quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

NOVA IORQUE EM TRIBUNAL, PELO DIREITO A FILMAR EM PÚBLICO

De acordo com uma notícia de hoje na newsletter do European Journalism Centre, Rakesh Sharma, um cineasta indiano que já ganhou prémios na área do documentário, levou a cidade de Nova Iorque a tribunal, por ter sido impedido de filmar a cidade em 2005 e mantido preso durante quatro horas, suspeito de preparar um ataque.

Desde 11 de Setembro de 2001, após os ataques suicidas que destruiram as torres gémeas daquela cidade, que as autoridades policiais impedem a tomada pública de imagens de Nova Iorque. Mas um movimento de liberdades cívicas, a New York Civil Liberties Union, entende que Sharma tem o direito de filmar, integrando-se na liberdade de expressão. Sharma - com barba e pele escura, própria de um asiático - estava a filmar a baixa de Manhattan com uma câmara vídeo, quando foi abordado por um agente. A máquina de filmar terá sido danificada.
LEI DA RÁDIO

Noticia o Público, que não o Diário de Notícias, sobre a nova lei da rádio, ontem aprovada à noite pela Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura. A surpresa, no artigo de Joana Gorjão Henriques, é a obrigação da percentagem de música portuguesa ser não 25% mas situar-se entre 25 e 40%. A votação no Parlamento ocorrerá dentro de uma semana. A definição de quotas, continua o mesmo texto, "não teve a aprovação do PSD, que queria, em vez da imposição, um regime de incentivos às rádios que preenchessem uma percentagem da sua programação com música portuguesa". A obrigatoriedade da quota de música portuguesa, composta ou interpretada por cidadãos da União Europeia em língua portuguesa, aplica-se aos horários das 7:00 às 20:00.

Entretanto, a Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) (ver jornais Público e Diário de Notícias), divulgou um estudo da Nielsen onde revela que a percentagem de música portuguesa que passa nas rádios é de 14,2%. Comparando as listas de vinte discos mais tocados com as dos vinte mais vendidos, a rádio passa apenas três canções portuguesas, quando oito dos vinte mais populares de 2005 foram nacionais. Tal disparidade reforça a necessidade de introdução de quotas, segundo a AFP. Já José Faustino, presidente da Associação Portuguesa de Radiodifusão (APR), e que se mostrara previamente contrário à decisão parlamentar, acha estranho a publicação de um estudo exactamente no mesmo dia da discussão de imposição das quotas.
AS ESCOLHAS DE 2005 DA NEWSLETTER RUA DE BAIXO

[imagem retirada da newsletter, a propósito da entrevista com Rui Poças, director de fotografia; o último filme em que trabalhou é Odete, actualmente em exibição]

As escolhas incluidas na Rua de Baixo, newsletter nº 27, datada de ontem são:

Disco português: 1) Up on the Walls, The Vicious Five, 2) Our Hearts will beat as one, David Fonseca, 3) The Pyramid Sessions, Rocky Marsiano.
Disco estrangeiro: 1) LCD Soundsystem, LCD Soundsystem, 2) Arular, M.I.A, 3) You could have it so much better, Franz Ferdinand.
Melhor concerto: 1) Dj set: LCD Soundsystem, no Lux, 2) The Arcade Fire, em Paredes de Coura, 3) Sigur Rós, no Coliseu de Lisboa.
Melhor filme: 1) Million Dollar Baby, 2) Sin City, 3) Alice.
Melhor evento do ano (Festa, Festival, etc): 1) Festival Paredes de Coura, 2) Fantasporto 2005, 3) Moda Lisboa.
Loja preferida do ano: 1) Sugar Ray, 2) Cinnecittá, 3) Flur.
Melhor Bar/Discoteca: 1) Lux, 2) Lounge, 3) Galeria Zé dos Bois.
Melhor Espectáculo: 1) Orgia, 2) Animais Domésticos.
Melhor Livro lido: Yellow dog, de Martin Amis, 2) Haunted, de Chuck Palahniuk, 3) As Intermitências da Morte, de José Saramago.
Marca de roupa preferida do ano: 1) Pepe Jeans, 2) Levis, 3) Diesel.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

CURTAS IMPRESSÕES SOBRE O DIA DE HOJE

1) Afinal, o preço do Diário de Notícias sofreu aumentos, ao contrário do que aquele jornal apontou. Li que a alteração gráfica não significaria alterações no preço de capa - infelizmente deitei fora o exemplar com essa informação. Pelo Público de hoje, fiquei a saber que, durante a semana, o preço é de €0,85 (já o tinha assinalado ontem), passando a €1,10 à sexta, €1,20 ao sábado e €1,30 ao domingo. Esta matéria não é assunto do provedor do leitor, o que é pena, pois considero que o jornal não foi sincero com os seus leitores. Além disso, os aumentos parecem-me exagerados, acima da inflação e nunca recorrendo aos cêntimos; porque não o jornal custar €1,25 ao domingo ou €1,15 ao sábado? Parecemos um país rico: quando se aumenta qualquer coisa é para décimas de euro e não centésimas.

2) O artigo de José Vítor Malheiros, no Público de hoje, é muito pertinente. Tema: os estagiários de jornalismo. Diz ele que as "empresas que pretendem acolher estagiários [deveriam ser obrigadas] a uma certificação, que exigiria o cumprimento de certos requisitos, e publicar a lista de empresas assim credenciadas". Malheiros conta a história de uma revista que tinha quatro jornalistas profissionais e sete estagiários!

3) Álvaro José Ferreira, do blogue A Nossa Rádio, assina hoje uma mensagem sobre a nova grelha da Antena 2. Apesar de ainda não ter ouvido toda a programação, as suas observações parecem-me cheias de razão. Retiro a seguinte passagem: "Não é que esteja contra (até gostei de ouvir), mas continuo a achar que as músicas do «Café Plaza» e também os blues e outras músicas de cariz mais popular fazem mais sentido na Antena 1. Aliás, elas já lá estiveram até há relativamente pouco tempo. Por que razão foram banidas? Presumivelmente, para passar a reinar a «play list»". Mais à frente, publica: "É provável que as audiências subam, mas haverá certamente a fuga de alguns melómanos mais exigentes e exclusivistas da música clássica". Pergunto eu: fogem para onde, para a Classe FM?
MÚSICOS ALEMÃES CONTRA A PROTECÇÃO ANTI-CÓPIA

Numa notícia ontem publicada pelo sítio Expatica's German News, um sindicato de músicos pop da Alemanha está contra a tecnologia anti-cópia. Nesse sentido, Klaus Quirini, presidente da Associação de Músicos Alemães VDM, manifesta uma opinião diferente da dos estúdios de música que procuram colocar códigos secretos nos CDs que impedem cópias. O objectivo é evitar a partilha de músicas entre compradores e os seus amigos, que gravariam as músicas.

Recorde-se que no passado mês - e estou a seguir a mesma notícia - a Sony teve de abandonar uma nova tecnologia anti-cópia depois de introdução de um vírus nos computadores pessoais. Na Alemanha está a haver um grande debate sobre a legalidade ou não de cópias de músicas nos aparelhos de MP3.

Quirini, que é advogado, entende que, em vez de se investir biliões de dólares na guerra cópia-protecção, deveria publicitar-se o valor da propriedade intelectual com um rótulo a dizer o que é permitido ou não. Isto deve ser explicado em especial aos jovens, mas sem ameaças.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

OS SESSENTA ANOS DA VESPA - OU A LOUCURA EM MOTA

vespa.jpgFoi em 1946, numa Itália destruida económica e moralmente pela segunda guerra mundial, que nasceu a Vespa. Como as estradas não estavam boas para conduzir automóveis, o engenheiro aeronáutico Corradino D'Ascanio desenhou essa motoreta, pensando bastante no desenho da máquina em termos de estilo de vida. Lia-se na revista Business Week, de 9 de Novembro último, que o mais importante não foi a marca ou o logótipo mas a própria motoreta. Agora, coube à revista dominical do El Pais (ontem) a vez de recordar a data, comentando os 17 milhões de motoretas, numa demonstração de que o mito está vivo. Uma das entrevistadas do jornal diz que gosta de andar com o namorado por estradas secundárias, cada um deles na sua máquina.

40m.jpgEis uma fã de culto, que nos remete para o filme de 1953, dirigido por William Wyler, Roman Holiday, com Gregory Peck (no papel de Joe Bradley) e Audrey Hepburn (no papel de princesa Anna). Com essa película, a Vespa ganharia muitos novos aderentes. É que uma das cenas fundamentais do filme, com os dois actores, tinha uma Vespa como veículo de transporte. Lembre-se que o filme conta a história de uma princesa que, cansada da sua posição social, conhece um homem, afinal um repórter em busca de uma notícia. Audrey Hepburn ganharia um óscar pela sua interpretação [imagem retirada do sítio IMDb].
CHUVA DE PÉROLAS

24horas912006a.JPGO jornal 24 Horas também alterou alguma coisa hoje. Primeiro, a colecção de pérolas (hoje grátis; a partir de amanhã custa €0,50). Claro que as Belas & Perigosas (três personagens habituais do jornal, ao jeito da página 3 do tablóide inglês Sun) as usaram logo, com uma delas a morder as pérolas.

[legendas: 1ª e 2ª imagens retiradas da edição de hoje; 3ª imagem, anúncio publicado em vários dias no Diário de Notícias, com o título "Pura elegância"].

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O 24 Horas ostenta no topo da página "O único jornal que subiu vendas em 2005", mesmo ao lado do preço (€0,65). Logo a seguir, ainda no topo, a fotografia de uma nova colunista, Clara Pinto Correia. A rubrica desta escritora e professora universitária, chamada "No fio da navalha", tem hoje o título "Contra a estupidez do mundo" e começa assim: "Os meus amigos, colegas e familiares mais próximos, estão perplexos: «Então passaste estes anos todos a estudar, fizeste as provas de Agregação, chegaste a catedrática... e agora vais escrever para um tablóide?». Questão genuína, sem dúvidas. E com respostas assaz reveladoras".

Ela apresenta duas razões, a primeira das quais, com toda a legitimidade, é a de querer chegar até aos portugueses. Já a segunda merece igual respeito e atenção: "prefiro escrever para um tablóide que se assume como tal do que escrever para uma das dezenas de publicações que andam por aí a apresentarem-se como sérias e na realidade [andam a publicar] porcarias sem fundamento" [vão longe os tempos da colaboração na revista séria Visão, mas houve ocorrências menos felizes que ditaram o fim dessa colaboração].

Clara Pinto Correia fala de duas publicações que as levaram a tribunal, mas não diz quais. Promete revelar a história amanhã.

Ao lado da coluna "No fio da navalha" [a minha ignorância é grande e eu não consigo distinguir os animais que Pinto Correia segura nas mão], há uma outra, a de Joaquim Letria ("25ª Hora). Fechando a página, juntando as duas colunas, há um passatempo de Sudoku.

Bom: reservo para depois do jantar o resto da leitura do jornal, com a promessa a mim próprio de comprar a edição de amanhã do jornal para saber quais são os jornais que perseguem a mais famosa das irmãs Pinto Correia.
O NOVO DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Já há dias que sabíamos que a imagem do Diário de Notícias ia mudar. Inicialmente, pensei que fosse mesmo no princípio do ano, mas afinal as alterações deram-se pelos Reis.

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Comecemos exactamente por esse dia (6 de Janeiro). No editorial de Pedro Rolo Duarte (DNa), mesmo que ele diga o contrário, há lágrimas: "São três da manhã do dia 30 de Dezembro. Cabe-me fechar o DNA com a mesma satisfação e amor com que tive o privilégio de o conceber e «abrir». Não quero lágrimas nem choros - porque sei muito bem que um suplemento de jornal não é mais do que isso mesmo: um suplemento, um complemento" [o email que aparece no fundo da página pertence ao gmail e não ao Diário de Notícias]. Umas páginas mais à frente, Sónia Morais Santos recorda o primeiro número do DNa. Primeiro, o a de DNa não significa nada; segundo, o bebé da capa chama-se António Maria e hoje anda no quinto ano do ensino básico, joga futebol e é fanático pelo Benfica (a imagem do jovem de dez anos surge na página 3 ; eu, muito sensível aos dentes por razões pessoais, vejo ali um dente a precisar de restauro) [a mágoa do fim de um ciclo detecta-se ainda no dia seguinte, sábado, com a revista Grande Reportagem; o colunista Luís Delgado também chama a atenção para a mudança de espaço - de diário a semanal].

No mesmo dia 6, na espécie de contracapa do DNa que era o DNMúsica, Nuno Galopim (com email do Diário de Notícias) escreve de modo diferente: "Hoje encerra-se mais um ciclo na vida do DN e do jornalismo musical em Portugal. Criado em Março de 2004, o DN:Música assegurou, durante quase dois anos, uma atenta e plural visão comentada da actividade musical [...]. Este é o último DN:Música. O que não implica uma ruptura na relação do Diário de Notícias com o acompanhamento jornalístico da actividade musical. Antes pelo contrário. Para a semana, há novidades... Boas novidades..." [colorido meu]. E João Lopes, na sua crítica cinematográfica de sábado, escrevia também que a sua coluna passava a ser editada noutro dia e espaço (com muito contida alegria).

dn912006b.JPGPor aqui se vêem dois estados de alma. O final de um projecto acarreta sempre uma disparidade de emoções, não necessariamente coincidentes. Daí eu passar adiante e chegar ao dia de hoje. Num caderno azul (27 x 30 centímetros), de oito páginas, que acompanha o jornal, ficam a conhecer-se as diferenças. Primeiro, o Diário de Notícias passa a ser também O Diário de Portugal, atitude proactiva, política e comercialmente falando, a que devemos estar atentos [para outro postal fica o slogan do jornal do mesmo grupo, o 24 Horas, "O único jornal que subiu vendas em 2005"]. Depois, há os novos nomes, de que destaco - como já referira em tempos -, o de Ana Sá Lopes, ex-Público, e que assina logo a terceira página, a mais importante a seguir à capa [a outra transferência de luxo do Público fora Eduardo Dâmaso, para director-adjunto]. E, dos novos colunistas, destaco o padre Anselmo Borges, teólogo e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, com uma coluna ao domingo. Bem como os comentadores de futebol de bancada (Alfredo Barroso pelo Sporting, Jacinto Lucas Pires pelo Benfica e António Pinho Vargas pelo Porto). E o que eu esperava, depois de o ler na sexta-feira: a passagem de Nuno Galopim a editor da revista das sextas-feiras ("6ª"). Com 48 páginas, a "6ª" dedica-se às artes e espectáculos: "Os livros, o cinema e a música são temas centrais num olhar que abarca as outras expressões artísticas e espectáculos, do teatro à dança, das artes plásticas ao design, da arquitectura à fotografia". O design da revista - e do jornal - pertence a Henrique Cayatte e conta com colaborações do ilustrador André Carrilho (que enche a capa do jornal de hoje) e fotografias de Augusto Brázio (vindo do DNa).

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Da ficha técnica do Diário de Notícias, comparando as edições de sábado e de hoje, detecta-se a existência de mais uma secção (Cidades), com João Pedro Fonseca como editor, e várias alterações na chefia de outras editorias. Um comentário crítico: afinal, o jornal aumentou de preço, apesar de, na semana passada, ter garantido não o fazer. A justificação é por causa do caderno de economia. Erro repetido do Público, com aquela revistinha chamada "D" (o leitor paga sempre mais).

Boa sorte ao Diário de Portugal, perdão Diário de Notícias.

PS: esqueci-me do mais importante. E o novo grafismo, qual a opinião que tem o blogueiro? Ele está ainda a folhear o jornal, mas está a gostar. Só não sei se amanhã teremos ilustração ou não na primeira página (se foi só uma edição, terá sido uma opção menos adequada; a fotografia tem mais peso). Além do que são muitas emoções seguidas. Até a Antena 2 alterou radicalmente a sua programação. Ontem, ouvi Amália Rodrigues a cantar Gershwin, além de música tradicional portuguesa e da Banda do Casaco; hoje, à hora de almoço, ouvi música japonesa. Tudo quando se comemoram 250 anos da morte de Mozart. Melhor do que esta mescla musical só com um iPod.
OS CONCERTOS DE ANO NOVO

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concerto2.jpgForam dois os concertos de ano novo (ou de Reis) a que assisti. Sábado, na igreja de S. Vicente de Fora, concerto com a participação do Vocal Ensemble e do organista João Vaz, tocando obras de Frei Miguel Cardoso, Livro de varios motetes e outras cousas. O concerto serviu ainda para apresentação do CD com toda a obra daquele compositor português do século XVII.

Ontem, ouvi Antonio Vivaldi (Glória) e Johann Sebastian Bach (Magnificat) na igreja dos Jerónimos, com o Coro de Santa Maria de Belém e a Orquestra Barroca Divino Sospiro.

domingo, 8 de janeiro de 2006

ÍCONES NACIONAIS

Nós temos a Amália Rodrigues, o vinho do Porto, a torre de Belém e o Benfica (ou Sporting, ou Porto, dependendo da perspectiva clubística), os espanhóis o sol de Miró, os bigodes de Dali, o flamenco e o Real Madrid (ou o Barcelona, ou o Celta de Vigo, dependendo da perspectiva de clube), os franceses a torre Eiffel, Brigitte Bardot e os croissants. E o Reino Unido?

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A lista oficial (e a não oficial, por mim elaborada) inclui Alice no país das maravilhas, a chavena de chá, mas também o funeral de Diana, o Mini, a mini-saia (de Twiggy), o submarino amarelo (Beatles), o autocarro vermelho londrino de dois andares e os bonecos Wallace e Gromit. Para saber mais, procure amanhã, segunda-feira - dia 9 - no sítio dos ícones.

Sei que há já um debate, como se lê na peça editada pelo Sunday Times de hoje, escrita por Richard Brooks, entre: 1) os defensores desta lista de ícones - que dão popularidade a um país ou local e contribuem para compras, visitas e produção nas indústrias criativas, 2) os que acham que ela serve para um nacionalismo desnecessário.
PODERÁ UM PROGRAMA DE TELEVISÃO SER UMA PRIORIDADE NACIONAL?

st812006a.jpgA coluna de Rod Liddle, no Sunday Times, faz lembrar a de Fernando Madrinha no Expresso. É também política, e nem sempre se concorda com o que escreve, mas vale a pena ler. Hoje, para além da análise à defenestração (é o termo empregue) de Charles Kennedy, o demitido líder do partido liberal inglês, devido à sua conduta de alcoólico (ele promete, noutra parte do jornal, ganhar a batalha contra o uísque, com a ajuda da família e de vitamina C), Rod Liddle dá realce a uma pequena história, lamentável e irónica em simultâneo.

Trata-se de um programa de televisão, o Pop Idol, em que pessoas que nele entram, apesar de não terem dotes de cantar, são convidadas mas sujeitas a serem insultadas por outras pessoas que têm ou não relevo público. O formato pertence à Freemantle Media, uma empresa londrina. O sucesso chegou à Etiópia, onde até as audiências contam. O músico vedeta etíope dá pelo nome de Feleke Hailu. Porém, a versão local avançou sem serem pagos os direitos de autoria do programa, o que a Freemantle quer ver cumprido.

Ironiza Liddle: a esta estranha questão de direitos de autor sobrepõe-se outra: a da necessidade da Etiópia querer estar na linha da frente das comodidades da civilização do primeiro mundo, caso do programa de televisão, antes de se estabelecer um governo competente e democrático, o respeito pelos direitos humanos e alimentação para todos. Apesar da razão do comentador, em conjunto com alguma petulância, quero acrescentar que, nos jornais, tem crescido o rumor de uma nova guerra com os vizinhos da Eritreia. Claro que um programa televisivo de insultos afasta momentaneamente os problemas mais relevantes. A alienação daqueles momentos funciona como anestesiante.

sábado, 7 de janeiro de 2006

PERSPECTIVAS DIFERENTES OU COMPLEMENTARES ÀS MINHAS (III)

vooborboleta.jpgAnteontem, escrevi um postal com o título A vitória da TVI na guerra das audiências, que mereceu alguns comentários (e que agradeço muito).

Agora, ao ler o recente livro de Reginaldo Rodrigues de Almeida, O voo da borboleta - crónicas da sociedade da informação, encontro uma posição distinta da assumida por mim ao olhar a TVI, e não hesito em a transcrever: "Há alguns anos a produção portuguesa de telenovelas sofreu uma reviravolta e [...] a TVI destaca-se como o canal que acolhe a produção nacional de maiores sucessos. Porquê? Os guiões evoluiram para situações próximas da realidade portuguesa, onde o dia a dia de uma família de Copacabana, a ter lugar, consegue-o como mero acessório na acção. Buscam-se cenários como Coimbra, Évora, Setúbal, Lagos, cidades normais do nosso país, e faz-se a acção decorrer de realidades exequíveis naquelas localidades, mas com vivências sociais de todos nós: a problemática da deficiência física, nomeadamente dos cegos, o uso de drogas e a maternidade na adolescência (Morangos com açúcar) ou os conflitos de gerações" (p. 3).

Comentário meu, fora da leitura do livro: claro que eu gostaria de saber mais pormenores sobre o sucesso do canal, como decorrem, por exemplo, as negociações para feitura e produção dos programas. Sabemos apenas do empenho do director-geral na passagem de uma cena no primeiro Big Brother, que despoletou a curiosidade pública e serviu de âncora para fixação dos espectadores no reality-show. Sabemos que aquele programa usou câmaras fixas, como um autêntico panóptico, mas não sabemos a razão porque o programa a 11 de Setembro de 2001 não foi emitido (primeiro, por causa dos acontecimentos trágicos nos Estados Unidos e,depois, porque um dos "residentes" indicara, apesar de isolado do mundo, a ocorrência próxima de uma guerra, mesmo naquele dia, o que deixou a produção incapaz de reagir). Também não sabemos que a criação da banda D'ZRT na série de Morangos com açúcar resultou de uma conversa da produção à volta de uma mesa (tipo: e se criássemos uma banda para "animar" a série?), ou como a moda juvenil daquele programa foi percepcionada pela produção após os espectadores a terem acolhido espontaneamente.

Leitura (em progresso): Reginaldo Rodrigues de Almeida (2005). O voo da borboleta - crónicas da sociedade da informação. Lisboa: MediaXXI
PERSPECTIVAS DIFERENTES OU COMPLEMENTARES ÀS MINHAS (II)

dn512006.jpgNo Diário de Notícias de anteontem, Fraústo da Silva era entrevistado. O demitido presidente do Centro Cultural de Belém (CCB) é contundente com a ministra da Cultura. O título colocado na peça principal, assinada por Leonor Figueiredo e Paula Lobo, é "A ministra da Cultura não conhece esta casa". De Isabel Pires de Lima, diz: "Essa senhora, em termos de ministra, conheci-a segunda-feira. Veio cá duas ou três vezes. Queria falar comigo e estava um bocado aflita por causa do anúncio prematuro (ou não) do convite a Mega Ferreira. Estava fora do País e o secretário de Estado foi almoçar comigo. Deu-me garantias absolutas de que não havia substituição".

Esta história é toda ela estranha. Começa numa entrevista ao Expresso, a 23 do mês passado (que comentei aqui). Pareceu-me ter sido uma entrevista fora de tempo e com pouco tacto. Depois, seria continuada com o desmentido e a confirmação de novo presidente, Mega Ferreira. Agora, o exonerado presidente usa os media escritos para dizer a sua perspectiva (e se escolhi o Diário de Notícias, poderia tê-lo feito com o Público e até com o Expresso de hoje).

Há, aqui, duas razões de análise (válidas para a mensagem anterior). A primeira, mais óbvia e mais básica, é a da existência de uma imprensa livre num país. Podemos ler a perspectiva da ministra, dizendo ser necessário alterar o que existia no CCB, e a resposta do presidente demitido. Cada um de nós forma uma opinião. Os jornais, por vezes (ou muitas vezes), fazem comentários ou enquadram as questões, pois, frequentemente, andamos distraídos e nem sabemos do que se passa. Mas o Diário de Notícias limitou-se a publicar a entrevista.

A segunda razão de análise é que a ministra está impedida, agora, de reagir, para não alimentar a polémica (a não ser para comentar a indemnização exigida por Fraústo da Silva, com vem no Expresso de hoje). Assim, ficamos sem saber quem tem razão na disputa (o oposto terá de acontecer com o presidente do IPLB, para responder a Prado Coelho). Isso indica, a meu ver, alguma falta de à vontade da ministra com os media, pois devia prever o impacto posterior da entrevista (ou aconselhada a ter mais prudência). Pela posição que ocupa, precisa de usar toda a diplomacia do mundo. Assim se faz a "boa" ou "má" imprensa.
PERSPECTIVAS DIFERENTES OU COMPLEMENTARES ÀS MINHAS (I)

publico512006.jpgJá este ano, aqui no blogue escrevi sobre o livro de Jorge Manuel Martins, Profissões do livro. Editores e gráficos, críticos e livreiros, em duas partes, 1 e 2. O autor é, neste momento, presidente do IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas).

De Eduardo Prado Coelho, na sua coluna diária no Público, lia-se anteontem, com o título "Não estraguem mais!", uma crítica contundente ao Instituto do Livro. Após recordar outros dirigentes, como Teresa Gil, Artur Anselmo, José Afonso Furtado e António Alçada Baptista, escreve: "Confesso que nos últimos tempos o instituto parece ter hibernado, e deve limitar-se às tarefas rotineiras. Lamentável! Mas a verdade é que não ouço falar nele em algum lugar. E vejo funcionários cabisbaixos e desmotivados. Entretanto, começou a falar-se em dividir o instituto por diversas instâncias já existentes".

Espera-se uma resposta rápida e concreta do presidente daquele instituto. Para sabermos se Prado Coelho tem razão.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

PROFISSÕES DO LIVRO (II)

[postal continuado de 2 de Janeiro]

Sobre os diversos mediadores

Não me vou, aqui, debruçar em profundidade, sobre o papel dos vários mediadores, como o autor faz. Deixo apenas um pequeno registo. Assim, sobre o editor, Jorge Manuel Martins entende que o mediador é “alguém que intervém, que deixa ou não passar, pela sua porta, a mensagem” (p. 125). Há a clara noção de gatekeeper, de decisor.

jmj.jpgNa leitura diacrónica, elaborada na segunda parte do livro, Jorge Manuel Martins entende ter havido uma ditadura do escritor (segunda metade do século XX), a que se seguiu a ditadura do editor (século XX) e, com as indústrias culturais e o mito do mercado, a ditadura do cliente. Já neste século, parece assistir-se à ditadura de outros mediadores, como o tradutor e o gráfico (p. 155) [fotografia do autor, feita por Raul Cruz e retirada da badana do livro].

No seu trabalho, o autor destaca os críticos (pp. 172-173), que animam o debate público, nas instâncias ligadas à educação e nos media clássicos e electrónicos. Ao assumirem esse papel de influenciadores na difusão dos livros, os críticos são alvo de especial atenção dos restantes mediadores. O blogueiro é testemunha desse interesse e releva a importância da “boa” imprensa para um livro passar. Uma das coisas más que pode acontecer a um livro é a crítica destrutiva (mas também a ignorância total do produto cultural). E Jorge Manuel Martins acrescenta: o jornalismo cultural deve ir além do texto literário e passar a referir o aspecto gráfico, como paginação e ilustração (p. 299).

O autor destaca ainda que as novas tecnologias impõem novas mediações, novos intermediários, diferentes dos empregues nas anteriores tecnologias (p. 93).

O livro em Portugal

Fica aqui um rápido esboço do que o livro contém. Jorge Manuel Martins fala do livro em Portugal (p. 66), em que há cerca de 155 empresas activas, mas nenhuma com a notoriedade das congéneres europeias [questão de dimensão financeira, também]. No nosso país, escreve o autor, ainda se conhecem as caras dos donos das editoras.

Em termos de produção, o livro escolar tem um peso muito grande (cerca de 45% do total), seguindo-se a literatura em geral e a literatura infantil e juvenil. Quanto a canais de distribuição, 46% são de venda porta-a-porta, correspondência e clubes (p. 68), 37% adquiridos nas livrarias e 17% nas grandes superfícies (valores de 1995, os quais devem estar desactualizados, em especial os respeitantes às grandes superfícies).

O alvo de interesse de Jorge Manuel Martins vai também para o livreiro, indicado como motor da edição (p. 229). Contabilizando cerca de 524 estabelecimentos de venda de livros, em Portugal, há uma clara preponderância de circuitos artesanais para esse pequeno conjunto de livrarias e um estatuto social do livreiro com identidade ainda a construir (p. 235).

Considerandos finais

A bibliografia que acompanha a obra é vastíssima e valiosa. Ela não cobre apenas o domínio da sociologia do livro mas também das indústrias culturais em geral, o que torna também esta secção um excelente espaço de consulta. Apesar do registo enciclopédico algo excessivo que se encontra em algumas páginas (o autor parece querer tratar todos os assuntos nas suas páginas, e que possivelmente poderiam ficar de fora para tornar a leitura mais ágil), trata-se, quanto a mim, de um dos livros indispensáveis publicados em 2005.

Acresce-se a carta de Fernando Guedes ao autor, e não um habitual prefácio, o que fica bem a ambos. Fernando Guedes é editor há mais de 50 anos na Verbo, onde Jorge Manuel Martins trabalhou durante muito tempo. Aliás, o autor comprova no seu livro um profundo conhecimento das profissões do livro, indo do editor até ao livreiro. O trabalho agora lançado resulta de uma tese de doutoramento que o autor defendeu no ISCTE, orientada pelo sociólogo António Firmino da Costa.

Jorge Manuel Martins é investigador do CIES-ISCTE (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) e presidente do IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas) desde Julho de 2005. Publicou, entre outros textos, o livro Marketing do livro, materiais para uma sociologia do editor português (1999).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

30 DIAS - EDIÇÃO DE JANEIRO

oeiras12006c.JPGO roteiro de Oeiras traz na capa Paula M. Alves, cientista no Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB), em Oeiras. Responsável pelo grupo de Tecnologias de Células Animais, usa estas "para a produção de fármacos. O que fazemos é manipular essas células para obter fármacos destinados ao combate ou à prevenção de doenças". No sábado, dia 28, ela receberá os visitantes que queiram descobrir a ciência que ali se faz. O ITQB fica na Av. República, na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras.

E o que posso destacar mais deste número do 30 Dias? Primeiro, a exposição (8 de Janeiro a 26 de Fevereiro) de Eduarda Filhó (escultura) e Helena Pinto Magalhães (flores, transparências e paisagens), em que duas escritoras de Oeiras, Ângela Leite e Margarida Faro, falarão dessas obras de arte (dia 21, pelas 15:00). A exposição e conferência decorrem na Livraria-Galeria Municipal Verney.

Segundo, a loja de instrumentos musicais, Music Factory, na rua do Proletariado, 15 A, em Carnaxide, onde os clientes podem experimentar os instrumentos, do piano ao sintetizador. Terceiro, a indicação de bolsas de doutoramento e mestrado para 2006, atribuidas pela Fundação Marquês de Pombal (fmpombal@mail.telepac.pt).
A VITÓRIA DA TVI NA GUERRA DAS AUDIÊNCIAS

A nota escrita por Adriano Nobre, na newsletter Meios e Publicidade do dia 3 deste mês, sintetiza o sucesso da noite de passagem de ano, símbolo do comportamento do ano: "A proposta televisiva da TVI para a noite de fim-de-ano bateu largamente a concorrência da SIC e da RTP1 nas audiências do último serão de 2005. O Grande Directo que acompanhou o final da segunda edição do reality show 1.ª Companhia proporcionou à estação de Queluz a liderança do ranking de programas mais vistos no dia 31 de Dezembro, com uma audiência média de 12,2% e um share de 50,4%. Os programas da SIC e da RTP1, por seu turno, quedaram-se pelos 24.º e 25.º lugares desta listagem, obtendo ambos audiências médias de 4,4% e shares de 18,2% e 17,1%, respectivamente. No total dia de 31 de Dezembro, a TVI obteve um share médio de audiências de 33,7%, contra os 26,5% da RTP1 e os 20,8% da SIC".

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Tais números esmagadores levariam José Eduardo Moniz, director-geral da TVI, a considerar que a evolução da TVI "é um caso a ser estudado nos manuais de como se faz a recuperação de uma estação" (Público, 3 de Janeiro). Quando Moniz chegara à estação, em 1998, a TVI tinha uma quota de mercado de 13,1%. Ainda recorrendo ao Público de 3 deste mês, em artigo assinado por Paulo Miguel Madeira, extram-se as seguintes ideias-chave: 1) SIC perde liderança que tinha há 10 anos, 2) TVI aumenta 1,1% e ganha no horário total e no horário nobre, 3) noticiário das 20:00 da TVI bate o da RTP, 4) subida de 1,4% de share na televisão por cabo, e 5) o canal 2: recupera para níveis de 2003. Já Marina Almeida, no Diário de Notícias, inicia assim o seu texto: "O final da 1ª Companhia e a novela Morangos com Açúcar - Férias de Natal deram a vitória à TVI no último dia de 2005 e no primeiro dia do Ano Novo, respectivamente".

A minha perspectiva

A meu ver, devemos procurar outros elementos que justificam esta vantagem da TVI, na linha do que tenho aqui vindo a explorar. Refiro-me às sinergias (apoio mútuo) entre a televisão (popular, neste caso) e a imprensa cor-de-rosa ou sentimental, dada a identidade comum de públicos-alvo. Espreitemos três publicações editadas esta semana, com rescaldo do final da 1ª Companhia, que são: Ana, Maria, TV 7 Dias, as duas primeiras em formato mais pequeno que a outra (a revista Caras dedica um grande espaço ao casamento da modelo Figueiras com o futebolista Peixoto, mas em semanas anteriores dedicou atenção ao reality-show).

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As revistas Ana e Maria são muito semelhantes, concorrendo para o mesmo alvo, as mulheres de classe C2 e D, muitas delas donas de casa ou jovens adultas com empregos de baixos salários, vivendo na cidade ou em aglomerações urbanas. O que trazem? Notícias das telenovelas, cuidados com pele e saúde, conselhos de ordem sexual ("Você assusta ou atrai os homens?" e "Deixe-o louco de desejo em 2006", na Maria; "Conheça as vantagens de ser «a outra»", na Ana), como (sobre)viver com baixos ordenados ("Estique o ordenado até ao fim do mês", na Maria; "12 medidas para €sticar o ordenado", na Ana), moda ("Saias e corsários para combinar com tons rosa", na Ana), culinária, horóscopos e cartas de leitoras.

Sobre a 1ª Companhia, a Maria dedica cinco páginas, uma delas com texto de Cristina Areia, a vencedora, e a Ana apenas três páginas, duas das quais sobre a mesma "recruta". Só por esta amostra se percebe qual era a tendência dos media cor-de-rosa e sentimentais (não sei quer a influência das revistas na votação quer também a forma como é feita a votação). A Maria, com manchete na capa, escreve sobre Ruth Marlene, que passou pelo reality-show, ocupando duas páginas à cantora. Aí se menciona que ela se tornou mais popular e cobra quase €10 mil euros por espectáculo, "acima dos de Romana, Claudisabel ou Mónica Sintra", "estrelas" do mesmo espaço de Marlene.

Mas voltemos à 1ª Companhia e ao que se publica nas duas revistas. A Maria traz uma entrevista com Sá Leão, rapper e produtor de filmes pornográficos, que terá uma "química" com Marlene, a acima referenciada cantora (de um êxito chamado Pisca-pisca), de modo que os filhos daquele querem saber do grau de profundidade da relação. Também Serginho, "recruta" do mesmo reality-show e actual guionista da TVI, fala da sua vida e da família. A Ana assenta em três "recrutas", a vencedora e o par Leão-Marlene. De Areia, até aparece o pai a comentar: "Ela quer comprar uma televisão para a filha e trocar de carro, porque o dela já está velho. O restante dinheiro vai servir para fazer um pé-de-meia" [prémio: €25 mil].

Com temas e discursos assim não é de estranhar a simpatia das leitoras das revistas pela TVI; cada uma delas aspira - mesmo contando com a exposição desagradável em algumas situações - a comprar um carro e, talvez, uma casa. As audiências das revistas contribuem generosamente para as audiências da TVI.

tv7dias312006.jpgJá a TV 7 Dias dedica 15 (quinze) páginas ao reality-show (a revista nem sequer pertence ao grupo Media Capital, mas sim à Impala, detentora também da Maria). O "capacete de ouro", ganho por Cristina Areia, é a introdução para a afirmação dela em dedicar a vitória à filha, mas também ao pai, comediante, como se lê na publicação. Reflicta-se no que se escreve sobre ela: "Foi nos primeiros momentos de 2006 que Cristina protagonizou a apoteótica entrada nos estúdios. Com direito a fogo de artifício e bailarinas emplumadas, a actriz chegou em delírio". Num pequeno destaque, a revista dá conta de vídeos de retrospectiva do programa com outros parceiros do programa: Júlia Pinheiro, José Pedro de Vasconcelos, Ruth Marlene e Jorge Monte Real.

Convém aqui frisar que o programa entrou pela passagem de ouro, não respeitando a regra do primeiro Big Brother, cujo vencedor, o ingénuo Zé Maria, foi conhecido antes das doze badaladas. O "esticar" o programa para além da hora clássica de o finalizar mantém a audiência agarrada ao televisor.

Não tem havido discussão sobre temas como os reality-shows, tirando alguns comentários de Eduardo Cintra Torres no Público e mais escassos textos sobre televisão editados no Diário de Notícias. Merecem ser estudadas: a cumplicidade (acima escrevi sinergia) entre televisão popular e revistas de coração, a circulação de "estrelas" tipo (cantores, antigos futebolistas, actores e produtores de filmes pornográficos, ingénuos, figuras habituais de revistas cor-de-rosa, profissionais das artes do espectáculo em fim de carreira) e o papel da animadora [Júlia Pinheiro tem uma bela voz de locução, como o fez durante algum tempo nos programas da manhã da RFM e da Antena 1, mas grita e perde o controlo no reality-show, "disparando" o conteúdo de uma garrafa de champanhe no final do programa, do mesmo modo que Teresa Guilherme, agora em estilo quase intimista no primeiro dia do ano na SIC].

O sucesso da TVI, que começou nos noticiários protagonizados pela agora afastada Manuela Moura Guedes e nas novelas portuguesas (caso de Ninguém como tu), prolongou-se nos reality-shows (Big Brother, Quinta das celebridades e 1ª Companhia) e na novela "juvenil" Morangos com Açúcar, que aposta, entre outras coisas, no entertenimento musical, lançando os D'ZRT e agora convidando a "boys band" Anjos para actuação dentro do programa.

Observações finais

Para mim, é claro que a televisão domina e as revistas sentimentais apoiam-se nos programas, criando informação complementar. Apesar de serem meios que atraem audiências elevadas, produzem universos fechados e auto-referenciais. Quem não tenha visto a 1ª Companhia não percebe a teia de agentes sociais entrevistados e analisados nas publicações. As personagens dos reality shows são criadas na e para a televisão, havendo necessidade de as consubstanciar nas revistas, para uma maior percepção das telespectadoras (e telespectadores). À recepção do programa, seguem-se as conversas entre o público, numa reconstituição do mesmo.

Por outro lado, e apesar de parecerem não narrativas, os reality shows têm guiões, e as "surpresas" estão contempladas nesses guiões (livres, como em alguns filmes, que deixam os actores e actrizes com grande liberdade de encenação). Os cortes diários e a condução do apresentador(a) são duas das formas de levarem horas monótonas para picos de atenção. Logo: há narrativas, como numa série.

Há um evidente sucesso na TVI em termos de gestão. Mas não o há em termos de cultura. O fechamento que anotei acima significa ainda uma ausência de crítica ou conhecimento da realidade. O sonho de ganhar dinheiro para uma televisão ou um carro não nos mostra os problemas e as situações do país. A produção de reality shows mostra um mundo neutro e apolítico, em que mesmo os rufias têm bons sentimentos (o Frota dos filmes pornográficos, tornado célebre no nosso país num desses reality shows, aparece a dar beijos e carinhos no seu filho, numa das revistas acima referenciadas).

A "novela da vida" reflecte um mundo de pequenas estrelas e pequenos oportunistas num pequeno e pobre país, com semi-analfabetos com sonhos de ascensão social e gente que aparece nas revistas para aparecer na televisão para aparecer nas revistas, desempregados ou sem emprego conhecido, numa mistura de esquema e variações própria das novelas produzidas pela Globo e pela NBP. Aqui, confluem géneros televisivos como comédia e musical, com profissionais em trabalho de intermitência artística (freelancers) e amadores, numa tipologia cinematográfica ou televisiva em construção.

Ao inegável sucesso de gestão da TVI - o caso a ser estudado, como quer Moniz - junta-se um retrato negro do país: com pouco sucesso (ao contrário do "bom aluno" de anos atrás), vivendo de expedientes (o concurso é um expediente, com a desvantagem de a selecção não ser aleatória como se julga, mas ser mesmo uma selecção prévia da produção do programa), com pouco dinheiro na carteira mas tendo ideias de rico. O sucesso da TVI tem uma correspondência directa no nosso insucesso colectivo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

PROMO

Não se esqueça de ler os próximos postais do blogue. Assim, amanhã, de manhã cedo, pode ler A vitória da TVI na guerra das audiências, enquanto que, para sexta-feira, o blogueiro continua e conclui a leitura de Profissões do livro. Editores e gráficos, críticos e livreiros, um livro de Jorge Manuel Martins, postal iniciado no passado dia 2.

Um excerto do postal de amanhã: "Por outro lado, e apesar de parecerem não narrativas, os reality shows têm guiões, e as «surpresas» estão contempladas nesses guiões (livres, como em alguns filmes, que deixam os actores e actrizes com grande liberdade de encenação). Os cortes diários e a condução do apresentador(a) são duas das formas de levarem horas monótonas para picos de atenção. Logo: há narrativas, como numa série".

Continue ligado regularmente ao IC.
COMPETIÇÃO DE SUDOKU

Segundo o blogue Amoreiras Sudoku Challenge, entre amanhã, dia 5, e 29 de Janeiro vai ter lugar no Amoreiras Shopping Center um campeonato de Sudoku. Basta aparecer no Centro Comercial, levando bilhete de identidade, e inscrever-se na competição, que decorrerá no primeiro piso, junto à zona dos restaurantes (stand específico para o Sudoku).
LINHAS DE DESENVOLVIMENTO DOS BLOGUES

Tenho observado alguma alteração na filosofia de trabalho em blogues que seguia diariamente. Anoto, em especial, os blogues RetortaBlog, de Mário Pires, e Intermezzo Bloglines, de Daniela Bertocchi. Para além de produção própria, incluem sinalizações para postais (posts) de outros blogues, num esforço de sistematização dentro das suas especialidades. Numa linha intrínseca ao funcionamento dos blogues, tornam-se agências de informação, anotando apenas o título ou uma síntese.
ROTEIROS TURÍSTICOS

Nos finais dos anos de 1940, a ROTEP (de: Roteiro Turístico e Económico de Portugal), com sede na Av. da Boavista, 1424, no Porto, editaria desdobráveis de papel forte com indicações geográficas e económicas dos concelhos do país (fechados mediam 16,8 x 22,4 centímetros; abertos oito vezes aquela dimensão). Não sei se foram editados todos os concelhos, mas tenho indicações de, pelo menos, 229 o terem sido.

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Como se pode observar nos três exemplares acima, as capas representavam espaços paisagísticos ou edifícios facilmente reconhecíveis dos concelhos, como a Câmara Municipal. No interior, havia uma pequena história do concelho.

Respigo algumas linhas do desdobrável de Ovar: "As antigas indústrias - fabrico de louças de barro sem vidrar [...] - desapareceram, suplantadas pelo aparecimento dos esmaltes e pela construção de paredões onde os grandes navios, que vêm ao Tejo, acostam comodamente. Oleiros e calafates são, em Ovar, figuras da tradição. As duas olarias sobrevivas dedicam-se, apenas, ao fabrico de vasos para jardim e algumas vasilhas para líquidos. Em sua substituição, todavia, temos uma importante fábrica de telha do tipo de marselha, tijolos e tubagem de grés e botijas. Tiveram larga fama de mestras de bordados a branco e de flores artificiais as mulheres que viveram em Ovar por todo o século passado [leia-se XIX]. Para as pessoas de bom paladar, subsiste a indústria do pão de ló, célebre entre as celebridades das gulodices nacionais".

E, durante parte do século XX, a fábrica de motores Rabor deu fama ao concelho, como numa das imagens mais pequenas abaixo se consegue descobrir.

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Estas imagens, como se descobre facilmente, eram os mapas com apontamentos económicos, de trajes e tradições, num exemplo perfeito da ideologia do Estado Novo: a ruralidade, a auto-suficiência, a distinção de especificidades: as praias na Barrinha de Esmoriz, em Cortegaça e no Furadouro; as romarias em S. Vicente de Jusã, Senhora de Entre-Águas ou Senhora do Desterro; o chapéu vareiro, a nora, as fábricas.

Na última página do desdobrável, identificavam-se outros dados do concelho, como população e área do concelho. Em 1949, Ovar tinha estação telégrafo-postal de segunda classe, com horário para o público das 8:00 às 20:00 e serviço permanente de telefones. Então, publicavam-se dois semanários: João Semana e Notícias de Ovar.

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À falta de um termo melhor, cunho como regionalista esta estética numa indústria cultural incipiente - o turismo. A segunda guerra mundial acabara pouco antes, vivia-se por toda a Europa um período de reconstrução e Portugal, apesar de não ter entrado directamente na guerra, procurava reorientar-se económica e politicamente (o que não aconteceu). A estética saída da Exposição nacionalista dos centenários (1940, em que se comemoravam a independência do século XII e a restauração de 1640) vincar-se-ia oficialmente, deixando outras estéticas (como o surrealismo e o neo-realismo) para outros agentes sociais e culturais.
UM BLOGUE DE ENSINO

Só agora descobri o blogue http://teocomuni.blogspot.com/. No seu começo, em Setembro último, aquele blogue dá conta da linha editorial: "Este blog surgiu da vontade de apoiar pedagogicamente os alunos da disciplina de Teorias da Comunicação Social, do curso de Marketing e Relações Públicas, do Instituto Superior de Entre Douro e Vouga, Santa Maria da Feira. A finalidade é permitir, através da consulta semanal deste modo de publicação, de informações pertinentes e de contextualização das matérias leccionadas bem como proporcionar material de apoio que ajude a melhor perceber o universo comunicacional".

Em postais recentes abordam-se livros como os de Castells, Baudrillard e Lipovetsky, conceitos como agendamento, newsmaking e gatekeeping e um texto meu (a partir da leitura de McLuhan).
GENTILEZAS

Para o blogue Engrenagem, de João Pedro Pereira, o IC foi classificado com menção honrosa na classificação de melhores blogues de 2005. O meu obrigado.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

PATRICIA BARBER

Anunciada para 23 de Janeiro, no Centro Cultural de Belém (Lisboa), a actuação da cantora e pianista de jazz Patricia Barber. Para mais informações, clicar em Smog - Produções Culturais.

Nascida nos subúrbios de Chicago, ela tornou-se um dos nomes importantes da nova escola de vocalistas femininas de jazz. Estudou piano clássico e psicologia na Universidade de Iowa. A sua carreira tem cerca de vinte anos, contando com sete discos (informações recolhidas no seu sítio).

PODCAST MEXE COM POLÍTICA FRANCESA

Noticia a newsletter de hoje do European Journalism Centre que o ministro do Interior francês, Nicolas Sarkozy - que quer ser o próximo presidente e que tem falado poucas vezes perante uma audiência -, foi entrevistado por um dos blogueiros franceses mais lidos, o Loic Le Meur Blog, por podcasting, no passado dia 22.

A leitura da entrevista, que durou mais 30 minutos, atraiu mais de 50 mil visitas ao blogue Loic Le Meur Blog e foi replicado por muitos outros blogues daquele país. Apesar de francês, existe no blogue uma tradução em inglês, fazendo a síntese da entrevista. Na notícia que venho seguindo, há ainda a indicação da quebra do protocolo, com os dois a tratarem-se por tu e não por senhor (você, senhor ministro) durante a entrevista.

Isto quer dizer que, doravante, os políticos franceses (e não só) não podem ignorar a importância crescente dos novos media.

Imagens dos caminhos-de-ferro



Há 40 anos, o Boletim da CP, com a assistência técnica da Associação Fotográfica do Porto, avançou com um Salão de Arte Fotográfica, no Porto (1 a 30 de Outubro de 1966). Motivos: os cinquenta anos do edifício de S. Bento, a estação portuense dos caminhos-de-ferro, e a finalização da electrificação da linha do Norte.

No catálogo, reuniram-se 83 fotografias de 23 fotógrafos, a maioria com residência no Porto, havendo também gente de Lisboa e Funchal entre outros concorrentes. Da nota de abertura do mesmo catálogo, assinada por Élio Cardoso, o editor do Boletim da CP, lia-se: "Tal como à literatura, gravura, pintura, escultura, numismática, e outras artes, também o caminho de ferro interessou, com a sua vitalidade dinâmica e criadora, a arte fotográfica".




Exceptuando a última das imagens seguintes, uma representação do interior da estação - em obras neste início de 2006 -, as outras são fotografias que obteriam prémios nesse salão, a saber (nome e título): 1), Bernardino Pires (A "23"), 2) Bernardino Pires (Missão cumprida), e 3) Joaquim Reis Balsinha (S. Bento à meia-luz). O motivo central destas três fotografias era a memória das carruagens a vapor [quando se festejava a electrificação das linhas]. Delas ainda tenho uma lembrança ténue de as ver sob aqueles telhados com arquitectura de ferro.





segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

AFINAL, O EXPRESSO TINHA RAZÃO

Quando a última edição anunciava António Mega Ferreira para a presidência do CCB (Centro Cultural de Belém). Estranho mesmo foi o desmentido do mesmo, nesse dia de quinta-feira. E, a reboque, as notícias dos jornais editadas no dia seguinte.

Por mim, tenho sempre presente como verdade jornalística a história, no final dos anos de 1970: quando o ministro, que tinha a tutela a fixação de preços do petróleo, dizia não ocorrer um aumento de gasolina nos próximos tempos era certo o aumento acontecer nas horas seguintes.

Mega Ferreira, escritor, homem de cultura e experimentado jornalista, podia ter-nos poupado a esse desmentido. É que a posição fragilíssima de João Fraústo da Silva, o agora ex-presidente, ficara "out" com a negociação da colecção Berardo, na qual não entrara. Seria uma questão de poucos dias a alteração de estatuto pessoal.

Silva estava à frente do CCB desde 1996, por nomeação de Carrilho. Ainda nos dias recentes, os jornais informavam que ele, a sair, teria de ser demitido. Segundo se pôde saber hoje mesmo, o despacho ministerial fala de uma nova dinâmica no CCB, com novas valências de intervenção cultural e internacional.

Quanto ao Expresso, em duas semanas, e sobre o CCB, dá notícias antes da concorrência. Esta, ou se atrasa ou desmente o indesmentível. Será a nova direcção do semanário a funcionar já?
PRÉMIO “COISAS SIMPLES: PACHECO SABE QUEM EU SOU/PARA MIM ELE É O RONALDINHO GAÚCHO DA BLOGOSFERA PORTUGUESA”

Segundo O Acidental, havia três candidatos: "Masson in Almocreve das Petas Paulo Gorjão in Bloguítica Rogério Santos in Indústrias Culturais. E o vencedor é…Masson. Poucas vezes se viu tanta quantidade de manteiga fora de uma torrada" (mensagem escrita por Rodrigo Moita de Deus).

Aquele blogue lançou outros prémios, não sabendo eu os motivos para tal desempenho. Fica o registo.
A LER COM ATENÇÃO

Os postais escritos ontem e hoje no blogue Jornalismo e Comunicação, casos de Expectativas para 2006 ou Escutar e monitorizar a blogosfera. Um serviço público cada vez mais importante. Apesar de ler os jornais diários de qualidade (às vezes freneticamente), é fundamental a informação dos media que surge no espaço dos docentes e investigadores da Universidade do Minho. Do link ao comentário sobre os media tradicionais e os media mais recentes, incluindo óbitos de autores como Lorenzo Gomis, ali encontramos muita matéria para discussão e reflexão.

Mas ler também (Algumas) Memórias radiofónicas de 2005 , do blogue A Rádio em Portugal.
PROFISSÕES DO LIVRO (I)

[postal dedicado a Manuel Bragado, do blogue galego Brétemas, e a todos os editores da Galiza]

O livro de Jorge Manuel Martins, como já aqui escrevi, é um importante contributo para a percepção do livro enquanto indústria cultural. Ele fala de sociologia do livro e avança para o campo da mediação, contextualizado na era digital, com o binómio livro/mediação (p. 22), numa época em que já ninguém anuncia a morte do livro (p. 312). O seu trabalho resulta do vaivém entre teoria, observação participante do autor e entrevistas a profissionais do livro (p. 23). Fundamentais nele são três grandes dimensões de análise: profissões, tecnologias e cultura (p. 364).

Esclarecendo melhor, o objecto de estudo aponta os actores sociais que intervêm “antes” do livro ser adquirido, não tratando da procura ou da recepção. De destacar a segunda parte, onde o autor estuda pormenorizadamente os vários mediadores dos campos da produção e difusão do livro, a saber: editores, gráficos, críticos e livreiros. Das perguntas de partida, Jorge Manuel Martins indagou a função dos actores sociais da mediação do livro e a sua articulação, assim como o contributo dos novos diplomados da área. E procurou responder à pergunta: o mediador do livro é pessoa de cultura ou pessoa de negócios?

Como se vai depreender deste postal, o autor coloca uma atenção especial nos editores. Faço uma citação de um profissional escutado pelo autor: “As cartas credenciais do editor profissional são os catálogos, ou seja, os livros que publica e as colecções que cria ou dirige” (p. 276). Mas, obviamente, também estuda as relações dos editores com os restantes mediadores – agentes envolvidos no processo de fabrico e venda do livro, igualmente interessados no bom funcionamento de todo o processo – como: 1) gráficos, designers e técnicos de artes gráficas, 2) livreiros, em vários canais de venda, e 3) críticos (p. 285).

Referências às indústrias culturais

O autor parte de duas definições de indústria cultural, segundo a Unesco. Em primeiro lugar, “convém procurar não substituir os objectivos culturais por objectivos puramente comerciais. […] As indústrias culturais, que integram os novos media, encaminham-se para se tornarem um dos sectores mais importantes da economia. […] As políticas de desenvolvimento podem comportar toda uma série de incentivos por parte dos poderes públicos” (p. 48).

Em segundo lugar, as indústrias culturais são “sectores que: (a) conjugam criação, produção e comercialização de bens e serviços, cuja particularidade reside na intangibilidade dos seus conteúdos, geralmente protegidos pelo direito de autor e cuja dualidade (cultural e económica) constitui o principal sinal distintivo; (b) incluem livros, revistas, música, audiovisuais, produtos multimedia, artes plásticas, cinema, fotografia, rádio, televisão, bem como artesanato e design; (c) em certos países, o conceito é alargado à arquitectura, às artes plásticas, às artes do espectáculo, aos desportos, ao fabrico de instrumentos de música, à publicidade e ao turismo cultural; (d) alguns preferem usar a expressão indústrias criativas (creative industries), alguns meios económicos falam de indústrias de expansão (sunrise industries) e os meios tecnológicos de indústrias de conteúdo (content industries); (e) em muitos países, durante a década de 90, o seu crescimento foi exponencial, em termos de criação de emprego e de contribuição para o PIB” (p. 330).

Com base nas definições, Jorge Manuel Martins defende que o livro é a mais importante das indústrias culturais, requerendo um clima de liberdades públicas e um ambiente económico e cultural favorável (p. 48). Como indústria cultural, o livro é uma indústria de criação, produção e difusão de bens e serviços, que veicula valores, reflecte identidades e constrói um contexto económico. E é onde se fala de diversidade ou excepção cultural (pp. 216-217), face à estandardização das regras da Organização Mundial do Comércio.

Da cadeia de valor à visão sistémica

O autor dá ênfase à visão integrada da cadeia do livro (pp. 107-108), naquilo a que eu chamaria de cadeia de valor do livro, e que tem os seguintes elos: (a) autores, incluindo escritores, redactores, ilustradores e fotógrafos, b) editores, incluindo peritos editoriais (caso de coordenadores editoriais, tradutores e revisores) e gestores, c) gráficos, incluindo designers e técnicos gráficos, d) agentes de difusão, incluindo os actores dos canais indirectos (distribuição, livraria, quiosque, grande superfície) e dos canais directos (clubes, correio directo, crediário, feiras, comércio electrónico) e críticos (jornalistas, publicistas, educadores e professores), e) leitores, como bibliotecas e consumidores finais. Jorge Manuel Martins não analisa este último elo.

Apesar da grande clareza nesta cadeia de valor, o autor considera-a ultrapassada, pelo que a terceira parte a enquadra numa visão sistémica e holística. Isto é, à cadeia do livro sucede a rede do livro e a rede de cooperação, reforçada pela internet (p. 310). Os traços principais desta cadeia sistémica e de rede são (pp. 192-193): 1) a produção já não é exclusiva do editor, pois autor, gráfico, livreiro e bibliotecário também podem ser editores; 2) antes fazia-se primeiro o livro e depois vendia-se, agora pelo print on demand é possível imprimir a pedido, desde que o original se encontre digitalizado, c) todos os mediadores do livro exercem poder, d) a gestão moderna não separa produção técnica e comercialização.

A cadeia sistémica constitui-se por fluxos de trabalho, indicadores de rentabilidade, mentalidades que mudam, maior envolvimento das pessoas, formação contínua e circulação da informação (p. 320). No novo ambiente, há três práticas do livro que importa realçar: qualidade, marca e embalagem (p. 225). Como um livro é diferente de um outro livro, fala-se em indústria de protótipo (p. 227), conceito aliás extensível a outras indústrias culturais como o disco e o filme. Por isso, para o êxito de uma obra são fundamentais as “assinaturas” do editor, do tradutor e do gráfico, mas também as “recomendações” do crítico e do livreiro (p. 228). Cada um destes mediadores, que selecciona, opera também a transferência da sua própria chancela para o produto de uma indústria cultural onde é protagonista. Sem esquecer que “o aspecto de visibilidade dos livros é muito difícil de gerir”, como confessou um dos profissionais em entrevista ao autor (p. 286).


Leitura: Jorge Manuel Martins (2005). Profissões do livro. Editores e gráficos, críticos e livreiros. Lisboa: Verbo. 390 páginas, preço: €29

[postal a continuar]