talentos. “E eu acho que, em grande medida, continua sendo. Acontece que alguns jornalistas mais atentos da ‘velha guarda’, digamos assim, perceberam que – apesar das fracassadas experiências jornalísticas no Brasil do tempo da Bolha – eles deveriam participar do advento da Internet em algum momento. O Digestivo acabou surgindo no horizonte como uma alternativa. E a ponte se fez então. É óbvio que eles sempre foram, com sua experiência e seus conselhos, a nossa inspiração”.

[para ler a totalidade do texto, clicar em Cultura e Mercado].

PUBLICIDADE DE HÁ MAIS DE CEM ANOS (I)

Em finais do século XIX e inícios do século passado, a publicidade regia-se por padrões muito diferentes dos actuais. Nessa época, o texto tinha um peso inusitado quando comparado com a imagem e inseria-se bem no corpo do jornal, dada a quase total predominância da mensagem escrita. Como a fotografia ainda não triunfara nos jornais, as imagens eram de fraquíssima qualidade. A cor estava ainda longe de entrar nos jornais, o que, aos olhos de agora, parece incompreensível; a leitura resulta num esforço a partir de cinzentos mais claros ou mais escuros, sem grande precisão cromática. Além disso, os filetes eram quase a única distinção entre notícia e publicidade, como se pode ver no anúncio da farinha láctea Nestlé, no final desta entrada.


Mostram-se aqui alguns dos anúncios editados no jornal Novidades, cuja página 4 estava totalmente dedicada a esse tipo de informação, a qual, com alguma frequência, se estendia à página 3. Navegação (partida e chegada de barcos), leilões, elixires, vinhos, pastilhas Vichy, lanifícios de Arroios, livros escolares, companhias de seguros, horários de comboios, abertura dos Armazéns do Chiado (inaugurados a 12 de Novembro de 1894), cirurgião-dentista J.P.G. Paiva, pó de arroz Oriza, alfaiate Amieiro, modas e confecções, revista A moda ilustrada (distribuida pela livraria Bertrand-José Bastos), anúncios do Estado (obras públicas), termas de Torres Vedras, banca, pastelaria Guerra (bolo-rei), APT (companhia dos telefones), máquinas e alfaias agrícolas (Nascimento & Cª), companhias de gás e electricidade, oficinas de fotogravura (Mala da Europa) - eis alguns dos anunciantes e marcas, denotando uma Lisboa comercial e com alguma indústria dentro da cidade, a alargar os seus domínios a norte da praça Marquês de Pombal, afastando-se do rio.

Fixo-me no anúncio do alfaiate Amieiro, cuja especialidade eram as
  • "Fazendas de alta novidade e especiais para casacas de baile, teatro e banquetes (o último chic em Londres e Paris); e esplêndidas peles de astracã para casacos de agasalho, que constituem presentemente a maior novidade da casa Pool".
Destaco a distinção de roupa para teatro e banquetes - fundamental na época e que hoje se desvaneceu por completo. Mas também a ideia de fazer a roupa por encomenda, seguindo padrões de gosto internacionais (o chic); o prêt-à-porter dos anos 1960 poria em causa os fundamentos da artesanalidade da confecção.













LIVRO DE FERNANDO CORREIA APRESENTADO POR MÁRIO MESQUITA

Decorreu, ao princípio desta noite e com sala cheia, o lançamento do novo livro de Fernando Correia, Jornalismo, grupos económicos e democracia, da editorial Caminho.


Mário Mesquita apresentou o livro do jornalista profissional com quarenta anos de carreira, licenciado em filosofia (Universidade Clássica) e mestre em Comunicação (ISCTE), chefe de redacção da revista Vértice, autor de outras obras como Jornalistas e notícias e professor associado da Universidade Lusófona [o presidente do sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia, também chamado a apresentar o livro, não esteve presente, por razões de saúde, mas fez ler através de uma mensagem escrita].



Mário Mesquita - seguindo uma perspectiva de leitura crítica - começou por destacar o modo como o livro está escrito, uma síntese do tema em linguagem acessível ao público em geral. Para ele, o autor mostra os media sob vários ângulos e parte da assunção dos jornalistas enquanto produtores de notícias que olham os media como espaço de informação. Fernando Correia distingue as empresas dos media e os jornalistas: os primeiros buscam critérios comerciais, os segundos critérios de informação. Mas pode ir-se mais longe: os patrões vêem os jornais (e os media em geral) como um produto económico, os publicitários como suporte de anúncios, os dirigentes políticos como instrumento de luta, os cidadãos como espaço de discussão e os intelectuais como instância de visibilidade. Ou, no caso de muitas pessoas, os media são a única forma de conhecimento ou grande agente de socialização [nas fotografias, da esquerda para a direita: Mário Mesquita, Fernando Correia e José Oliveira, administrador da editorial Caminho].



Ora, prossegue Mário Mesquita, não será que os critérios jornalísticos - os chamados valores-notícia, que levam um jornalista a escolher um acontecimento e não outro, pela raridade, excepcionalidade ou negatividade - implicam logo uma opção comercial, no sentido de suscitar o interesse público? Por outro lado, se não se acredita na neutralidade da informação (a subjectividade, o interesse individual), será que se pode recusar aquele valor a que os sociólogos distanciamento?

Um outro tema abordado no livro e comentado pelo apresentador é o referente à autonomia e liberdade de expressão. Estas dependem dos centros de decisão, que podem ser económicos ou políticos. Mas dependem também dos jornalistas e da sua cultura profissional. Mário Mesquita, servindo-se da actual polémica dos cartunes, encontra vários graus de liberdade de expressão, que dependem dos países, das épocas, da jurisprudência e dos próprios constrangimentos da sociedade.

Numa exposição longa mas muito estimulante como é seu timbre, Mário Mesquita ainda teve tempo para defender o jornalismo como artesanato ou profissão intelectual, longe da pretensão do profissional dotado de saberes científicos e técnicos (para além daqueles que resultam da operação com equipamentos tecnológicos e multimedia). O comentador vê o jornalismo mais como uma arte, uma capacidade de expressão. Para ele, o jornalismo começou como actividade amadora e se hoje é profissional é porque há géneros como a reportagem que carecem de um domínio ou construção. E falou do ciberespaço e dos blogues, que têm permitido o renascimento do jornalismo amador.


Fernando Correia falou também do livro e do poder dos media inseparável do poder dentro dos media, com aquele condicionado por este. E, fazendo juz ao título da obra, descreveu a natureza da propriedade e a crescente concentração da propriedade dos media.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

  • OBRIGADO AO BLOGUE

    conValor - de Txetxu Barandiarán, consultor no sector do livro e indústrias culturais - pela referência ao meu postal sobre a FNAC.