quarta-feira, 14 de março de 2018

Tony Judt

Da frase "Tinha tudo contra si, mas que conseguiu tornar-se um ícone da divulgação científica"), que retirei do Diário de Notícias sobre o falecimento hoje de Stephen Hawking, associei este a outro inglês, também com a doença ELA, o historiador Tony Judt.

No ano passado, li com sofreguidão um livro sobre Judt (Tony Judt - Historiador e Intelectual Público), assinado por Rui Bebiano, que não conheço pessoalmente, embora tenhamos partilhado capítulos em livro organizado por Carlos Leone, muitos anos atrás. Não vou fazer aqui uma recensão crítica, por falta de aparelhagem teórica, mas apenas elogiar o livro.

O livro tem cinco capítulos mais uma introdução e um epílogo. Nele, o historiador é apresentado na sua profissão e na de homem que escreveu artigos em jornais sobre os problemas do mundo. Rui Bebiano - que nutre uma especial empatia com Tony Judt, do mesmo modo que eu também - enfatiza muito as influências intelectuais no historiador e o seu percurso militante quando jovem. As influências maiores seriam Léon Blum, Albert Camus, Raymond Aron e George Orwell. Mas ainda Arthur Koestler, Primo Levi, Hannah Arendt, Edward Saïd, François Furet, John Maynard Keynes, Manès Sperber e Leszek Kolakowski. Alguns destes autores não conhecia ou li, mas Rui Bebiano apresenta-os de modo lento, fino e pedagógico. De alguns, aprendi que viveram em solidão e pouca influência como resultado do facto de se terem empenhado em causas públicas e mostrarem uma posição minoritária.

O capítulo que mais me interessou foi o da história e participação cívica, não tanto por esta mas mais por aquela. É um texto denso, que quase parte de Marc Bloch e entra na discussão do serviço público do historiador. Já li estas páginas várias vezes e encontro nelas sempre um novo conhecimento. Como quando escreve sobre a noção de história do tempo presente e a remoção de entraves no que Rui Bebiano designa de razões de ordem metodológica. Noto o peso da noção de longa duração, de Fernand Braudel. Aqui, sinto-me um animal pré-histórico que não está bem com a teoria de hoje, pois aprendi a gostar do mar de Mediterrâneo pelo olhar do fundador dos Annales. Li, muito depois da universidade, um autor inglês que cruzou o tempo da longa duração e a importância do acontecimento e que me tranquilizou, do tipo: o conhecimento adquirido pode ser reutilizado. O autor chama-se Paddy Scannell.

A minha nova leitura do livro do professor de Coimbra está a ser feita ao contrário, do último para o primeiro capítulo. Onde descobri a importância do capítulo sobre a obra e os projetos do historiador biografado, a viver entre o Reino Unido e os Estados Unidos, que têm, afinal, culturas diferentes, mais o olhar que Judt adquiriu quando esteve na República Checa, onde aprendeu a língua daquele país. Sem esquecer a França, onde ele fez o doutoramento, sob orientação de Annie Kriegel, e escreveu muito sobre a História do país. E da chamada de atenção a um texto de Diogo Ramada Curto, já no epílogo, onde este historiador fez uma apreciação muito negativa de Tony Judt. Quando o li, fiquei abalado nas minhas convicções, mas o livro de Bebiano sossegou-me. Entretanto, comecei a ler Um Tratado Sobre os Nossos Atuais Descontentamentos, de Tony Judt, distrai-me do livro de Bebiano, mas voltarei a ler com atenção o primeiro capítulo.

Uma curta e secundária observação: na página 163, a propósito da doença que vitimou Tony Judt, Rui Bebiano escreve que a ELA não se traduz em sinais de dor. Isso não é assim. Mas Judt, como Hawking, como o nosso cantor José Afonso, foram heróis que eu respeito muito.

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