Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
Lauro António (cineasta) falou da capacidade democrática que é a blogosfera - o seu texto pode ser lido na totalidade no seu blogue Lauro António Apresenta. Dora Santos Silva (mestranda da Universidade Nova de Lisboa) partiu do conceito de indústrias culturais e traçou dez elementos fundamentais do jornalismo cultural. Ricardo Tomé (RTP) destacou a pluralidade de meios de internet onde a RTP está actualmente. Paulo Ferreira (Booktailors) deu um belo exemplo do uso dos blogues como ferramenta de promoção de uma actividade. Paulo Querido polemizou sobre a morte da blogosfera não no sentido do desaparecimento mas da passagem de uma utopia, com a produção de amadores, para uma actividade profissional. Maria João Nogueira (Portal Sapo) referiu a blogosfera (early adopters e recém-chegados) e a tematização, com diversidade de conteúdos. Ela, para quem a blogosfera portuguesa tem comunidades muito fechadas, considera a morte da blogosfera uma provocação embora note uma evolução.
Mariana Pinto e Sara Bica, com um estudo comparativo de leitores adolescentes de blogues, e Carla Sequeira e Luísa Teresa Ribeiro, com uma reflexão do género nos blogues, foram outras das comunicações que melhor retive. Sem esquecer as veteranas nas andanças dos encontros de blogues: Catarina Rodrigues e Elizabete Barbosa. As outras comunicações estiveram a cargo de Pedro Andrade, Ana Paula Lemos e José Gabriel Andrade. Sem esquecer a brilhante conferência de José Luis Orihuela, no começo do encontro, e a que espero voltar.
Excertos de algumas destas intervenções podem ser vistas no curto vídeo mais abaixo. Por seu lado, no seu lugar de participante, Pedro Príncipe (Rato de Biblioteca) escrevia no blogue e no Twitter (ver aqui).
Cumpriu-se um compromisso assumido no Porto, em 2006, aquando do III Encontro de Blogues.
Foi uma magnífica jornada e agradeço a colaboração e participação de todos (extensível aos moderadores de mesas Fernando Ilharco e Carla Ganito e ao Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, no apoio prestado por Diana Gonçalves). O meu igual obrigado à direcção da Faculdade de Ciências Humanas, em especial a sua directora, Isabel Capeloa Gil.
[imagens aquando da apresentação dos trabalhos de Sara Bica mais Mariana Pinto e Pedro Andrade, no 1º painel do encontro, com moderação de Fernando Ilharco, e de Mário Pires e Lauro António, no 2º painel, com moderação de Carla Ganito]
A seguir o blogue A Irmandade do Éter. Indicam desejar "devolver à arte radiofónica (?) a sua pureza e honestidade anteriores. Independentemente do tema tratado, torna-se essencial que a obra transmita uma ideia autêntica, fruto da individualidade do autor".
A minha última mensagem referiu Nicholas Garr, a partir de um texto editado no blogue da enciclopédia Britannica, onde ele escreve sobre a morte da blogosfera. Mas não destaquei toda a importância do texto, pois remete para um artigo que escreveu em 29 de Outubro de 2005, no seu blogue Rough Type.
O ponto de partida deste texto é o fascínio que ele tem acerca da utopia que nasce com cada nova tecnologia. Partilho desse fascínio.
Ora, Carr busca a memória de outra tecnologia - a rádio sem fios, de Marconi. E cita os ensaios editados sob o nome Imagining Tomorrow, publicados em 1986, de que destaca um de Susan J. Douglas, uma das maiores historiadoras da rádio. Escreveu ela que a rádio sem fios tem um lugar especial no imaginário americano porque combinou idealismo e aventura com ciência. Comenta Carr que a rádio sem fios trouxe um movimento popular que democratizou os media. Foi o que aconteceu com a blogosfera, conclui ele. Poucos anos depois, a rádio utópica era ocupada pelas empresas e pelos negócios, desfazendo o ideal inicial. Segundo Carr, à blogosfera está destinado igual futuro.
O texto dele merece ser lido até ao fim. Mas há uma coisa que não posso deixar de dizer, sem me considerar demasiado esperto. O que ele escreveu em 2005 já eu dizia no I Encontro de Blogues em 2003. Não, não sou clarividente, mas percebe-se à distância a comparabilidade. O movimento mais próximo da blogosfera é a rádio dos anos 1920, pela facilidade de construção, pela novidade, pela esperança de alargamento democrático dos media. Da rádio, ficou um meio insubstituível, que persiste até hoje. Da blogosfera, certamente que ficarão sementes fabulosas, juntando texto, imagem e som. Para mim, ainda é cedo para decretar a morte da blogosfera.
Na continuação da proposta de Paulo Querido (Mas certamente que sim!), sobre a morte da blogosfera, vi outra referência sobre o mesmo tema, e no mesmo dia, no blogue da enciclopédia Britannica.
Considera Nicholas Carr que a blogosfera parece ter entrado na sua crise de meia-idade: o que parecia fresco e cheio de novidade em 2004 é agora familiar e cansativo. Mas Carr vê mais adiante: se continua a haver um conjunto de bons blogues, inscritos num espaço público mas aberto à intimidade e à observação pessoal, o argumento de que os blogues estão fora dos media tradicionais desapareceu. Diz o mesmo articulista que a maioria dos blogues mais populares são empresas comerciais com equipas de escritores e jornalistas, com agressivas operações comerciais e com estratégias de links para outros blogues com objectivos idênticos. E acrescenta: alguns são bons, outros são aborrecidos.
Parece que a ideia romântica da blogosfera - onde cada um escreve o que pensa ser útil e o partilha com outros, formando uma comunidade - está rapidamente a desaparecer. Poderá ser. Mas não esqueço uma coisa - o ano está a acabar, os media mais fortes precisam de uma palavra-chave ou acontecimento ou ideia do ano enquanto marca deste 2008 e, certamente, a palavra blogue não vai ser a eleita. Por isso, procura-se afanosamente uma outra. Será o Twitter, que casa mais convenientemente a internet com o telemóvel? Eis um dos motivos para amanhã estarmos no IV Encontro dos Blogues, na Universidade Católica - a discussão do futuro da blogosfera (passe a publicidade e fazendo uma declaração de interesse, dado eu ser um dos organizadores). Esperamos que muitos blogueiros estejam presentes!
O post de hoje de Paulo Querido no blogue Mas certamente que sim! refere a comunicação que ele vai fazer no IV Encontro de Blogues, na próxima sexta-feira. Tem um título provocatório: O fim da Blogosfera. Mas é melhor transcrever o seu texto:
O fim da blogosfera — é o título da comunicação que vou apresentar na próxima sexta-feira ao IV Encontro de blogues, que se realiza nos dias 14 e 15 de Novembro de 2008, na Universidade Católica Portuguesa.Ultimamente o tema tem sido abordado na mais insuspeita imprensa (e também nalguma menos insuspeita). O número de deserções aumenta, os 300 geeks portugueses (estive a contá-los um por um) trocam os seus blogues em inglês pelo Twitter em inglês com os mesmos extraordinários resultados, há quem aproveite o momento para, vestido o melhor ar blasé, fechar a loja com alguma dignidade antes de desaparecer ingloriamente dos topes, o Carlos Teixeira desabafa dizendo, “para ser sincero“, não saber “muito bem se existe motivo para manter um blogue, seja ele de que forma for, a Wired titula que isso dos blogs é oh, tão 2004 e, acima de tudo, temos a peremptória afirmação de The Economist, o blogging já não é o que era porque entrou no mainstream, o nosso particular obrigado à The Economist (olha a vénia, Miguel) por nos tirar da ignorância com tão, digamos, Iluminada Descoberta.Assim sendo, penso que poderei discorrer calmamente, com uns slides, sobre o fim da blogosfera sem que me caiam em cima ou venham perguntar pela fonte. Quer mesmo conversar sobre isto, leitor? Apareça por lá.
A EBC (Empresa Brasil de Comunicação) é uma empresa do governo federal do Brasil criada em 2007 para gerir as emissoras de rádio e televisão públicas federais. A EBC possui, entre outros meios, a TV Brasil, canal que estreou a programação em 2 de Dezembro de 2007, quando se iniciaram as transmissões de sinal de televisão digital no Brasil e a TV Brasil Integración, de divulgação do país para a América Latina (informação a partir da Wikipedia).
Quando escreveram a Constituição brasileira, base de nossa jovem democracia, os constituintes estabeleceram, no artigo 223, que o sistema de radiodifusão teria as vertentes privada, governamental e pública, de forma a se complementarem. Temos no Brasil redes de televisão privadas, bem estruturadas, que oferecem programação variada mas de padrão comercial. A TV privada contribuiu fortemente, desde o seu surgimento, para a integração nacional e para a modernização da sociedade brasileira. Temos ainda canais governamentais dos Três Poderes nos três níveis da federação (Canal NBR, TV Senado, TV Câmara, TV Justiça, entre outros), utilizados, pelos governantes, para a legítima e necessária prestação de contas e divulgação de seus atos. O que não não temos - afora a experiência restrita da TV Cultura de São Paulo, que é de âmbito estadual - é uma televisão pública, entendida como aquela que não está subordinada nem às regras do mercado nem ao controle do poder político mas sim à influência direta da sociedade civil. Quando concebeu a existência de canais públicos de radiodifusão (radio e TV), os constituintes estavam pensando na diversidade, no aumento da oferta de opções, para que os brasileiros tenham maior possibilidade de escolher o que desejam ver na TV. A TV Pública, com participação direta da sociedade em sua gestão,deve ferecer uma programação diferenciada da que é exibida pela TV comercial, com ênfase na informação artística, cultural e científica, no bom jornalismo, no debate das questões nacionais, na expressão da pluralidade social. Este é o perfil da maioria das TVs Públicas existentes em outros países, principalmente nos da Europa Central. A criação de um sistema público de comunicação, em que a sociedade civil, mais do que o mercado ou o Estado, tenha voz ativa e participação direta, é uma antiga aspiração da sociedade brasileira, que finalmente agora encontra condições favoráveis para sua realização. Entre elas, o salto tecnologicopropiciado pela adoção padrão digital, o amadurecimento do debate e, pela primeira vez, a disposição do Governo Federal em viabilizar o projeto.
Para admirar a qualidade da programação, ver pequeno vídeo que preparei na cabina da Rádio Nacional, em emissão para a Amazónia, vastíssimo território que serve de fronteira do Brasil com alguns países da América latina. O programa a que assisti parcialmente, em AM, é um daqueles de contacto directo com a população. Achei impressionante o estilo comunicacional e temático, pedagógico mas pragmático, algo que a rádio na Europa terá perdido com a programação em FM.
Para ouvir online a Rádio Nacional de Brasília, clicar aqui.
O sítio Europa Film Treasures é um local a visitar. Nele - isto é, na internet -, podem apreciar-se importantes filmes europeus a partir de diversos arquivos.
O primeiro filme que espreitei foi Gordon Highlanders (1899), de William Walker. Depois vi Emperor William II’s visit to Copenhagen (1903), de Peter Elfelt. Estes e outros tesouros podem ser vistos, voltados a ver, analisados, estudados, discutidos.
Posso escrever que se trata de uma das boas notícias do ano. A má notícia é que Portugal não integra a lista de um enorme conjunto de países europeus que disponibilizam arquivos de cinema neste projecto.
Dezoito imagens captadas na primeira manhã de 2008, na Herdade da Maucha (Alentejo) pelo fotógrafo José Francisco, patente na Colorida Galeria de Arte (Rua Costa do Castelo 63, Lisboa, www.colorida.pt), entre 15 de Novembro e 31 de Dezembro.
O debate presente na relação artista, indústria e sociedade. Mas antes de expor os fatos e sair escrevendo, quero apresentar minhas motivações. Tenho acompanhado nas últimas duas décadas os debates, livros e pesquisas culturais pela perspectiva dos independentes, isso muito antes do assunto ter retornado como tema central da política pública executada pelo Ministério da Cultura. Em um momento anterior em que o assunto estava restrito a pesquisas acadêmicas sem a menor visibilidade, debatidas em eventos desgarrados pelo Brasil realizados em guetos, com toda sorte de intelectuais, artistas marginais e periféricos, que para os atores centrais, são apenas aqueles sem sucesso.
Manoel J. de Souza Neto é investigador e produtor cultural, autor do livro A (Dês)construção da Música na Cultura Paranaense. Actualmente, é presidente do Musin (Museu Independente) e do Fórum Permanente de Música do Paraná. O autor pretende contribuir para a criação de conceitos a respeito dos estudos culturais. Esperemos os próximos textos.
Jorge Manuel Martins, cujo livro Profissões do livro. Editores e gráficos, críticos e livreiros (2005) comentei aqui e aqui, publicou uma separata ao mesmo livro, editada pelo Centro de Línguas e Culturas, da Universidade de Aveiro, com o título Livros: difícil é vendê-los (2007).
Neste trabalho de 20 páginas, o autor propõe-se abandonar a teoria da cadeia de valor (diferentes etapas na produção de um bem, estruturadas segundo saberes e profissões diferentes e que introduzem valor económico em cada uma delas) e falar da rede social do livro. Para compreender a rede social do livro, Jorge Manuel Martins diz que "cada um dos mediadores do livro «interpreta e filtra, selecciona e produz sentido, contribuindo com a sua própria marca, ou com o seu capital simbólico socialmente reconhecido, para transformar um produto base num valor acrescentado e num pacote de benefícios» e que, na nova rede do livro, cruzam-se agora vidas tão especializadas quanto convergentes, sem actores principais nem secundários, em equilíbrio culturalmente desafiante" (p. 43).
Na página seguinte do texto, o autor apresenta um quadro de oferta (produção, difusão) e procura (organizações, indivíduos).
Destaco ainda no trabalho de Jorge Manuel Martins aquilo a que chama de auxiliares de diagnóstico, em que apresenta as fontes de análise dos actores sociais da difusão do livro (pp. 51-57). Um dos elementos que igualmente destaco é a observância de algumas tendências: concentração versus excesso de produto, prioridade aos best-sellers versus ausência de livros de fundo, novos consumidores, aumento das devoluções e descontos crescentes, e proliferação de feiras e saldos enquanto diminuem as livrarias tradicionais e se disputa o espaço nas lojas.
De acordo com o blogue Newspaper Innovation, o mercado dinamarquês de jornais está a perder circulação. Os jornais pagos cairam quase 25% nos últimos dez anos, de 1,6 milhões de exemplares em 1997 para 1,2 milhões em 2007. Mas a circulação dos jornais gratuitos está a baixar ainda mais rapidamente.
Continua a notícia: o que começou por ser uma série rápida de lançamentos de jornais gratuitos entre Agosto e Outubro de 2006 tornou-se uma série de encerramentos ainda mais espectacular. O mais recente é o 24timer, editado em Odense e em Aalberg, na passada sexta-feira, como informa o MediaWatch (em dinamarquês). Cada edição tinha uma circulação de 20.000 exemplares.
Vai decorrer nos próximos dias 14 e 15 de Novembro (próxima sexta-feira e sábado), o IV Encontro de Blogues, desta vez na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.
Ainda estão abertas inscrições para a participação individual e frequência dos ateliês de Photoshop e Ferramentas da Web 2.0. Para saber mais informações, ver no blogue do IV Encontro.
Dado o sucesso de sessões anteriores, a Bedeteca vai manter o Grupo de Leitores de Banda Desenhada (GLBD), actividade da Bedeteca de Lisboa, concebida em colaboração com Sara Figueiredo Costa e Pedro Moura. O novo ciclo terá Sara Figueiredo Costa como moderaradora (a Sara é a autora do blogue Cadeirão Voltaire, agora com problemas informáticos de actualização). O objectivo principal do GLBD é partilhar leituras de títulos de banda desenhada. As sessões decorrem no auditório da Bedeteca de Lisboa, às 16:30, de 15 em 15 dias. Na sessão do passado sábado, o GLBD terá discutido a lista de livros para selecção.
Até 31 de Dezembro, as bibliotecas especializadas de Lisboa Bedeteca e Hemeroteca Municipal apresentam, nas instalações da primeira, um conjunto de primeiras páginas do jornal Os Ridículos, bissemanário humorístico, acompanhadas das respectivas provas enviadas para e recebidas dos serviços de censura do Estado Novo (Comissão de Censura e o carimbo VISADO Pela Comissão de Censura) (1933-1945).
Segundo os organizadores, na mostra de Os Ridículos,
a gargalhada, no mínimo, irrompe dobrada em face deste confronto de traços: o do mestre desenhador e o do censor zeloso, perante uma linguagem gráfica insinuativa.A exposição será organizada em três núcleos temáticos (política nacional, política internacional e Lisboa), e conta com desenhos e caricaturas da autoria de Alonso, Stuart, Colaço, Natalino, Silva Monteiro, Américo e Pargana. Através dos cortes às versões iniciais propostas pelos ilustradores, e da comparação com as páginas finais, é possível descortinar os resultados do controlo do Estado sobre o discurso humorístico e gráfico veiculado por este jornal, por outras palavras, sobre a liberdade de expressão, aqui essencialmente plástica – razões de sobra para não perder esta exposição.
A exposição é comissariada por Álvaro Costa de Matos (Hemeroteca Municipal) e Pedro Bebiano Braga (Museu Rafael Bordalo Pinheiro). O material pertence à colecção da Hemeroteca Municipal e representa "documentos bem reveladores dos objectivos e especificidades da censura sobre a imprensa, neste caso, sobre um jornal humorístico, bem como das estratégias e respostas dos jornais, muitas delas subtis, para contornar a acção do famoso lápis azul".
Os Ridículos começaram a publicar-se em Lisboa em 1895, por iniciativa e sob a direcção de José Maria da Cruz Moreira, o "Caracoles". Em Setembro de 1897, a direcção é assumida por "Auto-Nito", outro humorista muito popular na época. Apesar do entusiasmo inicial, a suspensão foi inevitável devido à forte concorrência entre os jornais humorísticos e ao elevado analfabetismo existente no país. Oito anos depois, em 1905, "Caracoles" pega novamente no jornal e, juntamente com "Esculápio" (Eduardo Fernandes), reedita Os Ridículos, aproveitando a efervescência política que precedeu a implantação da República. A partir de 1906, já sem a colaboração de Eduardo Fernandes, o jornal conheceu uma fase de franco desenvolvimento, enveredando pela crítica política e pela sátira aos acontecimentos dominantes da época; os seus jocosos comentários granjearam-lhe uma popularidade e uma notoriedade que se manteriam praticamente até ao fim do jornal, em 1984. Entre os seus colaboradores destacam-se Alonso (Santos Silva), Colaço, Silva Monteiro, José Pargana, Stuart de Carvalhais e Natalino Malquiades, no desenho humorístico e na caricatura política, enquanto os textos eram assegurados nomeadamente por Gamalhães (Xavier de Magalhães), Sousa Pinto, Aníbal Nazaré, Nelson de Barros, Borges de Antão e Casimiro Godinho (texto retirado da informação produzida pelos organizadores da exposição).
Diz Canclini (Culturas Híbridas, p. 67) que a América Latina foi colonizada pelos países mais atrasados da Europa. Mas um professor cabo-verdiano (Wlodzimierz Szymaniak) aponta outra perspectiva: os portugueses foram os primeiros a chegar ao continente africano e os últimos a sair. O atribuído atraso e a maior permanência geraram, com certeza, uma identidade própria.
Daí ser curiosa a percepção que se tem de Portugal no Brasil e noutros países, incluindo os africanos. Em Cabo Verde, os mais velhos ainda têm uma ligação afectiva a Portugal: vêem a RTP África e seguem os clubes de futebol (Benfica, por exemplo). Os mais novos importam as modas das telenovelas. As ligações aéreas entre Fortaleza (Brasil) e Praia (Cabo Verde) são frequentadas por cabo-verdianas que compram a moda de vestuário vista na novela brasileira e a revendem na ilha de Santiago. Se Cabo Verde não tem qualquer sala de cinema, os canais televisivos de conteúdo religioso, oriundos do Brasil, têm uma penetração crescente. Existem duas bibliotecas nas nove ilhas do arquipélago, mas as aquisições são reduzidas, com o essencial das sobras da feira anual do livro português. Há duas universidades privadas e sei de um editor brasileiro que quer colocar os seus livros ali. O português das ilhas muda de sotaque e a língua de troca, a habitualmente falada, é o crioulo, num universo de meio milhão de habitantes.
Moçambique coabita com a pressão do inglês da África do Sul e de 20 línguas regionais que compõem um mosaico longe da homogeneidade linguística do português. A rádio, o meio mais eficaz em alcançar todo o país, dá relevo à identidade nacional e regional, pelo que transmite essa pluralidade linguística, num conjunto de 20 milhões de habitantes. Certamente, em Angola há um fenómeno próximo.
O Brasil tem à volta de 180 milhões de habitantes. É um país emergente, cujo futuro vai ser marcante no planeta. Daí serem visíveis os esforços de parcerias empresariais e académicas com o mundo que fala português, mas igualmente as relações com os Estados Unidos, a África do Sul, a Índia e a China.
Por isso, o brasileiro é orgulhoso do seu país. Há um movimento para a auto-suficiência em combustíveis. A produção de álcool a partir da cana de açúcar para substituir a gasolina está a transformar radicalmente a agricultura. Os agricultores preferem a rentabilidade da cana à produção de alimentos. Confessava-me um quadro superior de uma empresa gráfica que as marcas de automóveis têm as suas fábricas no Brasil, dando emprego a uma mão de obra qualificada. Nos anos mais recentes, e com particular ênfase em 2007, as emissoras públicas de rádio e televisão procuram ganhar espaço às ondas comerciais, abrindo espaço a outras programações que não apenas a telenovela. Mas esta, a música e o futebol continuam imagens de marca e de exportação.
As televisões seguem as comunidades de emigrantes brasileiros, nomeadamente as de orientação religiosa evangélica. No Japão, por exemplo, abriu recentemente um canal.
No campo dos media, os países de língua portuguesa passaram por etapas semelhantes: fim da ditadura portuguesa (1974) e repercussão directa na independência dos países africanos (1975), fim da ditadura militar no Brasil (1984). Mas a relação Estado-media privados segue um fluxo distinto. Em Portugal e nas antigas colónias africanas, a evolução seguiu de uma orientação marxista para uma economia de mercado, com surgimento de novos títulos nos jornais, canais de televisão e de rádio e televisão por cabo (nomeadamente em Portugal e Moçambique). No Brasil, os anos mais recentes assistem a um interesse renovado nas estações públicas do audiovisual, com o fortalecimento da comunicação pública, ambicionando a qualidade e o prestígio da RTP. Os envolvidos no processo brasileiro acham que a televisão da Câmara dos Deputados e a televisão do Senado caminham no sentido do serviço público capaz de disputar audiências da Globo. Para mim, a actual situação do Brasil lembra muito a americana da PBS.
O Museu Nacional da Imprensa fica no Sector da Indústria Gráfica (SIG), Quadra 06, Lote 800, em Brasília, desde 1982. Ouvimos o seu responsável, Rubens Cavalcanti Jr., falar do museu e da ligação da imprensa nacional à chegada da corte real portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, há duzentos anos atrás, portanto:
Como escrevi ontem, realizou-se nos passados dias 3 e 4, no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), daquela cidade, o seminário internacional Lusocomum sob o tema "Transparência, Governança, Accountability e Comunicação Pública". Agora, apresento um vídeo com excertos das comunicações de Wlodzimierz Szymaniak (docente do Instituo Jean Piaget, de Cabo Verde) e de Julieta Langa (docente da Universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique), que falaram sobre a comunicação social daqueles países.
Nos passados dias 3 e 4, realizou-se no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), daquela cidade, o seminário internacional Lusocomum sob o tema "Transparência, Governança, Accountability e Comunicação Pública".
O encontro envolveu investigadores do Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal. No vídeo abaixo, Fernando Paulino dá conta dos resultados do seminário (registo feito ontem). Fernando Paulino, um dos principais artífices do seminário, é docente na Universidade de Brasília e no IESB e provedor do ouvinte da rádio pública brasileira.
Espero dar mais informações sobre o encontro nos próximos dias.
Está a preparar-se uma pós-graduação em Media & Entretenimento na Universidade Católica Portuguesa.
O curso surge na sequência do conhecimento adquirido nesta área científica, nomeadamente a organização da 8.ª Conferência Mundial de Economia dos Media, que, em Maio último, juntou em Lisboa destacados investigadores dos media a nível internacional. Alguns desses investigadores e professores participarão como docentes no curso, o que confere uma orientação internacional das matérias leccionadas.
A pós-graduação em Media & Entretenimento é um curso de 211 horas destinado a fornecer competências na área dos media e do entretenimento, distribuída por seis módulos ou disciplinas e com 40 ECTS atribuídos aos alunos que façam o trabalho final (projecto) e tenham uma frequência mínima de 50 sessões. Para saber mais informações, clicar aqui.
Declaração de interesse: sou coordenador da pós-graduação.
Acompanhei, até ao começo da madrugada, como alguns canais de cabo apresentaram as eleições nos Estados Unidos. No sítio onde estou, vi a TVE (Espanha), a TV5 (França), a CNN e a Global News (Brasil).
Destacou-se uma, a americana. Mais activa, mais colorida - parecia o ambiente de festa de um comício. Usaram-se ecrãs touchscreen, os jornalistas e apresentadores tinham grande empatia e objectividade, sem tempo a perder, mudando com frequência de âncora.
O canal brasileiro recorreu nomeadamente a anteriores ministros dos negócios estrangeiros e a dois jornalistas destacados em Nova Iorque. O canal espanhol foi muito equilibrado, com uma jornalista a fazer perguntas a um painel e a constantes ligações aos Estados Unidos, onde um jornalista acompanhava as contagens. O canal francês não o vi tão de perto, mas tinha um dispositivo próximo do espanhol.
As eleições americanas despertaram (despertam) muito interesse, caso da TVE que prolongou o seu especial pela noite dentro (acompanhei até às três horas de Espanha). Das palavras mais salientes, destaco a de mudança. Também anotei a palavra alerta - algumas promessas do candidato agora vencedor podem não se efectuar tão cedo, atendendo à situação financeira mundial e empresarial (fusão de bancos no Brasil, apoio a bancos na Tailândia, nacionalização de um banco em Portugal).
Com as eleições americanas acaba um ciclo político naquele país. W, o filme de Oliver Stone, não podia ser mais actual na radiografia do legado de Bush Júnior. Como ilustra o filme, W quis agradar ao pai, que o repelia constantemente, vendo-o como a ovelha ranhosa da família, desajeitado, ignorante e belicoso. No filme, Bush Sénior aparece constantemente a aconselhar o filho a mudar de rota ou a querer evitar o seu contacto, devido à desastrosa e contínua política seguida por Júnior.
Além do filme, a história irá apreciar a governação deste presidente tão imprudente e impopular. Um jornal, um destes dias, comentava que também a cultura pop o irá julgar. Pelo tema, espero retomar ao assunto proximamente.
Só agora é que tomei contacto com o blogue os filhos de lumière. Percorri parcela substancial das suas mensagens e fui parar ao trabalho de jovens alunos do 7º ano do secundário de Serpa, "armados" de realizadores de filmes. E gostei muito.
Nasceram em 30 de Janeiro de 2001, certamente um dos mais antigos blogues activos no país. A primeira mensagem, intitulada O Primeiro Olhar - 1 dá conta de "Realização de curtas-metragens individuais e colectivas: participantes entre 9 e 12 anos". Das equipas de formadores retiro os seguintes nomes: Regina Guimarães (Realização e Montagem), Catarina Alves Costa (realização), Manuel Mozos (realização), João Pinto Nogueira (realização), Saguenail (Realização e Montagem), Sandro Aguilar (realização e montagem), Pedro Duarte (montagem), Nina Ramos (montagem), Pedro Marques (montagem)Paulo Américo (Imagem), Olga Ramos (imagem), Alexandra Afonso (imagem), Paulo Ares (imagem), Inês Carvalho (imagem), Rui Coelho (Som), Olivier Blanc (som), Francisco Veloso (som),Luís Botelho (som) e Catarina Graça (Produção). Em mensagens seguintes, surgem outros nomes. Não sei se as equipas se mantêm, mas o trabalho é muito profícuo.
Na mensagem de 1 de Setembro de 2002, anunciam que, "Na sequência do seu primeiro ano e meio de actividade em torno dum projecto de escola do espectador, a Associação Os Filhos de Lumière, ciosa de cumprir com os seus objectivos de alargamento e qualificação de novos públicos para o Cinema, julgou útil criar um eixo de actividade directamente ligado aos estabelecimentos de ensino, procurando interlocutores privilegiados que farão frutificar os esforços e os projectos pedagógicos desenvolvidos por esta estrutura. Assim, Os Filhos de Lumière lançarão, a partir do final do mês de Setembro uma série de workshops intitulados CINEMACÇÃO, destinados a professores de todas as disciplinas do quinto ao décimo segundo ano de escolaridade".
Mais recentemente, em 17 e 18 de Outubro, decorreu na Cinemateca Francesa (Paris), o primeiro encontro, que reuniu cineastas, professores e parceiros culturais que participam em Cinema, cem anos de juventude (Le Cinema, cent ans de jeunesse), marcando assim o início de um programa pedagógico de iniciação ao cinema no meio escolar e que integra 4 países: França, Espanha, Portugal (desde 2006) e Itália (desde 2008). A organização portuguesa (representada no blogue os filhos de lumière) indica que "A equipa portuguesa presente neste encontro inclui os cineastas que orientam este dispositivo, as quatro professoras que com eles colaboram (em Serpa, Lisboa e Moita), e representantes da associação Os Filhos de Lumière e da Cinemateca Portuguesa (parceiros culturais)". A associação fica na Calçada do Duque, 3, 1º andar, aqui em Lisboa.
Do blogue, retiro um vídeo sobre a realização de um pequeno filme realizado pelos alunos da escola de Serpa acima indicada. Vale a pena consultar o blogue e procurar saber mais coisas da associação.
Embora presente nas linhas anteriores, quero alargar o meu pensamento. Trata-se de um exercício teórico a necessitar de trabalho empírico: qual o peso do poder das tecnologias sobre as profissões do jornalismo? Há rupturas ou adaptações? As rupturas decorrem de um só facto, de uma só tecnologia? Ou de uma conjugação no tempo e no espaço? Há uma ruptura em si, ou deslocações que combinam tradição e ruptura?
Não pretendo desenvolver Thomas Khun e seguidores, mas encontro uma explicação simples através da pintura: exemplos de Picasso (com os períodos azul e rosa, de grande realismo pictórico) ou de Van Gogh (a aprendizagem em adulto das técnicas da pintura), em que movimentos antagónicos acompanham o progresso material e intelectual dos artistas em si e no contacto com o meio ambiente. Podemos falar de etapas, de modelos, de representações.
A minha discordância é face à escola do determinismo tecnológico, cheio de optimismo e perfeição. Há um deslumbramento tecnológico, como quando adquirimos um novo gadget. O importante aqui é descobrir o discurso preponderante de uma época e enquadrá-lo numa perspectiva científica ou reflexiva. Cada período histórico produz o seu próprio quadro de representações, fazendo a revisão dos anteriores períodos.
Penso em três momentos de alterações: introdução da máquina de escrever, introdução do computador, acesso à Internet. A minha hipótese de partida é que o momento de maior ruptura é o segundo – a introdução do computador –, pois ele significou um novo mapa de rotinas e eliminou uma profissão, a dos tipógrafos. Mas foi uma ruptura silenciosa (ou silenciada) porque os historiadores e os sociólogos não se debruçaram suficientemente sobre ela.
A máquina de escrever na redacção melhorou a legibilidade dos textos por parte dos tipógrafos. A máquina substituía o texto escrito em papel, mas continuava a servir de intermediário entre duas profissões, jornalistas e tipógrafos. O tipógrafo passava para a linguagem da tipografia aquilo que o jornalista escrevia à mão ou à máquina de escrever. Quase que era indistinto o texto aparecer escrito à mão ou na máquina. O tipógrafo tinha poder. A luta no jornal República (1975) é um exemplo dessa distinção.
Nos anos seguintes, até meados da década de 1980, a entrada do computador na sala de redacção trouxe uma profunda alteração, possivelmente maior que as entradas da máquina de escrever e da Internet. O tipógrafo desapareceu, mas não conheço relatos académicos dessa transformação. Há também uma questão de classe: o tipógrafo era operário, o jornalista é o que escreve notícias e acede a fontes poderosas ou importantes. Se quisermos, deixou de haver um intermediário – ou uma espécie industrial de copista. O jornalista passou a ser o autor do texto e o escritor definitivo junto à impressão. Isto no jornal, pois os outros meios dispunham de outras tecnologias. Mas a analogia que se faz frequentemente é entre o jornalista do jornal e o da Internet.
No período entre a introdução do computador e da Internet (10 a 15 anos), houve mudanças pouco estudadas dentro e fora da redacção. Por exemplo, a entrada de sistemas de contabilidade e gestão, o arquivo de documentos pessoais, a ligação entre jornalistas e editores. A Internet trouxe pelo menos duas vias: o endereço electrónico (email) e o acesso à www (agora mais conhecida como Internet). Há já duas gerações a lidar com o computador, a dos anos 1980 e 1990 e a que entrou com a Internet e as facilidades informáticas de elaboração de vídeos, podcasting e blogues. A primeira geração, de transição, desenvolveu competências no posto de trabalho, além de tirar cursos específicos de curta duração. A segunda geração, digital, experimentou tecnologias digitais nos anos de escolaridade, entre colegas, ainda antes de entrar na redacção, incluindo jogos de computador. Estas alterações tecnológicas associam-se a outras transformações como juvenilização e feminização das redacções, criação ou ampliação de secções, temas ou problemáticas como saúde, ambiente e minorias, surgimento de novos títulos e meios: Público, Independente, SIC, TSF.
Registo ainda outras características, como o aumento de notícias mais leves (soft news) e de entretenimento e o cinismo dos jornalistas face aos poderes, com a ideia de cães de guarda ou vigilantes do poder. A par destas duas últimas características, Schudson (2003) nota uma geração de jornalistas mais bem apetrechados culturalmente. A segunda geração dos computadores apresenta maior aceitação quanto ao trabalho multimedia, nomeadamente na participação de chats e elaboração de vídeos e animação.
A transformação tecnológica traduz-se numa questão de cultura e de mentalidades, de migração cultural e tecnológica analógica para o digital. O computador associou-se à modernidade, ainda mais do que o acesso à Internet. Foi feito um prolongado discurso de literacia. A própria evolução das máquinas informáticas levaria o profissional a procurar manter uma actualização que não existia previamente e que se torna uma marca fundamental nunca sentida antes.
A geração digital, a da Internet e dos jornais electrónicos de 1995, tem-se adaptado tecnologicamente, como disse, dentro do ambiente das máquinas digitais, conquanto a transição ainda esteja em curso em várias indústrias culturais (cinema, televisão), em especial na transmissão (e não na produção e recepção ou reprodução). O dispositivo eufórico trazido pelas novas máquinas parece descobrir um homem novo, capaz de trabalhar com múltiplas tecnologias ao mesmo tempo e com iguais ganhos: usa o telemóvel, trabalha no computador, ouve música, gere uma grande abundância de recursos. Mas perde atenção e concentração, pois a imediatez e a rapidez de resposta, evidenciada nos chats como o Messenger, não permitem a reflexão. Claro que o jornalismo sempre foi uma profissão de acção, da escrita quase automática. O que evidencia uma continuidade, visível na observância das rotinas produtivas do velho e do novo jornalista são muito idênticas, mesmo no caso do gatekeeper.
As tecnologias assentes na rede electrónica de comunicações estabelecem elas próprias novos interesses, como a redacção multimedia. Aqui, detecto duas tendências, a das empresas profissionais, detentoras de licenças e prosseguindo o lucro, que articulam trabalhos nos vários media, e a dos projectos amadores, que combinam tecnologias com experimentação e inovação, que as empresas profissionais absorvem, em termos de recursos humanos e de bancos de ideias.
Um tema central do livro de Brian Winston (Media Technology and Society, 1998) é rede, a que dedica a parte IV. A rede é o grande sistema, escreve. Se a rede de computadores na década de 1990 assume as proporções que hoje todos conhecemos, com a omnipresente presença da internet, Winston remonta a ideia de rede, em termos modernos, ao telégrafo de Morse e ao telefone de Bell, tecnologias eléctricas e ainda não electrónicas.
Em 1845, Morse e O'Reilly concorriam na construção de linhas de telégrafo. O investimento elevado, as lutas judiciais para resolver atribuição de licenças em vários pontos dos Estados Unidos e o vandalismo de postes e linhas de transmissão levaram à aceitação de uma empresa monopolista forte naquele país. Na Europa, eram os Estados que suportavam esse investimento.
A ideia de rede perpassou para as comunicações transoceânicas de telégrafo. Mas vigorava ainda o princípio do ponto-a-ponto, de emissor a receptor fixo. Podemos dizer que se tratava de uma rede rígida e linear. O telégrafo transmitia mensagens criptadas (Morse), mais tarde reformado pelo telex, com texto, e que ainda perdura em algumas redacções.
O telefone (1875) trouxe novidades. A central telefónica era um centro onde chegavam e partiam muitas linhas, que se ligavam num percurso multilinear: A podia ligar a B, C, D, etc., de cada vez que fazia uma chamada. O operador (masculino) do telégrafo cedia o lugar à telefonista, pois as mulheres eram mais gentis e eficientes no atendimento. Além da transmissão da voz, os visionários do telefone ofereceram notícias e música, não vingando como negócio mas antecipando a rádio. Durante décadas, a voz permaneceu como território do telefone, não se vislumbrando o caleidoscópio de actividades que o futuro telemóvel traria: texto, máquina fotográfica e de vídeo, acesso à internet, máquina de jogos vídeo.
A electrónica entrou nas redes com a radiodifusão - a rádio na década de 1920, a televisão na passagem da década de 1940 para a década de 1950. Voz e imagem concorreriam com o texto dos media impressos e eléctricos (jornais, telefone).
Winston dá um relevo especial às tecnologias de gravação: o disco, o filme, o gravador de som, o gravador de vídeo. O registo do som e da imagem permitirá a repetição de programas, para além do directo, na rádio e na televisão. O prime-time da televisão assegura igualmente o directo e o diferido, o que eleva o conceito de rede. Além da ligação aqui e agora, ela pode dilatar-se no tempo e no espaço, consequência de grande efeito nos anos de 1990 com o computador.
As redes de satélite, nomeadamente as ligadas ao audiovisual, a televisão por cabo e as redes de computador são outras áreas de análise desenvolvidas por Winston. Escreve ele que a ideia de redes é tão velha como as telecomunicações. Do mesmo modo que as telecomunicações do século XIX, como o telégrafo e o telefone, a internet inclui a existência de máquinas (computadores) e o uso de codificadores de linguagem (mais o telégrafo que o telefone). Num período equidistante entre a descoberta e aplicação das redes de telecomunicações e as redes de computador surgiu uma teoria importante, a teoria da informação, em finais da década de 1940, que justificou as tecnologias então existentes e as que iriam surgir. A teoria emergiu num tempo de guerra em Norbert Wiener, que estudara a balística e promovera o termo cibernética, e em Shanon e Weaver que elaboraram um sistema telefónico mais eficiente.
As actividades de protótipo que conduziram à internet começaram com a ligação de um computador a um telefone fixo, em 1940, na IBM. Depois, em 1945, falava-se em bancos de dados (o memex era um aparelho de registo áudio e microfilme). Mais tarde, veio a Arpanet (1972) - o resto da história é contado em todos os livros sobre a internet.
Leitura: Brian Winston (1998). Media Technology and Society. Londres e Nova Iorque: Routledge
No Expresso de ontem, Arons de Carvalho escreveu sobre a liberdade da comunicação social. Referiu o Estatuto do Jornalista, a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e a liberdade da comunicação social para além dos direitos das empresas e dos seus funcionários, nomeadamente a recente legislação sobre concentração e pluralismo.
Deu maior ênfase à pluralidade existente na televisão em Portugal, pois desde 1992 há novos operadores. E realçou ainda a criação de mais uma empresa de cabo. Curiosamente, Arons de Carvalho não refere a história por detrás da segunda empresa de telecomunicações com cabo, a Zon Multimédia. Esta surgiu da separação da Portugal Telecom, que agora criou o Meo. Ela resultou de uma longa campanha da Sonae, detentora dos supermercados Continente e do jornal Público, entre outros activos, para a separação das actividades da Portugal Telecom, com uma oferta pública de compra da empresa de telecomunicações que fez acelerar o processo. Na minha óptica, nem o actual governo (PS) nem os anteriores governos (PSD) foram os líderes do processo, mas a teimosia dos dirigentes da Sonae. Este grupo não ganhou a PT mas alterou a realidade nacional. Por isso, e na minha óptica, deve fazer-se justiça a esses empresários.
No texto sintético mas importante do deputado do PS e antigo secretário de Estado da Comunicação Social há lugar também para a abertura do novo canal de via hertziana terrestre dentro da nova plataforma tecnológica. Eu não tenho muitas certezas do seu sucesso, dadas as dificuldades financeiras gerais, que se reflectem no investimento publicitário dos media.
Um último ponto do texto, a sua apreciação à ERC, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Arons de Carvalho considera haver uma melhoria no rigor e qualidade técnica das deliberações daquela entidade, o que todos nós concordamos. Mas fica o registo que ele nem sempre concorda com a forma como os seus responsáveis se pronunciam. Nunca o tinha lido neste sentido, o que é importante.
No blogue, coloquei imagens da campanha publicitária sobre a nova grelha de programação da RTP. Para um conhecimento mais geral da campanha, ver o blogue Estado de Sítio, da própria RTP, que inclui textos, imagens da campanha e vídeos. Entretenimento & dança, desporto e os grandes debates são, segundo o canal, os temas da campanha de publicidade.
Na imprensa (e na internet), decobri já dois textos sobre a campanha. O primeiro pertence a Ana Gaspar, do Jornal de Notícias, intitulado "Futebol para publicitar a RTP. Campanha criticada por destacar mais a modalidade do que os restantes conteúdos da estação pública", com data de 28 de Outubro. Retiro parte do texto da jornalista: "a opção tem suscitado questões como saber se a modalidade é serviço público ou se é correcto dar a ideia de que este é o conteúdo mais importante da grelha. A campanha publicitária para anunciar a nova programação do primeiro canal público transformou algumas caras da estação em «craques» da bola espalhados pelas principais cidades do país. Judite «Pitons» de Sousa, Bruno «Crouch» Nogueira e Jorge «Too Special» Gabriel assinalam o regresso da bola à antena". Ana Gaspar ouviu o director de Programas, José Fragoso, que explicou que a campanha estava já orçamentada e com um custo baixo, pois usa principalmente os canais de televisão e rádio do grupo público, além de mupis e um anúncio na RFM.
O texto mais interessante é o de Eduardo Cintra Torres, na sua coluna "O Manto Diáfano", que o jornalista e docente universitário mantém há anos no Jornal de Negócios e já resultou na publicação de dois livros. Mas é igualmente de uma grande dureza, pois parte do princípio que o dinheiro dos contribuintes foi mal gasto (a RTP é um grupo do Estado). Depois parte para a análise de três dos anúncios - sobre o futebol, mas não detalha o conjunto da campanha, nomeadamente os anúncios ao programa de Catarina Furtado, e que eu inseri aqui igualmente. E realça as mensagens: o regresso do futebol ao canal como se fosse o do filho pródigo, a vibração dos jogos em directo face aos resumos em diferido, o aumento de audiências na RTP com o futebol e a saída da rotina dos espectadores com a novidade do futebol no canal. Mais à frente, e num tom sempre muito crítico, Cintra Torres escreve que, apesar da notoriedade das três caras oriundas de áreas diferentes da programação, a "relação criada é zero de conteúdo e pouco salutar numa concepção de serviço público".
Algumas dúvidas e comentários meus. Primeiro, o director de programas do canal público não se comprometeu com custos. Mas eles serão certamente elevados: mupis, anúncio de rádio e sítio da RTP, sem contar com a criatividade da agência de publicidade, caso dos vídeos. Segundo, distingo duas qualidades nos cartazes: a confiança ao público mais velho, assegurando um desporto popular e programas de entretenimento com músicas de décadas passadas; o apelo a públicos mais jovens, dado o tratamento gráfico, como se estivéssemos a jogar um videojogo ou a ver um filme de animação computadorizado. Terceiro, e na sequência do anterior, o lettering dos anúncios dedicados ao futebol dão uma ideia de movimento e dinamismo, de juventude e crença no futuro, ao passo que os três anúncios ao programa de Catarina Furtado apelam a três gerações ou três décadas (1960, com um penteado à Madalena Iglésias; 1970, com o onirismo da geração do flower power, apesar de colado à década anterior; 1980 em diante, com a iconografia da banda desenhada japonesa). Quarto, embora sem uma convicção a cem por cento, a programação de um canal público, para além da informação rigorosa, assenta numa filosofia de abrangência de gosto popular, onde o entretenimento e o desporto têm lugar.
[O que se segue é uma parcela adaptada do texto que produzi aquando da recente arguência na tese de doutoramento de Helder Bastos, na Universidade Nova de Lisboa]
Nos trabalhos sobre jornalismo, tecnologias da informação e ciberjornalismo, é frequente ler sobre desprofissinalização e desaptidão. A nova geração está mais bem apetrechada que a anterior. Isto faz esquecer iguais alterações em profissões como médico, engenheiro electrónico e arquitecto. Individualizar a profissão sem olhar o impacto das tecnologias em vários saberes tem sempre perigos. Cada geração, cada época histórica assiste a mudanças qualitativas e quantitativas, mas isso não quer dizer que a nova geração atingiu a perfeição ou a redenção.
Isso oferece-me algum tipo de reflexões:
1) Diz-se que uma das características dos novos media é a actualização permanente. Mas, isso já sucedia com a rádio e a televisão. Podemos dizer que os media electrónicos têm essa característica. Se quisermos, podemos remontar aos media pré-electrónicos, como as notícias de agência noticiosa através do telégrafo. O que significa que os media são criados para produzir actualidade. Durante décadas, quando as notícias o justificavam, os jornais faziam segundas e terceiras edições. A distinção, agora, é que não fica rasto das versões anteriores. Além disso, o ciberjornalismo é uma fatia pequena da internet, território vasto de entretenimento, informação, sítios empresariais, redes sociais, interligações múltiplas – e muito lixo. Não há uma realidade homogénea, mas níveis diversos: língua expressa, qualidade das mensagens, desequilíbrio entre texto, imagem e som, exactidão ou incorrecção das palavras e conceitos. Parece-me uma injustiça separar ciberjornalistas e jornalistas; o conceito de remediação, teorizado à frente, ajuda a minha causa. Em 1956, quando se inicia a publicação do Diário Ilustrado, o jornal passa a ser o primeiro com toda a redacção equipada com máquinas de escrever (Fernando Correia e Carla Baptista, 2007). Mas não se pode dizer que as outras redacções albergavam jornalistas pré-históricos. Embora com diferença de escassos anos entre si, as redacções dos media têm computadores desde a década de 1980 e Internet desde finais do século XX. O mercado em si encarrega-se de corrigir diferenças nas organizações mas também a nível etário. O computador Magalhães (para crianças) faz-se acompanhar de computadores igualmente simples para as pessoas mais velhas, que começam a escrever em email e em blogues. Conheço algumas histórias pessoais muito ilustrativas. O uso social das tecnologias faz-se em diversas direcções sociais, culturais, organizacionais e etárias, que se massificam.
2) Lembro os meus usos sociais das tecnologias electrónicas. O meu primeiro email foi de 1994, o meu primeiro telemóvel de 1996. Em 1999, quando fiz investigação para o doutoramento, a redacção do Diário de Notícias tinha um só computador ligado à Internet. Naquele jornal, dizia-se que o Público era um jornal facilitista com os profissionais a retirarem muita informação da internet, pois todos os postos de trabalho já tinham acesso. Podemos dizer que o Público correspondeu ao Diário Ilustrado em termos de desenvolvimento tecnológico. Mas, rapidamente, todos os media ficaram com acessos iguais. Testemunhando ainda a minha relação com as tecnologias, participei na criação de um blogue colectivo em finais de 2002. Estamos a falar de 14 anos, um leque de tempo muito curto. O que me leva a destacar a crítica ao discurso dominante num determinado período. Heinz Steinert (2003. Culture Industry, p. 166), autor da teoria crítica, dizia que, se na década de 1950, as fantasias do futuro se ligavam à conquista do espaço e à energia nuclear, as de hoje focam a internet. O mesmo autor distingue uma classe alta de especialistas de computadores com acesso a toda a informação, que vive, trabalha e ultrapassa as fronteiras regionais, e uma classe baixa, de trabalhadores e empregados assalariados ou por conta própria, irregulares e precários, com contacto com as tecnologias através das consolas de jogos. As diferenças sociais que resultam de vários níveis de educação são exacerbadas. Steinert é tão pessimista como Theodor Adorno e igualmente crítico da sociedade.
3) Atrás lembrei o conceito de remediação, de Jay David Bolter e Richard Grusin (2000), que agora desenvolvo. A remediação é a lógica formal pela qual os novos media remodelam [refashion] as formas mediáticas anteriores. À remediação associam-se a imediacidade, em que o estilo visual nos faz esquecer o meio (tela, filme), e a hipermediacidade, que nos lembra o meio no qual a mensagem aparece. Exemplo: muita da arte digital trabalha modelos ou imagens consagradas ao longo dos tempos e introduz-lhes variações. O que quer dizer que a nova forma aceita trabalhar conteúdos já existentes. O computador é uma tecnologia, actuando sob a forma de imediacidade ou hipermediacidade: os primeiros jornais electrónicos copiaram a "velha" forma do jornal de papel. De quantos anos precisou para se libertar dessa forma e tornar-se um portal com conteúdos próprios e interactividade (caso dos comentários dos leitores)?