domingo, 11 de junho de 2006

PEQUENAS NOTAS SOBRE A IMPRENSA NUM DOMINGO DE SOL

1. No Diário de Notícias de ontem, Ana Sá Lopes, escrevendo sobre Timor-Leste e a situação dramática que ali se vive, destaca a opinião de analistas australianos (quais?), segundo os quais Timor-Leste é um "Estado falhado", feito "à portuguesa". Nunca li coisa tão violenta sobre Portugal, a seguir ao recém-chegado Jack Welsh, que em conferência também não foi nada abonatório para com o nosso país. Parece que tudo o que o país faz é mau e tem implicações profundas em tudo aquilo em que tocamos e contactamos. A ser verdade o que a jornalista escreve, precisamos de mudar o nosso país; só não sei como.

Olhando melhor a notícia, percebe-se que Ramos Horta (ministro dos negócios estrangeiros e da defesa) vai defender uma proposta australiana na ONU (não sei muito bem qual), o que significaria uma derrota diplomática para Portugal. E, mais significativo, é um texto assinado por um filho do mesmo Ramos Horta, no Expresso de ontem, que considera Alkatiri (primeiro-ministro) e Xanana Gusmão (presidente da República) como os senhores da guerra, em que ambos estão a conduzir o país para o desaparecimento. Isto é: dos três dirigentes mais conhecidos de Timor - Xanana, Alkatiri, Horta - fica a ideia do pai como salvador da pátria. Claro que não lhe fica nada bem esta posição, além de que ele se assina como investigador num instituto australiano.

Certamente, as coisas, embora resultem de conflitos entre personalidades fortes, têm explicações mais profundas que apenas estas declarações impressionistas. Uma carta-artigo num semanário como o Expresso, sem qualquer explicação, é um pequeno barril de pólvora a rebentar muito longe daqui, exactamente em Timor-Leste. Aos jornais e jornalistas exige-se que enquadrem e contextualizem.

2. Hoje, começou o período de férias do provedor do leitor do Público. Tendo começado funções nos princípios do ano, Rui Araújo já tem uma marca de identidade na sua página. Menos conciliador e menos teórico que outros provedores de jornais - antigos ou actuais - tem a seu favor ter recebido 886 mensagens electrónicas e oito cartas (Público de 4 de Junho), número soberbo, se se considerar que outros provedores se queixaram ter pouca participação dos leitores, indicativo de um espaço de opinião alargado. Isto é, Rui Araújo é menos conciliador e teórico e isso agrada aos leitores.

A mim também. Os erros que aponta aos jornalistas são, com certeza, objectivos. Mas ele surge frequentemente como se fosse um matador de carácteres. Fica a ideia que os jornalistas são incapazes, quase incompetentes, que o melhor seria substitui-los por outros. Numa das últimas páginas do provedor, Rui Araújo fez referência a uma jornalista, pela qual eu tinha uma grande atenção em ler, dadas as matérias que habitualmente escreve serem do meu agrado (observação: eu nem sequer a conheço pessoalmente). Doravante, passarei a lê-la com cautela - ou a saltar para além dos seus textos.

O resultado final pode ser que deixe de comprar o jornal, por tantas incoerências e defeitos. Eliminam-se, de uma só vez, o mensageiro e a mensagem. Talvez a concorrência beneficie.

3. Por escrever em concorrência. Parece-me absurdo o uso de recursos humanos dos jornais no destaque do mundial de futebol. Por exemplo, o Diário de Notícias reduziu de duas para uma página a secção dos media, porque houve deslocação de jornalistas para cobertura do futebol. Será que os leitores do jornal vão ler a quantidade elevada de páginas sobre a matéria? Aos leitores não basta a televisão? E os jornais desportivos, mais especializados em fofocas, estratégias e tácticas do jogo, não são melhores e têm públicos fiéis? Será a atracção dos tablóides a surtir efeito, com os jornais de referência a descomprimirem a sua postura nestas ocasiões? Perguntas finais: servem a opinião pública? VENDEM MAIS?

sábado, 10 de junho de 2006

ARTES PERFORMATIVAS EM BEJA


A arte publica – artes performativas de Beja estreia no próximo dia 15 de Junho, pelas 21:30 (Sala do Capítulo da Pousada de S. Francisco) a sua mais recente intervenção performativa, quando se comemoram 250 anos do nascimento de Mozart. Segundo comunicado recebido, o Projecto Sonata "aborda e cruza universos sonoros e musicais, aparentemente distintos entre si, tais como a musica clássica e a improvisação jazzística". Ao piano, toca Angelo Martino, e, na voz, Gi Cañamero.

BLOGOSFERA NO JORNAL PRIMEIRO DE JANEIRO


Na edição de hoje de O Primeiro de Janeiro, Paula Almeida escreve sobre o encontro realizado esta semana na livraria Minerva, em Coimbra, cujo tema foi a blogosfera (o texto também pode ser lido aqui), em que António Granado (jornal Público) e eu participámos.

Obrigado, Paula.

OS BLOGUES MAIS PROLÍFICOS


Paulo Querido, na sua coluna semanal no Expresso ("Única"), escreve sobre os blogues que mais posts apresentam em média. Os três primeiros são Blasfémias, Máfia da Cova e Bloguítica.
Para o autor do terceiro blogue, Paulo Gorjão, o seu espaço é um contributo para o debate público, um "instrumento pessoal no exercício da cidadania" (um dos blogues mais referidos na coluna diária de citações do Diário de Notícias).

Escreve Paulo Querido que a produção de posts no conjunto de 60 blogues que ele acompanhou durante mais de mês e meio - de entre os mais populares e mais referenciados - daria para alimentar um jornal diário de grande circulação.

Nesta febril produção, o Indústrias vem num honroso vigésimo lugar.

CONVERSAS SOBRE CIBERJORNALISMO

De destacar o post colocado no blogue Jornalismo e Comunicação sobre jornalismo digital, escrito por Daniela Bertocchi, no passado dia 6, e a propósito de uma conferência que contou com a presença de Luís Carvalho, jornalista e fotógrafo do Expresso. Nele lê-se: "Uma das partes mais interessantes da conversa que tivemos com ele neste dia foi precisamente sobre as habilidades e competências colectivas que deveriam ser acrescidas ao perfil profissional do jornalista que pretende trabalhar em meios digitais".

ALVAREZ EM LISBOA

José Cândido Dominguez Alvarez (1906-1942) nasceu e morreu no Porto. Mas, como os pais eram galegos, até os jornais do Porto o davam como sendo do norte de Espanha. Aliás, Alvarez foi cedo estudar para Pontevedra (telegrafia), embora não terminasse qualquer curso nessa área.

A paixão era a pintura, tendo conseguido entrar em Belas Artes (1926) e concluir o curso (1940), poucos anos antes da morte.

Os investigadores da sua pintura notam três fases no percurso de artista em Alvarez. A primeira fase, logo depois do ingresso na Escola de Belas-Artes, inicia-se em 1928, a "fase vermelha", como chama Fernando Lanhas. São paisagens urbanas, de experimentação, longe do academismo da escola. Nos seus trabalhos, há cores quentes, com vermelhos e amarelos, com alguns azuis. Mas, logo em 1929, e até 1936, Alvarez passa por uma fase mais pessoal e interessante, em que a representação do que vê surge distorcido, errático e de forte inclinação face a um plano da terra. São árvores e postes telefónicos esgrouviados, chaminés pululando na paisagem com o seu fumo negro também muito inclinado.

E, sobretudo, os homens, com chapéu de coco, muitos à beira da porta da taberna, entrando ou saindo, estilizados, de negro, solitários, caminhando a 45º, no passeio ou na praça, por vezes deixando sombras no seu rasto. Cenas de cemitério ou homens abrigados com guarda-chuvas acompanham este período de grande riqueza pictórica em Alvarez. É, para mim, o período mais fascinante do seu trabalho.

A terceira fase, mais naturalista, resulta de - dizem os especialistas - uma dupla pressão. Por um lado, a necessidade de vender algumas obras, dado que Alvarez não tem posses e vive com os pais, com um magro salário. Por outro lado, algumas viagens feitas pelo norte de Espanha, indo da Galiza até ao País Basco. Curiosamente, nunca empreendeu uma viagem a Lisboa, pelo que o contacto com a actividade artística aqui era sempre em segunda mão. A fase naturalista consiste na reprodução de paisagens rurais, da natureza, em quadros de dimensões reduzidas, parecendo quase postais ilustrados. Minúcia e cores vivas enchem essas pequenas obras, e que Alvarez pintou em grande quantidade, com um elevado domínio técnico e de muita beleza estética, como se observa em reproduções dos seus múltiplos cadernos de apontamentos, prova da justa atribuição de uma bolsa de estudo por parte do Instituto de Alta Cultura.

Alvarez morreu cedo, com tuberculose. No entanto, tornou-se uma figura central no Porto (e na Galiza), quer pela fase modernista quer pelo último período, naturalista. De tal modo que, após o seu desaparecimento, se fez uma exposição contemplando a última fase. Como que em desagravo, outra exposição relevaria a fase experimentalista e modernista (1929-1936). Como se Alvarez não fosse um mas dois pintores.

A pintura deste artista inconfundível está patente na Gulbenkian (Lisboa), até 15 de Outubro, no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento. O catálogo, com diversas colaborações, é um elemento imprescindível para a compreensão de um pintor de obra solitária.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

CASA DE FARINHA

O DVD Casa de Farinha foi gravado ao vivo na sala Villa Lobos do Teatro Nacional Cláudio Santoro, na cidade de Brasília (Brasil). Filmado fez esta semana um ano e lançado em Fevereiro de 2006 [permissão da banda para colocar o vídeo aqui no Indústrias].



Se quiser adquirir o DVD, mande mensagem para:
quintaldiscos@gmail.com.

AINDA O LANÇAMENTO DO LIVRO DE TENGARRINHA

Nos vídeos seguintes, Mário Mesquita apresenta o livro de José Tengarrinha, anteontem no El Corte Inglés.



MOSTRAS E FESTIVAIS DE VERÃO

Amanhã, dia 10, pelas 22:00, na cidadela de Cascais, com apresentação de Soraia Chaves e Rui Unas, realiza-se o evento Cascais Moda desde 1870. Além de partes musicais, a Cascais Moda, em quarta edição, mostra a moda infantil e de adultos (de lojas do centro histórico da cidade) e fatos de banho e colecção Primavera/Verão de José António Tenente. O fogo de artifício encerra a mostra, antes da festa prosseguir noutro sítio da cidade.



A oferta de Sintra alarga-se a quase dois meses, tendo começado no passado dia 2 e prolongando-se até 23 de Julho. Amanhã, dia de Portugal, pelas 16:00, no centro cultural Olga Cadaval, haverá um concerto dado pelas escolas de música e dança do Conservatório Nacional. O programa prosseguirá no dia 18, no palácio da Pena, com o piano da russa Polina Leschenko. Para mais informações acerca do festival de Sintra, na sua 41ª edição: 219107118, geral@sintraquorum.pt, www.ccolgacadaval.pt.


quinta-feira, 8 de junho de 2006


No número mais recente do roteiro 30 Dias, da câmara de Oeiras, o tema de capa é a fadista Mafalda Arnauth. Mas, mal abri a publicação, saltei para a página 8, onde há uma informação sobre o salão nacional de humor, agora na vigésima edição. De que se trata? De centena e meia de trabalhos que foram sendo editados ao longo do ano, onde se satirizam os acontecimentos. Data de inauguração: 17 de Junho, de sábado a oito.

LIVRO DE TENGARRINHA

Como já escrevera, foi ontem lançado o livro de José Manuel Tengarrinha, Imprensa e opinião pública em Portugal. Deixo aqui um pequeno vídeo com parte da leitura da obra feita pelo próprio autor. O livro foi exemplarmente apresentado por Mário Mesquita (por falta de tempo, não pude editar um vídeo dessa apresentação, o que espero fazer num dos próximos dias, dada a qualidade da comunicação).

quarta-feira, 7 de junho de 2006

DESAFIOS DA SOCIEDADE DIGITAL GLOBAL

Depois de amanhã, dia 9 de Junho, pelas 18 horas, realizar-se-á na Galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura (CNC), na Rua António Maria Cardoso, 68 (ao Chiado), em Lisboa, uma conferência sob o título Perspectivas para uma Nova Escola - os desafios da sociedade digital global, por Carlos Araújo Alves, autor do blogue Ideias Soltas, cujos textos incidem, particularmente, na análise e reflexão sobre temas como Gestão cultural, Educação, Cultura, Ensino artístico e a sua integração no ensino regular, integrada no lançamento do livro de Vitor Oliveira Jorge, Cultura Light, produto das diversas comunicações proferidas no âmbito da última mesa-redonda com o mesmo título, realizada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto nos dias 22 e 23 de Abril de 2005.

Além de blogueiro, Carlos Alves, licenciado em História (Porto) e mestre em Gestão de marketing de serviços (Barcelona), é, nos anos mais recentes, consultor de gestão de empresas ligadas à cultura e/ao ensino artístico.
LANÇAMENTO DE LIVRO DE JOSÉ TENGARRINHA

O professor José Tengarrinha lança hoje o seu livro Imprensa e opinião pública em Portugal, integrado na colecção de livros de comunicação da editora MinervaCoimbra, colecção dirigida por Mário Mesquita. O lançamento é às 18:30, no El Corte Inglés, em Lisboa.

Constituído por trabalhos inéditos e outros publicados em revistas e actas de congressos em Portugal e no estrangeiro, como Tengarrinha escreve na introdução, o livro tem doze capítulos e apêndice (com fichas de jornais que transitaram do século XIX para o XX e texto sobre o dicionário jornalístico português de Augusto Pereira).

Do olhar pelo índice, encaminhei-me para o último capítulo, aquele que aborda a imprensa no Estado Novo. São 28 páginas; logo, uma síntese, a abrir o apetite para outros trabalhos que se esperam dos historiadores. Do seu capítulo, retiro alguns dados avulso: em 1926, antes da ditadura que conduziu ao Estado Novo, havia 17 jornais diários em Lisboa! Isto sem ter em conta a profusão e riqueza de jornais regionais. Após a criação do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), com António Ferro à frente, a partir de 1933, passa a existir um controlo dessa imprensa, com Tengarrinha a assinalar a situação dos media impressos distrito por distrito. Estas páginas parecem-me, da leitura em diagonal que fiz, de uma grande importância para estudos futuros.

Já a inflexão nos anos 40 (pós-segunda guerra) e o período marcelista, a rádio e a televisão e a "opinião pública" em Salazar e Caetano aparecem em esboço, igualmente a servir de aperitivo para outros trabalhos futuros de José Tengarrinha ou outros investigadores. Em especial o estudo de Marcelo Caetano, A opinião pública no Estado moderno, de 1965, que merece ser discutido e contextualizado na época, nomeadamente a partir da exposição 30 anos de cultura, que o próprio ministro da presidência e futuro primeiro-ministro concebeu em 1956.

Observação final: na edição de hoje dos dois jornais de referência de Lisboa, o Público dá maior ênfase ao livro de Tengarrinha, com quase uma página inteira dedicada ao livro. No texto de António Melo (Público), relevam-se as quatro fases da opinião pública mediatizada em Portugal segundo Tengarrinha: 1) formação do regime liberal (1820), 2) confrontos na sociedade liberal (1840), 3) turbulências políticas pós-ultimatum, 4) falência da Primeira República e advento do Estado Novo.
TERTÚLIA SOBRE BLOGUES

Ontem, ao final da tarde, na livraria Minerva (Rua de Macau, em Coimbra), António Granado, docente universitário e chefe de redacção do Público, e eu animámos uma conversa sobre blogues.

A seguir, deixo um vídeo com a parte inicial da apresentação do António Granado [modo de usar o vídeo: caso ele fique parado, não actue mas deixe guardar todo o ficheiro no seu computador; depois, recomece o vídeo, carregando num pequeno botão à esquerda da imagem].

terça-feira, 6 de junho de 2006

OS DESAFIOS DO JORNALISMO

A recente publicação do livro de Estrela Serrano, Para compreender o jornalismo, conjunto seleccionado de páginas da provedora do leitor, cargo que ela exerceu no Diário de Notícias durante o período 2001-2004, permite reconstituir uma época do jornal, as suas tendências e erros (humanos, logo assumidos). Trata-se de um texto bem escrito e elucidativo, em que a capacidade negocial, característica reconhecida na autora, está aqui bem presente. O equilíbrio entre o que lhe escreviam os leitores e as respostas dadas prova-se aqui: “a provedora não tem, por outro lado, elementos que lhe permitam afirmar que” (pág. 198), com os cidadãos e os leitores a merecerem o esclarecimento que a provedora não pode dar (pág. 81).

Adaptar as crónicas a livro é um género já usado por outros provedores (e uma aposta da editora MinervaCoimbra), parecendo-me fórmula inteligente para a compreensão de um período. Nem sempre os factos – e a sua análise no tempo de ocorrência – são compreendidos, por falta de contextualização suficiente na época a que reportam. A arrumação das crónicas semanais em capítulos temáticos dá mais consistência ao conjunto. As repetições dos problemas, caso de temas como o poder dos jornalistas e a auto-regulação, possibilitam duas leituras: 1) a repetição é evidente num processo em curso (crónicas semanais, com temas próximos ou semelhantes), 2) existindo temas iguais, a autora obriga-se a encontrar razões distintas, esclarecendo melhor o seu pensamento.

Serviço prestado pela provedora ao longo da sua actividade, detectam-se os seguintes movimentos: 1) responder ao leitor, a partir de práticas de bom senso, 2) solicitar ao director o seu comentário, 3) em grau menor, pedir ao jornalista visado a sua opinião.

Embora fragmentário, porque adaptado aos acontecimentos semanais e ao que os leitores escreviam, nota-se um apreciável esforço teórico no seu trabalho, ângulo que me interessa mais. Uma primeira linha a destacar é a preocupação em definir a disciplina do jornalismo. Apresenta três hipóteses: 1) o jornalismo quer ser uma ciência exacta mas não o consegue, 2) aproxima-se da ideia de historiador da actualidade, 3) é uma construção social da realidade como o coloca a produção teórica em geral (pág. 22).

Um outro objecto de estudo de Estrela Serrano é a tipologia de jornalismo. Contei cinco tipos. Os primeiros são um binómio: jornalismo de investigação e jornalismo de fontes, com aquele a não se satisfazer “com declarações oficiais ou oficiosas, confidências ou documentos disponibilizados estrategicamente” (pág. 117) e este a aproximar-se do designado “jornalismo sentado” (ligado ao computador). O seguinte é o jornalismo comercial, com os proprietários a apostarem em várias formas de atracção: investimento no conteúdo (informação, entretenimento, novas formas de publicidade), design e layout, e iniciativas de marketing (pág. 178). Há um terceiro, designado por jornalismo utilitário ou de serviço, com alusões directas a marcas e produtos dentro de textos noticiosos, e que Estrela Serrano vai buscar a Carlos Chaparro: “textos escritos em jeito de reportagem, com simulações narrativas temperadas de propaganda, sempre vinculados à oferta e busca de produtos e serviços” (pág. 88). O jornalismo de serviço engloba secções como culinária ou previsões astrológicas (pág. 118). Já o último, a que cunhei de jornalismo de fait-divers, dá destaque aos faits-divers e reality-shows (pág. 154), promovendo vedetas do mundo da música, das festas e anónimos fugazmente tornados famosos. Neste último, anote-se a crescente indiferença de tal tipo de jornalismo entre jornais de referência e populares ou tablóides, sem protecção da vida privada, aquilo a que a autora designa por “deriva tablóide”, com compressão dos textos, valorização do espectacular e do emocional nos títulos de primeira página, fragmentação e primado da imagem (pág. 180).

A um terceiro conceito dou-lhe o nome de tom de escrita. Para a autora, a atitude frequente de um jornal é procurar marcar distâncias perante uma informação recebida, através de enquadramento, linguagem e tom, notórios em títulos de primeira página (pág. 25). Ela chama a atenção para os critérios de selecção: os media privilegiam os acontecimentos considerados interessantes para os leitores. A maior parte dos acontecimentos seleccionados são-no pelo seu carácter sensacional, polémico e negativo. E, noutras partes do seu texto, enfatiza as mesmas ideias: o estilo do jornalismo centra-se na personalização, dramatização, conflito e fait-divers, tornando difícil a afirmação de ideias e argumentos que não se reduzam a slogans (e soundbites) (pág. 36), em que os títulos da primeira página são vistosos, sonantes, dramáticos, chamativos (pág. 78), apelativos e estimulantes, através das palavras, frases e imagens escolhidas para causar impacto (pág. 137). E, além disso, se a primeira página tem um tratamento mais dramático e de encenação, as notícias no interior são mais sóbrias. Claro que o título da primeira página é uma operação difícil e complexa no processo de produção do texto jornalístico, porque implica dar informação máxima num espaço limitado, condensando os dados disponíveis, e é através dele que se provoca adesão ou rejeição do leitor (pág. 133).

Ligação entre media e política e campanhas eleitorais são outros assuntos muito trabalhados ao longo do livro, quer porque os leitores questionaram a autora com frequência quer porque tais matérias têm constituído o centro da sua investigação académica nos anos mais recentes, representando um quarto pólo de atenção do seu livro. Mas também a análise das fontes de informação, em especial as anónimas, ocupou diversas crónicas da autora (e um capítulo de 13 páginas). Das práticas usadas pelas fontes, Estrela Serrano indica que elas: 1) libertam informação considerada importante, condicionada pelo embargo, 2) concedem exclusividade a um meio, 3) realizam fugas de informação premeditadas ou involuntárias (pág. 112).

Dada a frequência no recurso a fontes não explicitadas por parte dos jornalistas que acompanham a actividade política (pág. 119), a autora alerta para o uso exagerado de opiniões e palpites de fontes anónimas nas notícias. Tal é uma forma de camuflar a dependência de fontes oficiais, o que deve conduzir os jornalistas a uma reflexão sobre as suas consequências. Na identificação das fontes, ela escreve de modo sereno e didáctico: “um jornalista não deve, em princípio, utilizar documentos cuja origem desconhece, muito menos, «puxá-los» para título” (pág. 115).

Certamente que um livro sobre a provedoria do leitor teria de conter um espaço de análise das cartas ao director do jornal (pág. 191). Estrela Serrano elogia a pluralidade de vozes expressas no jornal em termos do espaço dedicado aos leitores. Contudo, mostra-se contrária ao uso frequente e arrogante de notas de redacção como respostas dos jornalistas a algumas cartas ao director. E, num outro registo, reflecte sobre o desconhecimento dos públicos por parte dos jornalistas. Apesar da sofisticação das medições de audiências, continua a ser pertinente a ideia que os jornalistas escrevem sobretudo para as suas fontes, pares e hierarquias (pág. 216).

Uma última nota, esta de sentido crítico. Sendo o livro uma recolha de temas trabalhados ao longo de três anos, sem sistematização prévia (apesar da organização em capítulos), um índice remissivo ajudaria. Dou alguns exemplos: balão de ensaio (pág. 63), critério de selecção (pág. 26), fontes (verificação de fiabilidade) (pág. 69), fuga de informação (pp. 64-65), interesse público (pág. 75), primeira página (pp. 66-67, 78), título (pág. 70).

segunda-feira, 5 de junho de 2006

[mensagem nº 1997]

A TV DO FUTEBOL



Chega, oportunamente, esta semana às livrarias. Coordenado por Felisbela Lopes e Sara Pereira, docentes da Universidade do Minho, tem textos de Rui Cerqueira, Miguel Prates, António Cancela, João Pedro Mendonça, Luís Sobral, Carlos Daniel, David Borges, Manuel Fernandes Silva, Paulo Garcia, José Viseu, José Neves, Eduardo Cintra Torres, Eduardo Jorge Madureira e das duas coordenadoras do livro.

A TV do futebol, dividida em três partes, é, segundo as coordenadoras, "uma reflexão que ultrapassa o momento dos jogos, mas que urge ser feita para se perceber que o futebol vai muito para lá daquilo que se disputa dentro das quatro linhas. Mas não julgue que o queremos afastado dos campos onde se jogam os desafios. Pelo contrário. É exactamente para aí que pretendemos dirigir a sua atenção e levá-lo a pensar nisto: hoje o futebol é um mero jogo ou uma poderosa e rentável indústria potenciada pelos media, nomeadamente pela transmissão televisiva dos jogos? Se as bancadas dos estádios são actualmente substituídas pelas poltronas das salas de estar com vista privilegiada para um ecrã de TV que mostra (quase) tudo, que papel terão os jornalistas nessa mediatização? Se gostamos tanto de futebol, poderemos transformar o tempo que gastamos aí numa fonte de aprendizagem, principalmente para os mais novos?"
FESTIVAIS, CAMPEONATOS E PUBLICIDADE

O Rock in Rio, o europeu de sub-21 e o mundial da Alemanha têm mobilizado os media. A TVI investiu dois milhões de euros na cobertura do europeu sub-21, com o objectivo de transmitir 15 jogos em directo, dois deles em alta definição. Em campo: 300 profissionais para esse trabalho. Quanto ao mundial, a começar esta semana na Alemanha, a TVI, que adquiriu os direitos de resumos de cinco minutos, tem uma equipa mais pequena: 16 profissionais.

Já a SIC transmitirá 13 jogos em directo do mundial 2006, com uma equipa de 50 profissionais. Nos dias dos jogos da nossa equipa, o noticiário das 20:00 terá emissões a partir da Alemanha. No Rock in Rio, outra aposta da estação, foram mobilizados 200 profissionais. Além do canal generalista, os canais de cabo – SIC Notícias, SIC Radical e SIC Mulher – garantiram a transmissão do festival.

Quais as razões para estes investimentos? Ter audiências, que garantam investimentos publicitários.

Mas também a rádio pública anunciou 100 mil euros a gastar no mundial de futebol, com uma grelha de seis a dez horas diárias enquanto Portugal estiver na competição, acompanhando também as selecções do Brasil e Angola. A RDP terá um estúdio central em Berlim, com 16 profissionais, 10 dos quais jornalistas. Além da rádio, um sítio da internet adequado ao evento é uma novidade a saudar.

Como nada pode ser deixado ao acaso, há um planeamento rigoroso para fornecer as melhores imagens, caso da televisão, e sons inesquecíveis, caso da rádio. A televisão, como o cinema, vive da espectacularidade da imagem. A cor, a alegria da vitória desportiva, em especial num espectador com o rosto pintado com as cores nacionais, ou a lágrima da derrota, aqui já com a pintura borratada, prende a atenção do realizador que escolhe a imagem e a põe no ar.

A rádio perde neste sentido, pois a imagem inexistente tem de ser reconstruída pelo locutor ou relatador. E há vozes que ficam ou ficaram na nossa memória: Artur Agostinho, Jorge Perestrelo. Do caloroso das suas transmissões ficam marcas no ouvido. A rapidez verbal, o uso de adjectivos, a construção de novas palavras, a gargalhada, o comentário irónico – fazem parte do portfólio do relatador. O qual ainda precisa de gritar a plenos pulmões quando Portugal marca um golo. Ao contrário, quase não se ouve o relatador se a equipa adversária marca um golo. Há, aqui, um lado tendencioso, mas que gostamos – evidentemente.

Isso leva-nos a falar do fenómeno das bandeiras. Em 2004, todos o recordam, foi um delírio, levado em crescendo até à final. As bandeiras eram transportadas pelos fãs, adornavam janelas e automóveis. Havia cachecóis e autocolantes. Agora, a escassos dias do arranque do mundial de futebol, já voltamos a ver as bandeiras expostas em bairros mais populares, ao passo que a imprensa lança cadernetas de cromos ou posters.




E, em último lugar na crónica que não em termos de importância, a publicidade em torno destes eventos, com destaque para as cervejeiras. Este ano, há uma guerra publicitária entre as duas principais fábricas de cerveja. Que não se poupam a anunciar novos nomes e sabores, com muita animação nos seus anúncios. A preços de tabela (excluindo os descontos negociados com o meio de comunicação), o investimento no mercado publicitário geral subiu 13% em Abril relativamente ao mês homólogo do ano passado. Uma das cervejeiras aparece em quarto lugar nessa lista.

Outras cervejeiras, de dimensões mais pequenas, não podendo apoiar grandes acontecimentos, apostam em propostas alternativas, com viagens, happy hours, com cervejas à borla numa dada hora, ou venda de duas cervejas ao preço de uma.

Claro que festa e bebida se aliam, para nossa maior alegria.

[crónica apresentada hoje de manhã no sítio da Antena Miróbriga Rádio ou em 102,7 MHz (área de Santiago do Cacém)]
FUTEBOL EM ECRÃS GIGANTES

Em França, o negócio da transmissão do campeonato do mundo de futebol também faz mover milhões. Conforme o Le Monde de ontem apresentava, só o canal de televisão TF1 vai gastar 100 milhões de euros para transmitir 24 jogos incluindo os da selecção daquele país. É que se trata de um acontecimento para grandes audiências. Por exemplo, em 1998, a final Brasil-França foi vista por 20,5 milhões de franceses.



Agora, com os ecrãs planos capazes de receber alta definição, estima-se que as audiências disparem, pelo menos para os assinantes do serviço. O jornal, em texto de Guillaume Fraissard e Macha Séry, adianta algumas explicações. Primeiro, a popularidade do futebol relativamente a outras modalidades. O futebol é um jogo simples mas com desfecho imprevisto e, até, injusto - uma equipa pode estar a dominar o tempo todo, mas sofrer um golo e perder.

Em segundo, e já no plano tecnológico, a passagem do sistema analógico para o digital, permite novos ângulos. Na tecnologia antiga, o futebol era visto como um movimento de onze contra onze, uma espécie de grande batalha. Ao multiplicar o número de câmaras, constróem-se zooms e movimentos lentos, humanizando o jogo e desenvolvendo uma dramaturgia narrativa. A escolha de realizadores internacionais no campeonato a começar esta semana promete qualidade - mas sem originalidade.

Em terceiro lugar, o recurso à matemática (número de remates, percentagem do controlo do jogo por cada uma das equipas) e aos comentadores-especialistas torna o jogo mais complexo e algo alheio ao que se passa no interior do campo. A paixão extravasa mesmo o espaço físico da cidade e do país, globalizando os incentivos e as apostas.

domingo, 4 de junho de 2006

BLOGUES JOVENS

Lúcia Nunes define o seu blogue Atritos Sonoros como "o programa open mind e avant-garde das novas tendências da música Nacional". Na mensagem de 31 de Maio, ela escreve sobre YSGA: "O nome do álbum de estreia chama-se Debut, e está previsto chegar hoje mesmo às lojas de música. Esta Banda de LX, é composta por: Pedro Lourenço: Voz/guitarra, David Ferreira: guitarra, Inês Vicente: Baixo e Tiago Salsinha: Bateria". E Lúcia Nunes recomenda o blogue sabas.jud.as.

Entretanto, Jorge Eurico começou a escrever o mês passado no seu blogue O Arauto. É angolano e jovem como os autores dos blogues mencionados no parágrafo anterior.

Aconselho uma visita a estes espaços. Deixem lá comentários.

LIVROS A LANÇAR

Para este mês de Junho, prevê-se o lançamento do livro de Ana Cabrera, intitulado Marcello Caetano: poder e imprensa, editado pelos Livros Horizonte. Da mesma editora, e de Pierre Labarre sairá História do livro. Com a chancela da Campo das Letras, Gustavo Cardoso e outros autores editam Comunicação e jornalismo na era da informação, enquanto Giuseppe Granieri publica Geração blogue na Editorial Presença (informações recolhidas no suplemento "Mil Folhas" do jornal Público de ontem).

A DOM QUIXOTE E O MERCADO DOS LIVROS

Nos jornais de ontem, veio a notícia da saída de João Rodrigues de director editorial da Dom Quixote, a editora que mais autores portugueses tem publicado e é controlada pelo grupo espanhol Planeta, dirigida por João Paixão. João Rodrigues entrara para o lugar em Setembro de 2004, após uma longa polémica com a saída de Nelson de Matos, que dirigira a Dom Quixote durante 23 anos e agora está à frente dos livros da Ambar. João Rodrigues, segundo a notícia do Público - que fez parte da primeira equipa de Nelson de Matos, tendo ainda passado por editoras como a Cosmos, que dirigiu, a Asa e a Central Livros -, abandona o presente cargo, desiludido com o estado actual do mundo editorial. Em declaração enviada ao jornal, diz ir "fazer uma pausa para reflexão sobre as actuais condições de funcionamento do mercado dos livros".

Das palavras de João Rodrigues, não depreendo as razões principais do seu abandono. Mas não resisto a estabelecer a ligação a um artigo importante, assinado por António Guerreiro, "O obscuro negócio dos livros", editado no Expresso de 27 de Maio último (revista "Actual"). Pegando no título de livro recente, Troppo libri (muitos livros), António Guerreiro fala do "estado de obesidade editorial: ao aumento de novos títulos corresponde uma menor diversidade de géneros bibliográficos. Outra regra do sistema: aumenta o número de vendas (o número de exemplares vendidos), mas ele tende a concentrar-se nos mesmos títulos". E, logo depois, refere as estatísticas que apontam para um crescimento de leitores, embora elas não digam o que as pessoas lêem. Para António Guerreiro, o movimento editorial aponta para consumidores muito permeáveis ao marketing e à divulgação: o "leitor médio". E ele não culpabiliza de todo os editores, cuja autonomia de edição é uma ficção. Hoje, as redes livreiras, em situação de monopólio, vendem apenas os livros considerados vendáveis, dificultando a existência das pequenas editoras. Uma livraria é, hoje, um entreposto de novidades, com as mercadorias a circularem rapidamente.

DEBATE SOBRE ARQUIVOS DE CINEMA

No cinema King (Lisboa), hoje, depois da sessão das 19:00 com o filme Natureza morta, de Susana Sousa Dias, realiza-se o debate "Arte e cinema: a reinvenção do arquivo". Para além da realizadora do filme, o debate conta com as presenças de António Reis (historiador) e João Mário Grilo (realizador).

sábado, 3 de junho de 2006

HOJE

O dia foi passado no parque de Monsanto (parque da Pedra). Logo, não houve leituras nem análises. Apenas um piquenique e fotografias e vídeos.




sexta-feira, 2 de junho de 2006

JUNHO - MÊS DE FESTAS POPULARES EM LISBOA





A Câmara Municipal de Lisboa (CML), a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) e a RTP assinaram um protocolo para a produção conjunta de conteúdos e divulgação de actividades culturais relevantes da cidade, com duração até final de 2007. As Marchas Populares, o África Festival e o Lisbon Village Festival são algumas das actividades lisboetas alvo de cobertura televisiva. Destaque ainda para a programação do Teatro Municipal Maria Matos e da Casa Fernando Pessoa, em moldes ainda a definir. Prevê-se também a contribuição da autarquia em projectos a desenvolver no âmbito das comemorações dos 50 anos da televisão em Portugal.

Entretanto, a Refrige (Coca-Cola em Portugal) vai patrocinar as Festas de Lisboa nos próximos três anos. O protocolo, a assinar hoje com a Câmara Municipal de Lisboa, significa um investimento de 300 mil euros pela Refrige.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

CULTURA E MERCADO

Vem no boletim Cultura e Mercado (Brasil) de hoje:

  • Indústrias culturais em Portugal
    01/06/2006 da Redação
    Rogério Santos aproveitou o fenômeno dos blogs para criar um sobre indústrias culturais. Ele fala sobre o panorama desse setor em Portugal
E outros assuntos, de que destaco A preservação da memória cinematográfica brasileira e A polêmica dos direitos autorais, ambos escritos por André Fonseca.

Obrigado, André, pela possibilidade de responder a perguntas sobre temas que trabalho aqui no blogue.

E...

Obrigado pela republicação do meu texto de análise ao livro de Jorge Manuel Martins, Profissões do livro. Editores e gráficos, críticos e livreiros (2005), no sítio Edit on Web, um novo projecto editorial e redactorial. A republicação de um texto aumenta a visibilidade do mesmo.

Felicidades para os responsáveis do sítio (e também para a Filipa Ribeiro).
[mensagem nº 1986]

COMUNICAÇÃO E POLÍTICA

Conforme mensagem anterior, a SOPCOM e o ISCSP promoveram hoje um seminário dedicado ao tema "Comunicação e Política".





Para além das várias comunicações, cuja edição se projecta para breve, o Indústrias ouviu o coordenador do grupo de trabalho de "comunicação e política" da SOPCOM, João Carlos Correia, explicar as razões de existência do grupo e as principais realizações já feitas [o vídeo tem alguns defeitos no som, devido ao vento que soprava na esplanada do edifício do ISCSP voltada par o Tejo, de onde se vê a ponte sobre o rio].





Das comunicações apresentadas, destaco duas, a primeira pertencente a João Pissarra Esteves (Universidade Nova de Lisboa), que falou das relações entre jornalistas e políticos, nomeadamente o problema da verdade e das questões deontológicas, em que o público fica normalmente de fora da discussão dos valores éticos e morais (2º vídeo). No último vídeo, Pedro Magalhães e Diogo Moreira (Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa) reflectem sobre sondagens, tendo como exemplo as eleições autárquicas de 2005.
  • SEMINÁRIO DE COMUNICAÇÃO E POLÍTICA

    A não esquecer: hoje, decorre o seminário de Comunicação e Política, nas instalações do ISCSP, ao Alto da Ajuda, em Lisboa, uma organização conjunta daquela instituição de ensino e da SOPCOM [ver mais detalhes
    aqui].

    Outros eventos para hoje:

    1) debate Investigação em Portugal na Área das Ciências Humanas e Sociais, organizado pelo Centro de Estudos Anglo-Portugueses, dia 1 de Junho, às 15:00, Auditório 2, piso 3, Torre B, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (av. de Berna, 26),

    2) encontro A rádio de proximidade e o desenvolvimento regional, às 15:00, no auditório do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Como oradores convidados: Feliciano Barreiras Duarte, ex-secretário de Estado e actual deputado do PSD, e Pedro Braumann, professor na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa e director na RTP. O debate destina-se a todos os operadores, profissionais e interessados no sector.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

REVISTAS FEMININAS


O papel principal – contributo para uma análise do que vêem as mulheres nas revistas femininas. Um estudo de caso – as capas da Elle de edição portuguesa foi tema de dissertação de mestrado de Helena Cordeiro, hoje defendida na Universidade Católica (Lisboa).

Como razões para a escolha do tema, Helena Cordeiro destacou o interesse por representações femininas globalizadas na imprensa de género, importante meio de comunicação de cultura de massas na actualidade, e porque é leitora do género. Escolheu a Elle (edição portuguesa), primeira revista internacional orientada para o público feminino a ser publicada no nosso país (Outubro de 1988). A nova mestre caracterizou o papel específico dos discursos escrito e de imagem patentes nas capas de uma revista feminina (glossy), “rosto” e anúncio da própria revista.

No seu trabalho, Helena Cordeiro desconstruiu a revista feminina, tentando entender o seu significado em contextos quotidianos e aferindo as razões da sua adaptabilidade além fronteiras, a partir de tipologia criada pela investigadora Joke Hermes. Fez análise empírica das capas (covers) e chamadas de capa (coverlines) da Elle portuguesa, de Outubro de 1988 a Dezembro de 2004 (16 anos e 3 meses, ou 189 capas), com um total de 38 variáveis, casos de moda, roupa, acessórios, cosmética, perfumes, maquilhagem, beleza e saúde.

De entre as conclusões, Helena Cordeiro constata que os objectivos propostos no editorial do número fundador da Elle portuguesa não foram cumpridos, nomeadamente a escassez de figuras portuguesas na capa. Isto embora o ano de 1998 tenha marcado o início de nova etapa na imagem de capa da Elle nacional, mantendo-se as mulheres bonitas e elegantes mas provenientes de outras áreas que não exclusivamente a moda – como o cinema e a música -, numa afirmação de outros talentos que não apenas o da beleza física. Desde o começo, as capas da Elle fazem uma representação estereotipada da mulher, apesar das chamadas de capa irem introduzindo temas de maior seriedade, destacando áreas como “dossiê”, “entrevista” e “reportagem”. A autora distinguiu ainda o papel pedagógico, de “afecto”, apoio e aconselhamento por parte das revistas femininas.

DIRIGIR UMA REVISTA FEMININA

Sarah Glattstein Franco é directora da revista Cosmopolitan em Espanha há vinte anos, responsável pela criação desse projecto jornalístico. O seu romance Diário de uma directora de revista... feminina é, aliás, dedicado à sua redacção, ou melhor "dizendo, as minhas redacções".

Afirma Glattstein que a história nada tem a ver com as suas experiências reais. Mas fala, obviamente, da redacção de revistas dedicadas à moda, em que uma jovem jornalista de Salamanca, Isabel Gonzaléz Mata, ingressada num improvável jornal generalista chamado Heraldo de la Fortuna, começa a escrever um pequeno espaço sobre moda. Conseguiu criar uma rede de contactos - desde lojas que abriam na cidade do rio Tormes até à quase inatingível passagem de modelos em Madrid. Aí, conhece Palmira Acevedo Campos, directora da Femme. Algum tempo depois já estava em Madrid, a trabalhar como redactora da melhor revista de Espanha. Com algumas peripécias, como a ida à bruxa, aventuras amorosas e partilha de apartamento com Carla, que a convenceu a adquirir um novo look na roupa e no cabelo, Isabel Gonzaléz (também conhecida pelo diminutivo Isa) ascende rapidamente. Mas a directora da revista sai e Gloria Ansorena substitui-a. Entra com ela Anne Mendo Daniel, que rapidamente se torna confidente de Isabel, enquanto o lugar de Jacqueline, directora de moda, fica periclitante. Logo depois, Isa torna-se directora da Mulher Prática, com Anne a subdirectora e mais outros "reforços" trazidos da Femme. A Mulher Prática precisava de se reposicionar no mercado, para concorrer directamente com a Femme. Foi na nova publicação que viajou a primeira vez para Paris. E, quando tudo parecia estabilizado, Isa recebe um convite para dirigir a Femme, ela mesma. A indefectível Anne e Jacqueline - que andava a escrever um romance - acompanham-na na nova aventura.

Deixo outras divertidas peripécias do romance, e concentro-me em algumas parcelas do livro, onde se descreve o ambiente de uma redacção de revista feminina. Primeiro, as redactoras de moda e colegas como estilistas, directoras de secção e da revista formam um grupo hermético, em que as rainhas na hierarquia são as directoras das revistas de moda, seguindo-se as redactoras que escrevem nos suplementos (p. 63). É como a redactora de moda do La Vanguardia ser superior nessa hierarquia à do Heraldo de la Fortuna, seguindo-se o resto das revistas, jornais, rádios. Segundo, as redacções organizam-se de modos distintos, pois há quem prefira ter as secções isoladas em espaços fechados e quem tenha uma perspectiva republicana, com a directora no centro, sem gabinete ou "aquário" (p. 73). A secção de moda fica num sítio afastado, com estantes e escadotes para colecções destinadas a produções fotográficas, destacando-se a sua importância pelo tráfego de modelos, fotógrafos e representantes de agências. Em terceiro, a directora tem uma vida social muito forte: vai a almoços com anunciantes, assiste a passagens de modelos, contacta com certos escritores e jornalistas selectos para páginas de destaque ou top images quando se trata de fotógrafos ou ilustradores (p. 143).