domingo, 17 de maio de 2009

PUBLICIDADE DE RUA

Um novo jornal (i), uma peça de teatro a estrear (na Cornucópia), os cinquenta anos de um queijo (Limiano) - eis três anúncios nos mupis de Lisboa.

MEMÓRIA (III)


Quando digitalizei estes diapositivos (35 mm) e verifiquei a data (Natal de 1977), fui assaltado por ideias antagónicas: por um lado, vê-se que o país alterou até hoje; por outro lado, o salto não terá sido suficiente. Pelas imagens, o parque automóvel era velho, as vendedeiras usavam xailes pesados de cores escuras e um tipo de avental com fecho no bolso para guardar dinheiro, os brinquedos eram baratos e de má qualidade, o comércio atraía principalmente as mulheres. Fica a alegria contida da menina que leva consigo uma pequena prenda.

sábado, 16 de maio de 2009

EXPERIMENTADESIGN


A Bienal ExperimentaDesign já lançou o programa da próxima edição em Lisboa, que reabre o calendário dos grandes eventos de design e criatividade internacionais (9 de Setembro a 8 de Novembro). Além de exposições, promove debates, conferências e projectos especiais realizados em locais privilegiados da capital portuguesa. Ver o blogue da ExperimentaDesign.

CIDADES CRIATIVAS

Barcelos, Estremoz e Óbidos são cidades portuguesas distintas e distanciadas entre si. O que pretendo aqui, em poucas linhas, é traçar pontos convergentes e divergentes em torno do conceito de cidades criativas e a partir de duas ideias: produtos próprios e promoção.

Barcelos e Estremoz têm tradição numa velha expressão artesanal: o imaginário de figuras populares em forma de barro. Mas Barcelos faz muito mais que Estremoz pela sua promoção, como se pode observar na exposição de Rosa Ramalho, barrista de forte reconhecimento (ver aqui no blogue), em magnífica exposição patente até ao próximo ano no Museu da Olaria, e em esculturas representando galos, símbolo da cidade, expostos no perímetro histórico da cidade. Estremoz recolhe os seus objectos do mesmo imaginário rural, de igual ou melhor valor estético, no Museu Municipal, em promoção deficiente (caso do catálogo). Nos dois casos, os elementos que um investigador ou o mero turista recolhe são muito distintos. Além que Barcelos privilegia a exposição de símbolos artísticos no exterior (Estremoz teve patente recentemente colchas dentro da perspectiva de arte ao vento, mas tratou-se de uma exposição vinda de outra cidade e com autores fora de Estremoz). Apesar das diferenças, ambas as cidades têm de se empenhar na venda de artesanato dessas figuras.

Óbidos é um caso particular, certamente. Perto do litoral, com uma cidade medieval rodeada por muralhas, soube reinventar-se. Além da rua principal e das suas lojas, nos anos mais recentes, entrou nos circuitos turísticos com mais uma ideia-actividade: a festa do chocolate. E em produtos complementares, como as ginjinhas bebidas numa pequena chávena de chocolate. Para além da beleza da cidade antiga, a substancial presença de forasteiros deve-se ao consumo da bebida.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

SOBRE VENDA DA MÚSICA

O jornal New York Times do passado dia 12 (artigo de Ben Sisario) deu conta dos novos modos de vender música. No caso do novo álbum de Dave Matthews Band (Big Whiskey and the GrooGrux King), à normal versão do CD, com 13 canções, juntam-se a versão luxuosa, que inclui um DVD, e a versão super-luxo, com quatro canções extra, um livro de fotografias de 40 páginas e 14 litografias e 24 páginas de tributo a LeRoi Moore, o saxofonista da banda que faleceu o ano passado. Mas se comprar no sítio da banda (davematthewsband.com), cada CD vem com um disco ao vivo adicional. Igualmente online, o iTunes vende a versão standard por 10 dólares, mas pode comprar-se um outro CD por 20 dólares que inclui mais canções e um vídeo.

Isto é, a indústria da música adapta-se a um mercado em transformação e um álbum já não é uma discreta colecção de canções mas um pacote que muda de dimensão e preço, dependendo do seu conteúdo. Até a promoção alterou, com um labirinto de empresas a comercializar o produto cultural - da Amazon.com e iTunes à Rhapsody, Wal-Mart e Verizon Wireless. Explica Ben Sisario que, com a depressão, as etiquetas inventam alternativas para darem conteúdos diferentes, e os contratos estabelecidos agora estipulam o acompanhamento de canções adicionais como modo de promover as vendas. Há artistas e músicos não satisfeitos, obrigados a incluir material musical possivelmente não tão bom como o que destinavam para os álbuns, mas aceitam, dado o mercado ter diminuido, desde 2000, na ordem dos 45%.

Claro que a estratégia de canções adicionais já vem do tempo das músicas do lado B. Mais recentemente, os Beastie Boys deram um extra na reedição do seu álbum de 1992 Check Your Head: sem aviso prévio, incluiram canções novas em cópias ao acaso na versão de luxo, o que levou a uma corrida ao disco.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

INDÚSTRIAS CRIATIVAS EM LISBOA


Ontem, o jornal Público (texto de Alexandra Prado Coelho) noticiou os debates na Culturgest sobre a nova agência de indústrias criativas em Lisboa, projecto liderado por Luís Serpa e André Dourado. Primeiro, houve um grupo de reflexão, agora projectam-se mesas redondas (dias 21 e 22) e conferências (28 e 29), englobando agentes culturais, programadores, arquitectos, urbanistas e economistas em temas como "deriva das indústrias culturais para as indústrias criativas", "política sustentável das cidades", "percepção do espaço urbano" e "empreendedorismo, inovação e novas tecnologias".

A Agência para as Indústrias Criativas pretende agrupar agentes (produtores de conteúdos e fornecedores de serviços e canais de distribuição) de áreas como arquitectura, publicidade, moda, gastronomia, edição, audiovisual, artes performativas, cinema e vídeo.

MUDE

MEMÓRIA (II)

À espera.



(imagem feita em 1977, e pormenor)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

COMPREENSÕES DO CINEMA: FUNÇÕES DA LINGUAGEM ANALÍTICA E CRÍTICA

Seminário de investigação por Sérgio Dias Branco (University of Kent) na Universidade Nova de Lisboa (Torre B- 5º Piso, gab. 516, Av. de Berna, 26-C, Lisboa), às 10:00 de 20 de Maio:

1. Filmosofia [excerto: O Fiel Jardineiro (The Constant Gardener, 2005), real. Fernando Meirelles]
2. Frampton contra Bordwell
3. Linguagens do Cinema
4. Análise e Crítica
5. Complementos e Limitações [excerto: Juventude em Marcha (2006), real. Pedro Costa]

SEMANÁRIO SOL À SEXTA

O Sol vai passar a sair à sexta-feira, e não ao sábado. Justificação: necessidade de antecipar o fecho para assegurar a distribuição do título ao sábado em Angola (fonte: Meios & Publicidade).

O CARTAZ SEGUNDO DIEGO ZACCARIA


Em finais de 2008, Diego Zaccaria lançou o livro L'Affiche, Paroles Publiques, da editora Textuel. Com doutoramento em História, Zaccaria é director do Centre du Graphisme d’Echirolles, tendo criado o Mês do grafismo em 1990. Desde então, foram organizadas mais de 150 exposições por este centro. Zaccaria é ainda presidente da Rede europeia do cartaz e do grafismo de autor.

O livro tem uma centena de cartazes (de autor, publicidade comercial e cultural, propaganda política), com análise do sítio e do papel do cartaz na sua época, com aspectos e valores sociais e tecnológicos e lugar de história, memória e debate público, aberto a diversos significados. Onde revê a história mundial da criação gráfica, o impacto visual, a mensagem. Distingue dois períodos: da revolução francesa à Segunda Guerra Mundial, depois da Libertação.



Fico-me pela análise de quatro cartazes inseridos no seu livro, respectivamente de Alfred Leete (1914-1915), James Montgomery Flagg (1917), Seymour Chwast (1965) e Andrea Rauch (1994). O primeiro tem o rosto de lord Kitchener, chamando à mobilização dos britânicos para a Primeira Guerra Mundial: o apelo foi forte, resultando numa mobilização de 35 mil voluntários por dia. O vigor do cartaz reside na adequação entre a representação da autoridade e o texto que exprime ordem e autoridade (Zaccaria, 2008: 52). O segundo cartaz, muito inspirado no anterior, é um apelo aos americanos para se alistarem nas forças em luta na Segunda Guerra Mundial: o ilustrador junta traços fisionómicos de George Washington e Abraham Lincoln, dois pais fundadores dos Estados Unidos. A imagem do Tio Sam resulta numa autoridade mais representada. A terceira imagem, pertencente ao caricaturista Seymour Chwast, que deve muito à banda desenhada, à arte psicadélica de San Francisco e ao universo pop de Liechtstein, segue o Tio Sam de Flagg: End Bad Breath tornou-se um ícone da contracultura dos anos sessenta, uma época de protesto contra a guerra do Vietname. Na boca do novo Tio Sam, em lugar dos dentes, vêem-se aviões americanos a bombardear as florestas vietnamitas. A quarta imagem segue a terceira: agora em vez de bombas, a boca prende uma televisão, sátira de Rauch às eleições italianas de 1994, denunciando o poder de Sua Emittenza (jogo de palavras entre emizenza, designação dada a Silvio Berlusconi, e emittenza, emissão). Berlusconi detém a posse de canais de televisão (pp. 156-157).

MEMÓRIA


Porto, Natal de 1977

terça-feira, 12 de maio de 2009

LUÍS FILIPE ROCHA

Conferência na Universidade Católica Portuguesa, hoje ao fim da tarde.

CARTAZES DE 1974 E 1975

Imagem neo-realista, retirada das esculturas e das gravuras do ideário marxista. A ideia do super-homem, musculado, peito largo, decidido, rosto quadrado, de lutador. As mãos seguram um pau comprido, que poderia ser o remo do barco de pesca, mas é o cabo de uma grande bandeira vermelha. Logo atrás, igualmente musculada e de pescoço longo e cabelo comprido, a mulher segura a foice e o martelo na mão esquerda, com braço estendido. À direita, segura um ramo de cereais. Duas únicas cores: vermelho e amarelo, com algumas letras a preto, à direita da imagem. Há a referência a um comício (com a designação de grande) e de festa (poetas, actores, cantores).

A imagem estilizada remete, como acima disse, para a escultura, mas também para a banda desenhada, de estilo leve, rápido e vigoroso. A bandeira vermelha e os símbolos da foice e do martelo do Partido Comunista dominam o cartaz, no que constitui uma parcela poderosa. O casal aponta para a ruralidade (o trigo), mas o porte físico é urbano e jovem. Representa o futuro radioso (a ideia dos “amanhãs que cantam”).

Do outro lado do leque partidário, o CDS quer marcar espaço, daí a frase “Queremos responder”. A imagem tem uma impressionante carga neo-realista, como se o cartaz pertencesse a uma organização à esquerda. Em primeiro plano, vê-se uma mulher de costas, sem uma perna e apoiada por uma muleta. À cabeça leva um saco; usa um avental apertado nas costas. Caminha na borda do passeio, quase junto à linha do eléctrico. Do lado esquerdo, encontram-se automóveis estacionados e ao fundo um veículo que parece ser um eléctrico. O CDS quer dar resposta à pobreza urbana. Há uma espécie de combate à decadência e envelhecimento urbano.

O cartaz do Partido Comunista marca uma reunião. O cartaz do CDS introduz mais dramatismo, realçado pelos tons sépia da imagem. Claro que os dois partidos têm uma produção vasta de cartazes em 1975 – estes são dos mais interessantes que encontro no livro de José Gualberto de Almeida Freitas, A Guerra dos Cartazes – mas eles podem ser lidos de acordo com a postura de confiança num, desconfiança noutro, sucesso num, tentativa de reparar a sociedade noutro. Como se o marco de 1974 fosse uma marca genética: os jovens no PCP, os velhos no CDS.

O cartaz do PPD tem alguma semelhança com o do PCP: a importância da bandeira desfraldada, com o braço esquerdo do homem levantado e mão a segurar a bandeira, junto à mulher estilizada fazendo o sinal V com a mão direita, gesto que ainda hoje o partido usa em comícios e reuniões partidárias. Mas difere porque se trata de um casal jovem urbano, ambos de cabelo longo e camisas justas e desapertadas, moldando o corpo. São mais elegantes que os representados no cartaz do PCP. A estilização é maior, dando a ideia de liberdade, de movimento. O cartaz dá, como o do PCP, a ideia de confiança no futuro. Mas alerta para a necessidade de um "Portugal livre", posição específica e oposta à do primeiro cartaz aqui presente, que quer preservar a revolução. 1974-1975, anos após a queda do regime do Estado Novo, são anos reveladores da dualidade política então instituída, as duas principais opções do novo regime: democracia ocidental ou de leste europeu?

Os cartazes do PS são os de leitura mais simples. Partido igualmente popular como o PPD e o PCP, o destaque da imagem vai também para a festa, o encontro, no estádio. Além do símbolo partidário – à semelhança dos outros cartazes analisados – a parte inferior mostra uma frente de comício, a partir de fotografia, com homens e mulheres, alguns de braço no ar e punho fechado, alguns de gravata.

O autor do livro, José Gualberto de Almeida Freitas, que permitiu a reprodução destes cartazes, considera que a produção gráfica foi uma marca de 1974 e anos seguintes. Na realidade, olhando para as dezenas de imagens dos partidos acima referidos, mas também de outros como o MDP, o MES, a UDP e o MRPP, siglas que desapareceram ou foram aglutinadas a outras forças partidárias, dá-se conta dessa riqueza. Mas as temáticas não são muitas e não se apostava na personalização como hoje. Os cartazes eram ou mais abstractos ou fixavam uma imagem antiga – luta, operários em greve, rostos duros. Há pouca alegria nos rostos, muita exasperação. A confiança no futuro que a mudança de regime augurava não tem equivalente nos cartazes. Nomeadamente, os partidos à esquerda, os que reflectiam ideários marxistas, decalcavam nos seus cartazes imagens provenientes do universo soviético ou chinês, daí cores amarelo e vermelho, mostrando uma ligação de operários e camponeses, em que os intelectuais empunhavam livros ou armas.

A estética desses cartazes, em geral, não é muito interessante. Produtos baratos, de comunicação rápida, exigiam textos ou frases fortes, com imagem menos importante. Muitos cartazes parecem desenhos de estudantes adolescentes. Bigodes, cabelos compridos nas mulheres, punhos levantados são uma constante quando há figuração. Mas não há gente com óculos, por exemplo.

Os cartazes abstractos (ou abstraccionistas) têm pouco relevo. Os cartazes não reflectem o envolvimento de artistas plásticos. Certamente há mais cartazes do que esta mostra. E um texto que fixe características, tendências e uma leitura semiótica. Por isso, a importância de trabalhos como o de Diego Zaccaria (a ler em próxima mensagem).

Leitura: José Gualberto de Almeida Freitas (2009). A Guerra dos Cartazes. Lisboa: Lembrabril

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A PINTURA DE ISABEL BOTELHO


  • "Isabel Botelho jamais se desvia do naturalismo. Começa por mostrar as coisas tal como elas são na realidade, a grandiosa composição da barra do Tejo, os navios que procuram o porto de Lisboa, a belíssima ponte sobre o rio. A pintora tenta observar e sobretudo mostrar os objectos do nosso quotidiano através de um novo olhar, de uma perspectiva diferente, por vezes quase insólita como sucede no caso das árvores gémeas, que se organizam no espaço de uma forma muito pouco usual" (Paulo Morais-Alexandre).
Exposição Assim no Céu como na Terra, de 22 de Maio a 16 de Junho (excepto às segundas-feiras), das 13:00 às 18:00, na Galeria Municipal Palácio Ribamar, Alameda Hermano Patrone, Algés.

JAZZ EM COIMBRA


De 25 de Maio a 6 de Junho, o JACC - Jazz ao Centro Clube organiza a VII edição dos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra. Destaque para o concerto do quarteto de Peter Brötzmann, Joe McPhee, Kent Kessler e Michael Zerang, a 5 de Junho, pelas 22:00, no Teatro Académico de Gil Vicente. A MasterClass será leccionada pelo designer gráfico helvético Niklaus Troxler no âmbito da exposição Os Cartazes de Jazz de Willisau. Mais informação no sítio do JACC.

FILMINHO NA GALIZA


O Filminho – Festa do Cinema Galego e Português, que decorrerá entre 16 e 19 de Julho, vai apresentar uma mostra de cinema que servirá como apresentação da edição de 2009 do Festival.

Amanhã, 12 de Maio, a mostra terá lugar na Faculdade de Ciências Sociais e de Comunicação de Pontevedra. No dia 13, será a vez da Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade de Santiago de Compostela a receber o Filminho e, no dia 14, em Xoves, o Filminho apresenta-se na Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade da Corunha.

O MINISTRO DA CULTURA


"Um grupo de personalidades ligadas à cultura vai lançar um manifesto apelando à refundação das políticas do Estado para o sector. Os signatários arrasam a actual gestão de Pinto Ribeiro, um ministro que, ao contrário de Isabel Pires de Lima, até tinha gerado boas expectativas nos meios culturais. Desde que Carrilho deixou o lugar, tem sido difícil encontrar um sucessor convincente" (Público de hoje, em texto assinado por Luís Miguel Queirós).

Não fica quase nada por dizer sobre o actual ministro da Cultura. E volta "o boato de que teria havido uma confusão com origem na semelhança dos nomes e que Sócrates, na verdade, tencionava convidar o programador António Pinto Ribeiro", exactamente o autor do livro À Procura da Escala. Cinco exercícios disciplinados sobre cultura contemporânea, sobre quem escrevi hoje de manhã.

CLUBE LITERÁRIO


"Numa época em que todos podemos estar a qualquer momento em qualquer parte do mundo sem, efectivamente, haver uma deslocação física, o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, em parceria com o Clube Literário do Porto, convida-o a participar no ciclo de Conversas sobre viagens e outras deslocações. Neste ciclo contaremos com a presença de viajantes, ensaístas e críticos, de modo a que possamos dialogar sobre a viagem/deslocação efectiva e a escrita de viagem. As conversas iniciam já dia 22 de Maio no Auditório do CLP. Na sessão de abertura estará presente o escritor Miguel Gullander" (blogue Clube Literário, Rua Nova da Alfândega, 22, Porto).

À PROCURA DA CULTURA CONTEMPORÂNEA

António Pinto Ribeiro lançou recentemente um novo livro. Vi-me impedido de estar presente nessa cerimónia, por afazeres profissionais, mas ontem aproveitei umas horas livres para ler atentamente, e com agrado, o volume de 75 páginas de texto intitulado À Procura da Escala. Cinco exercícios disciplinados sobre cultura contemporânea. Os cinco exercícios significam cinco temas, cinco capítulos, voltados para a cultura portuguesa, para o multiculturalismo visto dos pontos de vista do antigo país colonizador e do país africano independente e para a observação das políticas culturais. Reflectem a perspectiva do intelectual, programador e cidadão.

O primeiro exercício é uma defesa da posição da esquerda sobre a política cultural, repartida em três elementos: 1) criação de obras subsidiadas pelo Estado (cinema, teatro, dança, música), 2) democratização no acesso aos bens culturais, 3) descentralização. Conclui que deve haver um esforço para transformar o estatuto do consumidor em receptor crítico e mais esclarecido (p. 22). Por isso, o usufruto de bens culturais não é sinónimo de melhores e mais cultos cidadãos e que a leitura das obras de arte requer mecanismos de habituação e simpatias estéticas (p. 14). Quanto à descentralização, o autor tem um olhar crítico: as obras deveriam passar do interior dos países para as capitais e não ir do centro para a cidade periférica. Nesse texto, Pinto Ribeiro analisa a crise dos intermitentes em França e todo o problema dos criadores de arte, sujeitos a encomendas e a projectos. Para ele, os países europeus criaram legislação de apoio aos criadores, entretanto oportunisticamente aproveitada por empresários do audiovisual que viram na lei uma forma de escaparem a contratos de emprego permanente.

O segundo exercício reflecte o conceito de interculturalidade e a necessidade de fazer uma revisão da história colonial (em especial a África, e que também ocupa o centro do terceiro exercício). O multiculturalismo teve êxito nas últimas décadas do século XX, com a defesa de cidades multiculturais (Amsterdão, Londres, Marselha, Nova Iorque, São Paulo). Mas foi esquecida a passagem da comunidade cultural para a comunidade política, pois a interculturalidade pressupõe um projecto político de sociedade (p. 30), com perfeita definição de valores das etnias e dos grupos culturais. Pinto Ribeiro aponta duas premissas: convivialidade com valores, coabitação diversificada. Mas isso não quer dizer que a cultura elimine conflitos e antagonismos, tenha de evoluir e progredir, se resolva por exclusiva legislação e não esqueça os fundamentos religiosos que existem nas culturas. Além disso, a cultura deixa de ser vista como propriedade de indivíduos ou grupos e passa a ser entendida como possuindo diferenças, contrastes e contradições.

Se o segundo exercício vê o multiculturalismo a partir dos países europeus, o terceiro texto aborda-o a partir dos países africanos. O autor dá conta da grande pulsão criativa e cultural actual (p. 45), lembrando os últimos 30 anos (ou um pouco mais) que constituem as independências, com rupturas estéticas com os países colonizadores e sem tradições na formação artística (curiosamente, noutra parte do livro, o autor refere a importância dos centros culturais dos antigos países colonizadores como forma de colmatar essas necessidades organizativas de formação, e o modo displicente como Portugal está a actuar; ver p. 50). Isto é, as formas que evoluem são a criação de identidades próprias e, ao mesmo tempo, a relação amigável com o legado do ex-colono. Por isso, defende um terceiro modelo para além dos previsíveis de cooperação ocidental e da resolução à africana: a negociação cultural (p. 48). Lembra a capacidade criativa de países como Marrocos e Nigéria, com um uso interessante da tecnologia digital, do cinema ambulante e da criação de emprego e do início de uma indústria própria.

O quarto exercício dedica-se à história da cultura em Portugal nas últimas quatro décadas, com Pinto Ribeiro a dividi-la em três grandes ciclos: 1) de 1974 até ao final dessa década, sob a designação de “A cantiga é uma arma”, provocando um amplo debate sobre a cultura artística (p. 59). O segundo ciclo abrange a primeira parte da década de 1980, designada por “cultura à europeia e moderna” e em que aparecem programas e projectos culturais, com consolidação no trabalho das companhias de teatro independente e a criação de um mercado para a música popular e rock. Já o terceiro ciclo vai de 1986 a 1998, o ano da exposição mundial, com uma espécie de slogan “internacionais e cosmopolitas”, a que não faltam megaconcertos em estádios de futebol e construção de grandes equipamentos culturais (Centro Cultural de Belém, Culturgest, Museu de Serralves) e lançamento da rede de bibliotecas públicas (1987) e da rede de teatros (1999). Surge uma nova geração de directores de equipamentos culturais e de programadores, já com experiência internacional nomeadamente a nível da Europa. O autor ainda releva o aumento da informação e a maior velocidade de circulação (p. 62), a banalização do telemóvel e das suas funcionalidades e da blogosfera, das exposições mediáticas (Tate Gallery, Prado) e da falência da crítica de arte. Daqui, pode depreender-se o aparecimento de um quarto ciclo, em que as cidades geram um movimento inusitado nas artes e na cultura. Programador durante onze anos, Pinto Ribeiro dedica 10 páginas do seu livro a reflectir sobre a função, opondo dois modelos fundamentais e distintos: programação feita tendo em atenção os interesses dos públicos; programação de autor. Refiro aqui uma nota interessante do autor sobre a actividade da blogosfera, que, apesar de ter crescido exponencialmente nos dez anos que tem de existência, não significou um aumento dos públicos nos eventos culturais mas obrigou a um reforço de recursos humanos nas organizações culturais para trabalhar esse tipo de comunicação (p. 74).

O último exercício é o menos disciplinado, mais fragmentário, em que o autor retoma um dos seus temas preferidos: as cidades. Assim, escreve entradas sobre cidades perfeitas (a cidade de Deus de Santo Agostinho, a cidade utópica de Fourier, a Ville Contemporaine de Le Corbusier), piscinas, hortas, a história do chá. Textos que reflectem as vivências pessoais de António Pinto Ribeiro.

Leitura: António Pinto Ribeiro (2009). À Procura da Escala. Cinco exercícios disciplinados sobre cultura contemporânea. Lisboa: Cotovia

domingo, 10 de maio de 2009

SEDE DA COMPANHIA DE DANÇA DE LISBOA EM VIGO?

"O director da Companhia de Dança de Lisboa admitiu hoje que a sede da estrutura pode ser transferida para a Galiza, eventualmente Vigo, se a Câmara de Lisboa não permitir o regresso ao Palácio dos Marqueses de Tancos" (Público Última Hora, 18:35). Estranho? Ou forma de pressão?

O NEGÓCIO DA INTERNET

No passado dia 6, escrevi sobre a empresa MySpace Music (música online) e a necessidade urgente de encontrar vendas que façam recuperar os investimentos. Anteontem, o jornal i (texto de Ana Rita Guerra, páginas 36 e 37) descrevia o momento actual da empresa YouTube: apesar de ser o terceiro portal mais usado na internet, a seguir ao Google e ao Yahoo!, não é rentável e os seus custos operacionais crescem: € 578 milhões anuais, com mais de € 365 milhões de prejuízo (75 mil milhões de vídeos vistos por 375 milhões de visitantes únicos por ano).

Uma das dificuldades é a colocação da publicidade nos vídeos apenas quando autorizados pelos seus autores, ao contrário de outros portais, como o Hulu (não disponível para a Europa), que tem exclusivo de filmes e séries e pode vender publicidade em todos os vídeos que disponibiliza.

O mesmo jornal analisa o fenómeno Twitter, gratuito mas não sustentável por muito mais tempo. Ferramenta de comunicação, promoção e marketing, consumiu já € 38 milhões de investimento. Escreve Ana Rita Guerra: "À medida que a base de utilizadores cresce, o Twitter consome mais largura de banda e precisa de mais recursos - que não estão a ser pagos pelos fiéis seguidores".

Ainda a mesma jornalista escreve uma terceira peça sobre "Vida e morte de uma start-up", no que me parece o texto mais sério. Cito: "O início é sempre o mesmo. Aparece uma ideia fora do vulgar, que se transforma numa microempresa. Com sorte, capta algum investimento de capital de risco (não muito comum actualmente, devido ao colapso do sistema financeiro) e lança-se na internet. Ao princípio, a adesão é fraca, protagonizada pelos early adopters. Pode mesmo recolher críticas pouco abonatórias na fase imediatamente anterior ao que os analistas chamam «pico do entusiasmo inflacionado». Esta é a fase em que o Twitter se encontra hoje. De seguida dá-se uma queda abrupta das expectativas e chega-se ao vale do desespero: ponto crítico do qual muitas start-ups nunca chegam a sair. Se conseguirem recuperar, atingem a estabilidade - aquilo a que a consultora Gartner chama service plateau -, ponto em que se tornam verdadeiramente rentáveis".

A reflexão sobre a leitura destas notícias leva-nos a considerar como complexa e dúbia a ideia de internet gratuita. Além de questionar a ideia que este meio proporcionou uma total e livre distribuição e acesso de vozes até aqui silenciadas pelos custos de produção. Os custos de actividade são suportados por alguém, e vejo três hipóteses: pagamento individual, publicidade, mecenato. O acesso livre do criador depende destas formas de pagamento, pois o investimento de capitais de risco exige contrapartidas e um tempo experimental bem determinado.

NONO ANÚNCIO DO PÚBLICO

Este é dedicado ao público do cinema, da música, do teatro e do livro, o público do "Ipsilon" (caderno semanal dedicado aqueles assuntos) (anúncio que vi na edição de ontem do jornal).

TÓPICOS DE INVESTIGAÇÃO

Tópicos para compreender as tecnologias dos media (a estudar e a desenvolver):

1) a partir de 1950, massificação dos produtos de media (como gravadores) – em empresas (profissional) e nos lares (amador). Centros de desenvolvimento nos EUA e no Japão, mas também no Reino Unido. Associação com música. Nos anos 1960, dá-se uma "revolução" na rádio – introdução da FM. Novos gostos, novas estéticas, escuta de música rock (e compra através de discos e registo em fita magnética). Entre os anos 1950 e 1960 – a introdução de computadores de empresas (mainframes, computadores que ocupam salas e com pouca memória),

2) miniaturização: transístor (1947) – peça electrónica de amplificação, circuito integrado (cerca de 1960) – centenas de transístores, chip (cerca de 1960) – conjunto de circuitos integrados; analógico e digital (transição por volta de 1970; switch-off em 2012) e cabo. Anos de 1980/1990 – passagem para o digital nos gravadores com o mp3 e mp4 (iPod) – sem fita e com memória de computador,

3) O que permite a memória do computador? Guardar sons, imagens, texto, imagens em movimento, em tempo real ou diferido (com programação). Com a internet, permite partilhar ficheiros, dando maior espaço ao trabalho colaborativo – deejays, sampling (sampler) – a partir de um original produzem-se cópias ou coisas novas (sampling): gravação, reprodução, (re)criação (manipular). Multiplicidade de fontes de conteúdos (YouTube, MySpace).

sábado, 9 de maio de 2009

CINEMA DA NIGÉRIA

CINEMA DA NIGÉRIA: ONDE POSSO VÊ-LO? foi o título de mensagem que aqui escrevi no dia 6. Ainda não havia lido o livro de António Pinto Ribeiro, À Procura da Escala, muito recentemente lançado.

Nas páginas 53 e 54 do seu livro, ele escreve sobre esse fenómeno de Nollywood: mil filmes anuais na Nigéria, com uma receita de 150 a 200 milhões de dólares, resultante da venda directa de DVD, em particular na diáspora, e a um custo de dois dólares a unidade. Se a qualidade técnica deixa reservas a António Pinto Ribeiro, ele destaca a criação de emprego, o desenvolvimento de áreas como a tradução e o início de uma indústria naquele país.

DANÇA


O Quorum Ballet recebeu o prémio de melhor companhia da dança contemporânea na primeira edição dos Prémios da Dança em Portugal.

O PAPEL DO CURADOR


Acção de formação cujo objectivo é enquadrar no contexto da gestão de projectos culturais e das exposições de arte contemporânea, em particular, a função do curador.

Informações no sítio AntiFrame.

LOUSADA

Quinta da Tapada: vinhos, queijos, quivis.

sexta-feira, 8 de maio de 2009