sexta-feira, 18 de novembro de 2005

AS ESCOLHAS DE JUDITE LIMA

No último Jornal das Letras (nº 916, 9-22 de Novembro, p. 2).

juditelima.jpg

Judite Lima é realizadora da RDP e autora de programas da Antena 2, caso do Jardim da Música. Obrigado pela referência (negrito meu) e até ao dia 17 de Dezembro.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

PENSAR DIGITAL

Vem no blogue Media Network Weblog de ontem: dirigentes da Intellect, a associação comercial inglesa ligada à indústria de alta tecnologia, falaram na Casa dos Comuns, na comissão de Cultura, Media e Desporto, sobre o apagão analógico. Segundo a associação, é necessário aumentar a percepção pública e levar as pessoas a pensarem digital tão depressa quanto possível. Um dos seus responsáveis, Laurence Harrison, entende que o conhecimento que a população venha a ter dos benefícios dos produtos digitais, nomeadamente os benefícios da televisão digital, conduzirão a uma procura que fará aumentar a produção industrial. Esta deverá crescer gradualmente e não por picos de procura, o que poderia acarretar problemas no fornecimento de equipamentos.

Observação: o Reino Unido tem uma importante indústria de alta tecnologia. Ainda o ano passado por esta altura, a convergência de interesses industriais e políticos levou a que se desse a massificação do sistema digital de recepção de rádio, o DAB. Agora, os interesses comerciais e industriais procuram ligar-se, de novo, aos políticos. Essa conjugação é frutuosa. Em Portugal, ainda se não atribuiu a licença para operar em sistema digital terrestre na televisão, depois de um arranque falso, o que significa que o complexo industrial e comercial ainda não sente forças ou não há vontade política para avançar com o apagão analógico. Não me parece que haja volta a dar à evolução tecnológica já no terreno - a partir da qual os interesses comerciais e sociais se desenvolvem. Esperemos que a nova autoridade reguladora dos media signifique o arranque de uma nova era em Portugal e que 2006 seja o ano da discussão e das grandes decisões sobre o digital.
LUSOMUNDO

Li, na newsletter de hoje da Meios & Publicidade, que a Lusomundo vai concentrar ainda mais os seus jornais no edifício da Avenida da Liberdade (Lisboa). Assim, ao Diário de Notícias, 24 Horas, Tal & Qual e delegação de Lisboa do Jornal de Notícias, junta-se o Jogo (jornal desportivo). Em sentido contrário, as revistas National Geographic e Playstation 2 mudaram para instalações no Areeiro, devendo suceder o mesmo às outras revistas do grupo Controlinvest: Volta ao Mundo e Evasões.
COWPARADE

cowparade.jpgLê-se na parte de trás do postal: "Olá Margarida! Imagina quem vem a Lisboa em Maio próximo? As vacas! Sim! Lisboa vai ser invadida por uma manada de bovinos artísticos em tamanho real e em fibra de vidro, pintados, transformados e excentricamente vestidos pelos mais diversos artistas".

Segundo o sítio Cowparade, a organização vai desafiar as pessoas a pintarem vacas, expostas em várias avenidas e ruas da cidade. Parece-me uma ideia muita divertida. Mas, já agora, podiam trazer outros animais: burros, crocodilos, elefantes, dinossáurios, ETs, tótós e muita música. E ajudar os prédios a ficarem com a cara lavada (ou pintada). A cidade precisa de muita cor e música, a ver se anima.
ARES DE LISBOA

De António Lemos Viana saíu um livro e há uma exposição. Mas vamos por partes.

aresdelisboa.jpgO livro foi editado pela Simplesmente Comunicando, numa nova colecção, que pretende abranger vários domínios artísticos.

António Lemos Viana, sargento-ajudante da Força Aérea, onde se alistou em 1977, seguiu "a sua inclinação para as artes, herdando do pai aguarelista, e aperfeiçoando-a numa breve passagem na Sociedade Nacional de Belas-Artes (SNBA), com professores como Rolando Sá Nogueira e Rui Mário Gonçalves" (retirado do sítio Simplesmente Comunicando).

O livro, para além de um texto de apresentação, é um autêntico catálogo da obra do autor, que pinta óleos sobre tela, nomeadamente paisagens de Lisboa. Algumas delas, embora mostrem figuras perceptíveis, aproximam-se da escrita caligráfica, quase esboços ou representações fugazes. Das imagens que ilustram o catálogo, elejo a rua Augusta, a estátua de Fernando Pessoa, ao Chiado, e Montado como as de maior elegância e harmonia (mas o blogueiro tem gostos próprios). Militar da força-aérea também se lhe "exigia" pinturas sobre aviões, o que o autor faz com desenvoltura.

O texto serve também a exposição: aos interessados, António Lemos Viana apresenta os seus óleos no Hotel Altis Park (Olaias, Lisboa), até 20 deste mês, passando para o Hotel Açores Lisboa (Praça de Espanha, Lisboa), onde estarão patentes as obras entre 5 e 12 de Dezembro.

Nota: o meu agradecimento a Pedro Garcia Rosado, da editora Comunicando, a gentil oferta do exemplar sobre o qual construí a mensagem.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

PARA LER DEVAGAR

"As imagens fabricam ilusões. De facto, esquecemos quase sempre que a imagem não é a realidade. Ao contrário das palavras, as imagens têm algumas propriedades das coisas. Nas imagens podemos ver cores e formas que existem no objecto. A palavra tem uma relação arbitrária, convencional, com a realidade" (José Carlos Abrantes, 2005, "A construção do olhar: alguns desenvolvimentos". In José Carlos Abrantes (coord.) A construção do olhar. Lisboa: Livros Horizonte, p. 12).

Sabia que ia ficar fascinado com a leitura do livro. Mas estou a lê-lo devagar, para melhor saborear as palavras acerca das imagens. É curioso, a análise à construção do olhar faz-se com o recurso das palavras.
galinhapreta.jpgO SÍTIO DO PEQUENO HERÓI

Não conheço a livraria Pequeno Herói, no Largo da Graça, 79, aqui em Lisboa, mas tenho recebido recentemente muita informação. Hoje, decidi visitar o blogue Pequeno Herói. A última informação é do dia 12 deste mês e dá conta da actividade que se desenrola na livraria.

Ora, o próximo encontro é a apresentação [ou apenas espreitadela?] do livro de Marina Palácio, chamado No reino das sardas, a 19 deste mês (sábado), pelas 16:00, ocasião em que a autora fará um ateliê Vento ilustrado.

Espreitem. Quem sabe se não vale a pena aparecer no sábado ali para os lados da Graça?
A MENINA DANÇA?

A fotografia de Leonardo Negrão é admirável. Lembra-me a pintura impressionista (Edgar Degas ou o próprio Auguste Renoir) - não há descontinuidade de cor (ou pontilhismo dos pós-impressionistas como George Seurat) mas a câmara lenta deixou rastos de cores e formas. Certamente que considero a fotografia como distinta da pintura e que ela constitui uma arte autónoma, mas foi a primeira imagem que me veio à cabeça quando abri o Diário de Notícias de hoje. Pelo menos, fiquei muito sensibilizado pelo tema e pela fotografia, eu que não tenho jeito nenhum para a dança (ao contrário do meu pai, que era fã das danças de salão e terá ocupado muito do seu tempo livre enquanto jovem nesta actividade lúdica).

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Ora, de que fala o texto de Raquel Rodrigues (com imagens de João Oliveira Silva e Leonardo Negrão)? Dos bailes organizados em vários pontos de Lisboa, com especial incidência no Mercado da Ribeira. Se há reformados, parece haver gente mais nova a disfrutar desta actividade de lazer. No Mercado, a banda musical chama-se Compacto, com o ritmo a começar do lento até entrar em maior movimento, de modo aos tímidos aceitarem ocupar a pista. O primeiro baile neste estilo teria ocorrido no Carnaval de 2003, lê-se na peça.

Claro que, para quem não saiba dançar (ou o chamado pé de chumbo), há o bar, onde se pode conversar com outras pessoas. Há uma sociabilidade que renasce. E aos fins-de-semana, o espaço do Mercado pode atingir as mil pessoas (custo do ingresso: €2 à semana, €3 ao sábado e €3,5 ao domingo).

Um dia fui observar o baile da tenda do Centro Cultural de Belém. E a opinião traçada pela jornalista coincide com o que vi então. Tangos, valsas, swings, chá-chá-chás, e salsas são tocados sucessivamente, com os bailarinos ou dançadores a rodopiarem alegremente a sala. Dessa minha observação, anotei o requinte com que muitas senhoras (elas em especial) se vestiam. Parecia que se tinha voltado a uma época de ouro dos bailes, com vestuários requintados.

Lembro-me de, noutra ocasião e espaço diferente, ter visto uma baile ao ar livre. Estava em Valladolid (Espanha), numa tarde quente de domingo de Verão. As lojas ainda não tinham aberto a essa hora e eu dei um pequeno passeio pelo jardim (não me lembro o nome). Passado um bom bocado depois de estar sentado num banco, vejo muitas pessoas, a maior parte delas casais de uma certa idade, passarem na rua do jardim. Curioso, segui o rasto: era um baile que se começava a organizar. E vi-o animadíssimo.

Portugal não gosta tanto dos jardins como os espanhóis. E, assim, em vez do baile ao ar livre ele decorre num espaço fechado embora amplo. Isso justifica, julgo, o título na página 50 do jornal de hoje: "Em alternativa aos bancos de jardim, muitos reformados, e não só, encontram-se para dançar".

Nota: o título da minha mensagem, e que se encontra também presente no jornal, pertence, quanto julgo saber, a José Duarte, esse mago dinamizador do jazz, com uma rubrica muito antiga na rádio (Cinco minutos de jazz), em que uma das variações é (ou era) exactamente essa frase. O seu programa diário e a série de CDs que saem à quinta-feira com o jornal Público enchem de alegria a minha alma.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

O ENDIABRADO MUNDO COR-DE-ROSA

As(os) jovens do blogue Meu mundo cor-de-rosa andam endiabradas(os). O blogue delas(es) tem um link para o BLOG do GRANDE NINJA Rogério Santos (eu, em pessoa). Perdoei-lhes esta designação (só conheci o termo aplicado a tropas de segurança de um país africano, com má conotação); espero agora que cumpram os seus deveres como estudantes (e faltam 12 aulas para acabar o semestre e dois momentos de avaliação).

Boa sorte para elas (e eles).
TERNURAS

Conheci os fazedores dos blogues Bonamusica e Escrevinhices no recente encontro de blogues na livraria Almedina. Foi um momento de grande ternura, com a apresentação deles ao blogueiro mais veterano, eu. A blogosfera tem momentos de encanto.

E também tenho seguido os passos do blogue Insustentável Leveza.

BLOGUES REGULADOS?

Copio a parte inicial de uma mensagem do blogue Atrium, colocada hoje: "Um post do Pedro Fonseca deu andamento a um debate muito curioso sobre a eventual abrangência das competências da nova entidade reguladora para a comunicação social ao universo dos blogs.Participações que consegui identificar: a do Paulo Querido, a da Ana Roque e a de Pedro Figueiredo (que, infelizmente, só está acessível a quem escolher o browser preferido do autor...)". A acompanhar.
BLOGUES KANTIANOS

Diz Pacheco Pereira, do Abrupto, que o Indústrias Culturais e o Jornalismo e Comunicação são blogues actualizados pela manhã. Eu procuro seguir essa prática, o que não aconteceu ontem e hoje e não vai acontecer amanhã. Aulas e reuniões são responsáveis pela alteração. Ontem, por exemplo, fui cedíssimo para Évora (onde me esperava um júri de tese de mestrado, tarefa que correu muito bem) e nem sequer vi a Praça do Giraldo. Foi chegar, participar no júri, almoçar e vir a correr para Lisboa (sem ultrapassar os 120 quilómetros por hora), pois uma reunião esperava-me às 16:00. Cá em casa, disseram-me que eu devo uma visita a Évora, por sinal uma cidade que gosto muito.

E já sinto nostalgia de ler um livro e fazer umas notas aqui no blogue (o livro que falei mais abaixo quase que nem o abri, e sei quanto suculento é o texto de Esquenazi e a abertura de José Carlos Abrantes, sem prejuízo para os outros autores).
DOUTOR ESTRANHO AMOR

Trata-se de um filme de Leonor Areal, a estrear na Cinemateca Portuguesa, no dia 25 deste mês, pelas 21:30.

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A Construção do Olhar

Hoje, ao fim da tarde, foi apresentado o livro coordenado por José Carlos Abrantes, A construção do olhar, na livraria Bertrand (Picoas Plaza, Lisboa). O livro agora editado, pertencente à colecção CIMJ/Livros Horizonte, resulta das intervenções num curso com aquele título e organizado por José Carlos Abrantes, no convento da Arrábida, de 23 a 25 de Agosto de 2000.

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Incluem-se textos do organizador e de Monique Sicard (televisão), Didier Epelbaum (provedor de televisão), Renaud Gilbert (provedor da rádio), Eduardo Cintra Torres (crítica de televisão), Serge Tisseron (as imagens e a construção da criança), Hannah Davies (como as crianças são representadas na televisão), Cristina Ponte (olhares das crianças) e Jean-Pierre Esquenazi (públicos).


A apresentação do livro, para além do organizador e de dois autores de textos - Cristina Ponte (professora da Universidade Nova de Lisboa) e Eduardo Cintra Torres (crítico de televisão no Público e professor na Universidade Católica) -, contou com Eugénio Lisboa (à altura do evento director dos cursos da Arrábida), Leonor Areal (cineasta e que se prepara para estrear o filme Doutor Estranho Amor) e Bárbara Coutinho (responsável dos Serviços Educativos do Centro Cultural de Belém).

Enquanto os intervenientes no encontro da Arrábida refizeram o seu olhar sobre o ocorrido há cinco anos, Leonor Areal e Bárbara Coutinho deram contributos a partir dos seus olhares profissionais, resultando uma multiplicidade de pontos de vista que, sumariamente, coloco nas linhas seguintes.

Assim, se Eugénio Lisboa contou uma velha história passada entre Wittengstein e Popper em colóquio organizado por aquele e cuja memória foi produzida por este, num apelo à re-construção, Cristina Ponte falou da marca do tempo que um texto produz quando se volta a ele. Se o lado da recepção tem sido o mais estudado, importa também perceber o que profissionais e empresários pensam sobre o que produzem e, do mesmo modo, realçar os olhares das crianças, perspectiva que animou, em 2000, Serge Tisseron e Hannah Davies (ver textos editados no livro). Cristina Ponte anotou ainda o desinvestimento feito nos últimos anos em termos de programação (de qualidade) para crianças e adolescentes.


Eduardo Cintra Torres preferiu evocar as boas memórias do encontro, da informalidade e da importância do mesmo, quer quanto à qualidade das intervenções quer quanto ao facto da cultura francesa ter estado ali muito presente (quando há hoje um peso esmagador da cultura em língua inglesa). Cintra Torres, que considera o trabalho de crítica de televisão como comportando uma atitude de cidadania (tema aflorado por diversos intervenientes, hoje), destacou ainda o facto do encontro ter servido para se falar, pela primeira vez, do exercício de provedoria de rádio e de televisão. Duas ideias mais no texto de Cintra Torres: 1) o facto de a Fundação Oriente infelizmente não voltar a organizar encontros em que a discussão são os media, 2) a necessidade de pôr na prática - e não apenas como intenções - os provedores de televisão e rádio públicas, mas também nas estações privadas.

Leonor Areal falou da sua profissão, dos documentários e das tendências em torno deste, que oscilam entre televisão e cinema. Ela, no momento, está mais interessada em documentário de cinema, onde a atenção do espectador não é tão conduzida como na televisão, obrigando-o a interpretar a narrativa. E defendeu uma segunda leitura na construção do olhar. Um filme é percebido melhor com uma segunda leitura, que nos dá conta das intenções do autor, das suas ligações, no sentido de uma leitura retroactiva.

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Finalmente, Bárbara Coutinho perspectivou a construção do olhar a partir de quem prepara exposições de arte contemporânea e programa acções pedagógicas. Num improviso coerente, a responsável dos Serviços Educativos do CCB (que participou numa das minhas aulas do ano lectivo passado) entende que uma exposição é também uma construção do olhar, pois implica selecção, relação entre peças, suportes de informação, catálogo. Opôs dois modelos de expor arte contemporânea, o do MoMA (Nova Iorque), nos anos de 1930, e o da Tate Modern (Londres), mais perto do nosso tempo, de uma concepção histórica a um diálogo entre épocas, tendências e olhares. E situou a importância dos serviços educativos de um museu, a partir dos anos 1960-1970, que trabalham a construção do olhar nos vários públicos (etários, profissionais, sociais). E defendeu o parar o olhar: momento de avaliar e discutir a importância de uma imagem, nomeadamente a produzida pela arte contemporânea.

José Carlos Abrantes, antes de encerrar, destacaria o peso das imagens fabricadas (exteriores a nós) e as imagens interiores, o conceito de espectador (em Esquenazi), a tecnologia e a educação para os media.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

POLÍTICOS, JORNALISTAS E CONGRESSOS PARTIDÁRIOS - UM ESTUDO DE CASO

Em 2002, conjuntamente com duas investigadoras (Vanda Calado e Isabel Ventura), fiz um trabalho sobre o modo como os congressos políticos são retratados pelos jornalistas (recorde-se que o primeiro trimestre foi palco de luta partidária após demissão do governo de António Guterres).

congressos.jpgDesse trabalho, ficou a publicação de um artigo na revista Observatório (Obercom) e duas comunicações apresentadas em congressos (Porto e Santiago de Compostela), assim como uma debate realizado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (29 de Maio de 2002). Recordo aqui um pouco esse percurso de investigação, que retomarei em breve.

Nos congressos partidários, há grande interacção entre políticos e jornalistas. Os políticos pretendem colocar as suas propostas na agenda jornalística e pública, nomeadamente as moções que apresentam ao congresso. Os jornalistas procuram salientar lutas ou clivagens entre congressistas, em especial o líder e os seus principais opositores. A sala de reunião e os corredores ou hall de acesso são os espaços visíveis onde uns e outros trocam impressões e tentam negociar o significado das suas posições. A programação do discurso do líder para a hora do noticiário, a forma como o palco está montado (púlpito, cores de fundo) e a adequação dos espaços de trabalho dos jornalistas são objectivos, por parte dos organizadores, para "fazer um bom congresso", nomeadamente junto dos jornalistas da televisão. Cada vez mais, os congressos são acontecimentos mediatizados.

O trabalho resultou de uma investigação empírica em congressos e convenções partidárias do PSD, PS, CDS-PP e PCP, ao longo de 2002. A metodologia empregue foi: observação participante nos congressos, análise de conteúdo das notícias televisivas (RTP1, RTP2, SIC e TVI, nos dias das reuniões partidárias) e entrevistas com jornalistas de televisão (editores) e assessores de imprensa dos partidos.

domingo, 13 de novembro de 2005

MAIS UMA NOTA SOBRE O ENCONTRO DE QUINTA-FEIRA

No Diário de Notícias de ontem, pode ler-se uma notícia sobre a tertúlia organizada por José Carlos Abrantes. Retiro a parte final do texto: "Os blogues não servem apenas como diário pessoal na Web ou como coluna de comentários políticos, duas das mais comuns formas de utilização da blogosfera portuguesa. Na Galiza, a blogosfera é usada para manter a língua e acentuar a identidade regional. No ensino os blogues são usados, com sucesso, enquanto forma de apoio às aulas e ferramenta de trabalho de colaboração. A ideia foi enfatizada por Rogério Santos, que referiu ainda que os blogues têm vindo a ser usados pelos jornais ou ainda pelas empresas, servindo, então, como «um canal de marketing»".
O JORNAL DOS BLOGUES

Em França, lê-se no Le Monde de hoje (caderno "TV & Radio", p. 27), há mais de seis milhões de blogues. Verdadeiro fenómeno da sociedade, a televisão daquele país dedica-lhe uma atenção especial. Assim, quer a France 5 quer a M6 consagram emissões a "estes pequenos sítios internet pré-fabricados", como escreve o jornal. Le journal du blogue, no canal France 5, vai para o ar ao sábado, pelas 20:00, apresentado por Aline Afanoukoé, que se interessa pelo porquê e como começou este movimento, indo ao encontro dos criadores destes novos espaços de expressão. Os blogueiros criaram, aliás, um espaço de convívio, os Paris Carnets, um pouco à semelhança das tertúlias do José Carlos Abrantes. Por seu lado, o canal M6 tem o Blog 6, espaço de cinco minutos de segunda a sexta, às 19:45. Aida Touihri convida os blogueiros a falarem sobre um tema da actualidade, numa abertura do espaço público a outras vozes.

Esperemos que o exemplo frutifique também em Portugal.
A AUSÊNCIA DO PÚBLICO NOS FILMES PORTUGUESES

Os jornais diários já se tinham debruçado sobre o assunto, mas fixo-me no texto de César Avó, ontem no Expresso. A questão a montante foi a apresentação do estudo levado a cabo pela Universidade Lusófona, por encomenda da Associação de Produtores de Cinema e com o apoio do ICAM. Dos 1878 inquiridos (47,8% em Lisboa, em consonância com a distribuição geográfica da exibição cinematográfica), seis em 10 dizem ver menos de uma vez por mês cinema português, enquanto 23,7% afirmam nunca verem. Apenas 6,4% prefere o cinema português ao estrangeiro e 12,1% compra filmes nacionais em DVD.

É um divórcio quase total. A que João Lopes, hoje no Diário de Notícias, reage. Ele acredita que os problemas do cinema português não radicam na indiferença do público tout court mas em "duas coisas básicas: primeiro, na necessidade de favorecer a diversidade criativa aliada à racionalidade financeira; segundo, na importância de criar e, sobretudo, manter estratégias inteligentes de promoção". E ele estende a análise às telenovelas que, desde há 30 anos, alteraram o padrão dominante da ficção audiovisual.

Isto significa que a ausência dos público não se pode ver apenas à luz de uma simples razão de não ir. Para ir, torna-se necessário convidar a ir.
AINDA SOBRE O GU-GU-DA-DA, O GLUGLU E O QUÁQUÁ

Um leitor do blogue, Paulo Ferreira, colocou o seguinte comentário: "Esta é uma campanha publicitária a refeições com alimentos provenientes de aves. O engraçado é que em nenhuma delas aparece o nome de uma única ave. Será esta a antecipação de um problema que ainda não temos? Será esta uma medida de comunicação de crise, por antecipação para os industriais de alimentos que utilizam como «matéria-prima» alguns produtos provenientes de «bens de risco», segundo alguma opinião pública"?

Realmente não aparecem nomes de aves, pois temos sons onomatopaicos nos títulos dos pratos, mas estes referem-se a aves específicas: o perú e o pato. Não creio haver uma estratégia de crise por detrás das designações, mas tão só produtos orientados para um público-alvo específico: jovens pais e seus pequenos filhos.

Agora, perante a questão posta, se calhar o lançamento no mercado de pratos com aves não se terá dado no momento oportuno. Contudo, não podemos esquecer que a tradição do Natal que se aproxima inclui o perú (e até o pato) na ementa - e, não havendo conhecimento de casos em Portugal até lá, haverá certamente consumo da carne dessas aves. Assim, trata-se de um assunto a acompanhar.
LIVROS DE MEMÓRIA E ESTRATÉGIAS DE MARKETING

Ontem e hoje, os jornais dão-nos a pré-publicação de livros de António Lobo Antunes e Maria Filomena Mónica. Confesso que esses livros - a comprar quando os vir numa livraria - me entusiasmam mais do que a presente pré-campanha para a presidência da República. Apesar desta última apontar o futuro (embora tudo cheire a passado), prefiro o que tem a marca sincera do passado.

De Lobo Antunes, os aerogramas (cartas grátis em papel amarelo) que ele escreveu de Angola à mulher (durante o serviço militar, entre 1971-1973), exactamente o período em que eu estive no mesmo país e a fazer o mesmo. De Filomena Mónica, as memórias desde que nasceu (1943) até 1976. Se, de um se espera o registo íntimo de alguém obrigado a sair violentamente do seu sítio [a intimidade tornada pública por outros agentes que o autor; no caso, as filhas dele], da outra aguarda-se igualmente um registo pessoal [risco assumido em mostrar, quiçá com violência]. Um parte do exterior social e político para mostrar o interior psicológico e afectivo, a outra parte do interior afectivo para mostrar o exterior quotidiano.

Possivelmente, estes dois livros vão contar mais do Portugal triste de meados dos anos sessenta e setenta que muitos livros de história. Apesar de histórias pessoais, as relações pessoais, a visão dos problemas da época e a sua contextualização vão servir para compreendermos melhor o que foi o país num dado momento. O corte com uma realidade pessoal e social e o sofrimento e a incompreensão da guerra colonial, por um lado, a aprendizagem sexual a ocorrer em simultâneo com a emancipação de uma mulher, por outro, são ingredientes suficientes para lermos as obras.

Estratégias de marketing. Ambos os livros ocupam páginas nos jornais de ontem e de hoje, com a indicação de pré-publicação. A data de saída para as livrarias ou já ocorreu ou acontecerá nestes dias mais próximos. Isto é: são boas compras para o Natal. Do mesmo modo, o terceiro volume da biografia não autorizada de Álvaro Cunhal, escrito por José Pacheco Pereira, também se anuncia para os dias finais de Novembro. A isto se chama uma boa estratégia de marketing. Todos os livros são memórias: ou pessoais ou escritas por pessoa interposta. Claro que eu não posso fugir a este movimento: o meu livro As vozes da rádio saíu há dias e os jornais diários de Lisboa deram-me um espaço lisonjeiro.
DO QUE LI SOBRE A SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA EM FRANÇA

1) "Não perceberam que as instituições de socialização, as igrejas, as empresas e a escola deixaram de cumprir essas funções [economia e sociedade]. E, como alguém me fez notar, desmantelaram o serviço militar obrigatório que poderia ter desempenhado, em países de imigração, uma notável função integradora" (António Barreto, Público de hoje).

2) "as forças policiais dizem ter detectado, através de serviços de escutas das comunicações via telefone, internet e SMS, a intenção de alguns grupos dos subúrbios de quererem provocar incidentes durante o fim-de-semana" (Daniel Ribeiro, Expresso de ontem).

3) Li, mas perdi a referência onde o li, que, a partir do momento em que os canais de televisão deixaram de filmar os locais onde deflagrou maior violência, se reduziram esses actos de violência.

Notas: 1) os novos media (telemóvel, internet) são fundamentais na organização de eventos, em especial a concentração de manifestantes. Já se vira isso após os atentados de 11 de Março em Madrid, mesmo antes das eleições legislativas do país vizinho; 2) a presença dos media clássicos, em especial a televisão, serve como meio suplementar de mobilização e imitação (na estrutura de outros eventos); 3) a redução da importância das instituições clássicas (escola, serviço militar) e o aumento do peso dos media na modelação de atitudes em tempo real podem produzir uma equivalente redução de coesão social [ou tentativa para a construir] (processo de equiparação de grupos sociais distintos em espaços iguais como a escola e o serviço militar) e simultânea construção de guetos.

Observação: estas notas são escritas a quente e podem ser (amplamente) criticadas e reformuladas. Mas não quero deixar de reflectir na importância dos media clássicos e recentes para melhor compreender os fenómenos recentes de violência.
GU-GU-DA-DA

Os anúncios da Nobre - Strogoff de Glu-glu e Arroz de Quáquá - não são para a minha faixa etária. As onomatopeias gluglu e quáquá remetem para os sons dos perús e dos patos, linguagem usada por crianças pequenas e pelas suas mamãs e papás. E o slogan "ter a papinha toda feita" não engana.

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É, no entanto, interessante perceber o alcance das comidas pré-fabricadas, que poupam tempo a donas (ou donos) de casa, que trabalham fora do lar e querem preparar rapidamente as refeições. Se as pizzas já enfastiam, procura-se uma tipo de comida mais próxima da nossa tradição. Assim, por que não um arroz de pato, que basta levar ao micro-ondas para ser servido à mesa? Logo, o público-alvo é urbano, profissional, morando nos arredores da grande cidade, jovem e com família constituída, talvez de 3o anos ou à volta dessa idade.

Nota 1: o arroz dos anúncios é gigante. Medi, com uma régua, a dimensão de cada grão num dos cartazes [espero que quem me tenha visto não duvide da minha sanidade mental] e deu entre três e quatro centímetros. Parecem quase pequenas bolas de chocolate branco. Dir-me-ão: nos anúncios, as dimensões dos objectos representados têm de ser maiores do que os reais, dado que o público que observa os mupis está a uma determinada distância. Certo. Mas há mupis destes voltados apenas para transeuntes.

Nota 2: estima-se que uma média de 30% dos transeuntes e dos visitantes/clientes (num centro comercial) tenham contacto com a publicidade. Isto é válido para os painéis SIC indoor ou os da MCO nas estações de Metro (estes últimos mais estridentes, dada a carga sonora existente). Também nos centros comerciais da Sonae, como se sabe o número de pessoas que circulam nos seus espaços, dá-se a ponderação assinalada acima. Mas a probabilidade de contactos não passa de uma intuição. Medir uma audiência não é uma ciência exacta - e aqui não há audímetros nem entrevistas telefónicas a investigar o que cada pessoa viu no seu caminho.
OS PRIMEIROS ANÚNCIOS DO NATAL

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aki.JPGEles são os brinquedos da Chicco, ela é a decoração de Natal do AKI.

Posso considerar também os anúncios Cofidis, o crédito por telefone. É bom ter alguém que nos faça sorrir e É bom ter alguém que nos torne a vida mais simples não são, propriamente, slogans felizes, mas assinalam o que é necessário: assegurar um empréstimo para as compras que agora se aproximam. E a imagem das bolas de sabão remetem sempre para um mundo de ilusões e de beleza, que as compras procuram personificar.

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PINTAINHO

chicken.JPGDepois da Fuga das galinhas, parece que a saga continua, numa oferta da Disney. Aparentemente, o filme de animação vem um pouco antes do Natal. Mas traz o ingrediente das vozes dos D'ZRT, que saltam dos Morangos com açúcar para as telas do cinema (claro que não há a promessa de cantar mas tão só as suas vozes). Público-alvo principal: os telespectadores do programa da TVI.

sábado, 12 de novembro de 2005

OBRIGADO AO CARLOS PAULO PELO COMENTÁRIO NA MINHA MENSAGEM

Escrevi, mais abaixo, numa mensagem sobre a tertúlia dos blogues e a propósito do meu lado sisudo: "Possivelmente porque encaro sempre o mundo demasiado a sério e não deixo brilhar nas aulas a criatividade de quem me rodeia". Respondeu-me Carlos Paulo (Palmier, Caramelo, Da Primeira Fila e FM pastiche): "sou obrigado a concordar, professor. No entanto, nesta conferência, foi o professor que aproveitou para nos surpreender com momentos de grande humor".

Nas aulas, sou obcecado com o trabalho, o rigor, a leitura dos textos; nas tertúlias, liberto-me dessas responsabilidades e sou mais eu. São questões de espaço e de representação.
A CONSTRUÇÃO DO OLHAR

Caros(as) leitores(as), por favor, apontem na vossa agenda o seguinte evento: 15 de Novembro (3ª feira), às 18:30, na livraria Bertrand (Picoas Plaza), apresentação do livro A construção do olhar, organizado por José Carlos Abrantes (colecção Media e Jornalismo, Livros Horizonte-CIMJ).

jca.JPGA apresentação estará a cargo de Bárbara Coutinho (Centro Cultural de Belém), Cristina Ponte (Universidade Nova de Lisboa), Eduardo Cintra Torres (professor e crítico de televisão no jornal Público), Eugénio Lisboa (escritor e crítico literário) e Leonor Areal (realizadora).

Do comunicado que me chegou retiro a seguinte informação: "O olhar tem sido historicamente construído. A construção do olhar é um acto individual, mas também um dado social, diferente de pessoa para pessoa, variável segundo as tecnologias que produzem os olhares e segundo os modos de ver dominantes numa época. Este livro resulta de uma reflexão que especialistas portugueses e franceses realizaram num Curso da Arrábida. A concepção que o atravessa é que aos objectos vistos (televisão, cinema, fotografia) se junta hoje o olhar dos espectadores, que apropriam as imagens. E as imagens são ilusões, mesmo quando retratam com realismo o mundo. Além desta constatação, importa considerar que cada público constrói as suas visões dos objectos vistos. Se o olhar se constrói, urge considerá-lo como objecto de ensino e de vivência quotidiana. E contextualizá-lo numa relação de cidadania com os objectos vistos e construídos pela televisão, pelo cinema, pela fotografia, pela imagem digital. Ou interrogá-lo nas cidades e nos outros espaços em que estamos inseridos".

O livro tem textos de José Carlos Abrantes, Monique Sicard, Didier Epelbaum, Renaud Gilbert, Eduardo Cintra Torres, Serge Tisseron, Hannah Davies, Cristina Ponte e Jean-Pierre Esquenazi.
EM DEFESA DO NEOLOGISMO BLOGUEIRO E OUTRAS ESTÓRIAS

Confesso que não dera conta da minha obsessão pela palavra blogueiro (há quem prefira o original em inglês blogger). Só agora reparei, quando li o relato pleno de humor de André Carvalho, em Geração Rasca, em três mensagens acerca do recente colóquio sobre blogues.

Retiro alguns excertos bem divertidos (e onde também sobrevém a minha obsessão) [mas também alguns comentários]: "O moderador aproveitou a «deixa» para passar o testemunho ao Professor Rogério Santos, que entrementes, se vinha entretendo a «corrigir», sempre com um sorriso, por vezes só com o olhar, todas as intervenções em que orador utilizava o denominativo, Blogger. O Professor Rogério defende a utilização do neologismo Blogueiro, e não perdeu nenhuma ocasião para enfatizar esta sua aspiração". Num dos comentários, escreveu-se: "Eh Eh Pelo que tenho lido, ou isto é uma grande «estória» tua, ou então não posso perder o próximo colóquio" [à atenção do organizador do colóquio, José Carlos Abrantes: não perca este comentador e convide-o pessoalmente a falar após as intervenções da mesa].

Outro excerto: "o António Granado era para mim um completo desconhecido. Fiquei a saber que é jornalista do Público e que já mantém o seu blogue desde 2001. Além disso, achei-o com um ar muito sorumbático". Comentário de alguém identificado como Sorumbático: "Quando dizes que o granado é sorumbático, espero que não estejas a gozar comigo. :)".

Um terceiro excerto: "Com a chegada da Joana Amaral Dias, começaram a disparar flashes por todo o lado. Subitamente parecia que estava numa disco. A sala toda forrada a preto, cadeiras pretas, e as luzes brancas dos flashes sempre a zurzir, fizeram-me lembrar, por momentos, algumas das saudosas discotecas manhosas da década de oitenta do Bairro Alto. Só faltava o som dos Cult ou dos Bauhaus para o filme ficar completo". Um comentário: "Fui ao outro: Blogues no Feminino! Depois, jantar com bloguistas ilustres na Trindade. Depois, Festa Quase Famosos no Frágil. Foi o que restou...mais de resto, passaria despercebida não fosse a minha altura. Este encontro, confesso, não me apeteceu. Podes entregar ao Paulo um Beijo da Graça que ele sabe quem é?". Outro comentário: "«Ganda» filme. Mas está fixe. Estou a gostar".

Conclusão primeira: um "simples" colóquio pode produzir muita literatura ou pontos de vista, como previa José Pacheco Pereira no seu Abrupto, ontem às 9:28.

Conclusão segunda: o André Carvalho - que me tratou com muita deferência nas suas três mensagens - revelou-se-me. Ele foi meu aluno e eu não tinha dele a ideia de olhar as coisas da vida com tão grande humor. Possivelmente porque encaro sempre o mundo demasiado a sério e não deixo brilhar nas aulas a criatividade de quem me rodeia.

Conclusão terceira: diz-se dos comentários às mensagens que são, por regra, insultuosos. Aqui, na Geração Rasca, pelo contrário, há um registo divertido. O que significa que o blogue criou um grupo de fãs afinados pelo mesmo diapasão. Por isso, aconselho a que visitem urgentemente o blogue, mesmo que discordem dele quando se lê o que escrevem sobre política. Também da política devemos olhar a vida com humor, pois, de contrário, sairíamos muitos descontentes. Além de tudo, trata-se de um blogue colectivo, onde cada um se diverte à sua maneira, o que é uma atitude positiva a saudar e respeitar.

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

NOTÍCIAS DO CINEMA

Lendo os jornais de hoje, ressaltam as seguintes informações:

Encerramento dos cinemas do Freeport de Alcochete (Público). Em página inteira, escreve-se sobre o encerramento das salas de cinema do Freeport, já no próximo mês. Recordo o que escrevi aqui, a 24 de Setembro de 2004: Quanto ao complexo de cinemas, parece-me um grande erro haver tantas salas (21). Haverá frequência de pessoas que chegue? É certo que o preço ronda os €3,5, mais baixo que os €5 de uma sala aqui no centro de Lisboa. E há um factor suplementar: cada cadeira individual tem incrustado um recipiente apropriado para receber embalagens com pipocas! Nesse dia, eu vira o filme de Catarina Ruivo, André Valente, que gostara muito, mas em que me senti desconfortável: era o único assistente ao filme. No final, agradeceria à arrumadora a gentileza de terem feito uma projecção só para mim.

Lê-se na notícia de hoje que o aluguer das salas de cinema em Alcochete é de €100 mil por mês. O encerramento não seria, assim, previsível? Não houve megalomania em abrir um espaço tão grande de salas? Recordo o que também escrevi a 24 de Setembro do ano passado: não podemos esquecer que, segundo dados agora publicados pelo Anuário de Comunicação do Obercom (2003-2004), o número de espectadores de cinema está a baixar (19,4 milhões em 2002 para 18,7 milhões em 2003) enquanto aumenta o número de sessões (522 mil em 2002 para 559 mil em 2003). Ora, a área abrangida pelo outlet não será certamente tão abrangente para encher as salas, mesmo que cada elemento de um agregado familiar se disperse e veja o seu filme favorito.

Novo presidente do ICAM (Público e Diário de Notícias). Saíu Elísio Oliveira, entra José Pedro Ribeiro, que já era vice-presidente do ICAM (Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimedia). Como membros da direcção, o ICAM conta ainda com Nuno Fonseca e Leonor Silveira, que já trabalham no instituto desde 2000. Curioso o facto de Leonor Silveira ser alguém a que nos habituámos a ver nas salas de cinema, ela que tem sido eleita por Manoel de Oliveira em filmes como Vale Abraão. Do anterior mandato, segundo os jornais, fica a informatização das bilheteiras, dando conta precisa do número de espectadores em cada filme, estatísticas que tenho usado aqui (embora não com a regularidade que eu gostaria de escrever).
A AULA DE ONTEM

Na cadeira de Públicos e Audiências, contámos ontem de manhã com a presença de Rui Lima, director-geral da Universal McCann. Ele fez uma exposição sobre como se comportam os diferentes meios de comunicação face aos investimentos publicitários e à situação económica de um país.

Iniciou por observar os indicadores sócio-demográficos (população, população activa, lares, estrutura social, com variáveis em classes sociais e níveis de conforto, distribuição de rendimento). Em Portugal, há um peso grande das classes D e C2 (classe baixa e média-baixa). No país, tem-se assistido a uma perda de competitividade na economia, uma tendência divergente no crescimento e um maior endividamento. Ora, o mercado publicitário reflecte a situação do país. Foi recordada a recuperação no ano passado, em especial devido ao Euro 2004 (futebol) e Rock in Rio (espectáculos de música). Mas as baixas expectativas sobre a capacidade de ultrapassar a crise económica actual justiica previsões cautelosas para o ano que vem.

Quanto a share de investimento, o convidado da aula destacou o peso do investimento publicitário na televisão, que ultrapassa os 50%, remetendo menores investimentos para os outros media. Os períodos de maior investimento de publicidade nos media são o pré-Verão e o pré-Natal (estamos a começar um desses ciclos). A Optimus tem sido uma marca que faz mover o mercado, ao crescer 140% (campanhas 3G, Home, Rede 4), mas as outras operadoras de telefones celulares também fazem investimentos publicitários avultados, a que se segue a área de distribuição (como o Modelo Continente). A nível nacional há uma cobertura quase total dos media (99% para a televisão, 96% para os outdoors, 70% para a rádio), o que significa a quase universalidade no alcance de uma campanha publicitária.

Quanto a tempo de consumo dos media (7,5 horas diárias), Rui Lima destacou o peso da televisão (58%), seguindo-se a rádio (20%) e os outdoors (16%). O consumo televisivo é maior junto das mulheres (15%), devido a que muitas ainda não estão em actividades profissionais fora de casa, ao passo que os jovens consomem menos meios (6 horas diárias), ocupados com a televisão (56%) e internet (3%). O consumo de televisão aumenta com a idade: a partir dos 55 anos isso é visível, tendo em conta a reforma das pessoas e uma permanência maior em casa.

O consumo da televisão ao longo do ano tem sido constante, o que não justifica os picos de investimento publicitário. O orador acha que existe ainda o preconceito que em Agosto, por exemplo, há muito menos pessoas a verem televisão (férias), o que leva a um número mais reduzido de publicidade nesse período.

Ainda em televisão - e por razões de dimensão da mensagem, ficar-me-ei nas notas que tirei deste meio -, a RTP lidera audiências numa parcela do dia (manhã e hora do almoço e final da tarde pré-prime time), com a TVI a ser o canal mais visto no período de maior audiência (20:00 às 24:00). Os picos de audiência, recordou, centram-se à volta do meio dia e com maior vigor a partir das 20 horas.
AINDA SOBRE A TERTÚLIA DE ONTEM

Retiro do blogue Engrenagem, de João Pedro Pereira, os seus apontamentos sobre o colóquio:

"Muito interessante a conferência de hoje do ciclo "Falar de blogues", em que estiveram António Granado, Rogério Santos, Joana Amaral Dias e Catarina Rodrigues (da organização do II Encontro de Weblogs).

"Eis algumas passagens-chave:

"António Granado
«Não estamos em velocidade de cruzeiro [na Internet e nos blogues]»
«É preciso colocar as coisas em perspectiva e pormo-nos na devida posição quando falamos de blogues: a blogosfera chega a pouca gente»
«Ainda não passamos da blogosfera da troca de ideias»
«Acho que o citizen journalism tem pernas para andar»

"Rogério Santos
«Não devemos confundir blogosfera com jornalismo»
«Um blog é uma ferramenta informática e uma forma de escrever»

Joana Amaral Dias
«Nos blogues políticos, os bloggers constituem-se como uma espécie de watchdogs»
«[Os blogues são] uma oportunidade para recuperar qualidade no jornalismo»

"Muito mais sobre o assunto no sábado".

Ficamos todos à espera de mais para o fim-de-semana.