Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
domingo, 11 de junho de 2006
PEQUENAS NOTAS SOBRE A IMPRENSA NUM DOMINGO DE SOL
Olhando melhor a notícia, percebe-se que Ramos Horta (ministro dos negócios estrangeiros e da defesa) vai defender uma proposta australiana na ONU (não sei muito bem qual), o que significaria uma derrota diplomática para Portugal. E, mais significativo, é um texto assinado por um filho do mesmo Ramos Horta, no Expresso de ontem, que considera Alkatiri (primeiro-ministro) e Xanana Gusmão (presidente da República) como os senhores da guerra, em que ambos estão a conduzir o país para o desaparecimento. Isto é: dos três dirigentes mais conhecidos de Timor - Xanana, Alkatiri, Horta - fica a ideia do pai como salvador da pátria. Claro que não lhe fica nada bem esta posição, além de que ele se assina como investigador num instituto australiano.
Certamente, as coisas, embora resultem de conflitos entre personalidades fortes, têm explicações mais profundas que apenas estas declarações impressionistas. Uma carta-artigo num semanário como o Expresso, sem qualquer explicação, é um pequeno barril de pólvora a rebentar muito longe daqui, exactamente em Timor-Leste. Aos jornais e jornalistas exige-se que enquadrem e contextualizem.
2. Hoje, começou o período de férias do provedor do leitor do Público. Tendo começado funções nos princípios do ano, Rui Araújo já tem uma marca de identidade na sua página. Menos conciliador e menos teórico que outros provedores de jornais - antigos ou actuais - tem a seu favor ter recebido 886 mensagens electrónicas e oito cartas (Público de 4 de Junho), número soberbo, se se considerar que outros provedores se queixaram ter pouca participação dos leitores, indicativo de um espaço de opinião alargado. Isto é, Rui Araújo é menos conciliador e teórico e isso agrada aos leitores.
A mim também. Os erros que aponta aos jornalistas são, com certeza, objectivos. Mas ele surge frequentemente como se fosse um matador de carácteres. Fica a ideia que os jornalistas são incapazes, quase incompetentes, que o melhor seria substitui-los por outros. Numa das últimas páginas do provedor, Rui Araújo fez referência a uma jornalista, pela qual eu tinha uma grande atenção em ler, dadas as matérias que habitualmente escreve serem do meu agrado (observação: eu nem sequer a conheço pessoalmente). Doravante, passarei a lê-la com cautela - ou a saltar para além dos seus textos.
O resultado final pode ser que deixe de comprar o jornal, por tantas incoerências e defeitos. Eliminam-se, de uma só vez, o mensageiro e a mensagem. Talvez a concorrência beneficie.
3. Por escrever em concorrência. Parece-me absurdo o uso de recursos humanos dos jornais no destaque do mundial de futebol. Por exemplo, o Diário de Notícias reduziu de duas para uma página a secção dos media, porque houve deslocação de jornalistas para cobertura do futebol. Será que os leitores do jornal vão ler a quantidade elevada de páginas sobre a matéria? Aos leitores não basta a televisão? E os jornais desportivos, mais especializados em fofocas, estratégias e tácticas do jogo, não são melhores e têm públicos fiéis? Será a atracção dos tablóides a surtir efeito, com os jornais de referência a descomprimirem a sua postura nestas ocasiões? Perguntas finais: servem a opinião pública? VENDEM MAIS?
sábado, 10 de junho de 2006
ARTES PERFORMATIVAS EM BEJA

A arte publica – artes performativas de Beja estreia no próximo dia 15 de Junho, pelas 21:30 (Sala do Capítulo da Pousada de S. Francisco) a sua mais recente intervenção performativa, quando se comemoram 250 anos do nascimento de Mozart. Segundo comunicado recebido, o Projecto Sonata "aborda e cruza universos sonoros e musicais, aparentemente distintos entre si, tais como a musica clássica e a improvisação jazzística". Ao piano, toca Angelo Martino, e, na voz, Gi Cañamero.
BLOGOSFERA NO JORNAL PRIMEIRO DE JANEIRO

Na edição de hoje de O Primeiro de Janeiro, Paula Almeida escreve sobre o encontro realizado esta semana na livraria Minerva, em Coimbra, cujo tema foi a blogosfera (o texto também pode ser lido aqui), em que António Granado (jornal Público) e eu participámos.
Obrigado, Paula.
OS BLOGUES MAIS PROLÍFICOS

Paulo Querido, na sua coluna semanal no Expresso ("Única"), escreve sobre os blogues que mais posts apresentam em média. Os três primeiros são Blasfémias, Máfia da Cova e Bloguítica.
Para o autor do terceiro blogue, Paulo Gorjão, o seu espaço é um contributo para o debate público, um "instrumento pessoal no exercício da cidadania" (um dos blogues mais referidos na coluna diária de citações do Diário de Notícias).
Escreve Paulo Querido que a produção de posts no conjunto de 60 blogues que ele acompanhou durante mais de mês e meio - de entre os mais populares e mais referenciados - daria para alimentar um jornal diário de grande circulação.
Nesta febril produção, o Indústrias vem num honroso vigésimo lugar.
CONVERSAS SOBRE CIBERJORNALISMO
ALVAREZ EM LISBOA
Os investigadores da sua pintura notam três fases no percurso de artista em Alvarez. A primeira fase, logo depois do ingresso na Escola de Belas-Artes, inicia-se em 1928, a "fase vermelha", como chama Fernando Lanhas. São paisagens urbanas, de experimentação, longe do academismo da escola. Nos seus trabalhos, há cores quentes, com vermelhos e amarelos, com alguns azuis. Mas, logo em 1929, e até 1936, Alvarez passa por uma fase mais pessoal e interessante, em que a representação do que vê surge distorcido, errático e de forte inclinação face a um plano da terra. São árvores e postes telefónicos esgrouviados, chaminés pululando na paisagem com o seu fumo negro também muito inclinado.
E, sobretudo, os homens, com chapéu de coco, muitos à beira da porta da taberna, entrando ou saindo, estilizados, de negro, solitários, caminhando a 45º, no passeio ou na praça, por vezes deixando sombras no seu rasto. Cenas de cemitério ou homens abrigados com guarda-chuvas acompanham este período de grande riqueza pictórica em Alvarez. É, para mim, o período mais fascinante do seu trabalho.
A terceira fase, mais naturalista, resulta de - dizem os especialistas - uma dupla pressão. Por um lado, a necessidade de vender algumas obras, dado que Alvarez não tem posses e vive com os pais, com um magro salário. Por outro lado, algumas viagens feitas pelo norte de Espanha, indo da Galiza até ao País Basco. Curiosamente, nunca empreendeu uma viagem a Lisboa, pelo que o contacto com a actividade artística aqui era sempre em segunda mão. A fase naturalista consiste na reprodução de paisagens rurais, da natureza, em quadros de dimensões reduzidas, parecendo quase postais ilustrados. Minúcia e cores vivas enchem essas pequenas obras, e que Alvarez pintou em grande quantidade, com um elevado domínio técnico e de muita beleza estética, como se observa em reproduções dos seus múltiplos cadernos de apontamentos, prova da justa atribuição de uma bolsa de estudo por parte do Instituto de Alta Cultura.
Alvarez morreu cedo, com tuberculose. No entanto, tornou-se uma figura central no Porto (e na Galiza), quer pela fase modernista quer pelo último período, naturalista. De tal modo que, após o seu desaparecimento, se fez uma exposição contemplando a última fase. Como que em desagravo, outra exposição relevaria a fase experimentalista e modernista (1929-1936). Como se Alvarez não fosse um mas dois pintores.
A pintura deste artista inconfundível está patente na Gulbenkian (Lisboa), até 15 de Outubro, no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento. O catálogo, com diversas colaborações, é um elemento imprescindível para a compreensão de um pintor de obra solitária.
sexta-feira, 9 de junho de 2006
CASA DE FARINHA
Se quiser adquirir o DVD, mande mensagem para: quintaldiscos@gmail.com.
AINDA O LANÇAMENTO DO LIVRO DE TENGARRINHA
MOSTRAS E FESTIVAIS DE VERÃO
A oferta de Sintra alarga-se a quase dois meses, tendo começado no passado dia 2 e prolongando-se até 23 de Julho. Amanhã, dia de Portugal, pelas 16:00, no centro cultural Olga Cadaval, haverá um concerto dado pelas escolas de música e dança do Conservatório Nacional. O programa prosseguirá no dia 18, no palácio da Pena, com o piano da russa Polina Leschenko. Para mais informações acerca do festival de Sintra, na sua 41ª edição: 219107118, geral@sintraquorum.pt, www.ccolgacadaval.pt.
quinta-feira, 8 de junho de 2006

No número mais recente do roteiro 30 Dias, da câmara de Oeiras, o tema de capa é a fadista Mafalda Arnauth. Mas, mal abri a publicação, saltei para a página 8, onde há uma informação sobre o salão nacional de humor, agora na vigésima edição. De que se trata? De centena e meia de trabalhos que foram sendo editados ao longo do ano, onde se satirizam os acontecimentos. Data de inauguração: 17 de Junho, de sábado a oito.
LIVRO DE TENGARRINHA
quarta-feira, 7 de junho de 2006
DESAFIOS DA SOCIEDADE DIGITAL GLOBAL
Além de blogueiro, Carlos Alves, licenciado em História (Porto) e mestre em Gestão de marketing de serviços (Barcelona), é, nos anos mais recentes, consultor de gestão de empresas ligadas à cultura e/ao ensino artístico.
O professor José Tengarrinha lança hoje o seu livro Imprensa e opinião pública em Portugal, integrado na colecção de livros de comunicação da editora MinervaCoimbra, colecção dirigida por Mário Mesquita. O lançamento é às 18:30, no El Corte Inglés, em Lisboa.
Do olhar pelo índice, encaminhei-me para o último capítulo, aquele que aborda a imprensa no Estado Novo. São 28 páginas; logo, uma síntese, a abrir o apetite para outros trabalhos que se esperam dos historiadores. Do seu capítulo, retiro alguns dados avulso: em 1926, antes da ditadura que conduziu ao Estado Novo, havia 17 jornais diários em Lisboa! Isto sem ter em conta a profusão e riqueza de jornais regionais. Após a criação do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), com António Ferro à frente, a partir de 1933, passa a existir um controlo dessa imprensa, com Tengarrinha a assinalar a situação dos media impressos distrito por distrito. Estas páginas parecem-me, da leitura em diagonal que fiz, de uma grande importância para estudos futuros.
Já a inflexão nos anos 40 (pós-segunda guerra) e o período marcelista, a rádio e a televisão e a "opinião pública" em Salazar e Caetano aparecem em esboço, igualmente a servir de aperitivo para outros trabalhos futuros de José Tengarrinha ou outros investigadores. Em especial o estudo de Marcelo Caetano, A opinião pública no Estado moderno, de 1965, que merece ser discutido e contextualizado na época, nomeadamente a partir da exposição 30 anos de cultura, que o próprio ministro da presidência e futuro primeiro-ministro concebeu em 1956.
Observação final: na edição de hoje dos dois jornais de referência de Lisboa, o Público dá maior ênfase ao livro de Tengarrinha, com quase uma página inteira dedicada ao livro. No texto de António Melo (Público), relevam-se as quatro fases da opinião pública mediatizada em Portugal segundo Tengarrinha: 1) formação do regime liberal (1820), 2) confrontos na sociedade liberal (1840), 3) turbulências políticas pós-ultimatum, 4) falência da Primeira República e advento do Estado Novo.
Ontem, ao final da tarde, na livraria Minerva (Rua de Macau, em Coimbra), António Granado, docente universitário e chefe de redacção do Público, e eu animámos uma conversa sobre blogues.
A seguir, deixo um vídeo com a parte inicial da apresentação do António Granado [modo de usar o vídeo: caso ele fique parado, não actue mas deixe guardar todo o ficheiro no seu computador; depois, recomece o vídeo, carregando num pequeno botão à esquerda da imagem].
terça-feira, 6 de junho de 2006
Adaptar as crónicas a livro é um género já usado por outros provedores (e uma aposta da editora MinervaCoimbra), parecendo-me fórmula inteligente para a compreensão de um período. Nem sempre os factos – e a sua análise no tempo de ocorrência – são compreendidos, por falta de contextualização suficiente na época a que reportam. A arrumação das crónicas semanais em capítulos temáticos dá mais consistência ao conjunto. As repetições dos problemas, caso de temas como o poder dos jornalistas e a auto-regulação, possibilitam duas leituras: 1) a repetição é evidente num processo em curso (crónicas semanais, com temas próximos ou semelhantes), 2) existindo temas iguais, a autora obriga-se a encontrar razões distintas, esclarecendo melhor o seu pensamento.
Serviço prestado pela provedora ao longo da sua actividade, detectam-se os seguintes movimentos: 1) responder ao leitor, a partir de práticas de bom senso, 2) solicitar ao director o seu comentário, 3) em grau menor, pedir ao jornalista visado a sua opinião.
Embora fragmentário, porque adaptado aos acontecimentos semanais e ao que os leitores escreviam, nota-se um apreciável esforço teórico no seu trabalho, ângulo que me interessa mais. Uma primeira linha a destacar é a preocupação em definir a disciplina do jornalismo. Apresenta três hipóteses: 1) o jornalismo quer ser uma ciência exacta mas não o consegue, 2) aproxima-se da ideia de historiador da actualidade, 3) é uma construção social da realidade como o coloca a produção teórica em geral (pág. 22).
Um outro objecto de estudo de Estrela Serrano é a tipologia de jornalismo. Contei cinco tipos. Os primeiros são um binómio: jornalismo de investigação e jornalismo de fontes, com aquele a não se satisfazer “com declarações oficiais ou oficiosas, confidências ou documentos disponibilizados estrategicamente” (pág. 117) e este a aproximar-se do designado “jornalismo sentado” (ligado ao computador). O seguinte é o jornalismo comercial, com os proprietários a apostarem em várias formas de atracção: investimento no conteúdo (informação, entretenimento, novas formas de publicidade), design e layout, e iniciativas de marketing (pág. 178). Há um terceiro, designado por jornalismo utilitário ou de serviço, com alusões directas a marcas e produtos dentro de textos noticiosos, e que Estrela Serrano vai buscar a Carlos Chaparro: “textos escritos em jeito de reportagem, com simulações narrativas temperadas de propaganda, sempre vinculados à oferta e busca de produtos e serviços” (pág. 88). O jornalismo de serviço engloba secções como culinária ou previsões astrológicas (pág. 118). Já o último, a que cunhei de jornalismo de fait-divers, dá destaque aos faits-divers e reality-shows (pág. 154), promovendo vedetas do mundo da música, das festas e anónimos fugazmente tornados famosos. Neste último, anote-se a crescente indiferença de tal tipo de jornalismo entre jornais de referência e populares ou tablóides, sem protecção da vida privada, aquilo a que a autora designa por “deriva tablóide”, com compressão dos textos, valorização do espectacular e do emocional nos títulos de primeira página, fragmentação e primado da imagem (pág. 180).
A um terceiro conceito dou-lhe o nome de tom de escrita. Para a autora, a atitude frequente de um jornal é procurar marcar distâncias perante uma informação recebida, através de enquadramento, linguagem e tom, notórios em títulos de primeira página (pág. 25). Ela chama a atenção para os critérios de selecção: os media privilegiam os acontecimentos considerados interessantes para os leitores. A maior parte dos acontecimentos seleccionados são-no pelo seu carácter sensacional, polémico e negativo. E, noutras partes do seu texto, enfatiza as mesmas ideias: o estilo do jornalismo centra-se na personalização, dramatização, conflito e fait-divers, tornando difícil a afirmação de ideias e argumentos que não se reduzam a slogans (e soundbites) (pág. 36), em que os títulos da primeira página são vistosos, sonantes, dramáticos, chamativos (pág. 78), apelativos e estimulantes, através das palavras, frases e imagens escolhidas para causar impacto (pág. 137). E, além disso, se a primeira página tem um tratamento mais dramático e de encenação, as notícias no interior são mais sóbrias. Claro que o título da primeira página é uma operação difícil e complexa no processo de produção do texto jornalístico, porque implica dar informação máxima num espaço limitado, condensando os dados disponíveis, e é através dele que se provoca adesão ou rejeição do leitor (pág. 133).
Ligação entre media e política e campanhas eleitorais são outros assuntos muito trabalhados ao longo do livro, quer porque os leitores questionaram a autora com frequência quer porque tais matérias têm constituído o centro da sua investigação académica nos anos mais recentes, representando um quarto pólo de atenção do seu livro. Mas também a análise das fontes de informação, em especial as anónimas, ocupou diversas crónicas da autora (e um capítulo de 13 páginas). Das práticas usadas pelas fontes, Estrela Serrano indica que elas: 1) libertam informação considerada importante, condicionada pelo embargo, 2) concedem exclusividade a um meio, 3) realizam fugas de informação premeditadas ou involuntárias (pág. 112).
Dada a frequência no recurso a fontes não explicitadas por parte dos jornalistas que acompanham a actividade política (pág. 119), a autora alerta para o uso exagerado de opiniões e palpites de fontes anónimas nas notícias. Tal é uma forma de camuflar a dependência de fontes oficiais, o que deve conduzir os jornalistas a uma reflexão sobre as suas consequências. Na identificação das fontes, ela escreve de modo sereno e didáctico: “um jornalista não deve, em princípio, utilizar documentos cuja origem desconhece, muito menos, «puxá-los» para título” (pág. 115).
Certamente que um livro sobre a provedoria do leitor teria de conter um espaço de análise das cartas ao director do jornal (pág. 191). Estrela Serrano elogia a pluralidade de vozes expressas no jornal em termos do espaço dedicado aos leitores. Contudo, mostra-se contrária ao uso frequente e arrogante de notas de redacção como respostas dos jornalistas a algumas cartas ao director. E, num outro registo, reflecte sobre o desconhecimento dos públicos por parte dos jornalistas. Apesar da sofisticação das medições de audiências, continua a ser pertinente a ideia que os jornalistas escrevem sobretudo para as suas fontes, pares e hierarquias (pág. 216).
Uma última nota, esta de sentido crítico. Sendo o livro uma recolha de temas trabalhados ao longo de três anos, sem sistematização prévia (apesar da organização em capítulos), um índice remissivo ajudaria. Dou alguns exemplos: balão de ensaio (pág. 63), critério de selecção (pág. 26), fontes (verificação de fiabilidade) (pág. 69), fuga de informação (pp. 64-65), interesse público (pág. 75), primeira página (pp. 66-67, 78), título (pág. 70).
segunda-feira, 5 de junho de 2006
A TV DO FUTEBOL
Chega, oportunamente, esta semana às livrarias. Coordenado por Felisbela Lopes e Sara Pereira, docentes da Universidade do Minho, tem textos de Rui Cerqueira, Miguel Prates, António Cancela, João Pedro Mendonça, Luís Sobral, Carlos Daniel, David Borges, Manuel Fernandes Silva, Paulo Garcia, José Viseu, José Neves, Eduardo Cintra Torres, Eduardo Jorge Madureira e das duas coordenadoras do livro.
A TV do futebol, dividida em três partes, é, segundo as coordenadoras, "uma reflexão que ultrapassa o momento dos jogos, mas que urge ser feita para se perceber que o futebol vai muito para lá daquilo que se disputa dentro das quatro linhas. Mas não julgue que o queremos afastado dos campos onde se jogam os desafios. Pelo contrário. É exactamente para aí que pretendemos dirigir a sua atenção e levá-lo a pensar nisto: hoje o futebol é um mero jogo ou uma poderosa e rentável indústria potenciada pelos media, nomeadamente pela transmissão televisiva dos jogos? Se as bancadas dos estádios são actualmente substituídas pelas poltronas das salas de estar com vista privilegiada para um ecrã de TV que mostra (quase) tudo, que papel terão os jornalistas nessa mediatização? Se gostamos tanto de futebol, poderemos transformar o tempo que gastamos aí numa fonte de aprendizagem, principalmente para os mais novos?"
O Rock in Rio, o europeu de sub-21 e o mundial da Alemanha têm mobilizado os media. A TVI investiu dois milhões de euros na cobertura do europeu sub-21, com o objectivo de transmitir 15 jogos em directo, dois deles em alta definição. Em campo: 300 profissionais para esse trabalho. Quanto ao mundial, a começar esta semana na Alemanha, a TVI, que adquiriu os direitos de resumos de cinco minutos, tem uma equipa mais pequena: 16 profissionais.
Já a SIC transmitirá 13 jogos em directo do mundial 2006, com uma equipa de 50 profissionais. Nos dias dos jogos da nossa equipa, o noticiário das 20:00 terá emissões a partir da Alemanha. No Rock in Rio, outra aposta da estação, foram mobilizados 200 profissionais. Além do canal generalista, os canais de cabo – SIC Notícias, SIC Radical e SIC Mulher – garantiram a transmissão do festival.
Quais as razões para estes investimentos? Ter audiências, que garantam investimentos publicitários.
Mas também a rádio pública anunciou 100 mil euros a gastar no mundial de futebol, com uma grelha de seis a dez horas diárias enquanto Portugal estiver na competição, acompanhando também as selecções do Brasil e Angola. A RDP terá um estúdio central em Berlim, com 16 profissionais, 10 dos quais jornalistas. Além da rádio, um sítio da internet adequado ao evento é uma novidade a saudar.
Como nada pode ser deixado ao acaso, há um planeamento rigoroso para fornecer as melhores imagens, caso da televisão, e sons inesquecíveis, caso da rádio. A televisão, como o cinema, vive da espectacularidade da imagem. A cor, a alegria da vitória desportiva, em especial num espectador com o rosto pintado com as cores nacionais, ou a lágrima da derrota, aqui já com a pintura borratada, prende a atenção do realizador que escolhe a imagem e a põe no ar.
A rádio perde neste sentido, pois a imagem inexistente tem de ser reconstruída pelo locutor ou relatador. E há vozes que ficam ou ficaram na nossa memória: Artur Agostinho, Jorge Perestrelo. Do caloroso das suas transmissões ficam marcas no ouvido. A rapidez verbal, o uso de adjectivos, a construção de novas palavras, a gargalhada, o comentário irónico – fazem parte do portfólio do relatador. O qual ainda precisa de gritar a plenos pulmões quando Portugal marca um golo. Ao contrário, quase não se ouve o relatador se a equipa adversária marca um golo. Há, aqui, um lado tendencioso, mas que gostamos – evidentemente.
Isso leva-nos a falar do fenómeno das bandeiras. Em 2004, todos o recordam, foi um delírio, levado em crescendo até à final. As bandeiras eram transportadas pelos fãs, adornavam janelas e automóveis. Havia cachecóis e autocolantes. Agora, a escassos dias do arranque do mundial de futebol, já voltamos a ver as bandeiras expostas em bairros mais populares, ao passo que a imprensa lança cadernetas de cromos ou posters.
E, em último lugar na crónica que não em termos de importância, a publicidade em torno destes eventos, com destaque para as cervejeiras. Este ano, há uma guerra publicitária entre as duas principais fábricas de cerveja. Que não se poupam a anunciar novos nomes e sabores, com muita animação nos seus anúncios. A preços de tabela (excluindo os descontos negociados com o meio de comunicação), o investimento no mercado publicitário geral subiu 13% em Abril relativamente ao mês homólogo do ano passado. Uma das cervejeiras aparece em quarto lugar nessa lista.
Outras cervejeiras, de dimensões mais pequenas, não podendo apoiar grandes acontecimentos, apostam em propostas alternativas, com viagens, happy hours, com cervejas à borla numa dada hora, ou venda de duas cervejas ao preço de uma.
Claro que festa e bebida se aliam, para nossa maior alegria.
[crónica apresentada hoje de manhã no sítio da Antena Miróbriga Rádio ou em 102,7 MHz (área de Santiago do Cacém)]
Em França, o negócio da transmissão do campeonato do mundo de futebol também faz mover milhões. Conforme o Le Monde de ontem apresentava, só o canal de televisão TF1 vai gastar 100 milhões de euros para transmitir 24 jogos incluindo os da selecção daquele país. É que se trata de um acontecimento para grandes audiências. Por exemplo, em 1998, a final Brasil-França foi vista por 20,5 milhões de franceses.
Agora, com os ecrãs planos capazes de receber alta definição, estima-se que as audiências disparem, pelo menos para os assinantes do serviço. O jornal, em texto de Guillaume Fraissard e Macha Séry, adianta algumas explicações. Primeiro, a popularidade do futebol relativamente a outras modalidades. O futebol é um jogo simples mas com desfecho imprevisto e, até, injusto - uma equipa pode estar a dominar o tempo todo, mas sofrer um golo e perder.
Em segundo, e já no plano tecnológico, a passagem do sistema analógico para o digital, permite novos ângulos. Na tecnologia antiga, o futebol era visto como um movimento de onze contra onze, uma espécie de grande batalha. Ao multiplicar o número de câmaras, constróem-se zooms e movimentos lentos, humanizando o jogo e desenvolvendo uma dramaturgia narrativa. A escolha de realizadores internacionais no campeonato a começar esta semana promete qualidade - mas sem originalidade.
Em terceiro lugar, o recurso à matemática (número de remates, percentagem do controlo do jogo por cada uma das equipas) e aos comentadores-especialistas torna o jogo mais complexo e algo alheio ao que se passa no interior do campo. A paixão extravasa mesmo o espaço físico da cidade e do país, globalizando os incentivos e as apostas.
domingo, 4 de junho de 2006
BLOGUES JOVENS
Entretanto, Jorge Eurico começou a escrever o mês passado no seu blogue O Arauto. É angolano e jovem como os autores dos blogues mencionados no parágrafo anterior.
Aconselho uma visita a estes espaços. Deixem lá comentários.
LIVROS A LANÇAR
A DOM QUIXOTE E O MERCADO DOS LIVROS
Das palavras de João Rodrigues, não depreendo as razões principais do seu abandono. Mas não resisto a estabelecer a ligação a um artigo importante, assinado por António Guerreiro, "O obscuro negócio dos livros", editado no Expresso de 27 de Maio último (revista "Actual"). Pegando no título de livro recente, Troppo libri (muitos livros), António Guerreiro fala do "estado de obesidade editorial: ao aumento de novos títulos corresponde uma menor diversidade de géneros bibliográficos. Outra regra do sistema: aumenta o número de vendas (o número de exemplares vendidos), mas ele tende a concentrar-se nos mesmos títulos". E, logo depois, refere as estatísticas que apontam para um crescimento de leitores, embora elas não digam o que as pessoas lêem. Para António Guerreiro, o movimento editorial aponta para consumidores muito permeáveis ao marketing e à divulgação: o "leitor médio". E ele não culpabiliza de todo os editores, cuja autonomia de edição é uma ficção. Hoje, as redes livreiras, em situação de monopólio, vendem apenas os livros considerados vendáveis, dificultando a existência das pequenas editoras. Uma livraria é, hoje, um entreposto de novidades, com as mercadorias a circularem rapidamente.
DEBATE SOBRE ARQUIVOS DE CINEMA
sábado, 3 de junho de 2006
sexta-feira, 2 de junho de 2006
A Câmara Municipal de Lisboa (CML), a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) e a RTP assinaram um protocolo para a produção conjunta de conteúdos e divulgação de actividades culturais relevantes da cidade, com duração até final de 2007. As Marchas Populares, o África Festival e o Lisbon Village Festival são algumas das actividades lisboetas alvo de cobertura televisiva. Destaque ainda para a programação do Teatro Municipal Maria Matos e da Casa Fernando Pessoa, em moldes ainda a definir. Prevê-se também a contribuição da autarquia em projectos a desenvolver no âmbito das comemorações dos 50 anos da televisão em Portugal.
Entretanto, a Refrige (Coca-Cola em Portugal) vai patrocinar as Festas de Lisboa nos próximos três anos. O protocolo, a assinar hoje com a Câmara Municipal de Lisboa, significa um investimento de 300 mil euros pela Refrige.
quinta-feira, 1 de junho de 2006
CULTURA E MERCADO
- Indústrias culturais em Portugal
01/06/2006 da Redação
Rogério Santos aproveitou o fenômeno dos blogs para criar um sobre indústrias culturais. Ele fala sobre o panorama desse setor em Portugal
Obrigado, André, pela possibilidade de responder a perguntas sobre temas que trabalho aqui no blogue.
E...
Felicidades para os responsáveis do sítio (e também para a Filipa Ribeiro).
COMUNICAÇÃO E POLÍTICA
Conforme mensagem anterior, a SOPCOM e o ISCSP promoveram hoje um seminário dedicado ao tema "Comunicação e Política".
Para além das várias comunicações, cuja edição se projecta para breve, o Indústrias ouviu o coordenador do grupo de trabalho de "comunicação e política" da SOPCOM, João Carlos Correia, explicar as razões de existência do grupo e as principais realizações já feitas [o vídeo tem alguns defeitos no som, devido ao vento que soprava na esplanada do edifício do ISCSP voltada par o Tejo, de onde se vê a ponte sobre o rio].
Das comunicações apresentadas, destaco duas, a primeira pertencente a João Pissarra Esteves (Universidade Nova de Lisboa), que falou das relações entre jornalistas e políticos, nomeadamente o problema da verdade e das questões deontológicas, em que o público fica normalmente de fora da discussão dos valores éticos e morais (2º vídeo). No último vídeo, Pedro Magalhães e Diogo Moreira (Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa) reflectem sobre sondagens, tendo como exemplo as eleições autárquicas de 2005.
- SEMINÁRIO DE COMUNICAÇÃO E POLÍTICA
A não esquecer: hoje, decorre o seminário de Comunicação e Política, nas instalações do ISCSP, ao Alto da Ajuda, em Lisboa, uma organização conjunta daquela instituição de ensino e da SOPCOM [ver mais detalhes aqui].Outros eventos para hoje:
1) debate Investigação em Portugal na Área das Ciências Humanas e Sociais, organizado pelo Centro de Estudos Anglo-Portugueses, dia 1 de Junho, às 15:00, Auditório 2, piso 3, Torre B, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (av. de Berna, 26),
2) encontro A rádio de proximidade e o desenvolvimento regional, às 15:00, no auditório do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Como oradores convidados: Feliciano Barreiras Duarte, ex-secretário de Estado e actual deputado do PSD, e Pedro Braumann, professor na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa e director na RTP. O debate destina-se a todos os operadores, profissionais e interessados no sector.
quarta-feira, 31 de maio de 2006
REVISTAS FEMININAS
O papel principal – contributo para uma análise do que vêem as mulheres nas revistas femininas. Um estudo de caso – as capas da Elle de edição portuguesa foi tema de dissertação de mestrado de Helena Cordeiro, hoje defendida na Universidade Católica (Lisboa).
Como razões para a escolha do tema, Helena Cordeiro destacou o interesse por representações femininas globalizadas na imprensa de género, importante meio de comunicação de cultura de massas na actualidade, e porque é leitora do género. Escolheu a Elle (edição portuguesa), primeira revista internacional orientada para o público feminino a ser publicada no nosso país (Outubro de 1988). A nova mestre caracterizou o papel específico dos discursos escrito e de imagem patentes nas capas de uma revista feminina (glossy), “rosto” e anúncio da própria revista.
No seu trabalho, Helena Cordeiro desconstruiu a revista feminina, tentando entender o seu significado em contextos quotidianos e aferindo as razões da sua adaptabilidade além fronteiras, a partir de tipologia criada pela investigadora Joke Hermes. Fez análise empírica das capas (covers) e chamadas de capa (coverlines) da Elle portuguesa, de Outubro de 1988 a Dezembro de 2004 (16 anos e 3 meses, ou 189 capas), com um total de 38 variáveis, casos de moda, roupa, acessórios, cosmética, perfumes, maquilhagem, beleza e saúde.
De entre as conclusões, Helena Cordeiro constata que os objectivos propostos no editorial do número fundador da Elle portuguesa não foram cumpridos, nomeadamente a escassez de figuras portuguesas na capa. Isto embora o ano de 1998 tenha marcado o início de nova etapa na imagem de capa da Elle nacional, mantendo-se as mulheres bonitas e elegantes mas provenientes de outras áreas que não exclusivamente a moda – como o cinema e a música -, numa afirmação de outros talentos que não apenas o da beleza física. Desde o começo, as capas da Elle fazem uma representação estereotipada da mulher, apesar das chamadas de capa irem introduzindo temas de maior seriedade, destacando áreas como “dossiê”, “entrevista” e “reportagem”. A autora distinguiu ainda o papel pedagógico, de “afecto”, apoio e aconselhamento por parte das revistas femininas.
DIRIGIR UMA REVISTA FEMININA
Deixo outras divertidas peripécias do romance, e concentro-me em algumas parcelas do livro, onde se descreve o ambiente de uma redacção de revista feminina. Primeiro, as redactoras de moda e colegas como estilistas, directoras de secção e da revista formam um grupo hermético, em que as rainhas na hierarquia são as directoras das revistas de moda, seguindo-se as redactoras que escrevem nos suplementos (p. 63). É como a redactora de moda do La Vanguardia ser superior nessa hierarquia à do Heraldo de la Fortuna, seguindo-se o resto das revistas, jornais, rádios. Segundo, as redacções organizam-se de modos distintos, pois há quem prefira ter as secções isoladas em espaços fechados e quem tenha uma perspectiva republicana, com a directora no centro, sem gabinete ou "aquário" (p. 73). A secção de moda fica num sítio afastado, com estantes e escadotes para colecções destinadas a produções fotográficas, destacando-se a sua importância pelo tráfego de modelos, fotógrafos e representantes de agências. Em terceiro, a directora tem uma vida social muito forte: vai a almoços com anunciantes, assiste a passagens de modelos, contacta com certos escritores e jornalistas selectos para páginas de destaque ou top images quando se trata de fotógrafos ou ilustradores (p. 143).