sábado, 16 de setembro de 2006

NÓS TODOS TRÊS ESTREIA A 7 DE OUTUBRO, PELA ARTE PÚBLICA EM BEJA (TEATRO MUNICIPAL PAX JULIA)

Podem ler-se mais informações no blogue
uma cigarra na paisagem acerca deste musical do Alentejo. E ver um vídeo de Ana Alves, uma das actrizes, enquanto prepara uma salada, zela pelas batatas e mexe a sopa de tomate.

AUDIÊNCIAS DE CINEMA

A newsletter da Marktest, de 14 de Setembro, indica que o complexo de cinemas do ArrábidaShopping é o que mais portugueses dizem frequentar.

Assim, segundo os resultados de Julho de 2005 a Junho de 2006, são 2,429 milhões os residentes no Continente com 15 e mais anos que afirmam ter o hábito de ir ao cinema, o que representa 29,2% do universo em estudo. Para a Marktest, "Uma análise por complexos de cinemas permite verificar que o ArrábidaShopping é aquele que mais portugueses dizem frequentar, num total de 265 mil indivíduos (18,1%). Na segunda posição está o Centro Comercial Colombo - Lisboa, com 202 mil indivíduos (8,6%) e na terceira posição é referenciado o Norteshopping - Matosinhos, frequentado por 186 mil portugueses". Já no Litoral Norte, a liderança vai para o Bragaparque, frequentado por 4,8% dos seus residentes [imagem igualmente recolhida da newsletter da Marktest]. O hábito de frequentar determinado complexo de cinema está, indica o mesmo trabalho, relacionado com a região de residência dos inquiridos.


O Bareme Cinema estuda o universo constituído pelos residentes no Continente com 15 e mais anos. A amostra deste estudo é distribuída em 4 vagas trimestrais de 6006 entrevistas cada, totalizando 24024 entrevistas por cada 4 trimestres agrupados. O método de recolha é a entrevista telefónica assistida por computador - CATI.
TIPOS DE MÚSICA

Os pequenos vídeos aqui colocados expressam diferentes tipos musicais, do religioso ao divertimento e ao cultural (passado da chanson ao etnográfico).


1) Orações em Taizé (França) e Porto (Foz do Douro)



2) Baile na Andaluzia (Espanha)



3) Realejo (La vie en rose)


sexta-feira, 15 de setembro de 2006

VOILÀ

Quando escrevi, no dia
6 de Setembro, não estava longe de imaginar que os dois principais jornais de Espanha entrariam em conflito em pouco tempo. Era evidente o esforço do El Mundo em falar de coup d'état após os atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid, que provocaram a morte de 191 pessoas e a consequente mudança política (as eleições legislativas ocorreram no fim-de-semana seguinte), e a contenção (leia-se: silêncio) do El Pais sobre o tema desenvolvido pelo jornal concorrente. Agora o El Pais fala em jornalismo amarelo no El Mundo, acusando este de pagar dinheiro ao entrevistado Suárez (preso como fornecedor de explosivos aos terroristas e que contesta a explicação dada pelo poder político). O El Mundo, que nega a crítica do El Pais, tem insistido na pista da organização basca ETA como origem dos atentados, relegando a ligação islâmica para segundo plano. O ABC, terceiro jornal mais importante de Madrid e de tendência conservadora, também atacou o El Mundo.

Clarifico melhor a opinião que aqui deixei: é pena que jornais tão importantes alinhem com os principais partidos do país vizinho. Perde-se, deste modo, a confiança na independência dos dois periódicos frente ao poder político.

(fonte: neswletter de hoje do European Journalism Centre)
SIMPÓSIO INTERNACIONAL “GUERRA CIVIL DE ESPANHA: CRUZANDO FRONTEIRAS 70 ANOS DEPOIS”

Realiza-se, nos próximos dias 25 e 26 de Setembro, organizado pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (FCH-UCP) e pelo Instituto Cervantes [instituições onde decorrerão os trabalhos], o Simpósio Internacional Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois.

O encontro reúne especialistas portugueses e espanhóis de diversas áreas, pretendendo reflectir, a partir do presente, a Guerra Civil de Espanha, (1936-1939) quando se celebra o 70.º aniversário do seu início. Paul Preston, Prémio Príncipe das Astúrias, historiador, autor de biografia do rei Juan Carlos, abre o encontro.

Segundo a organização, os destaques para as sessões do dia 25 de Setembro (na Universidade Católica) pertencerão a Paul Preston (London Scholl of Economics and Political Science), com o tema A Guerra Civil de Espanha vista desde 2006, e Paloma Esteban (Conservadora-Chefe do Departamento de Pintura do Museu Rainha Sofia de Madrid), que falará sobre “Guernica” e a influência da Guerra em Pablo Picasso. No dia 26, no Instituto Cervantes, apresentarão comunicações Ana Vicente (Escritora, Sociológa), com As Relações entre Salazar e Franco, e José Miguel Sardica (Historiador, FCH-UCP), com Salazar e a Imprensa durante a Guerra Civil de Espanha.

A sessão de encerramento terá a presença de José Pacheco Pereira (Historiador, Comentador) (título de comunicação não conhecido) e Nicolás Sánchez-Albornoz (Historiador, Professor Emérito da New York University), com a comunicação Um menino em Palhavã. Sánchez-Albornoz falará na perspectiva de historiador e dará um testemunho pessoal enquanto filho do embaixador da República Espanhola em Portugal em 1936.


Os outros conferencistas serão Jorge Fazenda Lourenço, Ana Paula Rias, José María Ridao, Carlos García Santa, Inês Vieira, Eugénia Vasques, Antonio Fernández e Nelson Ribeiro.

As sessões, nos dois dias, começam às 10:00.
EDITADOS DOIS IMPORTANTES LIVROS DE COMUNICAÇÃO

A Porto Editora, na sua colecção de Comunicação, fez editar os livros de Luís Oliveira Martins (Mercados televisivos europeus) e de Gonçalo Pereira (A Quercus nas notícias). À editora e aos dois directores da colecção (Joaquim Fidalgo e Manuel Pinto) e aos dois autores, os meus parabéns. Sabe bem ter disponíveis, na rentrée académica, dois trabalhos de qualidade, em áreas distintas da comunicação social e das indústrias culturais. É que os autores fizeram parte de uma belíssima turma de mestrado da Universidade Católica, em que se incluiu ainda Rui Marques, actual ACIME (Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas) - e os não mencionados que me perdoem, mas não os esqueci.

Luís Oliveira Martins, professor do departamento de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa, onde lecciona cadeiras da área de economia, escreveu um trabalho sobre os mercados televisivos europeus, em especial Espanha, França e Reino Unido, comparando com a evolução do mercado nacional. Trata-se de um estudo muito actualizado sobre televisão e que interessa a estudiosos do sector.

Gonçalo Pereira, director da edição portuguesa da National Geographic, analisa a organização ambiental Quercus na sua relação com os media. Para ele, a Quercus consolidou-se, ao longo dos anos da sua actividade, como fonte (não oficial) nas notícias sobre o ambiente. O trabalho de Gonçalo Pereira aborda ainda os momentos de crise da organização não governamental, aquando da saída de membros dirigentes para ocupar lugares oferecidos pelo poder político, e o modo como soube reconquistar a confiança dos jornalistas.

O blogueiro, certamente, também se sente feliz. É que os dois jovens autores - de quem se espera muito em termos de investigação e de resultados a publicar - passaram longas horas a conversar comigo, eu que os instigava a pesquisar, lançando pistas e, sobretudo, muitas dúvidas sobre os caminhos que seguiam nas suas investigações. O meu obrigado aos agradecimentos com que me brindaram nas suas obras por essas horas de inquietação intelectual. Elas foram muito estimulantes e proveitosas.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

CLUBE DE JORNALISTAS - ENTREGA DOS PRÉMIOS GAZETA

Foi ontem à noite, nas Ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, contando com a presença do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.





Receberam prémios (e fiz pequenos vídeos com parcelas dos seus agradecimentos) os seguintes elementos (ou empresas jornalísticas): Imprensa Regional (Barlavento, através do seu director), Grande Prémio (ex-aquo: Cândida Pinto, da SIC, e Alexandra Lucas Coelho, do Público), Revelação (Maria Inês de Almeida), Mérito (Edite Soeiro, que não fotografei individualmente). Finalmente, o Presidente da República encerrou o momento de entrega de prémios, este ano patrocinados pela Caixa Geral de Depósitos.





quarta-feira, 13 de setembro de 2006

OS 42,2% DO EXPRESSO
  • "Enquanto que o preço [de capa] deve pagar o papel, a impressão e a distribuição, a publicidade pagará a redacção e a administração e fornecerá o lucro do jornal" (Émile de Girardin, fundador do jornal La Gazette em 1836, citado em Jean Gabszewicz e Nathalie Sonnac, L'industrie des médias, 2006: 26).
De sábado até hoje de manhã, pensei que o semanário Sol, ainda antes de aparecer, já derrotara o Expresso. É que, no sábado, no sítio onde comprei o jornal, vieram todos os produtos (incluindo o DVD) excepto o caderno principal do Expresso. Julguei que este deixara de ter importância, transferida para os produtos associados. Mão amiga fez-me chegar por correio - o que me leva a voltar à primeira forma.

Mas li o caderno principal rapidamente. A mudança de tamanho (para menor) reduz a dimensão das notícias. E, além disso, muitas das páginas têm a parte de cima com notícias e a parte de baixo com publicidade. Contabilizei 42,2% do espaço total (32 páginas) em publicidade. Se fosse Girardin, e dado o evidente grande lucro do jornal, o preço deveria baixar mais do que €0,2. Bem podia custar €2, afinal o preço do concorrente que está a chegar.
OS TRABALHOS DE EDUARDO CINTRA TORRES

  • A cobertura deste ano dos incêndios teve, no geral, uma evolução muito positiva. A auto-regulação jornalística funcionou. Desapareceram jornalistas afogueados, chamuscados, e muitas mulheres aos gritos e em convulsões de choro (Eduardo Cintra Torres, Público, 20 de Agosto).
A presente mensagem não aparece em defesa de Eduardo Cintra Torres. Ele não precisa do meu apoio. O seu trabalho intelectual e académico é o seu principal suporte. Mas, segundo o meu juízo, é um homem frontal e polémico, escreve o que lhe parece justo - ainda que, por vezes, não se concorde com o que pensa e diz.

Este preâmbulo tem como razão o conflito gerado pelo seu texto editado no Público no passado dia 20. O assunto prende-se com os incêndios que então lavravam no país (e fora dele, lembrando-me eu dos incêndios na Galiza, até então considerada como tendo um modelo ideal de combate aos fogos da floresta, mas que se mostrou incapaz este ano). A súmula da crítica do artigo de Cintra Torres foi um documento produzido no interior da RTP com linhas de orientação para a cobertura de incêndios. Escreveu o crítico de televisão: "O texto propõe atitudes razoáveis e outras de senso comum, mas pode também servir para minimizar a importância dos incêndios". Na sua opinião, o documento acabaria por exercer censura directa sobre os noticiários quando se tratou de noticiar grandes incêndios.

No último parágrafo, o autor foi contundente. Para ele, "o governo está a recorrer a métodos ilegítimos para impedir a informação livre aos cidadãos de Portugal sobre os incêndios" e a "Direcção de Informação deve ser irradiada da RTP". O parágrafo mereceu reacção imediata das entidades visadas, que apresentaram queixa da ERC (e creio que levaram a questão a tribunal).

Julgo que tal parágrafo podia ser mais cauteloso; assim, tem um ar panfletário e de provocação desnecessária. Mas o seu texto toca em dois pontos fundamentais: o noticiar as calamidades naturais e as pressões exercidas pelo poder político sobre os media. Quanto às pressões, ou o chamado spinning (controlar através da amplificação de boas notícias e da reserva ou segredo das más notícias), ela são frequentes nos governos dos países democráticos. Os ingleses têm um espaço no parlamento chamado lobby, onde essa pressão é feita em termos legais e às claras. Contudo, o spinning é crescentemente equilibrado com o uso, por parte dos jornalistas, de outras fontes de informação que não as pertencentes ao poder político.

Quanto a calamidades naturais, caso dos incêndios, tem havido um esforço de auto-regulação nos anos mais recentes. Com a abertura a canais privados de televisão, foi-se privilegiando o escândalo, o trágico e o espectáculo, para além de uma leveza de análise (light), em detrimento do sério e do informativo. Os incêndios provocam grandes imagens de desespero humano e do poder da natureza em fúria. A queda da ponte de Entre-os-Rios em 2001 é um exemplo paradigmático. A auto-regulação (contenção dos jornalistas e seus editores) no tratamento de cataclismos (incluindo os incêndios) começou então. Ora, Eduardo Cintra Torres sabe do que escreve. A sua muito bem conseguida tese de mestrado (e consequente livro) anda em torno do acontecimento da ponte e do modo como os poderes mediático e político tratam tais ocorrências.

Embora achando que o crítico de televisão pudesse ser muito mais cauteloso nas suas afirmações, considero que houve alguma ingenuidade (e má vontade) dos poderes atingidos na sua crónica. Primeiro, o texto estaria já esquecido se ninguém reclamasse para além de carta ao director exigindo direito de resposta. Se houver reacções violentas em cadeia, elas levarão a que a ERC fique entupida com queixas - podendo colapsar em breve -, para não falar nos tribunais. Depois, nos países democráticos - e o nosso está nessa categoria -, as disputas e querelas fazem parte do jogo democrático dentro do espaço público. O apontar o dedo a uma entidade pública (e o autor criticou igualmente os canais privados), chamando a atenção para o que parece mal, é o trabalho permanente de um crítico de televisão. Ele não é um cortesão, um escritor de textos panegíricos.

Terceiro, as notícias tendem a ser cada vez mais negativas quanto à acção do governo. A recente tese de doutoramento de Estrela Serrano destaca esse sentido (apesar de estudar as campanhas políticas de candidatos à presidência da República, a autora e actual membro da ERC anota o negativismo da cobertura jornalística na página 466 da sua tese). E também o livro de Nuno Brandão, como elenco na mensagem anterior a esta.

As críticas aos governos têm, pelo menos, duas vertentes: 1) governam por sondagens para manter um eleitorado firme; 2) fazem acções mediáticas em finais de mandato (tipo inaugurações) para atrair votos. Por seu lado, os canais de televisão (e também os meios impressos, embora menos) precisam de afinar a sua identidade própria, que passa pela espectacularização das notícias, pelos soundbites (ou pequenas frases) atribuídas aos políticos e pelo peso crescente conferido às vozes populares.

Um governo que não tenha isto presente parece esquecer-se do essencial que se passa na sua relação com os media. Por um lado, o distanciamento da acção governativa - ou a arrogância de dizer que não se lê, vê ou consome os media, como se isso significasse pureza e isenção na condução governativa - não existe mais. À quase exigência de rapidez de resposta por parte do jornalista tem de corresponder, por parte do agente do poder, uma compreensão pela actividade jornalística mas balanceada pela afirmação de uma forte distinção de atitude. No caso dos incêndios, essa distinção marca-se pela discrição e pelo enfoque pedagógico. Não se pode perder de vista que a destruição da floresta (como a sua renovação) é algo que perturba todos (ou alegra). Por outro lado, se os media precisam dos políticos como fontes para as suas notícias, os políticos - e os governantes em especial - têm uma forte necessidade dos jornalistas para a passagem de informação das suas actividades para os cidadãos-eleitores. Esta simbiose de necessidades não escamoteia, contudo, as diferenças de interesses dos dois lados.

Trabalhos de Eduardo Cintra Torres (publicados recentemente ou a publicar)

- O Manto Diáfano. Crítica de publicidade, Lisboa, Bizâncio (a publicar, 2006)
- «Revalidar a Teoria dos Media Events» in Gustavo Cardoso (2006) e Rita Espanha, orgs., in Comunicação e Jornalismo na Era da Informação, Porto, Campo das Letras
- «O Telepatriotismo durante o Euro 2004», in Felisbela Lopes e Sara Pereira, coord. (2006), A TV do Futebol, Porto, Campo das Letras
- «Multidões e Audiências», in José Carlos Abrantes e Daniel Dayan, org. (2006, no prelo), Televisão: das Audiências aos Públicos, Lisboa, Livros Horizonte
- «Television in Portuguese Daily Life», in Anthony David Barker, ed., Television, Aesthetics and Reality (2006), Cambridge, Cambridge Scholars Press
- «11 de Setembro: As Quatros Fases do Evento Mediático», in Manuel Pinto, ed., Casos do Jornalismo (2006, no prelo), Porto, Campo das Letras
- «Cidade, Multidão e Anomia numa Novela de 1903» («Marques», Afonso Lopes Vieira)
- «A Greve Geral no Porto em 1903 na Imprensa e em Os Famintos de João Grave»
- «A Multidão Religiosa de Lourdes em Zola e em Huysmans»
- «Recepção em Portugal de Lourdes de Zola e da sua multidão (1894-1932)»
- «Entrevista a Peter M. Herford», Revista do CIMJ
PRIME TIME

É o título do livro de Nuno Brandão, cujo conteúdo veio principalmente da sua tese de doutoramento. O autor analisou 180 noticiários televisivos dos três canais de sinal aberto, cobrindo um período semanal de cada mês de 2003. O total de notícias pesquisado corresponderia a 242 horas e 47 minutos. Os quadros seguintes reconstrui-os a partir do seu material de investigação [para ampliar a dimensão dos quadros, clique em cima deles].


Política nacional, desporto e acidentes e catástrofes são as três principais categorias temáticas (p. 161). As duas últimas categorias aqui citadas constituem um bom exemplo de espectacularidade da informação e dramatização crescente dos noticiários televisivos. Como se observa no Quadro 1, as notícias têm um cunho muito nacional, o que quer dizer que a informação televisiva releva os assuntos internos [prática que também elenquei recentemente, quando analisei os dois principais jornais espanhóis].

Nuno Brandão identifica igualmente um pendor de notícias de âmbito negativo, incluindo as de política nacional. Para ele, "o discurso do poder é visto mais pelo lado negativo do que pelo lado positivo das suas verdadeiras causas" (p. 176), situação que considera preocupante, em especial devido ao serviço público que os canais deviam seguir de acordo com a orientação expressa nas licenças atribuídas.

Outro ponto da sua pesquisa prende-se com aquilo a que chamou "variável natureza", com um peso maior da categoria soft (Quadro 4): a dimensão temporal exagerada dos noticiários leva-os a explorar em excesso temáticas como casos diversos, saúde e serviços sociais. A associação da variável natureza (com peso elevado de notícias soft) com a negatividade de muitas notícias (em especial as que falam de assuntos políticos) acentua o carácter sensacionalista dos noticiários.

O Quadro 5 tem também uma importância grande, com os cidadãos comuns a serem os principais agentes das notícias. Aquilo a que eu próprio (num texto sobre noticiário político) chamara de vozes populares, surge aqui com um recorte mais fino. As notícias que englobam muitas vozes comuns têm uma razão - alcançar essas vozes comuns, que gostam de aparecer na televisão, movimento que está já para além do conceito de neotelevisão (televisão comercial). Nuno Brandão diz mesmo que os cidadãos comuns são os primeiros e principais especialistas que opinam para os telespectadores, com eles identificados. Aos cidadãos comuns seguem-se os jornalistas (comentadores, em directos) e os desportistas (p. 184).

terça-feira, 12 de setembro de 2006

PODER E IMPRENSA NO TEMPO DE MARCELLO CAETANO

Vai hoje para as livrarias o trabalho de Ana Cabrera Marcello Caetano: poder e imprensa, em edição dos Livros Horizonte.

Tese de doutoramento em História, o livro agora publicado interpreta o tempo de Marcello Caetano enquanto primeiro-ministro (1968-1974) e as suas relações com a imprensa, através de um estudo minucioso do seu percurso político, legislação sobre os media e o uso pioneiro que ele enquanto político fez da televisão.

O trabalho de Ana Cabrera, amplamente documentado, faz ainda uma abordagem interessante aos media impressos daquele período, em que, apesar da ausência de liberdade de expressão através de uma censura diária aos produtos jornalísticos, se conseguem ver as fissuras do regime político decadente.

Os capítulos do livro são: leis da imprensa (desde 1926), percurso político de Caetano e sua ligação à imprensa (como acima escrevi, foi o primeiro político a usar a televisão, escreveu em jornais e um texto sobre relações públicas é marcante nessa área), criação de grupos económicos na imprensa no marcelismo, imprensa e expectativa de mudanças no marcelismo, situação dos jornalistas (contratos colectivos, formação, idades, categorias profissionais), estrutura interna das redacções e organização e apresentação da informação (analisou as primeiras páginas e secções de sete jornais: Diário de Notícias, Diário da Manhã/Época, Diário Popular, A Capital, Diário de Lisboa, República, Expresso).
PORTO

No Porto, detectam-se dois pares de oposições ou complementaridades: cosmopolitismo versus tradição, anacronismo e provincianismo.


A jovem americana, estudante de pintura, estava a fazer o seu primeiro trabalho no Porto, onde vai permanecer durante duas semanas na "adorável cidade", como me disse, trouxe cosmopolitismo. Com ela, um grupo de pintoras mais velhas, todas falando inglês, lembrava os artistas que se iniciam copiando obras de mestres, no Louvre. A mesa no restaurante próximo estava reservada para elas, que se revezavam. Não muito longe dali, no rio Douro, os rapazes (e as raparigas) que se atiravam do molhe do rio e do tabuleiro inferior da ponte D. Luís olharam com espanto o pequeno vídeo que produzi e lhes mostrei, como se eu fosse Manoel de Oliveira e estivesse a fazer o filme Aniki Bobó. É o lado da tradição.

A tradição e o cosmopolitismo também se detectam nas duas diferentes gerações de transportes de tracção eléctrica da cidade. Há ainda um relevo ao lazer e ao turismo, alargando a "pele" oceânica e ribeirinha. Eu nunca vira tantos turistas na cidade.

O anacronismo engloba os balcões bancários encerrados após movimentos de concentração do sector. Na parte mais nobre da cidade dói ver essas imensas superfícies abandonadas e grafitadas. Alguns dos edifícios têm uma traça arquitectónica interessante. A acompanhar este abandono, as obras de reparação da zona da estação ferroviária de S. Bento - que se seguiu à da avenida dos Aliados - provocaram rombos irreparáveis no comércio da zona, com lojas fechadas e outras antiquadas. Lojas e espaços comerciais e de serviços fechados são pragas que se alargam aos ainda em actividade, pois os clientes fogem da zona.


O provincianismo vai para a forma como a avenida dos Aliados foi deixada; os antigos jardins deram lugar a um áspero chão de cimento. A praça maior da cidade - muito mais bonita do que as praças principais de muitas cidades espanholas e tão ou mais bonita que a festejada praça de Venceslau em Praga - está triste. Infelizmente, o movimento cívico não impediu a vontade do presente poder político da cidade em tornar feia uma coisa bonita e alegre.












segunda-feira, 11 de setembro de 2006

MUSEU LUMIÈRE

O museu abriu em 2003, em Lyon (França), ocupando a casa onde os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo. Há mais de um século, em Março de 1895, os filhos de um fotógrafo conhecido em Lyon, eles próprios tornados fotógrafos, apresentavam um meio de comunicação diferente: o cinema.

A Chegada de um comboio a Ciotat, filmado por Louis Lumière em 1895, provocou uma grande emoção. Os espectadores, ao verem, na imagem, a locomotiva e o comboio vindos de Marselha aproximarem-se, fugiram. A ilusão da imagem estava criada. O filme dura cinquenta segundos. Já habituados a ver imagens fixas (fotografias), os espectadores admiravam-se com as folhas de árvores mexendo-se, a rapidez de movimentos, as pessoas deslocando-se.

A saída das operárias de uma fábrica ou uma partida de cartas fizeram sucesso em França e em muitos países, sendo os irmãos Lumière uns verdadeiros embaixadores do cinema.















domingo, 10 de setembro de 2006

REVISTA MEDIA & JORNALISMO

Comecei a ler o volume 8, correspondente à Primavera/Verão, da revista Media & Jornalismo, do CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo), dedicado ao tema Imagens da diferença. Este número temático, coordenado pela professora Isabel Ferin, da Universidade de Coimbra, pesquisa a representação das minorias étnicas nos media da Península Ibérica e Brasil.

O artigo de abertura, da própria Isabel Ferin, faz o cruzamento de "trajectórias de vida, imaginários, consumos e usos dos media das imigrantes brasileiras" (do editorial). Para além deste texto, destaco o de Catarina Valdigem, jovem investigadora (bolseira do CIMJ e a preparar curso de doutoramento), no qual se abordam os "processos de construção das identidades etno-culturais de mulheres imigrantes brasileiras" (do editorial).

O título do trabalho de Catarina Valdigem é indicativo: Usos dos media e identidade: brasileiras num salão de beleza. Na realidade, ela observou as interacções dentro de um salão de beleza no concelho da Moita, onde uma família brasileira instalou o seu local de trabalho. Segundo a autora, para além da compreensão das vagas migratórias e das imagens mediatizadas sobre as mulheres brasileiras, construiu um modelo de análise e partiu para o terreno, desde um contexto mais vasto de interacção (o bairro e o comércio local) para um contexto de consumo mediático. O Outro (a brasileira) é (re)contruido a partir dos estereótipos, com uma "desetnização" face à sociedade dominante e desenvolvimento de estratégias de integração no bairro.

Outros textos a ler são os de Denise Congo (migrações no Mercosul), Willy S. Filho (a mulher brasileira no jornalismo televisivo português), Nicolás Lorite (imigração e investigação audiovisual) e Alberto Efendy (migração em Espanha).

O próximo número da Media & Jornalismo, a sair em Novembro, será um número temático dedicado à história do jornalismo.

sábado, 9 de setembro de 2006

DINÂMICAS CONCORRENCIAIS NO MERCADO TELEVISIVO PORTUGUÊS ENTRE 1999 E 2006

Publicou o OberCom, já este mês, um estudo (working report) de autoria de Gustavo Cardoso e Sandro Mendonça sobre Dinâmicas concorrenciais no mercado televisivo português entre 1999 e 2006, documento de quinze páginas.

O texto parte do princípio que a "evolução das estratégias competitivas das empresas e a distribuição do poder do mercado" são variáveis relacionáveis com o desempenho financeiro das empresas ou grupos. Assim, Gustavo Cardoso e Sandro Mendonça fizeram uma análise da estrutura de mercado no sector da televisão entre 1999 e 2006, através das quotas de de mercado e de estimativas indicadoras de concentração de mercado e concorrência, usando valores para prime-time e share global.


Os dados trabalhados no documento têm como fonte a Marktest. Para além dos canais RTP, SIC e TVI, há uma rubrica "Resto TV", que representa os outros canais de cabo e que fazem já parte do mercado relevante (segmentos comédia, infantil, cinema, desporto, etc.).



No período estudado (1999-2006), os valores médios anuais para os vários canais oscilaram entre um máximo de 39% e um mínimo de 13,9% de quotas de prime-time e de 34,5% e 14,2% de share global. Ambos os valores máximo e mínimo ocorreram em 1999, aquando da mudança de líder nas quotas de mercado - da SIC para a TVI. Os autores apontam vários factores: variação demográfica (menos jovens, mais idosos), entrada de novas tecnologias (que retiram tempo ao visionamento televisivo, como a internet, DVD e jogos multimedia), mudança de conteúdos através de novos canais em segmentos da oferta televisiva (o AXN é um exemplo).


Os autores abordam as estratégias de concentração e diversificação nos vários grupos de televisão (RTP, SIC e TVI). Enquanto a RTP e a SIC implementaram estratégias de diversificação de canais de distribuição, englobando os canais de televisão e os seus targets específicos, a estratégia da TVI foi maximizar audiências através de um só canal. O financiamento baseia-se na publicidade (SIC e TVI) e apoio público e publicidade (TVI) [e assinaturas nos canais de cabo].

Gustavo Cardoso e Sandro Mendonça - olhando para os três grupos - elencam designações diferentes: player ganhador (o que lidera), player desafiante (o que vem a seguir) e player com menor share. A existir uma repartição idêntica de quotas para estes três grupos, ela andaria à volta de 26% de share global e 28% de prime-time. A realidade é mostrada no Quadro 3.


No período analisado, a única empresa que se manteve acima do valor de equilíbrio foi a SIC, enquanto a TVI teve posição positiva no prime-time e negativa no share global, ficando a RTP abaixo desse nível médio. Assinalável é o crescimento da TVI, com a SIC a perder e a RTP a revelar resiliência.


Como conclusões, os autores apontam: 1) o princípio da década foi muito marcado pela instabilidade e aumento de concentração (canais de cabo), 2) em posição competitiva, a TVI melhorou no prime-time e, mais recentemente, no share global, 3) há uma maior disputa no share global, 4) os operadores incumbentes mantêm-se fortes face aos novos operadores, 5) não voltou a haver a instabilidade verificada no começo da década.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

MERCADO TELEVISIVO EM PORTUGAL

Recebi o documento Dinâmicas concorrenciais no mercado televisivo português entre 1999 e 2006, de Gustavo Cardoso e Sandro Mendonça, um estudo do Obercom (2006), com 15 páginas. Vou lê-lo e comentá-lo aqui.
COLÓQUIO SOBRE ARQUIVOS DE IMAGENS

Decorreu ontem ao fim da tarde o primeiro encontro Falar de imagens, organizado por José Carlos Abrantes e livraria Almedina, em Lisboa. Foi uma conversa animada e interessante, dada a importância que os arquivos têm cada vez mais - e os de imagens em especial.

A primeira interveniente, Ana Machado, do Público, destacou a sua investigação jornalística recente (peça saída em Junho último). Dado que o seu trabalho incidiu sobre o arquivo da RTP, ela prometeu ir trabalhar proximamente sobre os arquivos das outras estações de televisão. A questão que deixou no colóquio foi: de que modo se pode maximizar o arquivo da RTP que contém 50 anos de memória?

O segundo interveniente foi o director do arquivo da RTP, Fernando Alexandre, que explicou os passos de migração dos arquivos para suportes actuais (vídeo completado até final deste ano e filme a completar em 2007) e digitalização dos suportes (em fase de avaliação). Para uma questão que atravessou todo o debate - o preço de acesso -, o responsável do canal público considera que haverá uma redução a partir do momento em que os arquivos estejam digitalizados.



Susana Sousa Dias, realizadora de Natureza morta (exibido este ano no cinema King e que aqui fiz referência), falou do acesso aos arquivos sob o ponto de vista do criador. Ela considerou que as políticas dos arquivos não são as mais adequadas. Criticou a inexistência de bases de dados e o preço do acesso. Já Estrela Serrano falou da sua experiência como investigadora (duas experiências com resultados distintos).



Do público, saliento as intervenções de José Manuel Costa (ANIM - Arquivo Nacional de Imagens em Movimento), de Acácio Barradas (jornalista) e de Eduardo Cintra Torres (crítico de televisão e investigador). Da grande ideia saída do colóquio, evidencio a necessidade de uma ampla discussão pública sobre a política dos arquivos.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

ARQUIVOS DE TELEVISÃO E CINEMA

Falar de Imagens é "um diálogo com criadores e utilizadores de imagens. Os modos de estas serem fabricadas, os contextos em que nascem e são divulgadas, as utilizações que delas fazemos serão alguns aspectos desta reflexão. A sua leitura será também proposta com exemplo concretos sempre que possível. As imagens estão por todo o lado. A reflexão deve ser sua companheira".

Hoje, pelas 19:00, na livraria Almedina, no Atrium Saldanha, em Lisboa, o tema é Os arquivos de televisão e de cinema. "Qual o estado dos arquivos de imagem, sobretudo os de televisão e de cinema? Os cidadãos que querem consultar imagens como podem aceder aos arquivos? Que semelhanças e diferenças existem com os livros e o acesso público nas bibliotecas? Que obstáculos há que ultrapassar para proporcionar maior acessibilidade e uso das imagens"?

Com: Ana Machado (jornalista do Público), Estrela Serrano (investigadora e membro da ERC), Fernando Alexandre (Director do Arquivo da RTP) e Susana Sousa Dias (realizadora). A organização pertence a José Carlos Abrantes e à livraria Almedina.


30 DIAS

O número de Setembro do roteiro da câmara municipal de Oeiras tem como tema principal a entrevista a Luís Negrão, da Fundação Portuguesa de Cardiologia. Contudo, e para além de toda a programação cultural, retiro a história de Pedro Osório, na sua coluna habitual.



Escreve Pedro Osório sobre o "conjunto" dele (banda) no final dos anos 1950 e princípios dos anos 1960, que tocava em bailes quase todos os fins-de-semana: bailes de finalistas, de clubes sociais, de casamentos ricos, em arraiais. Um grupo de amigos acompanhava habitualmente a banda, ajudando a transportar os instrumentos e a montar e desmontar os mesmos, cobrar o cachet. Pedro Osório recorda os mais fiéis: Talau e Zé Seara.

Tinham uma outra função "secreta". Por vezes, a festa chegava às quatro ou cinco da manhã, com os músicos cansados a tocarem para meia dúzia de dançarinos. Os "assistentes" simulavam uma zaragata de bêbados, o que levava os presentes a uma debandada rápida. Quando a eficácia do sistema foi posta em causa, porque havia sempre quem conhecesse o truque, houve necessidade de apurar a estratégia. Esta consistia num candeeiro que, ligado, provocava um curto-circuito. Foi outra possibilidade de acabar mais cedo (ou menos tarde) a festa e os músicos receberem o dinheiro, arrumarem os instrumentos e seguirem para casa.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

ANÁLISE DE CONTEÚDO

Num pequeno exercício de análise da imprensa, escolhi as manchetes das primeiras páginas dos jornais espanhóis El Pais e El Mundo de 1 a 6 de Setembro. Distingui entre assuntos internos ao país e internacionais, procurando encontrar pontos comuns e divergentes da agenda mediática.

Pontos comuns, encontrei três: no dia 1, uma fotografia de Felipe Gonzaléz, antigo primeiro-ministro espanhol (socialista) recebido em Teerão pelo presidente iraniano Mahmud Ahmadineyad (grafia castelhana); no dia 2, com a vitória da Espanha na meia-final do campeonato de basquetebol ; no dia 4, com a vitória da Espanha na final do mesmo campeonato, pelo que se sagrou vencedora.








Pontos diferentes nas manchetes: no dia 1, em que o El Pais destaca a lei anti-tabaco nos restaurantes, em vigor desde aquele dia, e o El Mundo refere um incidente em torno do 11-M (atentados terroristas em Madrid); no dia 2, em que o El Pais destaca o Conselho de Ministros e a decisão de envio de soldados para o Líbano, e a questão da comissão de energia e Bruxelas, enquanto o El Mundo releva a resposta do governo face ao artigo do dia anterior sobre o 11-M; no dia 3, o El Pais apresenta duas manchetes, uma sobre a conversa futura entre Zapatero e Rajoy (líder da oposição) por causa da constituição e outra sobre o despejo tóxico da ria Arousa, ao passo que o El Mundo inicia uma entrevista com um dos implicados no 11-M; no dia 4, a segunda manchete do El Mundo vai para a continuação da entrevista do implicado nos atentados terroristas; no dia 5, o El Pais tem uma manchete relativa aos clandestinos vindos do Senegal para as Canárias, o mesmo acontecendo com o El Mundo, que continua a entrevista com o implicado no 11-M. Hoje, destaque no El Pais para uma fotolegenda com Gasol, o principal jogador da equipa vencedora de basquetebol na chegada ao país, enquanto o El Mundo mostra Zapatero e o treinador de basquetebol em fotolegenda mas continua o destaque dos dias anteriores sobre o 11-M, indicando que o PP, partido na oposição, vai levantar no parlamento a questão trabalhada pelo jornal.


O meu destaque vai para a notícia do dia 1, a visita de Gonzaléz a Teerão: enquanto o El Mundo critica frontalmente, o El Pais acrescenta contextualização. O antigo governante teve contactos prévios com os Estados Unidos e terá preparado uma aproximação entre americanos e iranianos. Nesse dia, Gonzaléz tinha uma coluna de opinião no El Pais sobre a recente guerra no Líbano, onde tomava uma posição contra Israel, enquanto Gustavo de Arístegui, porta-voz do PP, escrevia no El Mundo um artigo sobre a geopolítica libanesa, expressando um ponto de vista oposto ao de Gonzaléz, e culminando dias de indecisão do PP face à questão do envio de militares espanhóis para o Líbano (dentro das forças da ONU).

Apesar de jornais independentes e que eu prezo a sua leitura, neste dia 1 mostraram um certo alinhamento partidário: o El Pais com o partido do poder, o El Mundo com o partido da oposição [claro que esta minha afirmação é mecânica, pois nos dias imediatos o El Mundo chamava a atenção para a ambiguidade de posição do PP face ao envio de militares para o Líbano].

Outra conclusão que retiro da leitura das capas dos jornais é uma preocupação com as questões internas. A primeira página versa sobre assuntos nacionais, ou de assuntos em que a Espanha é notícia no mundo como o campeonato de basquetebol ou a visita de Gonzaléz ao Irão. Uma outra conclusão é o agendamento específico do El Mundo: atentados terroristas de 11 de Março de 2004, com necessidade de descoberta de toda a verdade [foi um momento dramático, em véspera de eleições, e que contribuiu para a mudança de intenção de voto, segundo as sondagens de então] e posição adversa à crescente autonomia da Catalunha, como a notícia do ensino do castelhano. Se procurar relacionar o que um jornal e outro escrevem não há qualquer contaminação: o El Pais é imune a informar as notícias de primeira página do El Mundo, mesmo quando se trate de questões muito sérias (como o tema do 11-M e as investigações do jornal).

Sobre Portugal, nestes dias, excepto hoje, as notícias versaram sobre o acordo dos dois países sobre a água do rio Guadiana, o caso de futebol (Gil Vicente e repercussões na FIFA) e o concerto dado no sábado, em que actuaram nomeadamente Carlos do Carmo e Camané. Países vizinhos mas com poucas notícias. A excepção é no El Pais de hoje: um artigo de Mário Soares a comentar o momento político actual, com dois governos socialistas; um texto sobre Eduardo Lourenço; a vitória do ciclista Sérgio Paulinho na Vuelta.

Concluindo: os principais jornais espanhóis dão relevo às notícias internas do país, seguem o agendamento e acontecimentos não previstos (jogos de basquetebol, visita de antigo dirigente político ao Médio Oriente, entrada de imigrantes sin papeles nas ilhas Canárias) e têm menos investigação própria (excepto a do 11-M no El Mundo), não comentam as manchetes do outro jornal, têm alguma inclinação partidária (o El Pais mais à esquerda, o El Mundo mais à direita), instigam a agenda política (casos do 11-M e dos imigrantes ilegais) e dão poucas notícias do vizinho Portugal.