quinta-feira, 6 de julho de 2006

VER PICASSO EM MADRID

Pablo Picasso (1881-1973) nasceu há 125 anos e o seu mais famoso quadro, Guernica, regressou a Espanha há 25 anos, razões para o museu do Prado e o museu Centro Rainha Sofia, ambos em Madrid, abrirem duas magníficas exposições, cada uma com um princípio simples.

No Prado, instituição de que Picasso foi director (1936-1939, isto é, durante a Guerra Civil Espanhola), há uma retrospectiva dos seus quadros perante as suas maiores influências, fruto da sua observação profunda enquanto estudante. Vários dos seus quadros vieram de outros museus, estabelecendo assim um diálogo dificilmente irrepetível. Já no museu Rainha Sofia, Guernica e os imensos esboços feitos em tempo recorde (mais ou menos um mês), o que dão conta da febril criatividade do pintor de Málaga.

O catálogo produzido para a exposição é magnífico, ficando a par da qualidade da exposição, em especial a do Prado (preço: €30 de capa mole e €48 de capa dura, 422 páginas).






As imagens acima representam elementos de imediaticidade ao museu do Prado, como cartaz de rua, fila de acesso à entrada, bem como as capas dos desdobráveis e a imagem do catálogo; as seguintes referem-se ao museu Rainha Sofia, nomeadamente os elevadores (de onde fiz o pequeno vídeo).



quarta-feira, 5 de julho de 2006

UM FILME SOBRE KLIMT


Gustav Klimt (1862-1918), reconhecido em Paris, era criticado em Viena antes e durante a Primeira Guerra Mundial. Mas ele não assistiria ao descalabro final do império austro-húngaro, internado no hospital, onde faleceria de pneumonia a 6 de Fevereiro de 1918. O quadro de Adele Bloch-Bauer, pintado em 1907 e recentemente leiloado por um preço exorbitante, estava já muito longe.

Criticado pela sensualidade das formas que pintava, Klimt integrou o movimento da Secession, em 1897, assente em pintores jovens e não convencionais, de grande qualidade estética e exprimindo-se ainda através de uma revista (ver o sítio oficial de Klimt). Klimt surge, assim, como um dos responsáveis pela art nouveau, na transição do século XIX para o XX.

O filme, dirigido por Raoul Ruiz e com John Malkovich no papel do pintor, tem um traço muito especial, através das imagens (panorâmicas, neve no interior de dependências de casa, espelhos e esconderijos, personagens-fantasmas) e dos sons (copos a partir, ruído de água).

Hoje, no final da tarde, a sala de cinema estava vazia. De outra vez que assisti a um filme sozinho, a sala fechou pouco depois por inviabilidade económica.

GULBENKIAN

Alice Valente, do blogue ali_se, recorda hoje o desaparecimento do Ballet Gulbenkian, ocorrido há um ano.
PONTOS DE FUGA EM MADRID
LOJAS E MONTRAS DE MADRID




terça-feira, 4 de julho de 2006

CADERNOS

O
Serrote é um projecto de fabrico de cadernos em impressora de caracteres móveis, de Nuno Neves e Susana Vilela. Os novos cadernos são Esquiço e Papel-Moeda. Experimente também ver o caderno toalha de mesa, composto e impresso a duas cores em oficina tipográfica de Sintra, em Dezembro de 2005, com uma tiragem de 1500 exemplares numerados. Lê-se no sítio: "Com a capa impressa em tipografia e recheado de toalhas de mesa de papel, este caderno foi concebido para aqueles que têm por hábito rabiscar as toalhas dos restaurantes".

Pode ainda escolher outros tipos de papel. Há sempre uma impressora a trabalhar para si.

RUAS DE MADRID

PROGRAMAÇÃO TELEVISIVA NO PÓS-1974

Ontem, Madalena Soares dos Reis, mestranda da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, fechou o ciclo do Seminário de Investigação Cultura de massas em Portugal no século XX, promovido pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e pelo Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, com o tema Programação televisiva na altura da revolução (1974).

Fundamentalmente, a jovem investigadora procurou responder às perguntas: houve uma programação específica em 1974? Houve uma ruptura? Assim, ela trabalhou três pontos: 1) período televisivo na época marcelista, 2) RTP, e 3) dados sobre programação e audiência. O seu primeiro texto de referência foi a tese de doutoramento de Francisco Rui Cádima sobre os noticiários televisivos de Salazar e Caetano, frisando a importância deste na escolha de Ramiro Valadão para presidente de administração da televisão pública, então a única permitida por lei. A televisão era, e continua a ser na minha perspectiva, um instrumento de poder político. À altura de Caetano, ficariam famosas as suas conversas em família (modelo inspirado nas conversas à lareira do presidente americano Roosevelt).

Para Madalena Soares dos Reis, e seguindo ainda Cádima, não houve ruptura entre Salazar e Caetano quanto à televisão, embora o último estivesse mais atento ao dispositivo cultural, não fosse ele o homem que tinha já escrito sobre relações públicas. Contudo, Valadão consegue novos equipamentos de visionamento dos programas, nomeadamente os noticiários, o que confere um estádio mais perfeito do controlo sobre as matérias apresentadas. E, ao mesmo tempo, parece haver uma abertura política e cultural, com a presença de novos programas e animadores: David Mourão-Ferreira (sobre poesia), Vitorino Nemésio (Se bem me lembro), Zip-zip (1969), Ensaio (programa de entrevistas com cineastas do cinema novo). Então, em termos de audiências (estudo de 1969), as séries mais vistas eram americanas, apesar das domésticas constituirem a maior parte da recepção, o que contrariaria aquela preferência, ficando os noticiários em oitavo lugar, o que anunciava uma não adesão à informação, julgada manipulada.

A investigadora concentrar-se-ia, depois, na emissão de 25 de Abril de 1974, com os locutores Fialho Gouveia e Fernando Balsinha (ambos já desaparecidos), sem gravata e a fumarem, sinal de um novo tempo. Ao longo da noite, a emissão seria interrompida para anunciar o novo poder, a Junta de Salvação Nacional, composta por militares dos três ramos das forças armadas. O mês de Maio seria um intenso período de suspensões, exonerações e nomeações, processo que continuaria ao longo do tempo, dada a volatilidade de sucessivas administrações do canal público.

Em Janeiro de 1975, Ramalho Eanes, o então presidente da RTP - e, mais tarde, presidente da República - tomou a iniciativa de promover um estudo, baseado em inquéritos telefónicos, dando resultados interessantes pelas mudanças em termos de espectadores. Os estudantes, seguidos de empregados do sector terciário, viam mais televisão em 1975 do que nos anos anteriores, possivelmente em resultado da mudança política. Contudo, começava a haver uma saturação do peso de programas políticos, exigindo-se o regresso dos músicos nacionais à televisão.

Sem adiantar muito mais sobre o trabalho de Madalena Soares dos Reis, pois ela está a escrever tese de mestrado sobre o assunto, e do que ouvi, poderia concluir que a programação da televisão sofreu uma alteração, com a ideia de suprimir séries americanas e substitui-las por programação de outros países, mormente do leste Europeu. Mas aquelas eram imbatíveis em termos de quadros e formas de vida, pelo que o regresso foi sendo feito paulatinamente. E uma normativa dos novos responsáveis da televisão, de 5 de Agosto de 1974, ficaria - na minha perspectiva, a partir dos dados ouvidos ontem - mais do domínio da intenção do que da sua efectiva realização. Há, contudo, necessidade de estudar muito aprofundadamente este período, dadas as múltiplas contradições e grande diversidade de agentes sociais envolvidos.

No primeiro fim-de-semana de Setembro, haverá uma reunião de balanço sobre o que se foi passando em 2006 e um planeamento de actividades para 2007. Nesse fim-de-semana de Setembro, estarão presentes os historiadores franceses Christophe Prochasson e Dominique Kalifa. Aqui no blogue darei destaque a esse evento.
FLAMENCO

A exemplo da zarzuela, também o flamenco é um tipo de arte criativa popular em Espanha e consumido por pessoas com menos poder económico, se comparado com teatro, ballet ou ópera.

Mas, em todo o país, há uma longa e florescente tradição, que, muitas vezes, combina com modernidade, caso do Power of the feeling, actualmente em cena pelo Ballet Flamenco de Madrid (España Baila Flamenco), coreografado por Sara Lezana, Luciano Ruiz, María Nadal e Carlos Vilán.

São cerca de noventa minutos de espectáculo, em duas partes distintas, apesar de não haver intervalo, repartidas entre um repertório assente em música gravada de clássicos espanhóis e música ao vivo, com cantor e guitarra. O preço era bem mais elevado do que no espectáculo da zarzuela, detectando-se um público mais jovem e parecendo ter maior poder de compra, o que contradiz o estudo já referido na mensagem anterior (Jordi López Sintas e Ercilia García Álvarez, El consumo de las artes escénicas y musicales en España, 2002).

ZARZUELA

No livro de Jordi López Sintas e Ercilia García Álvarez, El consumo de las artes escénicas y musicales en España (2002), os autores indicam que os consumidores com menores rendimentos económicos escolhem produtos populares caso da zarzuela.

Foi o que observámos na sexta-feira passada, no concerto dado no Centro Cultural Casa de Vacas, no jardim do Retiro, em Madrid. A bilheteira abria às sete da tarde para um espectáculo anunciado meia-hora depois. Por um preço simbólico de dois euros, a sala rapidamente encheu os seus 124 lugares, de modo que o espectáculo começou quase às sete da tarde. Quem estava na fila para comprar os bilhetes? Pessoas acima dos cinquenta anos, muitas mulheres, gente de aparência simpática mas simples.

A representação era El huésped del Sevillano, uma das mais conhecidas zarzuelas, em dois actos, com libreto de Enrique Reoyo e Juan Ignacio Luca de Tena. O ambiente é a época dourada de Castela, sendo Toledo a sua capital espiritual (ao tempo de Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal). Há ainda a sensação de apenas se saber, no final, que o misterioso hóspede é Miguel Cervantes, o autor de D. Quixote. O primeiro acto começa com três cavaleiros a temperarem as suas espadas no armeiro Maese Andrés, cuja filha Raquel seria raptada pelo pretendente Don Diego [no vídeo, ouve-se o ensaio durante o intervalo].




segunda-feira, 3 de julho de 2006

RELATÓRIO E CONTAS DO JORNAL PÚBLICO

A leitura atenta do relatório de contas de uma empresa de um dado ano permite saber da saúde dessa empresa e do contexto económico mais alargado. É isso que me leva a fazer umas notas a propósito do "Relatório da Direcção - 2005" do jornal Público, inserido na edição de hoje (pp. 61-65). São cinco páginas de elevado interesse para quem lê aquele diário e quer saber dados da economia dos media.

Três notas iniciais que ilustram 2005, segundo o relatório: 1) aparecimento do novo jornal diário Metro Portugal, que o documento não identifica como gratuito, 2) proliferação de novas colecções por empresas jornalísticas concorrentes, 3) crescimento do mercado publicitário na imprensa, no período de Janeiro a Setembro de 2005 em 2,8%, totalizando 19,1% do mercado (a televisão leva a parte de leão, com 68,8%).

De acordo com o relatório, a circulação do Público baixou 4,3% relativamente ao ano anterior, mas a audiência subiu 0,3%. Venderam-se cerca de 2,5 milhões de exemplares das novas colecções (DVDs, Tintim, História Universal, Let's Jazz e Livros de Cozinha, entre outros), mas este número ficou abaixo do registado em 2004 em -54%. Quebra muito menos acentuada verificou-se nas vendas de publicidade: -4%. Isso traduziu-se num EBIDTA (resultados antes de impostos) com valor negativo de quase €1,5 milhões face ao ano anterior. Ainda em termos económicos e empresariais, em 2005 desapareceram duas empresas do Público: fusão da filial XS e dissolução da Público.pt. A empresa ainda é detentora da Sociedade Independente de Radiodifusão (45%), Unipress (40%) e M3G (100%), todas com resultados positivos em 2005. O número médio de colaboradores do jornal atingiu 291 no ano transacto.

Sobre os conteúdos, destacam-se as seguintes linhas: 1) criação da revista semanal "DiaD", que substituíu o caderno "Economia" à segunda-feira, assente em temas hard news, negócios privados e públicos e informação internacional. O relatório não menciona os custos com a revista, a maior leveza de tratamento dos textos (apesar de frisar o hard news) e a perda do suplemento de computadores, 2) lançamento da revista "Kulto", entretanto descontinuada. O relatório não fala da parceria com a Produções Fictícias na produção da revista, 3) reformulação do primeiro caderno, ao domingo, apostando mais em temas da vida quotidiana ou notícias da semana. O blogueiro já tinha manifestado aqui a alegria em ler as edições de domingo.

Uma conclusão principal do relatório é a perda de circulação paga entre 2004 e 2005, mal que atinge os diversos jornais diários do país. Certamente a crise económica tem peso neste retrocesso de leitura, mas a causa principal parece residir na mudança de hábitos, como os jornais gratuitos, que têm atraído novos leitores. Seria ainda útil comparar com outros hábitos de leitura de informação, como a televisão e a internet. Para além de ver os relatórios das outras empresas jornalísticas. E esperar rapidamente soluções para inverter o decréscimo da circulação paga. As alterações introduzidas pelo Diário de Notícias, no princípio do ano, e as do Expresso, agora, ainda não permitem ver se estão ou não a ter sucesso.
CURSO INTENSIVO DE PRODUÇÃO E MARKETING CULTURAL NO BRASIL

Segundo o sítio
Cultura e Mercado, vai realizar-se um curso em S. Paulo, Brasil, que "visa formar e aprimorar produtores culturais, artistas, profissionais de marketing e comunicação e interessados em geral". As aulas serão ministradas por Sonia Kavantan, socióloga, pedagoga e produtora cultural com experiência em marketing cultural e produção de teatro, cinema, shows, eventos, festivais internacionais. A formadora é assessora para análise de projectos da Avon e foi directora de produção da longa-metragem Bocage, o Triunfo do Amor, de espectáculos teatrais como Pai, A Última Gravação de Krapp e Turistas e Refugiados e de concertos com a Orquestra Sinfónica Municipal de Campinas e Coralusp, entre outros.

Programa

A) Produção; Produção cultural; A cultura no Brasil e no mundo; Produtos Culturais; A cultura e a economia; Fontes de recursos; A elaboração do projecto cultural: planeamento, orçamento, cronograma, formatação.
B) Análise de Projectos Culturais; Marketing Cultural; Busca de patrocínio: pesquisa, selecção, contacto, abordagem, apresentação e negociação; A formatação do projecto cultural; O produto cultural e o retorno aos patrocinadores; Contratos: redacção e importância.
C) As leis de Incentivo Fiscal: LINC (Lei Estadual) e Lei Mendonça (Lei Municipal).
D) As leis de Incentivo Fiscal Federais: Lei Rouanet (inclusive as alterações mais recentes) e Lei do Audiovisual; Prestação de Contas da utilização de incentivos fiscais para a área cultural.
E) Divulgação do Produto Cultural: assessoria de imprensa, material promocional, eventos paralelos; Media: veículos, mapa de media, criação de anúncios; Administração de Recursos: próprios, governamentais, patrocínios, receita do produto cultural.

Data e local: 24 a 28 de Julho de 2006, 19:15 às 23:15. Espaço Certo Treinamento e Eventos, R. Dr. Amâncio de Carvalho, 287, Paraíso, São Paulo, Brasil

Investimento: R$400,00, podendo ser repartido em quatro parcelas

Informações e inscrições: 11 3023-3040 (rede de S. Paulo, Brasil) e cursos@kavantan.com.br
PREVISÃO DE SAÍDA DE LIVROS

De Luís Oliveira Martins, Mercados Televisivos Europeus, e de Gonçalo Pereira, A Quercus nas Notícias, ambos da Porto Editora (colecção Comunicação), para o mês de Agosto. Os dois são livros que interessam muito à área de comunicação, nomeadamente em economia dos media e jornalismo.
MERCADO DE LIVROS

Segundo o Público de hoje (caderno "DiaD", p. 8; reconstituição minha), entre 2004 e 2005 houve um aumento de compra de livros, mas com quebra nas livrarias (fonte: MultiDados). Apesar da tendência, os quadros parecem-me conter valores errados (ausência de somas a 100%, por exemplo).

DOIS ÂNGULOS DE VISTA

Para mim, é fundamental o exercício do jornalismo comparado. Se em jornais nacionais, isso é importante, quando se trata de imprensa de países diferentes, tal assume ainda maior relevância. É que alargam os ângulos de vista sobre um mesmo assunto, caso do jogo de futebol entre Inglaterra e Portugal, conforme os jornais de ontem. Se o Público elege para herói o guarda-redes Ricardo, que defendeu grandes penalidades, para o Observer, Rooney é o vilão, pois ao ser expulso viu a sua equipa ficar reduzida a 10 jogadores.



Na minha modesta e provavelmente muito ignorante perspectiva, o jogo acabou por se decidir pelas grandes penalidades, um verdadeiro jogo de azar e fortuna. Logo, fico indeciso sobre o verdadeiro alcance dos valores-notícia que levam ao grande destaque dos referidos jornais.
COMO EU VI O ÚLTIMO GOLO DE PORTUGAL

Quando Cristiano Ronaldo marcou a grande penalidade à Inglaterra, o ambiente numa cafetaria da Gran Vía, em Madrid, foi este que se vê no vídeo.

O CINEMA E O MUNDO DA MODA

A moda é um mundo fascinante. Revistas como Elle, Vogue, Marie Claire, Cosmopolitan e Máxima vendem muito. Há um canal temático na televisão por cabo sobre moda. A telenovela que passa no horário nobre da SIC, Belíssima, tem como centro uma empresa dedicada à moda.

Agora, foi estreado um filme nos Estados Unidos, Devil wears Prada (O diabo veste Prada), realizado por David Frankel, com Meryl Streep no principal papel. Trata-se da história baseada num romance de enorme sucesso em 2003, escrito por Lauren Weisberg, antiga assistente da directora da Vogue, previsível personalidade que o filme disseca. Este, que deve vir para Portugal no Outono, trata de jornalismo e carreiras profissionais, para além de moda. Meryl Streep faz o papel de Miranda Priestley, despótica editora-chefe da revista Runway. As outras personagens principais pertencem à assistente de direcção, a qual aspira a um lugar futuro na prestigiada revista New Yorker, e a dois homens, um, o braço direito de Miranda mas que se passa para o lado da assistente, o outro, o correspondente ao proprietário da Vogue, Vanity Fair e New Yorker.

O peso da Vogue no universo da moda é enorme, nomeadamente nos Estados Unidos. Ainda recentemente, aproveitando uma exposição no Metropolitan Museum of Art, a revista fez um tributo à moda inglesa, convidando individualidades do mundo da moda e da música como Kate Moss e Jennifer Lopez e milionários como Donald Trump. Dizem as más-línguas que todos eles vestiram aconselhados pela directora da revista.

Especula-se sobre as semelhanças entre realidade e filme. Há quem diga que o filme retrata as condições de trabalho duro de quem vive e pensa a moda. Há também quem afirme que o filme critica e não celebra a moda. Merryl Streep assegura que a sua personagem não é a cópia da influente directora da Vogue mas segue o estilo de pessoas que ela própria conhece na indústria da moda. Teremos de esperar pela passagem do filme em Portugal para aquilatarmos o que corresponde à verdade e à especulação.

O certo é que, também recentemente, foi traduzido para português um romance de Sarah Glattstein Franco, directora da revista Cosmopolitan em Espanha, chamado precisamente Diário de uma directora de revista... feminina. Afirma Glattstein que a história nada tem a ver com a realidade. Mas fala da redacção de revistas dedicadas à moda: Isabel Gonzaléz, ou Isa como é conhecida entre os íntimos, é uma jovem que ingressa num jornal de Salamanca, o Heraldo de la Fortuna. Aí, começa a escrever sobre moda, acabando por ingressar na Femme, a melhor revista feminina em Madrid. Depois, ela torna-se directora da Mulher Prática, revista reposicionada para concorrer directamente com a Femme. Mais algum tempo depois e Isa recebe convite para dirigir a própria Femme, o topo das revistas espanholas.

O livro descreve o ambiente de uma redacção de revista feminina. Primeiro, as redactoras de moda e colegas como estilistas, directoras de secção e da revista formam um grupo hermético. Depois, cada redacção organiza-se de um modo específico, indo desde secções em espaços fechados até espaços abertos, juntando directora e conjunto da redacção. Em terceiro, a directora tem uma vida social intensa como almoços com anunciantes, passagens de modelos, contactos com escritores e jornalistas que escrevem páginas de destaque ou top images quando se trata de fotógrafos ou ilustradores.

De que trata uma revista de moda? Cosméticos, perfumes, acessórios, mas também sucesso profissional e amoroso. E ainda amizade, filhos, dinheiro, automóveis, cultura e produtos biológicos, idade e dietas, saúde e bem-estar, férias e lazer. Horóscopos e publicidade a marcas de prestígio constituem um complemento permanente nas revistas. Com as capas de cada número a incluírem modelos ou estrelas do mundo da música e do cinema.

E a vida das modelos? Lê-se no sítio da novela brasileira Belíssima: “O mundo está cheio de jovens como Giovana e Erica, que fazem de tudo para brilhar no universo da moda. Rostinho bonito – ou «exótico» –, salto nos pés, manequim na casa dos 30 e elas estão prontas para se aventurar nas passarelas mundo fashion afora”. Mas o “lugar ao sol”, o “glamour” e a promessa de uma boa conta bancária são, com frequência, sonhos que depressa se esfriam.

Contando com êxitos ou insucessos pessoais, a moda movimenta milhões. Deve ser tão poderosa como as indústrias desportivas (futebol, basebol, ténis ou basquetebol), pelo que também dita ordens fortes. Com recurso a modelos anorécticas, cuja vida profissional nas passarelas altamente mediatizadas é de curta duração e onde estão sempre patentes problemas psicológicos, como foi o recente caso de drogas em Kate Moss. E sem se saber qual a percentagem de peças de vestuário exibidas que se vendem. Mas atrai outras indústrias culturais, como a música, o cinema, a televisão, o design, a publicidade. E onde há cidades que sabem fazer bem a indústria da moda: Nova Iorque, Londres, Paris, Milão.

[elementos a partir da leitura do Observer de 25 de Junho, em peça escrita por Graham Fuller, e da minha mensagem de 31 de Maio]

[texto da crónica que passará hoje por volta das 10:00, na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém)]