
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
quarta-feira, 9 de novembro de 2005
O VALOR DO IMATERIAL
Lê-se no sítio galego Vieiros (de onde retirei a imagem): "O vindeiro 25 de novembro saberemos se o traballo de máis de catro anos, levado adiante en primeiro lugar pola asociación "Ponte... nas Ondas!", ten o seu merecido éxito. Ese día, a Unesco fará pública a resolución sobre a candidatura multinacional proposta baixo a denominación "As Tradicións Orais Galaico-Portuguesas: Simboloxía e apropiación do medio natural" como Obra Mestra da Humanidade. Todo un conxunto de saberes comúns, transmitidos oralmente de xeración en xeracións, sobre o que pende a ameaza da desaparición. Porén, a candidatura non só predende conservar esta tradición, senón poñela en valor. Porque do que se trata é dun patrimonio para o futuro".
UM INQUÉRITO SOBRE BLOGUES
Dinis Correia, Filipa Manha e Gonçalo Caldas estão a desenvolver um trabalho académico sobre os públicos de blogues em Portugal, para o qual foi elaborado um inquérito que se encontra publicado no sítio luscofusco.
O grupo de alunos da Universidade Católica Portuguesa agradece a colaboração de todos os leitores de blogues, pelo que devem procurar o sítio e responder.
Dinis Correia, Filipa Manha e Gonçalo Caldas estão a desenvolver um trabalho académico sobre os públicos de blogues em Portugal, para o qual foi elaborado um inquérito que se encontra publicado no sítio luscofusco.
O grupo de alunos da Universidade Católica Portuguesa agradece a colaboração de todos os leitores de blogues, pelo que devem procurar o sítio e responder.
FÃS - MODELO DE ANÁLISE
O modelo recobre um leque de opções, indo do fã mais moderado (couch potatoes) ao mais radical, que cai no excesso. Os valores intermédios de fãs activos e de fãs de culto são os que interessa estudar melhor. Destes, há a assinalar o coleccionismo e a participação em comunidades ou tribos.
O modelo recobre um leque de opções, indo do fã mais moderado (couch potatoes) ao mais radical, que cai no excesso. Os valores intermédios de fãs activos e de fãs de culto são os que interessa estudar melhor. Destes, há a assinalar o coleccionismo e a participação em comunidades ou tribos.
LIVROS SOBRE CINEMA
AA.VV. (2004). Portugal: Um Retrato Cinematográfico. Lisboa: Número-Arte e Cultura
Cordeiro, Edmundo (2004). Crónica de um Espectador. Coimbra: Angelus Novus Costa, José Filipe (2002). O cinema ao poder - A revolução do 25 de Abril e as políticas de cinema entre 1974-1976. Lisboa: Hugin
Ferreira, Carlos Melo (2004). As Poéticas do Cinema. Porto: Afrontamento
Leão, Isabel V. Ponce (coord.) (2001). Actas do Congresso Internacional Literatura, Cinema e outras Artes. Porto: Univ. Fernando Pessoa
Penafria, Manuela (1999). O filme documentário - História, Identidade, Tecnologia. Lisboa: Cosmos
Torgal, Luís Reis (coord.) (2001). O cinema sob o olhar de Salazar. Lisboa: Temas e Debates
Viveiros, Paulo (2003). A Imagem do Cinema - História, Teoria e Estética. Lisboa: Univ. Lusófona
[agradecimentos ao Professor Carlos Capucho, da UCP, pela cedência desta lista de obras]
AA.VV. (2004). Portugal: Um Retrato Cinematográfico. Lisboa: Número-Arte e Cultura
Cordeiro, Edmundo (2004). Crónica de um Espectador. Coimbra: Angelus Novus Costa, José Filipe (2002). O cinema ao poder - A revolução do 25 de Abril e as políticas de cinema entre 1974-1976. Lisboa: Hugin
Ferreira, Carlos Melo (2004). As Poéticas do Cinema. Porto: Afrontamento
Leão, Isabel V. Ponce (coord.) (2001). Actas do Congresso Internacional Literatura, Cinema e outras Artes. Porto: Univ. Fernando Pessoa
Penafria, Manuela (1999). O filme documentário - História, Identidade, Tecnologia. Lisboa: Cosmos
Torgal, Luís Reis (coord.) (2001). O cinema sob o olhar de Salazar. Lisboa: Temas e Debates
Viveiros, Paulo (2003). A Imagem do Cinema - História, Teoria e Estética. Lisboa: Univ. Lusófona
[agradecimentos ao Professor Carlos Capucho, da UCP, pela cedência desta lista de obras]
terça-feira, 8 de novembro de 2005
NÃO ESQUECER I - AMANHÃ, DIA 9
Às 23:30, na RTP 2, o debate do Clube de Jornalistas, com o título Poderão os blogues ser jornalismo? Convidados em estúdio: António Granado, jornalista do Público e criador do blogue Ponto Media, João Alferes Gonçalves, jornalista free-lance e editor do sítio do Clube de Jornalistas, e Rogério Santos, professor da Universidade Católica e criador do blogue Indústrias Culturais. A moderação é de Carla Martins.
O programa repete no dia 10, pelas 15:00 no mesmo canal.
Às 23:30, na RTP 2, o debate do Clube de Jornalistas, com o título Poderão os blogues ser jornalismo? Convidados em estúdio: António Granado, jornalista do Público e criador do blogue Ponto Media, João Alferes Gonçalves, jornalista free-lance e editor do sítio do Clube de Jornalistas, e Rogério Santos, professor da Universidade Católica e criador do blogue Indústrias Culturais. A moderação é de Carla Martins.
O programa repete no dia 10, pelas 15:00 no mesmo canal.
NÃO ESQUECER II - NO DIA 10
Encontro Falar de blogues: percursos e perspectivas, com António Granado (Ponto Media), Joana Amaral Dias (Bichos Carpinteiros), Rogério Santos (Indústrias Culturais) e Catarina Rodrigues (da organização do 2º Encontro Nacional de Blogues, realizado recentemente na Covilhã).
Na livraria Almedina, Atrium Saldanha (Praça do Duque de Saldanha, Lisboa, loja 71). Colóquio organizado por José Carlos Abrantes e Livraria Almedina.
AGENDAS CULTURAIS
Destaco os concertos e festivais de música das agendas culturais de Lisboa e Oeiras. Na capital: 1) na Aula Magna (24 a 26 de Novembro), festival de música e cultura urbana, que contará, entre outros, com Rodrigo Leão, Jacinta, Cristina Branco e Camané, 2) na Culturgest (30 de Novembro), concerto da Orquestra Sinfónica Portuguesa, integrado no festival Luís Freitas Branco. Em Oeiras, o II festival Península de Músicas, até dia 26 de Novembro, no auditório municipal Eunice Muñoz.

Destaco os concertos e festivais de música das agendas culturais de Lisboa e Oeiras. Na capital: 1) na Aula Magna (24 a 26 de Novembro), festival de música e cultura urbana, que contará, entre outros, com Rodrigo Leão, Jacinta, Cristina Branco e Camané, 2) na Culturgest (30 de Novembro), concerto da Orquestra Sinfónica Portuguesa, integrado no festival Luís Freitas Branco. Em Oeiras, o II festival Península de Músicas, até dia 26 de Novembro, no auditório municipal Eunice Muñoz.
O JORNALISMO EM PORTUGAL
Inicia-se hoje, pelas 21:00, o ciclo O Jornalismo em Portugal, em iniciativa da Editora Almedina e com coordenação do jornalista Luís Costa, conforme o comunicado que recebi. Os encontros terão lugar na Livraria Almedina, no Arrábida Shopping, em Vila Nova de Gaia. José Vítor Malheiros, director do Público On-line apresenta esta noite o tema O Jornalismo On-line.
O ciclo estender-se-á até Maio do próximo ano. Os debates seguintes, sempre às 21:00 são:
- O Jornalismo de Referência e a "Tabloidização" da Informação, com Manuel Carvalho, director-adjunto do Público (6 de Dezembro).
- Os Jornais e a Reportagem, com Adelino Gomes, redactor principal do Público (26 de Janeiro de 2006).
- Os Jornais e a Relação com os Leitores, com Manuel Pinto, provedor do leitor do Jornal de Notícias e professor de jornalismo na Universidade do Minho (23 de Fevereiro).
- O Jornalismo na Televisão, com Carlos Daniel, subdirector de Informação da RTP (23 de Março).
- O Jornalismo Político, com Eduardo Dâmaso, director-adjunto do Diário de Notícias (13 de Abril).
- O Jornalismo na Rádio, com Sarsfield Cabral, director de Informação da Rádio Renascença (11 de Maio).
Inicia-se hoje, pelas 21:00, o ciclo O Jornalismo em Portugal, em iniciativa da Editora Almedina e com coordenação do jornalista Luís Costa, conforme o comunicado que recebi. Os encontros terão lugar na Livraria Almedina, no Arrábida Shopping, em Vila Nova de Gaia. José Vítor Malheiros, director do Público On-line apresenta esta noite o tema O Jornalismo On-line.
O ciclo estender-se-á até Maio do próximo ano. Os debates seguintes, sempre às 21:00 são:
- O Jornalismo de Referência e a "Tabloidização" da Informação, com Manuel Carvalho, director-adjunto do Público (6 de Dezembro).
- Os Jornais e a Reportagem, com Adelino Gomes, redactor principal do Público (26 de Janeiro de 2006).
- Os Jornais e a Relação com os Leitores, com Manuel Pinto, provedor do leitor do Jornal de Notícias e professor de jornalismo na Universidade do Minho (23 de Fevereiro).
- O Jornalismo na Televisão, com Carlos Daniel, subdirector de Informação da RTP (23 de Março).
- O Jornalismo Político, com Eduardo Dâmaso, director-adjunto do Diário de Notícias (13 de Abril).
- O Jornalismo na Rádio, com Sarsfield Cabral, director de Informação da Rádio Renascença (11 de Maio).
O CANAL DE NOTÍCIAS EM ÁRABE DA BBC
Recupero a notícia do El Pais de domingo: a BBC prevê lançar um canal de notícias em árabe, em 2007, para concorrer com a Al-Jazira.

O projecto, apresentado por Nigel Chapman, terá três serviços em paralelo: televisão, rádio e internet, dando perspectivas diferentes da região árabe e do mundo em geral. O objectivo é claro, conquanto os dirigentes da BBC não gostem muito: a concorrência da Al-Jazira - que anunciou recentemente a criação de um canal informativo em língua inglesa - obriga o serviço público inglês a avançar com este canal. Haverá 12 horas de emissão diária captadas gratuitamente no Médio Oriente. O custo anual é estimado em €28 milhões.
Recupero a notícia do El Pais de domingo: a BBC prevê lançar um canal de notícias em árabe, em 2007, para concorrer com a Al-Jazira.
O projecto, apresentado por Nigel Chapman, terá três serviços em paralelo: televisão, rádio e internet, dando perspectivas diferentes da região árabe e do mundo em geral. O objectivo é claro, conquanto os dirigentes da BBC não gostem muito: a concorrência da Al-Jazira - que anunciou recentemente a criação de um canal informativo em língua inglesa - obriga o serviço público inglês a avançar com este canal. Haverá 12 horas de emissão diária captadas gratuitamente no Médio Oriente. O custo anual é estimado em €28 milhões.
LANÇADA A PRIMEIRA ESTAÇÃO DE TELEVISÃO EM ESPERANTO
Segundo informou ontem o blogue Media Network Weblog, foi lançado, no último fim-de-semana, Internacia Televido, o primeiro canal de televisão na internet em esperanto. Espera-se que 60% da audiência do canal provenha de europeua, americanos e japoneses.
No arranque, há 1,5 hora diária de emissão, com três empregados a tempo inteiro. A proposta inicial apontava para quatro horas diárias e dez postos de trabalho. A expansão pode ocorrer desde que haja financiamentos publicitários e doações privadas. Neste momento, a estação tem garantido financiamento para seis meses.
A Internacia Televido não é a primeira experiência em esperanto na televisão. O Partido Radical italiano teve a ideia mas nunca chegou a emitir. Algumas empresas de audiovisual emitem programas em esperanto, casos da Rádio China Internacional e da Rádio Polónia.
Segundo informou ontem o blogue Media Network Weblog, foi lançado, no último fim-de-semana, Internacia Televido, o primeiro canal de televisão na internet em esperanto. Espera-se que 60% da audiência do canal provenha de europeua, americanos e japoneses.
No arranque, há 1,5 hora diária de emissão, com três empregados a tempo inteiro. A proposta inicial apontava para quatro horas diárias e dez postos de trabalho. A expansão pode ocorrer desde que haja financiamentos publicitários e doações privadas. Neste momento, a estação tem garantido financiamento para seis meses.
A Internacia Televido não é a primeira experiência em esperanto na televisão. O Partido Radical italiano teve a ideia mas nunca chegou a emitir. Algumas empresas de audiovisual emitem programas em esperanto, casos da Rádio China Internacional e da Rádio Polónia.
SOBRE OS FÃS
[Embora já tenha escrito aqui sobre o tema, produzo agora uma versão mais digerida].
A palavra fã vem do inglês americano fan, abreviatura de fanatic (fanático) e significa alguém que nutre uma admiração especial por um artista de cinema, televisão, música ou outra indústria cultural. Contudo, eu não partilho desta visão de fã, pois há comportamentos moderados relativamente ao objecto de que se é fã (fandom, em inglês), que não nos leva para a radicalidade de um obcecado.
Encontro, assim, dois tipos fundamentais de fãs: 1) passivo, e 2) activo. Ambos têm uma relação de fantasia com a vedeta que idolatram (Jensen, 2003). O fã passivo colecciona discos, concertos e entrevistas em revistas, mas não estabelece uma relação profunda com outros elementos. Já o fã activo, para além do estatuto de admirador do objecto de que é fã, articula-se com outros fãs e: 1) interpreta os textos mediáticos numa variedade de perspectivas interessantes e mesmo inesperadas, e 2) participa em actividades comunitárias (Hills, 2002: ix).

A literatura sobre o tema associa o fã a imagens do desviante, um potencial fanático. Segundo Hills (2002: ix), de acordo com essa perspectiva, o fã é alguém obcecado com uma estrela em particular, uma celebridade, um filme, um programa de televisão, uma banda musical; alguém que pode produzir muita informação sobre o seu objecto de fã, e pode citar as suas letras [poesia] favoritas, capítulo ou verso. Joli Jensen (2003) comenta esta definição simplória que o senso comum formulou há muito e produz uma explicação social e psicológica do fã na modernidade. Por regra, os fãs são vistos como "eles", os "outros", perigosos e irracionais, em oposição a "nós" ou "pessoas como nós" (os estudantes, os professores, os críticos).
Definir o fã [fandom] não tem sido tarefa fácil, apesar do quotidiano da palavra. Podemos colocar o fã, o "cultista" e o "entusiasta" num espectro de identidades e experiências, distinguindo-as entre si e ligando-as por uma especialização de interesses, organização social de interesses e produtividade material que faz mover do fã para o cultista e para o entusiasta. O "cultista" parece-se com o fã; o fã é caracterizado por uma falta de organização social (fala-se das crianças como fãs). Também a tentativa de separar o cultista e o entusiasta causa problemas, dado que uma distinção é se o interesse do fã é derivado dos media (=cultista) ou não (=entusiasta). Uma distinção parcial entre fã de culto e fã relaciona-se não com a intensidade, organização social ou produtividade semiótica/material no que diz respeito ao fã, mas mais com a duração, especialmente na ausência de material "novo" ou oficial no meio de origem.
Nos anos de 1950, associaram-se imagens de adolescentes com fãs do rock’n’roll (Joli Jensen, 2003). Ao ler notícias sobre música popular, tornar-se-ia vulgar surgirem imagens de violência, bebidas, droga, sexo e questões raciais. O heavy metal seria outro dos géneros de música juvenil violenta, ligando-se a cultos satânicos. Mas a violência incontrolável dos fãs também aparece no desporto, caso do hooliganismo. Caracteriza-se o fã como rápido aderente a comportamentos violentos e destrutivos.
Tenho de reconhecer, como faz Joli Jensen no seu texto, que todos nós – mesmo os mais racionais ou "cinzentos" – somos fãs de alguma coisa: 1) do futebol (e leva-se um cachecol, uma camisola, uma bandeira ou outro adereço qualquer), 2) da ciência e literatura (compramos tudo que diga respeito a um autor: os seus livros, as biografias sobre ele, as suas entrevistas, ou a sua assinatura no lançamento de um livro), 3) do coleccionismo (selos, borboletas ou outro hóbi qualquer).
Leituras: Joli Jensen (2003). "Fandom as pathology: the consequences of characterization". In Lisa A. Lewis (ed.) The adoring audience. Fan culture ans popular media. Londres e Nova Iorque: Routledge
Matt Hills (2002). Fan cultures. Londres e Nova Iorque: Routledge
[Embora já tenha escrito aqui sobre o tema, produzo agora uma versão mais digerida].
A palavra fã vem do inglês americano fan, abreviatura de fanatic (fanático) e significa alguém que nutre uma admiração especial por um artista de cinema, televisão, música ou outra indústria cultural. Contudo, eu não partilho desta visão de fã, pois há comportamentos moderados relativamente ao objecto de que se é fã (fandom, em inglês), que não nos leva para a radicalidade de um obcecado.
Encontro, assim, dois tipos fundamentais de fãs: 1) passivo, e 2) activo. Ambos têm uma relação de fantasia com a vedeta que idolatram (Jensen, 2003). O fã passivo colecciona discos, concertos e entrevistas em revistas, mas não estabelece uma relação profunda com outros elementos. Já o fã activo, para além do estatuto de admirador do objecto de que é fã, articula-se com outros fãs e: 1) interpreta os textos mediáticos numa variedade de perspectivas interessantes e mesmo inesperadas, e 2) participa em actividades comunitárias (Hills, 2002: ix).
Definir o fã [fandom] não tem sido tarefa fácil, apesar do quotidiano da palavra. Podemos colocar o fã, o "cultista" e o "entusiasta" num espectro de identidades e experiências, distinguindo-as entre si e ligando-as por uma especialização de interesses, organização social de interesses e produtividade material que faz mover do fã para o cultista e para o entusiasta. O "cultista" parece-se com o fã; o fã é caracterizado por uma falta de organização social (fala-se das crianças como fãs). Também a tentativa de separar o cultista e o entusiasta causa problemas, dado que uma distinção é se o interesse do fã é derivado dos media (=cultista) ou não (=entusiasta). Uma distinção parcial entre fã de culto e fã relaciona-se não com a intensidade, organização social ou produtividade semiótica/material no que diz respeito ao fã, mas mais com a duração, especialmente na ausência de material "novo" ou oficial no meio de origem.
Nos anos de 1950, associaram-se imagens de adolescentes com fãs do rock’n’roll (Joli Jensen, 2003). Ao ler notícias sobre música popular, tornar-se-ia vulgar surgirem imagens de violência, bebidas, droga, sexo e questões raciais. O heavy metal seria outro dos géneros de música juvenil violenta, ligando-se a cultos satânicos. Mas a violência incontrolável dos fãs também aparece no desporto, caso do hooliganismo. Caracteriza-se o fã como rápido aderente a comportamentos violentos e destrutivos.
Tenho de reconhecer, como faz Joli Jensen no seu texto, que todos nós – mesmo os mais racionais ou "cinzentos" – somos fãs de alguma coisa: 1) do futebol (e leva-se um cachecol, uma camisola, uma bandeira ou outro adereço qualquer), 2) da ciência e literatura (compramos tudo que diga respeito a um autor: os seus livros, as biografias sobre ele, as suas entrevistas, ou a sua assinatura no lançamento de um livro), 3) do coleccionismo (selos, borboletas ou outro hóbi qualquer).
Leituras: Joli Jensen (2003). "Fandom as pathology: the consequences of characterization". In Lisa A. Lewis (ed.) The adoring audience. Fan culture ans popular media. Londres e Nova Iorque: Routledge
Matt Hills (2002). Fan cultures. Londres e Nova Iorque: Routledge
segunda-feira, 7 de novembro de 2005
O DEBATE DA TELEVISÃO NO ESPAÇO PÚBLICO
Hoje, no jornal Público, nove investigadores do departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, encabeçados por Moisés de Lemos Martins, escrevem sobre o processo em curso de renovação das licenças de televisão.
Dizem os investigadores no ponto 2 do seu texto: "Quinze anos depois [da atribuição de licenças], que avaliação se faz da oferta televisiva da SIC e da TVI? Que estudos foram feitos para essa ponderação [em termos de equilíbrio qualitativo da programação]? Com que base científica? Segundo que critérios? Com que auscultação dos cidadãos"? E, no ponto 3 do mesmo artigo, perguntam: "De que forma têm a SIC e a TVI cumprido estas obrigações [convivência cívica, contribuição para o pluralismo político, social e cultural, promoção da cultura e da língua portuguesa], nomeadamente no horário nobre, que é a franja que abrange maior número e mais diversidade de telespectadores para os quais as estações generalistas trabalham"?
Os nove investigadores da Universidade do Minho não concordam com o secretismo e a "espiral de silêncios que inviabilizam qualquer participação das mais diversas entidades" [leia-se: associações e grupos de cidadãos]. Para os que assinam o texto, é "lícito esperar que a entidade formalmente responsável pela decisão sobre a renovação das licenças auscultasse a opinião pública e não se confinasse ao silêncio dos seus gabinetes".
O blogueiro, enquanto cidadão atento a estas coisas, concorda com os investigadores da Universidade do Minho. A televisão é um importante bem público, pelo que nos devemos preocupar conscientemente com o seu rumo.
Hoje, no jornal Público, nove investigadores do departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, encabeçados por Moisés de Lemos Martins, escrevem sobre o processo em curso de renovação das licenças de televisão.
Dizem os investigadores no ponto 2 do seu texto: "Quinze anos depois [da atribuição de licenças], que avaliação se faz da oferta televisiva da SIC e da TVI? Que estudos foram feitos para essa ponderação [em termos de equilíbrio qualitativo da programação]? Com que base científica? Segundo que critérios? Com que auscultação dos cidadãos"? E, no ponto 3 do mesmo artigo, perguntam: "De que forma têm a SIC e a TVI cumprido estas obrigações [convivência cívica, contribuição para o pluralismo político, social e cultural, promoção da cultura e da língua portuguesa], nomeadamente no horário nobre, que é a franja que abrange maior número e mais diversidade de telespectadores para os quais as estações generalistas trabalham"?
Os nove investigadores da Universidade do Minho não concordam com o secretismo e a "espiral de silêncios que inviabilizam qualquer participação das mais diversas entidades" [leia-se: associações e grupos de cidadãos]. Para os que assinam o texto, é "lícito esperar que a entidade formalmente responsável pela decisão sobre a renovação das licenças auscultasse a opinião pública e não se confinasse ao silêncio dos seus gabinetes".
O blogueiro, enquanto cidadão atento a estas coisas, concorda com os investigadores da Universidade do Minho. A televisão é um importante bem público, pelo que nos devemos preocupar conscientemente com o seu rumo.
MAKI KAJI, O PAI DO SUDOKU
Retiro a imagem da capa do "Magazine" (revista dominical do El Mundo) de ontem, que nos conta a história deste japonês de 53 anos, que gosta de beber e gasta a sua fortuna em corridas de cavalos, casinos e viagens pelo mundo.
O seu escritório é em Tóquio e a sua empresa chama-se Nikoli, nome de um cavalo de puro sangue. A empresa, que tivera um começo modesto, ocupa agora cinco andares de um edifício alto. Diz o texto assinado por Arturo Escandón (e fotografias de Dave Coll) que, à medida que as empresas crescem em facturação, ocupam mais andares, podendo mesmo engulir edifícios inteiros. O andar da criação do Sudoku é o quinto - uma sala ampla sem divisórias e que lembra o ambiente do filme Matrix.
Kaji já passou por Las Vegas, a capital do jogo, onde atirou dez mil dólares pela janela fora, e pelo Uruguai, nos anos 1980, por causa das corridas de cavalos. Aqui, apostou num cavalo chamado Nikoli. O cavalo perdeu a corrida mas o japonês gostou do nome. Naquele tempo, apesar desta vida venturosa, era um assalariado que trabalhava numa editora. Em 1978, um amigo trouxe-lhe uma revista de palavras cruzadas (ou um jogo parecido), o que o encantou. Foi então que começou a editar uma revista de puzzles, a Nikoli. A tiragem inicial era de 500 exemplares.
Em 1984, numa viagem aos Estados Unidos, descobriu na revista de passatempos Dell um jogo, "Number place", o antecessor do Sudoku. Kaji não sabia ler inglês, e não precisava de o fazer para completar o puzzle. Fez umas pequenas alterações, caso da ordem simétrica, e, em 1986, começou a editar o jogo na sua revista de sempre, a Nikoli.
Dos conselhos que se dão a um jogador de sudoku incluem-se a atenção e a dedução. A melhor estratégia é não ter estratégia mas desenvolver técnicas pessoais. O prazer em resolver o enigma é outra das características do jogo. Maki Kaji diz que é um erro pensar o sudoku como um meio para desenvolver capacidades mentais ou praticar o jogo para fins educativos. Passatempo e ócio envolvem-se, ainda segundo o criador do jogo, com o ideal oriental taoista e o bem-estar e tranquilidade pessoal.
A febre mundial é deste ano de 2005. Assim, se em 2004, o blogue foi a palavra do ano, este ano será, no meu entendimento, o sudoku.
Retiro a imagem da capa do "Magazine" (revista dominical do El Mundo) de ontem, que nos conta a história deste japonês de 53 anos, que gosta de beber e gasta a sua fortuna em corridas de cavalos, casinos e viagens pelo mundo.
Kaji já passou por Las Vegas, a capital do jogo, onde atirou dez mil dólares pela janela fora, e pelo Uruguai, nos anos 1980, por causa das corridas de cavalos. Aqui, apostou num cavalo chamado Nikoli. O cavalo perdeu a corrida mas o japonês gostou do nome. Naquele tempo, apesar desta vida venturosa, era um assalariado que trabalhava numa editora. Em 1978, um amigo trouxe-lhe uma revista de palavras cruzadas (ou um jogo parecido), o que o encantou. Foi então que começou a editar uma revista de puzzles, a Nikoli. A tiragem inicial era de 500 exemplares.
Em 1984, numa viagem aos Estados Unidos, descobriu na revista de passatempos Dell um jogo, "Number place", o antecessor do Sudoku. Kaji não sabia ler inglês, e não precisava de o fazer para completar o puzzle. Fez umas pequenas alterações, caso da ordem simétrica, e, em 1986, começou a editar o jogo na sua revista de sempre, a Nikoli.
Dos conselhos que se dão a um jogador de sudoku incluem-se a atenção e a dedução. A melhor estratégia é não ter estratégia mas desenvolver técnicas pessoais. O prazer em resolver o enigma é outra das características do jogo. Maki Kaji diz que é um erro pensar o sudoku como um meio para desenvolver capacidades mentais ou praticar o jogo para fins educativos. Passatempo e ócio envolvem-se, ainda segundo o criador do jogo, com o ideal oriental taoista e o bem-estar e tranquilidade pessoal.
A febre mundial é deste ano de 2005. Assim, se em 2004, o blogue foi a palavra do ano, este ano será, no meu entendimento, o sudoku.
N8OHX
Trata-se de uma dança da companhia Pisando Ovos, da Corunha, composta por David Loira e Rut Balbís, estreada em Maio passado e que agora vi em Santiago de Compostela.


Em meados da década passada, os dois conheceram-se quando estudavam Ciências da Actividade Física e do Desporto, partilhando interesses, atraídos pela acrobacia, teatro e dança. Após a licenciatura, continuaram a estudar em Londres (London Contemporary Dance School), onde se especializaram em dança contemporânea e coreografia. Rut reparte o seu tempo dando aula de dança contemporânea e preparando o doutoramento. David pertence ao Caramuxo Teatro.



A dança que apresentam actualmente fala-nos de um mundo de mutantes, que procuram aprender a conviver e a amar. A obra, enquanto arte criativa, vê-se contaminada pelas indústrias culturais, pois há muito da memória cinematográfica (Minority report, por exemplo) e do texto de Mary Shelley, Frankenstein - seres humanos criados por outros seres humanos, a quem faltam coordenação, emoções e sentido equilibrado da solidariedade e da paixão.
O teatro Galán, onde a dança foi apresentada, faz parte de uma série de salas alternativas de teatro existente em Espanha desde 1992. Actualmente, compõe-se de 26 teatros de oito comunidades autónomas, incluindo a Galiza. Esta rede de teatros - espaços pequenos ou médios - procura a difusão e promoção do teatro, da dança contemporânea e do património cultural comum, dentro do conceito de indústrias criativas como aqui tenho defendido.
Trata-se de uma dança da companhia Pisando Ovos, da Corunha, composta por David Loira e Rut Balbís, estreada em Maio passado e que agora vi em Santiago de Compostela.
Em meados da década passada, os dois conheceram-se quando estudavam Ciências da Actividade Física e do Desporto, partilhando interesses, atraídos pela acrobacia, teatro e dança. Após a licenciatura, continuaram a estudar em Londres (London Contemporary Dance School), onde se especializaram em dança contemporânea e coreografia. Rut reparte o seu tempo dando aula de dança contemporânea e preparando o doutoramento. David pertence ao Caramuxo Teatro.
A dança que apresentam actualmente fala-nos de um mundo de mutantes, que procuram aprender a conviver e a amar. A obra, enquanto arte criativa, vê-se contaminada pelas indústrias culturais, pois há muito da memória cinematográfica (Minority report, por exemplo) e do texto de Mary Shelley, Frankenstein - seres humanos criados por outros seres humanos, a quem faltam coordenação, emoções e sentido equilibrado da solidariedade e da paixão.
O teatro Galán, onde a dança foi apresentada, faz parte de uma série de salas alternativas de teatro existente em Espanha desde 1992. Actualmente, compõe-se de 26 teatros de oito comunidades autónomas, incluindo a Galiza. Esta rede de teatros - espaços pequenos ou médios - procura a difusão e promoção do teatro, da dança contemporânea e do património cultural comum, dentro do conceito de indústrias criativas como aqui tenho defendido.
ALTA SAPATARIA
O texto vinha em La Voz de Galicia de sábado passado: o espanhol (de ascendência checa) Manolo Blahnik é o segundo desenhador mais influente na actualidade, segundo a revista Forbes, a seguir a Christopher Bailey mas à frente de Dolce & Gabbana e Miuccia Prada.

Diz o artigo que Blahnik foi trabalhar em sapataria por acaso. Estudou direito na Suíça e belas-artes em Paris. A recomendação de uma editora da Vogue nos Estados Unidos é que o levou para a sua vocação. Abriu uma loja em Londres na década de 1970, tendo contado como clientes Jacqueline Kennedy e a princesa Diana. Factura por ano mais de 75 milhões de dólares. Com preços que oscilam entre 500 e 2500 dólares, cada peça de Blahnik é única, escreve o jornal, e passa por cinquenta processos antes de ir para a montra.
Só o ano passado, o alto sapateiro foi objecto de 1629 reportagens apenas na imprensa norte-americana.
O texto vinha em La Voz de Galicia de sábado passado: o espanhol (de ascendência checa) Manolo Blahnik é o segundo desenhador mais influente na actualidade, segundo a revista Forbes, a seguir a Christopher Bailey mas à frente de Dolce & Gabbana e Miuccia Prada.
Diz o artigo que Blahnik foi trabalhar em sapataria por acaso. Estudou direito na Suíça e belas-artes em Paris. A recomendação de uma editora da Vogue nos Estados Unidos é que o levou para a sua vocação. Abriu uma loja em Londres na década de 1970, tendo contado como clientes Jacqueline Kennedy e a princesa Diana. Factura por ano mais de 75 milhões de dólares. Com preços que oscilam entre 500 e 2500 dólares, cada peça de Blahnik é única, escreve o jornal, e passa por cinquenta processos antes de ir para a montra.
Só o ano passado, o alto sapateiro foi objecto de 1629 reportagens apenas na imprensa norte-americana.
ATÉ LOGUINHO
Para além da conferência sobre indústrias culturais, o blogueiro procurou descobrir o que a cidade de Santiago de Compostela oferecia. Encontrou duas senhoras metálicas divertidas, resolvendo dar um passeio. Mas elas não gostaram muito da companhia e a conversa ficou por ali.

No dia seguinte, ainda as vi, mas preferi dizer "até loguinho" (expressão que ouvi com frequência na rádio galega, cheia de tertúlias e de música de origem celta).
Para além da conferência sobre indústrias culturais, o blogueiro procurou descobrir o que a cidade de Santiago de Compostela oferecia. Encontrou duas senhoras metálicas divertidas, resolvendo dar um passeio. Mas elas não gostaram muito da companhia e a conversa ficou por ali.
No dia seguinte, ainda as vi, mas preferi dizer "até loguinho" (expressão que ouvi com frequência na rádio galega, cheia de tertúlias e de música de origem celta).
domingo, 6 de novembro de 2005
FRIDA KAHLO EM SANTIAGO DE COMPOSTELA
Depois de ter visto a sua pintura em Londres, o reencontro foi uma boa surpresa.
Em Santiago de Compostela, numa colaboração entre a Fundación Caixa Galicia e o Museu Dolores Olmedo (México), a exposição prolonga-se até 20 de Janeiro de 2006. Não é espectacular como a da Tate Modern - e sobre a qual escrevi no passado dia 14 de Agosto -, mas permite um olhar mais íntimo, apoiado por um belo livro cujo título é o nome da pintora mexicana e comissariado por Josefina Garcia H.
De realce a exposição no rés-do-chão do edifício onde se mostra Kahlo, uma recordação da cultura (religiosa e etnográfica) do país da pintora, como as imagens seguintes mostram.


Em Santiago de Compostela, numa colaboração entre a Fundación Caixa Galicia e o Museu Dolores Olmedo (México), a exposição prolonga-se até 20 de Janeiro de 2006. Não é espectacular como a da Tate Modern - e sobre a qual escrevi no passado dia 14 de Agosto -, mas permite um olhar mais íntimo, apoiado por um belo livro cujo título é o nome da pintora mexicana e comissariado por Josefina Garcia H.
De realce a exposição no rés-do-chão do edifício onde se mostra Kahlo, uma recordação da cultura (religiosa e etnográfica) do país da pintora, como as imagens seguintes mostram.
AS MINHAS NOTAS DO II SIMPÓSIO O LIBRO E A LECTURA (SANTIAGO DE COMPOSTELA, 3 E 4 DE NOVEMBRO)
Realizou-se, nas passadas quinta e sexta-feira, o simpósio organizado pela Asociación Galega de Editores sob o tema O libro e a lectura, no Consello da Cultura Galega, em Santiago de Compostela (edifício abaixo fotografado). O simpósio contou com a presença de quase cem participantes, entre editores, profissionais como bibliotecários e documentalistas, jornalistas e professores e estudantes de filologia galega, vindos de Santiago de Compostela, Ourense, Vigo e Corunha, mas também de cidades como Madrid, Barcelona e Bilbau.

Por razões de ordem profissional, só participei no segundo dia de trabalhos [reproduzo, de seguida, a cópia do texto publicado no El Correio Galego no dia 4, dia inicial do simpósio (os dois outros recortes sairam ontem, respectivamente no El Correio Galego e em La Voz de Galicia)].



Sobre a minha comunicação
Copio o que Manuel Bragado, do blogue Brétemas [a quem profundamente agradeço o convite para participar], escreveu sobre a minha comunicação:
"O futuro das Industrias Culturais
"O profesor Rogerio Santos ofreceu unha documentadísima conferencia, no inicio da segunda xornada do Simposio, sobre o impacto das Novas Tecnoloxías sobre as Industrias Culturais. Foi moi de agradecer que Rogerio analizase o concepto de Industria Cultural, a partir do concepto acuñado por Adorno ("a mercantilización da cultura, a través do desenvolvemento tecnolóxico") e os seguidores da Escola de Frankfurt, establecendo unha distinción moi oportuna entre os conceptos de "mercadoría cultural" e "cultura de fluxo", tamén acuñados por Zallo, como "edición discontinua" e "difusión continua". Na miña opinión, tamén, foron relevantes as súas análises sobre os diferentes modelos empresarias das industrias culturais (e o impacto das fusións sobre o emprego), os conceptos de "cadea de valor" e de "Industrias Creativas" e a súa contribución ao PIB (4% en España, 10% no Reino Unido), ou da diferenza entre orixinal e copia.
"Rogerio propuxo as seguintes conclusións:
1. As Industrias Culturais mudan o coñecemento que temos do mundo, pola información que nos achegan.
2. Por mor da dixitalización produciuse unha rápida transformación da estrutura dos negocios das diversas Industrias Culturais.
3. As Industrias Culturais son hoxe actividades económicas fundamentais para a a vida produtiva dos países.
4. Hoxe existe unha mestura entre os conceptos de "orixinal" e "copia". Non existen diferenzas entre eles, o que require a construción dun novo edificio legal para abordar a cuestión dos dereitos de autor.
5. Algunhas Industrias Culturais pretenden combinar nos seus catálogos produtos máis rendibles con outros de menor audiencia para manter a súa lexitimidade.
6. Nas Industrias Culturais é imprescindible a asociación de innovación e risco.
7. Internet configúrase hoxe como un espazo de resistencia".
Os blogues, a literatura e a sua importância na língua galega
Numa das mesas redondas a que assisti (última imagem) - intitulada Os blos e a creación cultural -, foi-me dado conhecer a importância dos blogues na cultura e na língua galegas. Um dos intervenientes, Xabier Cid (jornalista), olha os blogues [blo na linda e simples adaptação da palavra à língua galega] como um subsistema literário. Na mesa, chegou-se mesmo a recomendar que os mais importantes blogues ficassem incluídos no anuário literário galego deste ano.


A Galiza, com cerca de 2,5 milhões de habitantes (e um milhão na diáspora, nomeadamente na Argentina), edita perto de 1500 livros por ano na sua língua, sendo que 1200 são da iniciativa de editoras privadas [por comparação, a Catalunha edita anualmente sete mil e Portugal menos de cinco mil livros]. A maior incidência dos livros ocorre nas áreas infanto-juvenil e na literatura, e menos nas ciências sociais. Há um total de 34 editoras, diferentes em tamanho e impacto em objectivos e vendas. Em termos de outras indústrias culturais, a Galiza tem rádio e televisão públicas e produz três a quatro longas-metragens por ano.
Observação: o blogue Brétemas contém uma informação muito completa de todo o simpósio. Do que ouvi e me pareceu importante, destaco a comunicação de Leovigildo García Bobadilla sobre os direitos de autor e as novas tecnologias, tema fundamental nos nossos dias, pois já vivemos na cultura digital.
Realizou-se, nas passadas quinta e sexta-feira, o simpósio organizado pela Asociación Galega de Editores sob o tema O libro e a lectura, no Consello da Cultura Galega, em Santiago de Compostela (edifício abaixo fotografado). O simpósio contou com a presença de quase cem participantes, entre editores, profissionais como bibliotecários e documentalistas, jornalistas e professores e estudantes de filologia galega, vindos de Santiago de Compostela, Ourense, Vigo e Corunha, mas também de cidades como Madrid, Barcelona e Bilbau.
Por razões de ordem profissional, só participei no segundo dia de trabalhos [reproduzo, de seguida, a cópia do texto publicado no El Correio Galego no dia 4, dia inicial do simpósio (os dois outros recortes sairam ontem, respectivamente no El Correio Galego e em La Voz de Galicia)].
Sobre a minha comunicação
Copio o que Manuel Bragado, do blogue Brétemas [a quem profundamente agradeço o convite para participar], escreveu sobre a minha comunicação:
"O futuro das Industrias Culturais
"O profesor Rogerio Santos ofreceu unha documentadísima conferencia, no inicio da segunda xornada do Simposio, sobre o impacto das Novas Tecnoloxías sobre as Industrias Culturais. Foi moi de agradecer que Rogerio analizase o concepto de Industria Cultural, a partir do concepto acuñado por Adorno ("a mercantilización da cultura, a través do desenvolvemento tecnolóxico") e os seguidores da Escola de Frankfurt, establecendo unha distinción moi oportuna entre os conceptos de "mercadoría cultural" e "cultura de fluxo", tamén acuñados por Zallo, como "edición discontinua" e "difusión continua". Na miña opinión, tamén, foron relevantes as súas análises sobre os diferentes modelos empresarias das industrias culturais (e o impacto das fusións sobre o emprego), os conceptos de "cadea de valor" e de "Industrias Creativas" e a súa contribución ao PIB (4% en España, 10% no Reino Unido), ou da diferenza entre orixinal e copia.
"Rogerio propuxo as seguintes conclusións:
1. As Industrias Culturais mudan o coñecemento que temos do mundo, pola información que nos achegan.
2. Por mor da dixitalización produciuse unha rápida transformación da estrutura dos negocios das diversas Industrias Culturais.
3. As Industrias Culturais son hoxe actividades económicas fundamentais para a a vida produtiva dos países.
4. Hoxe existe unha mestura entre os conceptos de "orixinal" e "copia". Non existen diferenzas entre eles, o que require a construción dun novo edificio legal para abordar a cuestión dos dereitos de autor.
5. Algunhas Industrias Culturais pretenden combinar nos seus catálogos produtos máis rendibles con outros de menor audiencia para manter a súa lexitimidade.
6. Nas Industrias Culturais é imprescindible a asociación de innovación e risco.
7. Internet configúrase hoxe como un espazo de resistencia".
Os blogues, a literatura e a sua importância na língua galega
Numa das mesas redondas a que assisti (última imagem) - intitulada Os blos e a creación cultural -, foi-me dado conhecer a importância dos blogues na cultura e na língua galegas. Um dos intervenientes, Xabier Cid (jornalista), olha os blogues [blo na linda e simples adaptação da palavra à língua galega] como um subsistema literário. Na mesa, chegou-se mesmo a recomendar que os mais importantes blogues ficassem incluídos no anuário literário galego deste ano.
A Galiza, com cerca de 2,5 milhões de habitantes (e um milhão na diáspora, nomeadamente na Argentina), edita perto de 1500 livros por ano na sua língua, sendo que 1200 são da iniciativa de editoras privadas [por comparação, a Catalunha edita anualmente sete mil e Portugal menos de cinco mil livros]. A maior incidência dos livros ocorre nas áreas infanto-juvenil e na literatura, e menos nas ciências sociais. Há um total de 34 editoras, diferentes em tamanho e impacto em objectivos e vendas. Em termos de outras indústrias culturais, a Galiza tem rádio e televisão públicas e produz três a quatro longas-metragens por ano.
Observação: o blogue Brétemas contém uma informação muito completa de todo o simpósio. Do que ouvi e me pareceu importante, destaco a comunicação de Leovigildo García Bobadilla sobre os direitos de autor e as novas tecnologias, tema fundamental nos nossos dias, pois já vivemos na cultura digital.
quarta-feira, 2 de novembro de 2005
II SIMPOSIO O LIBRO E A LECTURA (SANTIAGO DE COMPOSTELA, 3 E 4 DE NOVEMBRO)
Mais de 30 especialistas debaterão o livro e as novas tecnologias, conforme se lê no sítio da Asociación Galega de Editores, com o patrocinio da CEDRO e a colaboração do Consello da Cultura Galega. O encontro ocorrerá nos dias 3 e 4 de Novembro, no Consello da Cultura Galega, em Santiago de Compostela.
O II Simpósio reúne especialistas e profissionais ligados ao sector do livro e das novas tecnologias, discutindo-se os desafios futuros da indústria editorial, com incidência nas novas tecnologias no desenvolvimento do sector e na edição em língua galega.
Conforme o sítio Asociación Galega de Editores, participarão José Antonio Millán (editor), Catuxa Seoane (documentalista), Juan Blanco Valdés (Servizo Publicacións Universidade de Santiago), Manuel Gago (editor de culturagalega.org), Jacobo Bermejo (impressor), Joan Badía Solé (Xerox España), José María Barandiarán (consultor), Diego Vázquez Rey (Imaxin Software), María Gómez Bravo (Galinus), Carme García Mateo (Grupo de Tecnoloxías do Sinal, U. de Vigo), Manuel Martínez Barreiro (Acordar), Rogério Santos (Universidade Católica, Lisboa), Laura Tato (Biblioteca Virtual, U. da Coruña), Santiago Jaureguízar (jornalista e escritor), Leovigildo García Bobadilla (assessoria jurídica do grupo Filmax), Francisco Castro (escritor), Uxía Casal (escritora), Xavier Cid (jornalista), Óscar Sánchez (físico) e María Yáñez (jornalista), entre outros.
O II Simpósio reúne especialistas e profissionais ligados ao sector do livro e das novas tecnologias, discutindo-se os desafios futuros da indústria editorial, com incidência nas novas tecnologias no desenvolvimento do sector e na edição em língua galega.
Conforme o sítio Asociación Galega de Editores, participarão José Antonio Millán (editor), Catuxa Seoane (documentalista), Juan Blanco Valdés (Servizo Publicacións Universidade de Santiago), Manuel Gago (editor de culturagalega.org), Jacobo Bermejo (impressor), Joan Badía Solé (Xerox España), José María Barandiarán (consultor), Diego Vázquez Rey (Imaxin Software), María Gómez Bravo (Galinus), Carme García Mateo (Grupo de Tecnoloxías do Sinal, U. de Vigo), Manuel Martínez Barreiro (Acordar), Rogério Santos (Universidade Católica, Lisboa), Laura Tato (Biblioteca Virtual, U. da Coruña), Santiago Jaureguízar (jornalista e escritor), Leovigildo García Bobadilla (assessoria jurídica do grupo Filmax), Francisco Castro (escritor), Uxía Casal (escritora), Xavier Cid (jornalista), Óscar Sánchez (físico) e María Yáñez (jornalista), entre outros.
SOLIDARIEDADE
Fazendo eco de um pedido de Leonel Vicente, para quem um conjunto de blogueiros "decidiu reunir-se num projecto comum (Proximizade), visando potenciar as virtudes da blogosfera, no sentido de «aproximar uma mão amiga» (que será a de todos os que decidam de alguma forma apoiar / colaborar com este projecto) dessas pessoas carenciadas. Como primeiro gesto prático e concreto, o Proximizade começou por «apadrinhar» uma criança carenciada em Moçambique, a Berta, de 3 anos".
Embora não esteja dentro da linha editorial do Indústrias Culturais, mas porque me parece ser de acarinhar o projecto, deixo aqui o teor da mensagem deixada por Leonel Vicente:
Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê. Aqui, já está a acontecer.
HÁ
Pessoas que precisam, invisíveis. E pessoas que têm muito para dar, quando não desperdiçam. Tempo, motivação, consciência. E dinheiro, também.
Entre este binómio, uma via de comunicação. A blogosfera, internet no seu melhor quando o que se escreve e o que se lê tendem a conjugar-se no verbo aproximar.
Dois mundos nos antípodas, um vítima dos excessos e outro à míngua das suas migalhas. Gente com fome, crianças, que sobrevivem apenas para ganharem forças para fugir à miséria. Rumo ao lado de cá, que os recusa.
A caridade já não basta e é necessária intervenção. Amizade em estado puro, reunida por gente que bloga em torno de um objectivo comum: fomentar a generosidade como uma urgência e canalizá-la para as melhores mãos (as mais necessitadas).
Proximidade e mão amiga. Proximizade, feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que sabe e ao que se vê. E ao que se deixa por sentir.
Nós sentimos assim. E acreditamos numa sociedade que quer sentir da mesma forma e intervir sem demora.
Aqui, já está a acontecer.
Fazendo eco de um pedido de Leonel Vicente, para quem um conjunto de blogueiros "decidiu reunir-se num projecto comum (Proximizade), visando potenciar as virtudes da blogosfera, no sentido de «aproximar uma mão amiga» (que será a de todos os que decidam de alguma forma apoiar / colaborar com este projecto) dessas pessoas carenciadas. Como primeiro gesto prático e concreto, o Proximizade começou por «apadrinhar» uma criança carenciada em Moçambique, a Berta, de 3 anos".
Embora não esteja dentro da linha editorial do Indústrias Culturais, mas porque me parece ser de acarinhar o projecto, deixo aqui o teor da mensagem deixada por Leonel Vicente:
Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê. Aqui, já está a acontecer.
HÁ
Pessoas que precisam, invisíveis. E pessoas que têm muito para dar, quando não desperdiçam. Tempo, motivação, consciência. E dinheiro, também.
Entre este binómio, uma via de comunicação. A blogosfera, internet no seu melhor quando o que se escreve e o que se lê tendem a conjugar-se no verbo aproximar.
Dois mundos nos antípodas, um vítima dos excessos e outro à míngua das suas migalhas. Gente com fome, crianças, que sobrevivem apenas para ganharem forças para fugir à miséria. Rumo ao lado de cá, que os recusa.
A caridade já não basta e é necessária intervenção. Amizade em estado puro, reunida por gente que bloga em torno de um objectivo comum: fomentar a generosidade como uma urgência e canalizá-la para as melhores mãos (as mais necessitadas).
Proximidade e mão amiga. Proximizade, feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que sabe e ao que se vê. E ao que se deixa por sentir.
Nós sentimos assim. E acreditamos numa sociedade que quer sentir da mesma forma e intervir sem demora.
Aqui, já está a acontecer.
terça-feira, 1 de novembro de 2005
NÃO PODERIA ESTAR MAIS DE ACORDO COM EDUARDO CINTRA TORRES
No domingo passado, no seu texto saído no Público (coluna "Olho Vivo", p. 57), perguntava Cintra Torres: "Por que raio se chama jornalista ao transeunte que faz umas imagens no metro de Londres e não à velhota que telefona para a SIC a dizer que há mais um incêndio no seu concelho"? Hoje, concluindo o mesmo texto (coluna "Olho Vivo", p. 43), Cintra Torres é mais incisivo: "Por captar imagens de água invadindo Pukhet o turista não é jornalista, da mesma forma que, ao atender o telefone, o Presidente da República não é telefonista. Quem compra tábuas no Ikea e monta o móvel em casa não é marceneiro, quem faz uma transferência bancária numa ATM não é empregado bancário e quem enche o depósito de combustível em auto-serviço não é gasolineiro. Quer dizer, não tem essa profissão".
Ora, de que fala Eduardo Cintra Torres? Do jornalismo, da profissão de jornalista, saber que, desde o século XIX, se tornou "uma actividade fundamental à sociedade democrática", com técnica, arte, ética e estatuto, e que se realiza "após estudo académico. Desta forma, há cidadãos que investem anos de vida para adquirir a possibilidade de exercer a profissão de jornalista".
E contra quem fala Eduardo Cintra Torres? Do exercício de fazer imagens e de as dotar (ou ver alguém dotá-las) de importância. Esclarece que as pessoas que fornecem imagens sobre calamidades naturais ou eventos terroristas - e, assim, contribuem para a notícia -, dificilmente podem ser designadas como jornalistas (texto de anteontem); são apenas fontes de informação. Considera ele que o jornalismo não é a "tecnologização" da função do informador e este não se torna jornalista pelo facto de participar no espaço público (texto de hoje).
Os blogues
Os blogues correm como pano de fundo dos dois artigos do professor, escritor e crítico de televisão. Se, no primeiro, contraria o messianismo de textos como o de Dan Gillmor (Nós, os media, 2005), para quem "as crescentes literacia mediática e possibilidade participativa das pessoas no «espaço público» através dos novos e velhos media levaram ao desenvolvimento do conceito de cidadão-jornalista", no texto de hoje enaltece as funções do jornalista: "estruturação, selecção, equilíbrio, factualidade objectiva, confirmação de fontes, estilo, responsabilidade, ética, serviço ao público".
Logo, o jornalismo exerce-se como profissão e a blogosfera será, porventura, o espaço público aberto a "vozes interessantes e talentosas", que "permitiram que não se perdessem informações verdadeiras que os media tradicionais, para sua vergonha, calam". Mas estas vozes são uma minoria, com a maioria a não ultrapassar a mediocridade dos media tradicionais [curiosamente, ontem, Fernando Ilharco, na sua coluna quinzenal no Público, chamava a atenção para este fenómeno, alargando-o à leveza de programas de televisão, como Morangos com açúcar e ao lançamento de uma banda musical dentro desse programa, de que não se sabe bem se tocam e cantam eles mesmos, numa virtualidade e evanescência próprias de meios electrónicos].
O penúltimo parágrafo de Cintra Torres é elucidativo: "o blogue repete a explosão da imprensa no século XIX, quando surgiram por todo o mundo ocidental milhões de novos jornais e jornalinhos, muitos feitos por uma ou duas pessoas e de que só sairam um ou dois números. A nossa Biblioteca Nacional é um cemitério dessa magnífica explosão comunicacional do indivíduo oitocentista, desse iluminado «cidadão-jornalista» e dos seus blogues em papel".
Um senão relativamente ao texto de Eduardo Cintra Torres
O jornalismo profissional arrancou dessa multiplicidade de vozes, do experimentalismo em que cada indivíduo se embrenhou. As regras não eram pré-existentes mas foram-se fazendo. Muitos jornalistas foram-se realizando enquanto colaboravam nos jornais. E também as profissões dentro do jornalismo. Por exemplo, o repórter, em Portugal e no final do século XIX, não tinha o estatuto de jornalista e a caixa de previdência (ou segurança social, como queiramos dizer) partiu de uma plataforma inferior do que a dos jornalistas (melhor: escritores, que escreviam artigos de opinião, muito poucas vezes com relação a factos verdadeiros e actuais). Os jornalinhos eram, frequentemente, alforge de inovações de secções, com os melhores elementos a passarem-se para jornais mais importantes. Recordo, porque a estudei, a carreira de Alberto Bessa: debutando em jornalinhos do Porto, chegou a director do Jornal do Comércio e das Colónias, em meados da segunda década do século XX.
No domingo passado, no seu texto saído no Público (coluna "Olho Vivo", p. 57), perguntava Cintra Torres: "Por que raio se chama jornalista ao transeunte que faz umas imagens no metro de Londres e não à velhota que telefona para a SIC a dizer que há mais um incêndio no seu concelho"? Hoje, concluindo o mesmo texto (coluna "Olho Vivo", p. 43), Cintra Torres é mais incisivo: "Por captar imagens de água invadindo Pukhet o turista não é jornalista, da mesma forma que, ao atender o telefone, o Presidente da República não é telefonista. Quem compra tábuas no Ikea e monta o móvel em casa não é marceneiro, quem faz uma transferência bancária numa ATM não é empregado bancário e quem enche o depósito de combustível em auto-serviço não é gasolineiro. Quer dizer, não tem essa profissão".
Ora, de que fala Eduardo Cintra Torres? Do jornalismo, da profissão de jornalista, saber que, desde o século XIX, se tornou "uma actividade fundamental à sociedade democrática", com técnica, arte, ética e estatuto, e que se realiza "após estudo académico. Desta forma, há cidadãos que investem anos de vida para adquirir a possibilidade de exercer a profissão de jornalista".
E contra quem fala Eduardo Cintra Torres? Do exercício de fazer imagens e de as dotar (ou ver alguém dotá-las) de importância. Esclarece que as pessoas que fornecem imagens sobre calamidades naturais ou eventos terroristas - e, assim, contribuem para a notícia -, dificilmente podem ser designadas como jornalistas (texto de anteontem); são apenas fontes de informação. Considera ele que o jornalismo não é a "tecnologização" da função do informador e este não se torna jornalista pelo facto de participar no espaço público (texto de hoje).
Os blogues
Os blogues correm como pano de fundo dos dois artigos do professor, escritor e crítico de televisão. Se, no primeiro, contraria o messianismo de textos como o de Dan Gillmor (Nós, os media, 2005), para quem "as crescentes literacia mediática e possibilidade participativa das pessoas no «espaço público» através dos novos e velhos media levaram ao desenvolvimento do conceito de cidadão-jornalista", no texto de hoje enaltece as funções do jornalista: "estruturação, selecção, equilíbrio, factualidade objectiva, confirmação de fontes, estilo, responsabilidade, ética, serviço ao público".
Logo, o jornalismo exerce-se como profissão e a blogosfera será, porventura, o espaço público aberto a "vozes interessantes e talentosas", que "permitiram que não se perdessem informações verdadeiras que os media tradicionais, para sua vergonha, calam". Mas estas vozes são uma minoria, com a maioria a não ultrapassar a mediocridade dos media tradicionais [curiosamente, ontem, Fernando Ilharco, na sua coluna quinzenal no Público, chamava a atenção para este fenómeno, alargando-o à leveza de programas de televisão, como Morangos com açúcar e ao lançamento de uma banda musical dentro desse programa, de que não se sabe bem se tocam e cantam eles mesmos, numa virtualidade e evanescência próprias de meios electrónicos].
O penúltimo parágrafo de Cintra Torres é elucidativo: "o blogue repete a explosão da imprensa no século XIX, quando surgiram por todo o mundo ocidental milhões de novos jornais e jornalinhos, muitos feitos por uma ou duas pessoas e de que só sairam um ou dois números. A nossa Biblioteca Nacional é um cemitério dessa magnífica explosão comunicacional do indivíduo oitocentista, desse iluminado «cidadão-jornalista» e dos seus blogues em papel".
Um senão relativamente ao texto de Eduardo Cintra Torres
O jornalismo profissional arrancou dessa multiplicidade de vozes, do experimentalismo em que cada indivíduo se embrenhou. As regras não eram pré-existentes mas foram-se fazendo. Muitos jornalistas foram-se realizando enquanto colaboravam nos jornais. E também as profissões dentro do jornalismo. Por exemplo, o repórter, em Portugal e no final do século XIX, não tinha o estatuto de jornalista e a caixa de previdência (ou segurança social, como queiramos dizer) partiu de uma plataforma inferior do que a dos jornalistas (melhor: escritores, que escreviam artigos de opinião, muito poucas vezes com relação a factos verdadeiros e actuais). Os jornalinhos eram, frequentemente, alforge de inovações de secções, com os melhores elementos a passarem-se para jornais mais importantes. Recordo, porque a estudei, a carreira de Alberto Bessa: debutando em jornalinhos do Porto, chegou a director do Jornal do Comércio e das Colónias, em meados da segunda década do século XX.
TRÊS CAPAS DE JORNAIS
Escolhi as primeiras páginas dos jornais de hoje do Diário de Notícias, Público e El Mundo (Madrid). Claro que elas referem a agenda nacional específica - mas também o moral (leia-se ânimo) de um país.

Assim, o destaque dos nossos jornais vai para as comemorações (perdão: recordação) dos 250 anos do terramoto em Lisboa. O desenho da capa do Diário de Notícias mostra uma devastação terrível da nossa cidade em 1 de Novembro de 1755. Dedica oito páginas ao assunto. Já o Público - se preferiu dar a imagem de capa ao funeral de Rosa Parks, mulher negra que se recusara dar um lugar no autocarro a um branco e, assim, iniciou a longa e justa luta dos negros nos Estados Unidos - ocupou cinco páginas à lembrança do terramoto e o que se pode fazer hoje para enfrentar um problema do género.
Não deixo de reflectir uma chamada de atenção do Diário de Notícias na primeira página e o título que acompanha as páginas 2 e 3: "Novo grande sismo talvez só daqui a 2000 anos". É que ele traz alguma segurança - nenhum de nós estará vivo para o testemunhar -, mas também angústias - e se houver uns sismos não tão grandes, continuaremos vivos? Este título é, assim, ambíguo. Claro que o texto de Filomena Naves é preciso e traz muita informação útil.
Já o El Mundo tem outras ocupações: o nascimento da infanta doña Leonor, filha dos príncipes de Espanha ("gordita, redonda, castaña y un poco llorona" ,segunda a avó Sofia, rainha do país vizinho). Procurei contar bem, mas não sei se me enganei: 19 páginas, entre textos, comentários, assuntos laterais (políticos, mas com ligações ao nascimento) e páginas de imagens a cores, desde o casamento de Felipe e Leticia até hoje, e infografias com as linhas sucessórias do reinado de Espanha. E a capa traz uma fotografia do príncipe Felipe, sorridente, a dizer: "Pero bueno... Qué ha sido"?
Mas há outro motivo de regozijo em Espanha: a Telefonica (accionista da Portugal Telecom) comprou a operadora inglesa O2 por €26100 milhões. O El Mundo dedica ao assunto o editorial (partilhado com o nascimento de doña Leonor) e três páginas da secção de "Economia".
Há, aqui, um bom motivo de reflexão. Do lado de lá da fronteira, um nascimento é razão para uma grande animação, a que se junta a maior operação da história da economia espanhola desde sempre. Deste lado, basta ler o que diz o homem do bar, o cartoon de Luís Afonso (jornal Público, p. 8) - quadrinho 1: "O Presidente da República apela ao sentido de missão e solidariedade colectiva para tentar combater as taxas altíssimas de insucesso escolar", quadrinho 2: "Há 234 mil pessoas em lista de espera para cirurgias", quadrinho 3: "A confiança dos portugueses na justiça atingiu os mais baixos valores de sempre", quadrinho 4: "O terramoto foi há 250 anos, mas tenho a sensação de estarmos a viver nos escombros de um país...".
Escolhi as primeiras páginas dos jornais de hoje do Diário de Notícias, Público e El Mundo (Madrid). Claro que elas referem a agenda nacional específica - mas também o moral (leia-se ânimo) de um país.
Não deixo de reflectir uma chamada de atenção do Diário de Notícias na primeira página e o título que acompanha as páginas 2 e 3: "Novo grande sismo talvez só daqui a 2000 anos". É que ele traz alguma segurança - nenhum de nós estará vivo para o testemunhar -, mas também angústias - e se houver uns sismos não tão grandes, continuaremos vivos? Este título é, assim, ambíguo. Claro que o texto de Filomena Naves é preciso e traz muita informação útil.
Já o El Mundo tem outras ocupações: o nascimento da infanta doña Leonor, filha dos príncipes de Espanha ("gordita, redonda, castaña y un poco llorona" ,segunda a avó Sofia, rainha do país vizinho). Procurei contar bem, mas não sei se me enganei: 19 páginas, entre textos, comentários, assuntos laterais (políticos, mas com ligações ao nascimento) e páginas de imagens a cores, desde o casamento de Felipe e Leticia até hoje, e infografias com as linhas sucessórias do reinado de Espanha. E a capa traz uma fotografia do príncipe Felipe, sorridente, a dizer: "Pero bueno... Qué ha sido"?
Mas há outro motivo de regozijo em Espanha: a Telefonica (accionista da Portugal Telecom) comprou a operadora inglesa O2 por €26100 milhões. O El Mundo dedica ao assunto o editorial (partilhado com o nascimento de doña Leonor) e três páginas da secção de "Economia".
Há, aqui, um bom motivo de reflexão. Do lado de lá da fronteira, um nascimento é razão para uma grande animação, a que se junta a maior operação da história da economia espanhola desde sempre. Deste lado, basta ler o que diz o homem do bar, o cartoon de Luís Afonso (jornal Público, p. 8) - quadrinho 1: "O Presidente da República apela ao sentido de missão e solidariedade colectiva para tentar combater as taxas altíssimas de insucesso escolar", quadrinho 2: "Há 234 mil pessoas em lista de espera para cirurgias", quadrinho 3: "A confiança dos portugueses na justiça atingiu os mais baixos valores de sempre", quadrinho 4: "O terramoto foi há 250 anos, mas tenho a sensação de estarmos a viver nos escombros de um país...".
A RÁDIO EM REPORTAGEM NO EXTERIOR

Conforme nos mostra o Boletim da Emissora Nacional (1935-1936), a Volta a Portugal em bicicleta justificava a saída dos repórteres a acompanharem o acontecimento. Os ciclistas ainda não usavam capacetes na cabeça, mas um simples chapéu de palha. Já o repórter envergava um fato macaco, como se fosse um operário. E o tamanho do microfone?
Conforme nos mostra o Boletim da Emissora Nacional (1935-1936), a Volta a Portugal em bicicleta justificava a saída dos repórteres a acompanharem o acontecimento. Os ciclistas ainda não usavam capacetes na cabeça, mas um simples chapéu de palha. Já o repórter envergava um fato macaco, como se fosse um operário. E o tamanho do microfone?
OBRIGADO, FRANCISCO AMARAL, DO BLOGUE ÍNTIMA FRACÇÃO

Obrigado pela referência ao meu livro. E ao meu blogue: "Um devorador apetite pelo mundo da Comunicação. Vivo e estimulante".
Retiro uma parcela de um outro texto publicado hoje por ele: "Talvez esteja magoado com a Rádio, mas vejo-a caminhando rumo a um futuro diferente. A Rádio, o meio da intimidade, o único com gente dentro e próxima, será substituído por uma nova Rádio ainda mais próxima, única, pessoal ... EMEREC. Só que esta nova Rádio, e refiro-me obviamente ao Podcasting, nunca poderá ter uma das mais fascinantes características da Rádio tradicional : a partilha simultânea da escuta".
Obrigado pela referência ao meu livro. E ao meu blogue: "Um devorador apetite pelo mundo da Comunicação. Vivo e estimulante".
Retiro uma parcela de um outro texto publicado hoje por ele: "Talvez esteja magoado com a Rádio, mas vejo-a caminhando rumo a um futuro diferente. A Rádio, o meio da intimidade, o único com gente dentro e próxima, será substituído por uma nova Rádio ainda mais próxima, única, pessoal ... EMEREC. Só que esta nova Rádio, e refiro-me obviamente ao Podcasting, nunca poderá ter uma das mais fascinantes características da Rádio tradicional : a partilha simultânea da escuta".
UM BLOGUE A VISITAR
Não sei se já fiz referência alguma vez ao blogue Literatura Portuguesa, de Maria do Sameiro Pedro. Se o fiz, tenho muito gosto em repetir. Trata-se de um blogue "de apoio à disciplina de Literatura Portuguesa Contemporânea do curso de Educação e Comunicação Multimédia (E.S.E. / I. P. de Beja)".
De um post de 26 de Outubro último, ela escreveu: "Depois do trabalho feito na última aula (excepcionalmente no passado dia 25), na próxima semana devem-me entregar um texto intitulado «Página de um diário íntimo» (cerca de 2500 caracteres, excluindo espaços)".
Que sonhos, que ideias, que futuros conterão aqueles diários íntimos de 2500 caracteres? Beja fica numa planície a perder de vista; quando lá se chega há uma cultura específica no ar. Ao contrário do que se pensa, acho que as pessoas naquela cidade andam depressa, mas reunem-se no café para conversar longamente.
Não sei se já fiz referência alguma vez ao blogue Literatura Portuguesa, de Maria do Sameiro Pedro. Se o fiz, tenho muito gosto em repetir. Trata-se de um blogue "de apoio à disciplina de Literatura Portuguesa Contemporânea do curso de Educação e Comunicação Multimédia (E.S.E. / I. P. de Beja)".
De um post de 26 de Outubro último, ela escreveu: "Depois do trabalho feito na última aula (excepcionalmente no passado dia 25), na próxima semana devem-me entregar um texto intitulado «Página de um diário íntimo» (cerca de 2500 caracteres, excluindo espaços)".
Que sonhos, que ideias, que futuros conterão aqueles diários íntimos de 2500 caracteres? Beja fica numa planície a perder de vista; quando lá se chega há uma cultura específica no ar. Ao contrário do que se pensa, acho que as pessoas naquela cidade andam depressa, mas reunem-se no café para conversar longamente.
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