
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
segunda-feira, 17 de outubro de 2005
Participei no grupo de trabalho “Blogues no ensino” no recente encontro da Covilhã, onde destaquei o pioneirismo e a importância de blogues como os de António Granado (Ponto Media), Jornalismo Digital, Jornalismo e Comunicação, Aula de Jornalismo e Jornalismo Porto Net. Referi também o Irreal TV (de Francisco Rui Cádima) e o Net FM (de Paula Cordeiro), todos no campo de ensino universitário.
No grupo de trabalho, descobri a existência de blogues de apoio ao ensino secundário - e a enorme importância deles -, caso dos pertencentes a Adelina Moura (Disto e daquilo), administradora dos Trolhas e Engenheiras e Somos Informáticos, e Luís Pereira (E-pedagogia), com o Geografismos ("cadernos diários electrónicos", administrados directamente pelos alunos). Do grupo também fizeram parte Manuel Matos (Que Universidade), Daniela Santos (Artigo 37) e Neusa Baltazar.
Sobre os blogues de apoio ao secundário retiro a seguinte parcela do nosso relatório: "servem de e-caderno diário e são administrados directamente pelos alunos. Publicam os seus textos, tecem comentários e avaliam os trabalhos dos colegas. O blogue, ao servir de e-caderno diário para o aluno escrever, corrigir, publicar, arquivar e comentar, passa a ganhar uma nova dimensão no panorama educativo e apresenta funcionalidades interessantes, do ponto de vista pedagógico, que não encontramos no caderno diário tradicional. Torna-se numa forma instantânea de partilhar qualquer texto escrito na Web. Os textos ficam arquivados e podem ser lidos, comentados ou editados em qualquer altura. Todos os alunos podem ler, comentar e avaliar os textos uns dos outros e sugerir ligações para os seus ou outros blogues".
E aproveito a boleia do que Leonel Vicente escreveu, no seu Memória Virtual, a propósito da minha intervenção: "Destacou o papel de suporte de apoio não presencial no ensino, assim como as suas potencialidades de interactividade / trabalho colaborativo, em ambos os sentidos (professor – aluno), contribuindo também, de alguma forma, para reduzir as «barreiras hierárquicas». Apontaria como conclusão final do grupo de trabalho que os blogues no ensino constituem uma alternativa válida, a nível da gestão de conhecimento em comunidade, consubstanciando-se numa ferramenta para a alfabetização digital".
domingo, 16 de outubro de 2005
Obrigado, blogueiros da Covilhã, cidade com temperaturas mesmo baixas, brrrgh! Só a aquecer os D'ZRT, que foram aí há dias (mas há adolescentes na cidade que cheguem? ou os estudantes universitários também gostam de ver a novela Morangos com açúcar?), e o Nilton, que ontem começou o espectáculo às 24:30. Para a próxima, o Nilton deve começar às 24:35 ou às 27:41. Sempre são horas mais criativas.
Bom, agora vou desligar o computador e preparar-me para dormir. Espera-me, amanhã, um dia de muito trabalho e uma viagem de vaivém longa. Questões de gosto sobre pintura!
A Jacqueline Lima é uma incansável obreira da blogosfera. Tenho uma grande admiração por ela, dada a criatividade constante em arrancar com blogues temáticos (e tecer redes na blogosfera). No passado dia 12, a Jacky começou um novo: o Estantes & Leituras.
Em que consiste? Em enviar para ela uma fotografia da biblioteca pessoal (ou uma parte) e dizer autores preferidos e leituras actuais. Simples e encantador. Já contribuiram: Atlantys, jacky, Lua, PmA, Peciscas, Visitante X e Yardbird. Cusquem à vontade aqueles pedacinhos da intimidade de cada um dos contribuintes. Um destes até se ofereceu para fotografar o sofá. E porque não os animais de estimação, a capa do último disco e a peça mais valiosa ou mais estimada pelo seu proprietário?
No mesmo dia em que a página de novas tecnologias do Diário de Notícias fala da possibilidade de um computador portátil de 100 dólares para os países atrasados tecnologicamente, segundo uma proposta de Negroponte, do MIT - e que discutimos nestes dias do encontro dos blogues na Covilhã -, o Sunday Times tem outras preocupações.
Segundo o texto de John Harloe e Jonathan Leake, Steven Spielberg está a trabalhar na patente de um sonho perseguido por Hollywood há décadas: o filme em três dimensões sem necessidade de óculos. Apresentado como o visionário mais influente de Hollywood, Spielberg refere, em recente entrevista, que os cinemas tradicionais sofrerão uma transformação total. Ecrãs de plasma passarão simultaneamente dois conjuntos de imagens: cada um dos nossos olhos lerá um só conjunto, resultando daí a ilusão da dimensão da profundidade.
O texto faz ainda uma descrição diacrónica desse antigo sonho, que vem desde 1903, quando alguns industriais do cinema apostavam em tal. Em Junho de 1915, um pequeno filme, Jim the penman, foi visto em Nova Iorque. A novidade foi rapidamente esquecida. Depois, em 1950 o filme Bwana Devil, em que um homem comia leões, trouxe a ideia de volta. Outro silêncio sobre a 3D estendeu-se até há vinte anos atrás, e regressa agora. Até hoje, para ver um filme em três dimensões, era preciso usar um par de óculos. E, agora, será de vez?
Habituei-me a aceitar isso como uma verdade indiscutível. As duas imagens seguintes, hoje editadas, parecem comprovar tal afirmação [créditos: The Sunday Times, fotógrafo Steve Bent; El Pais, foto da Reuters].
O que distingue as duas? A primeira é a cores e saíu na na primeira página do jornal inglês, com duas raparigas trajando à ocidental; a segunda foi editada em página interior do El Pais, é a preto e branco, mostra uma mulher talvez com trinta e tal anos ou quarenta e vestida com vestuário tradicional (incluindo lenço). Os primeiros nomes das primas é mencionado; na outra foto, apenas a indicação de uma mulher [coisa evidente]. Ao Reino Unido, parte directa na guerra do Iraque, importa mostrar que o caminho para a paz e a democracia à ocidental é fundamental. A imagem das duas raparigas podia ser feita num país europeu: uma delas tem olhos verdes, as duas possuem cabelos claros, uma traz óculos em cima dos cabelos e um fio em volta do pescoço, as duas vestem casacos de ganga e têm um sorriso de plena felicidade.
A imagem de cima não é diferente da outra e profundamente das que nos chegam todos os dias do conflito naquela zona do mundo?
Para Iker Seisdedos, do El Pais de hoje, criar um blogue é uma mistura de simplicidade, gratuitidade e algum exibicionismo. Certamente, ela sabe do que escreve: em cada seis meses, o número de blogues duplica ao ritmo da mais contagiante das infecções. Foi tal e qual como ouvi ontem José Luis Orihuela falar na Covilhã.
Claro que Orihuela aparece no texto do jornal madrileno de hoje: "Os meios de comunicação descobriram finalmente os weblogs, primeiro como tema e depois como algo que se integra entre a oferta das edições em linha". À biografia conhecida de Orihuela, professor da Universidade de Navarra e autor do ecuaderno, a jornalista acrescenta a de ele ter sido membro do júri dos prémios Best of the Blogs 2005.
E Iker Seisdedos escreve sobre os fotoblogues, que "documentam gravidezes, retratam noites de copos ou se recriam em auto-retrato. Do mesmo modo que num blogue autobiográfico tradicional, servem a crónica, desta vez visual e comentada, das suas vidas". E o texto da jornalista corre até que chega a Minid, de Diego Martín Lafuente, blogueiro desenhador e tecnólogo, um dos mais respeitados e veteranos do universo hispânico. Ele diz:
[imagem tirada do fotoblogue Cherry blossom girl, de Marta Verrier, uma estudante espanhola do programa Erasmus em Paris, onde estuda filologia francesa]
2º Encontro de Blogues na Covilhã
O meu caderno de apontamentos (analógico, isto é, em papel) encheu-se de notas. Das propostas dos grupos de trabalho e dos oradores individuais, retiro algumas notas, embora tenha consciência de nem tudo ficar aqui.
Começo por Manuel Pinto, que analisou dados de inquérito a inscritos no encontro (comparado com dados obtidos em inquérito realizado em Setembro de 2003, aquando do 1º encontro em Braga). Dos respondentes, há um maior equilíbrio entre homens e mulheres (subida destas), com mais habilitações no domínio do mestrado/doutoramento e menos na licenciatura (não podemos esquecer os públicos-alvo destes dois encontros, distintos, por exemplo, de almoços e jantares de blogueiros em que já participei). Quanto a como tomou conhecimento dos blogues, em dois anos baixou a via da internet e mais a das dicas, indicando a perda de novidade do fenómeno. A blogosfera é mais uma área para obter e partilhar informação, enquanto desce a ideia de que os blogues concorrem ou são alternativa aos media tradicionais mas fazem um registo de complementaridade. Há, da parte dos respondentes com blogues, uma preocupação com a audiência e com os comentários (80%) e uma identificação nas mensagens (85%).
O professor da Universidade do Minho fez ainda um interessante esquema que mostra o modo como os blogues contribuem para a mudança do sistema comunicacional: 1) fonte de informação (nova fonte para os media e para os cidadãos), 2) monitorização do meio envolvente (escrutínio público do jornalismo e dos media; acompanhamento dos campos da vida social, da cultura, tecnologia, desporto), 3) espaço de debate e intervenção, 4) laboratório de ideias e tendências (criação literária, descoberta de talentos), 5) ferramenta pedagógica e espaço de aprendizagem, e 6) arquivo e memória (apontador para sítios interessantes, caderno de apontamentos).
O professor de Pamplona elencou alguns elementos da modernidade da internet pós-blogues, como: 1) existência de uma série de serviços killer applications (casos da Technorati e do Flickr), 2) emergência de media sociais (wikipedia; moblog.publico.pt para dar conta do recente eclipse), 3) corporate blogging (blogues como ferramentas de comunicação empresarial), 4) blogues comerciais, 5) blogues dos media (o blogue do Kulto, a revista do Público de domingo; GuardianUnlimited), 6) RSS + tagging (caso do Flickr), 7) podcasting (da rádio pessoal está a passar-se para a imagem e o audiovisual), 8) googleização (os blogues têm aplaudido o Google, que parece cada vez mais ser o novo Microsoft), 9) info-poluição.
Daí, ele entender que o futuro passa ainda pelos blogues temáticos, pelo multimedia (mais os novos formatos, como os vlogs - videoblogues, podcasting e portalização dos blogues), pela blognomics (a comercialização dos blogues), pela web 2.0 (de que a wikipedia parece ser um indicador, isto é, a internet mais livre e partilhada em tempo real), em que se pode já datar a existência de uma blogosfera 3.0 (a 1.0 decorreu entre 1992 e 1999 e a 2.0 foi até ao ano passado).
sexta-feira, 14 de outubro de 2005
A caminho do encontro de blogues na Covilhã, o blogueiro faz uma pausa na tarefa da escrita. Se puder, ainda dou conta do encontro no domingo; senão, fica para segunda-feira, ao longo da jornada. Assim, desejo um bom fim-de-semana a todos os visitantes do I.C.
Decorreu com muito agrado o primeiro colóquio organizado por José Carlos Abrantes e a livraria Almedina sobre blogues, ontem com o título Blogues no feminino. Participaram como anunciado: Patrícia Antoniete (Megeras Magérrimas), Isabel Ventura (mestranda em Estudos sobre as mulheres), Carla Quevedo (Bomba Inteligente) e Isabel Matos Ferreira (Miss Pearls) (ordem na fotografia, da esquerda para a direita, com José Carlos Abrantes no meio). O espaço na livraria, a um canto de sala, é aconchegado e propício às tertúlias. O público respondeu - em especial o feminino. A conversa prolongou-se por duas horas e ainda houve mais um bocadinho para troca de impressões ao longo da livraria [aqui está a importância da livraria como ponto de encontro; o espaço da Almedina, sendo mais pequeno do que os espaços da FNAC, está bem concebido e é prolongado pelos corredores/estantes da livraria].
Isabel Ventura apresentou um pequeno mas bem construido estudo, dividido em duas partes. Na primeira, ela referiu um inquérito conduzido a 27 pessoas, para saber o que elas pensavam sobre os blogues. Elencou algumas preferências: diário e poesia/actualidade nos blogues femininos, actualidade e militância política nos homens. Na segunda, ela analisou cinco blogues femininos, concluindo pelo grande investimento de tempo com os blogues, suporte documental muito vasto, mistura de tom confessional com distanciamento, variedade de temas e propensão para a reflexão do quotidiano. Isabel Ventura, nessa análise, ainda distinguiu temas comuns: crítica à discriminação de género, questões relacionadas com o aborto, crítica aos media. Detectou também uma cultura acima da média nas blogueiras, o papel relevante e interventivo dos blogues na vida social e aqueles como assumindo um papel político para as suas autoras/editoras.
Das perguntas colocadas pelo animador incluiam-se as seguintes: como arrancaram os blogues, quais as motivações, que caminhos fizeram para chegar à escrita actual, quais as hesitações e que repercussões têm os blogues?
Isabel Matos Ferreira, do (Miss Pearls), é uma blogueira que se diverte. Bibliotecária, começou por ver outros blogues até se decidir ter um. Escreve o que lhe vem à mão, sobre aquilo que ela gosta. Dantes, escrevia sobre o Xanel Cinco, dando esse nome ao blogue; agora, escreve sobre pérolas, daí o nome. A sua motivação é como se estivesse a fazer ponto cruz, ou a descrever os humores que uma pessoa tem ao longo do dia. Às vezes sobre uma frivolidade - mas porque não? Afinal o blogue é seu. Referiu ainda a sua lenta evolução técnica mas destacou a enorme alegria de escrever. Contudo, há dias que não consegue ter uma ideia; por isso, folheia um jornal ou uma revista ou aproveita as ideias de amigos [o blogue parece uma obrigação necessária à continuidade da existência; como eu compreendo bem a Isabel, e estou de acordo com ela].
Carla Quevedo, do blogue (Bomba Inteligente), que passara pelo Pastilhas de Miguel Esteves Cardoso, adoptou o mesmo nickname (Charlotte), mas sem criar personagens, à excepção do gato Varandas, que tem existência real. Tudo o que aparece no blogue retrata o quotidiano da jornalista (com coluna no Expresso com o nome do blogue). Já Patrícia Antoniete (Megeras Magérrimas), brasileira e advogada, preferiu destacar a "profissionalização" do blogue, não vá aparecer alguém a querer fazer negócio com ela e a sua colega. Contou que pagou, num leilão, 180 reais (cerca de €75) para ter um template próprio. Mais tarde, adoptou outro template, trabalho da mesma designer. O objectivo inicial era as duas blogueiras falarem de dieta, mas as coisas foram evoluindo sem elas darem conta disso. No blogue, coloca imagens suas e da família, recebendo, por causa dessa exposição, críticas favoráveis e desfavoráveis.Para Patrícia Antoniete, o importante é a publicação de textos sem pagar dinheiro, ela que se considera ser do domínio da incontinência literária (escreve muito desde que é alfabetizada, disse). Ela trabalha e bloga ao mesmo tempo, esta segunda actividade funciona como escape ou descanso da outra. E se o blogue feminino é light, ela não se preocupa muito. Mas tem uma certeza: os 400 mil acessos que já conta no seu blogue, levam-na a uma certa felicidade, a de se considerar a Paula Coelho da blogosfera [alusão ao sempre muito bem vendido Paulo Coelho, nem que os sucessivos livros que ele escreve sejam sobre os mesmos assuntos].
Foi um colóquio leve e divertido mas, simultaneamente, preciso e profundo quanto aos valores e motivações que nos levam a dedicar tantas horas por semana a escrever num blogue. No caso do colóquio de ontem, a conversa foi no feminino. No dia 10 de Novembro há mais.
quinta-feira, 13 de outubro de 2005
Colóquio sobre blogues, hoje na Livraria Almedina, ao Saldanha (Lisboa), pelas 19:00. O tema é Falar de blogues no feminino, e contará com Carla Quevedo (Bomba Inteligente), Patrícia Antoniete (Megeras Magérrimas), Isabel Matos Ferreira (Miss Pearls) e Isabel Ventura (mestranda em Estudos sobre as mulheres).
Hoje, na aula da manhã, contámos com a presença de Rui Telmo Gomes, sociólogo associado ao Observatório de Actividades Culturais (OAC). Ele falou-nos de estudos de públicos de cultura em Portugal, área que tem vindo a ser trabalhada nos últimos dez a doze anos.
A base principal dos estudos no país tem assentado em inquéritos a populações específicas em ocorrências determinadas, caso da Lisboa capital da cultura 1994 e Porto capital da cultura 2001, e que abarcam práticas culturais e de lazer. Contudo, desde os anos de 1980, são feitos inquéritos à juventude, o que permite uma leitura mais longa e diacrónica. Ainda não feito foi um inquérito geral às práticas culturais dos portugueses, ao contrário de França que o faz desde a década de 1960, possibilitando, neste país, uma percepção de alterações em termos de práticas e consumos culturais.
Há três abordagens precisas de públicos de cultura: 1) estatísticas de frequência de equipamentos culturais, 2) inquéritos às práticas culturais de uma população, e 3) inquérito aos frequentadores de eventos e acontecimentos. Claro que estas abordagens representam diferentes metodologias, como as questões de medida, representatividade e tipificação. Por exemplo, as grelhas cronológicas nada nos dizem sobre as práticas ou sobre quem são os espectadores de um filme ou peça de teatro.
O sociólogo Rui Telmo Gomes mostrou ainda como a frequência de equipamentos culturais em Portugal cresceu nos anos de 1990 e estagnou na actual década. Ele referiu-se ao aumento continuado da frequência de bibliotecas e da ida a espectáculos e ao peso do cinema no consumo cultura (10 milhões de entradas anuais no começo da década passada e subida para 20 milhões durante a mesma década, devido à construção e/ou alteração dos equipamentos, como a passagem de cinemas isolados para multiplexes; contudo, o patamar de idas ao cinema tende a baixar por causa dos consumos domésticos, como o vídeo e o DVD).
Partindo dos estudos de longa duração em França e procurando comparar com a realidade portuguesa, o sociólogo destacou a relação entre práticas culturais e democratização da cultura. Para ele, há uma sobredeterminação estrutural dos hábitos culturais, uma persistência de desigualdade no exercício da cultura e limites das políticas culturais, e o efeito do alargamento da escolarização na constituição de públicos da cultura. Em França, ao longo de 30 anos de inquéritos, verifica-se: 1) manutenção de variáveis relevantes (idade, escolaridade, origem social, género), 2) independentemente do investimentos em políticas culturais, as desigualdades tendem a persistir. Em Portugal, um dado crucial é constituido pelos baixos níveis de escolaridade, embora, em termos de comparabilidade com França, o desnível se reduza quando se trata de públicos jovens. Assim, se a escolaridade é um factor de distinção na desigualdade, a longo prazo o aumento de capitais escolares permitirá a democratização da cultura.
Na apresentação hoje feita, Rui Gomes esclareceu ser a população universitária um núcleo importante de públicos (a par dos professores). Nota-se, porém, que, uma vez concluido o ciclo de vida estudantil, tais públicos têm uma quebra sensível em termos de práticas culturais.
Rui Gomes lembrou o inquérito à ocupação dos tempos livres realizado em 1999 (INE e OAC), com imenso e rico material para interpretar as práticas culturais. E elencou cinco componentes essenciais a partir do estudo: 1) sociabilidade inter-domiciliária (visitar/ser visitado, jogar cartas, ver televisão), 2) saída de comensais (ir comer fora com familiares e amigos, ir a discotecas), 3) sociabilidade local (associações recreativas, festas populares), 4) práticas de saída informativa (ir a museus, exposições, bibliotecas), e 5) práticas amadoras (desporto, cantar num coro, tocar numa banda).
Finalmente, houve ainda tempo para traçar alguns dos conceitos trabalhados ao longo das três últimas décadas, nomeadamente nos universos académicos de língua francesa e inglesa: cultura como distinção social (Bourdieu), legitimidade cultural e ecletismo (Donnat), pluralidade das práticas e segmentação de públicos (Lahire), comunidades de recepção (Fiske), gosto cultivado e gosto omnívoro (Peterson) e diferenciação de audiências (consumidores massificados, fãs e praticantes). Na tipologia dos segmentos, Rui Gomes destacou um continuum, indo do género mais abrangente (a massificação da televisão) a formas de recepção com investimento (grupos de fãs e consumo especializado) até ao consumo mais pequeno, de nicho, cujos praticantes se tornam auto-produtores.
quarta-feira, 12 de outubro de 2005
Ando um pouco atrasado, pois houve blogues que anunciaram a mudança na direcção do Expresso ontem à noite. Mas também só li os jornais de hoje há poucas horas.
Li atentamente as notícias editadas pelo Público e pelo Diário de Notícias: José António Saraiva, de 57 anos, à frente do Expresso há 21-22 anos, dá lugar a Henrique Monteiro, de 50 anos, até agora um dos subdirectores do jornal. O Diário de Notícias diz que a administração quis sangue novo, agora que o formato do Expresso vai passar do broadsheet para o berliner (dimensão dos jornais diários) e quando se pretende tornar mais leve a revista "Única".
É interessante verificar que a mudança no Expresso, já prevista há bastante tempo, como dizem as notícias de hoje, ocorre num momento de menor projecção em termos de audiência da SIC, e após a saída (também prevista, lia-se há menos de duas semanas) de Manuel S. Fonseca da direcção de programas do canal. Isto é, os dois principais media do grupo Impresa estão a passar por uma fase de mudança. De geração num caso, de "sangue novo" no outro (embora a diferença entre o antigo e o novo director seja de sete anos apenas).
Também curiosa a notícia de um próximo lançamento de semanário ligado à Cofina para concorrer com o Expresso (notícia de grande destaque no Diário de Notícias e ausência no Público). Na notícia, lê-se que Sérgio Figueiredo está envolvido nesse projecto. A Cofina detém o Correio da Manhã (que passou à frente do Jornal de Notícias em vendas, liderando o mercado), o Jornal de Negócios, o Record e a TV Guia entre outros [de notar as sinergias do grupo: no Correio da Manhã já vi textos assinados pelos directores do Jornal de Negócios e Record].
Produtora de Teresa Guilherme adquirida pela SIC
Segundo o Diário de Notícias, a SIC comprou uma fatia minoritária da produtora de Teresa Guilherme, passando esta a subdirectora de produção do canal de Pinto Balsemão. Hoje à tarde terá sido apresentada a estrutura da nova direcção de programas.
terça-feira, 11 de outubro de 2005
A referência do seu Abrupto ao meu post de ontem, sobre as capas de jornais do mesmo dia, fez saltar bastante as audiências deste I. C. Muito obrigado.
A 30 de Agosto do ano passado escrevia neste sítio um apontamento sobre o trabalho de Christine Geraghty (1997). Hoje, volto ao tema, pois ele me vai servir de apoio a aula próxima.
Logo de início, Geraghty esclarece preferir o plural audiências. E aponta o começo dos anos de 1980 como de mudança significativa nos trabalhos sobre audiências, caso dos textos de Charlotte Brundson. Talvez seja mais correcto falarmos em investigação sobre o modo de ver televisão (estudos sobre os efeitos da televisão sobre as crianças). Brundson debruçou-se sobre um programa específico (Crossroads), observando a forma como um programa se dirige aos públicos, caso de uma audiência feminina.
Geraghty elege a etnografia como metodologia adequada à análise da(s) audiência(s), pelo que define aquela adaptada a esta. O que é a etnografia? Um inquérito? Entrevistas? Observação participante? Ela entende ser a etnografia do domínio da descrição e análise empírica das culturas, baseada em termos de local (ou conjunto) seleccionado. Mas também releva a etnografia enquanto estudo do modo como as pessoas vivem uma cultura, traçando as diferenças entre os telespectadores, modos de ver televisão, significados e prazeres produzidos. Finalmente, a etnografia é um modo de percepcionar e experimentar a vida num contexto diário.
Sob a designação comum audiências, têm surgido diferentes objectos de estudo, descrevendo Geraghty quatro: 1) texto [programa] específico, 2) tipo específico de telespectador, 3) contexto de visualização, 4) contexto tecnológico. Quando se estuda um tipo particular de programa, há que ter em conta se os espectadores são ou não fãs (caso de uma série de culto), o contexto de recepção (ver no lar é diferente de ver num café ou num ecrã gigante num espaço livre) e o contexto tecnológico (a televisão combina com outros media electrónicos, como a rádio e o leitor-gravador de vídeo ou DVD).
Leitura: Christine Geraghty (1997). "Audiences and «ethnography»: questions of practice". In Christine Geraghty e David Lusted (eds.) The television studies book. Londres, Nova Iorque, Sidney e Auckland: Arnold
Outro texto: Christine Geraghty (2003). Women and soap opera. A study of prime time soaps. Cambridge: Polity Press (nova edição)
segunda-feira, 10 de outubro de 2005
Escolhi quatro: dois de qualidade (Diário de Notícias, Público), um popular (Correio da Manhã) e um gratuito (Metro). Os elementos estatísticos que produzi sobre a disposição dos conteúdos são simples mas dão conta da importância atribuida pelos media impressos às eleições autárquicas de ontem.
Segundo a minha leitura, o título mais directo e objectivo é o do Correio da Manhã (Vitória do PSD), seguido do do Diário de Notícias, mas muito mais longo (Socialistas perdem à direita e à esquerda). Se o título do Metro tem a ver com as suas áreas de distribuição (Carmona ganha Lisboa, Rio repete no Porto), o do Público tem um recorte literário, cinematográfico e da moda (RosaChoque).
Enquanto o Correio da Manhã dedicou 48,4% do seu espaço total (30 em 62 páginas), o Público ocupou 48% (25 em 52 páginas), o Diário de Notícias 42,3% (22 em 52 páginas) e o Metro 25% (5 em 20 páginas).
Olhando mais em pormenor, o Correio da Manhã, que apenas começa o noticiário sobre as eleições na página 4, tem uma página com o editorial do director e dois mapas do país com as cores dos partidos vencedores em cada autarquia e cinco páginas com quadros e gráficos dos distritos e das regiões autónomas. O mesmo jornal tem uma página sobre a televisão - o que mostra a importância do meio audiovisual -, o mesmo acontecendo com o Público. Este jornal tem uma página com mapas de Portugal e nove com quadros sobre a situação eleitoral dos distritos. Além disso, há um editorial extenso do director, que termina com uma nota sobre a avaria dos computadores do STAPE (informações eleitorais), quando o governo tem falado em choque tecnológico. Curioso que a estrutura do editorial do director do Diário de Notícias é semelhante, com uma nota próxima sobre a mesma matéria. O Diário de Notícias tem sete páginas de quadros, menos agradáveis graficamente que os do Correio da Manhã e do Público.
Voltando às capas dos jornais, a imagem repetida em todas é a de Carmona Rodrigues, vencedor em Lisboa. Também a fotografia de Rui Rio, ganhador no Porto, aparece em três dos jornais (com igual dimensão ao presidente da capital no Correio da Manhã) [neste último exemplo, a selecção e tamanho poderão ter a ver com a procura de igual implantação do jornal nas duas cidades].
Trata-se de um prémio anual para jornalistas de imprensa e on-line sobre direitos humanos e democracia nos países em desenvolvimento. O prémio para 2005 contemplará jornalistas dos media locais em cinco regiões: 1) Europa (membros da UE, Estados da Europa central e de leste e Estados mediterrânicos), 2) África, 3) mundo Árabe, Irão e Israel, 4) Ásia e Pacífico, e 5) América Latina e Caraíbas.
Os jornalistas candidatos ao prémio terão escrito reportagens focadas nos direitos humanos e democracia nos países em desenvolvimento, publicadas entre 1 de Janeiro de 2004 e 31 de Agosto de 2005. A entrega de trabalhos a concurso pode ser feita até 31 deste mês. Cada vencedor recebe um troféu e um prémio pecuniário de acordo com a classificação: €5 mil (1º lugar), €2,5 mil (2º lugar), €1,5 mil (3º lugar). Complementarmente, o Grande Prémio (€5 mil) galardoará o melhor artigo.
O prémio Natali destaca a importância do direito de informação como pré-requisito para a liberdade de informação. Esta é, por seu turno, um pré-requisito para a democracia e para um desenvolvimento sustentável e equilibrado nas componentes social e económica.
Fontes: European Commission DG Development e European Journalism Centre.
No Reino Unido, a indústria de filmes tem um papel preponderante na economia em geral. Em 2004, contribuíu com cerca de £3,1 mil milhões para o PIB (Produto Interno Bruto), lê-se na newsletter do Obercom saída hoje (peça assinada por Vanda Calado). Desse total, houve dois mil milhões de libras em investimentos internos no cinema. No ano transacto, a indústria de filmes do Reino Unido empregou directamente 31 mil pessoas em 2004, indo até 97500 empregos no seu total.
Mas, e continuando a seguir a newsletter do Obercom, há um estudo (Oxford Economic Forecasting) que não garante a manutenção do sucesso da indústria de filmes do Reino Unido. Isto porque há uma forte concorrência internacional, além de que poderão surgir alterações ao regime fiscal naquele país com incidência nesta indústria cultural.
domingo, 9 de outubro de 2005
Nos primeiros nove meses de 2005, 55,1% dos internautas portugueses visitaram blogues, segundo o estudo Netpanel, da Marktest, divulgado sexta-feira.
Assim, 899 mil portugueses, de quatro e mais anos, visitaram sítios de blogues quando navegaram na internet em suas casas, entre Janeiro e Setembro de 2005. Foram vistas 81,5 milhões de páginas de blogues, a que corresponde perto de 1,2 milhões de horas. Ainda segundo o mesmo estudo, o ano de 2005 tem sido mais atractivo que o anterior. No período observado, o número de utilizadores únicos de blogues já ultrapassou o valor observado em todo o ano passado (726 mil internautas).
Portugal - 1) D'ZRT (D'ZRT), 2) Humanos (Humanos), 3) Adriana Calcanhoto (Adriana Partimpim), 4) Coldplay (X & Y), 5) Il Divo (Il Divo).
Estados Unidos - 1) Disturbed (Ten thousand fists), 2) Bon Jovi (Have a nice day), 3) Kanie West (Late registration).
Reino Unido - 1) Katie Melua (Piece by piece), 2) David Gray (Life in slow motion), 3) James Blunt (Back to Bedlam).
Fonte: Público,6 de Outubro
Dito de outro modo: "as estratégias formais de responsabilidade social das empresas [...] implica[m] a inclusão voluntária de aspectos sociais e ambientais nas respectivas operações e nas suas relações com as partes interessadas, reconhecendo que o comportamento empresarial responsável pode servir de base ao sucesso empresarial" (2005: 31). A RSE "é voluntária, implica a integração de preocupações sócio-ambientais na gestão das empresas e traduz-se em todo e qualquer contributo para a melhoria das condições de vida da sociedade" (2005: 205). O livro estuda a importância da SA 8000 (social accountability) e aponta para o guia orientativo sobre RSE (ISO 26000) a sair em 2008 (2005: 98).
Tese de licenciatura obtida em Relações Públicas no Instituto Superior da Maia (ISMAI), o livro As relações públicas na responsabilidade social das empresas trabalha um tema novo e aliciante, que, embora marginal ao eixo deste blogue, não posso deixar de destacar. A autora opera com áreas como a cultura empresarial, a imagem e identidade da empresa e a mudança e a aprendizagem (2005: 17). Analisa também em profundidade a identidade visual - elementos visuais, design de instalações e embalagem de produtos, factores intangíveis (valores e visão da empresa) e intangíveis (missão e objectivos) (Vau, 2005: 37-38).
Para além de uma sólida e actual bibliografia, o trabalho agora editado tem uma terceira parte com um estudo prático (inquérito e estudos de caso em agências de comunicação - Bairro Alto e Sair da Casca - e relações públicas - BP Portugal, Delta Cafés, IBM e Vodafone).
Leitura: Cláudia Vau (2005). As relações públicas na responsabilidade social das empresas. Lisboa: Comunicando, 243 páginas. Preço: €14,5 [agradeço a Pedro Garcia Rosado o envio de um exemplar].
Lançamento do livro: 18 de Outubro, 18:00, auditório da livraria FNAC, Centro Comercial Colombo
A 1 deste mês, coloquei um post sobre o fim do reality show da SIC, Senhora Dona Lady, feito a partir da leitura de vários jornais que ao assunto tinham dedicado bastante espaço.
Na sua coluna de provedor do leitor do Jornal de Notícias, Manuel Pinto retoma o tema a partir do meu texto, com o título Sobre a dignidade um título. É que eu julgara deslocado o termo dignidade surgido na peça do Jornal de Notícias, a aplicar ao fim do controverso programa.
Nota: agradeço o tratamento dado ao meu comentário e louvo a diligência feita pelo provedor e a resposta imediata da jornalista. Tudo ficou mais claro, quando se soube que a palavra dignidade partiu da boca do novo director de programas, o que também me parece espantoso, e a jornalista aproveitou. Não sou watchdog dos jornais ou jornalistas, mas gosto de ler os jornais e perceber as mensagens.
Além de que se deve atribuir de forma clara a autoria das coisas a quem pertence. Ainda ontem, na notícia saída no Público, a propósito da hipótese de Teresa Guilherme entrar na SIC através da sua produtora, Paulo Miguel Madeira, no segundo parágrafo da sua peça, começa com "A notícia, avançada ontem em vários jornais". Não seria mais correcto dizer "Como o Diário de Notícias publicou ontem"? Porquê o atraso sistemático do Público face ao que o Diário de Notícias publica? Será porque a redacção do Público não regista o actual entusiasmo da redacção do Diário de Notícias? Ou porque tem carências de jornalistas na área dos media? Apesar de gostar muito do que o Diário de Notícias está a fazer, entendo que o Público deve trabalhar para possuir uma secção forte dos media como já o teve. O leitor precisa de saber o que se passa na televisão, na rádio, na internet, em todas as indústrias culturais, e o Público tem tido deficiências nos meses mais recentes.
Nunca se vêem imagens de Alice, mas apenas a procura da menina. História baseada num caso verídico ocorrido na década passada, o desempenho de Nuno Lopes é notável. Como li numa das críticas ao filme, ele representa o lado auto-controlado da família, ao passo que Beatriz Batarda - cujo desempenho é menor do que eu julgara, a partir do que lera - faz o lado emotivo. Destaco a música minimal, mas muito bonita, de Bernardo Sassetti (marido de Beatriz Batarda).
Para além da história, o que se vê é a rotina diária pendular entre emprego e casa, nos subúrbios da grande cidade. Por vezes lento, às vezes quase exasperando pelo ruído de automóveis e outros veículos que circulam nas vias principais, o filme não é piegas - e podia sê-lo, dada a temática. A fotografia e a montagem são excelentes: basta recordar a sequência dos planos das gravações de câmaras instaladas nas estações de comboio. Ao lado do big brother a que associamos os registos, detecta-se outro lado: o do andar das pessoas quando as imagens achatam um pouco o seu movimento, como se fossem anãs ou pinguins.
A sala não tinha muita gente. Talvez porque as pessoas habituais do cinema português ainda estivessem a votar nas eleições autárquicas.
sábado, 8 de outubro de 2005
Arquivo de fotografias, download de jogos PC e SMS, chamadas de voz e videochamadas de borla. O novo lado do gratuito. Experimente espreitar em jogos (disponíveis por uma semana, o que significa que este link pode desaparecer um destes dias).
Ontem, passeei a máquina pela Av. de Roma e pela Praça de Londres. E fotografei estes mupis. Primeiro, a publicidade ao café: mais moderna no Delta (haverá mais anúncios?), mais clássica no Nicola. Mas ambos os anúncios são bonitos e só falta o cheiro do café, bebida mais fina que a cerveja, que tem inundado todos os sítios de publicidade.
Depois, vem o anúncio de abertura do Media Markt, em Sintra, na próxima semana. Mas traz um erro descomunal. O slogan é Ser parvo é perder a MAIOR ABERTURA. Há duas variações: um rapaz e uma rapariga. No anúncio desta, lê-se no fundo: "Eu é que não sou parvo" - o feminino é parva.
Do Diário de Notícias, a informação da pretensão de compra pela SIC da produtora de Teresa Guilherme. O novo director de programas, Francisco Penim, quer seguir as pisadas da Media Capital, que comprou a NBP para produção de conteúdos nacionais. O texto, assinado por Paula Brito, considera que a produção nacional tem sido um dos pontos fracos da estação (curiosamente, os primeiros anos da SIC haviam sido o contrário). Para a SIC têm trabalhado produtoras como Fremantle, SP Filmes, Comunicasom, Herman Zap, Valentim de Carvalho, Produções Fictícias e Teresa Guilherme Produções. A dona da produtora parece desejosa de voltar à SIC, lê-se na notícia. A concretizar-se o negócio, será que a SIC prescinde das outras produtoras?
Do Público, em serviço da agência AP, a notícia de que a chegada à BBC de vídeos amadores com qualidade, fotografias e outro material noticioso, enviado por cidadãos anónimos pelo correio electrónico após os atentados na capital inglesa, está a mudar a informação da televisão (itálico meu). Isto é, a emissora está a passar de produtora de notícias para facilitadora de notícias. Perguntas: isto será passageiro ou veio para ficar? E não há necessidade de um gatekeeper, de alguém que seleccione as notícias?
Do Expresso (revista "Única"), a informação de que os D'ZRT venderam já cem mil discos e somam dezenas de concertos ao vivo. Tudo bem organizado e embalado pelo marketing da TVI e do seu sucesso Morangos com açúcar. A revista traz ainda uma bem feita entrevista a Beatriz Batarda. Só um bocadinho da entrevista: "Fui para um bar de alterne no Porto onde estive dez dias a trabalhar [para fazer o papel de Carla, no filme Noite escura, de João Canijo, 2004], protegida pela dona, e por duas meninas, principalmente por uma na casa da qual dormia. Acompanhava-a, fazia a rotina dela. Ela era o meu objecto de estudo, e também entra no filme". De Beatriz Batarda recordo Peixe-lua (2000) e Quaresma (2003), do já desaparecido José Álvaro Morais, e, menos conseguido para mim, A costa dos murmúrios (2004), de Margarida Cardoso. Espero ver o seu Alice (2005), de Marco Martins, este fim-de-semana. Infelizmente, não consegui vê-la no teatro D. Maria II em Berenice (2005), de Jean Racine.
sexta-feira, 7 de outubro de 2005
A propósito de Nuno Galopim, lê-se num post recente do blogue Rádio Crítica que "ele é o astronauta que conduz a nave. Radialista já com um passado consideravel no éter (RDP Antena1; Antena2; Antena3; XFM; TSF) está desde a última primavera na RADAR (Lisboa, 97.8) com o programa Discos Voadores. A estação alternativa não tinha, até à data, programas de autor, exceptuando algumas rubricas e apontamentos de curta duração. Discos Voadores não foge à patine da estação que lhe serve de base, mas acrescenta-lhe substância. Música alternativa na maior parte da ementa, mas não só. Novas edições, algumas analogias, adendas informativas, «ódios» de estimação; memórias a propósito e convidado(a)s em estúdio para conversar num «encontro imediato de terceiro grau», sempre à volta da música escolhida pelos próprios e, mais uma vez a crítica, num inevitável «fio de azeite».
Claro que foi um prazer ouvi-lo (creio que o auditório de alunos e alunas partilha a minha opinião). Das notas que tirei do que ele disse, aqui ficam algumas, a primeira das quais se prende com o tempo de juventude do jornalista do Diário de Notícias e grande animador do suplemento de 6ª fª DN:Música. Nessa época, não havia concorrência à música como se nota hoje, em que existem o telemóvel, a internet, os DVDs. A música envolvia os ouvintes num movimento - e era uma reacção à cultura dos mais velhos.
O jornalista, que falava a um público que se está a treinar (formar) em olhar mais clinicamente os públicos e as audiências de indústrias culturais, elencou algumas das características da música nos nossos dias. Primeiro, os discos, razão pela qual os profissionais fazem música. Ele defendeu o quanto fundamental é o registo gravado (disco como entidade física ou virtual, MP3). E alertou consciências: fazer download gratuito é o mesmo que os jovens estudantes e futuros jornalistas verem as suas peças escritas copiadas e apropriadas por terceiros. Em segundo lugar, a música quer dizer procura de novos talentos, a nova geração que faz discos. E, em terceiro, o concerto, fenómeno musical para além dos discos, a intersecção do músico com o público. Para Nuno Galopim, nada se compara com o concerto ao vivo, com a escuta.
Ora, com os anos, a música transformou-se num mercado de quantidade e de cópias, devido à facilidade de pirataria. O que tem levado a baixas substanciais na venda de CDs, cujo preço ronda os €17 [também devido ao valor do IVA, a 21%, diferente do do livro, a 5%]. Ele lembrou que a pirataria anda em 20 a 25% na Europa, mas 90% em países como a China e o Panamá. As culpas podem também atribuir-se à indústria discográfica, que tem praticado preços elevados. Desde há muito tempo, os discos contêm uma ou duas canções de interesse, mas o resto é uma "salada", o que torna a aquisição de um CD um investimento elevado. Além disso, a indústria habitou-se a ganhar com a edição de discos antigos (do tempo do vinil), com som remasterizado, sem caixa, com caixa e livro, isto desde 190, quando o CD se implantou. E não se importando com os direitos de autor, caso de edições feitas num país e vendidas noutros países.
Para o jornalista, a música precisa de ser pensada de uma maneira profissional. Galopim defende a música enquanto indústria rentável (vê-se até pela procura do termo nos motores de pesquisa da internet). Isso passa pela definição de legislação: nos Estados Unidos, onde já entrou em vigor uma nova legislação, o volume de vendas on-line triplicou, ao passo que a União Europeia ainda anda à procura dela. No elencar de grandes questões, Nuno Galopim abordou o ensino da música na escola, que se resume quase ao ensino da flauta, e a má relação das estações de rádio e de televisão. Nos media impressos, para além dos suplementos do Diário de Notícias e do Público, há um jornal, o Blitz, a passar por uma nova fase. Para Janeiro, espera-se que o suplemento renovado de cultura do Expresso dedique mais espaço à música.
Na rádio, a música portuguesa passa somente na Antena 3, Radar e Oxigénio [música de qualidade dentro dos parâmetros estéticos do jornalista]. No restante espectro radiofónico, impera, por um lado, a memória, a nostalgia, e, por outro lado, uma programação para a faixa etária dos 15 aos 25 anos (mais disponíveis para ouvir música e ir aos concertos das bandas que constam nas playlists), mas sem ousar inovar na programação. Quanto à televisão, a RTP tem o Top mais, a SIC Notícias um mau magazine e a TVI "foge a sete pés" (tirando o fenómeno da novela Morangos com açúcar, os D'zrt).
Houve ainda tempo para falar do produto DN:Música mas não do seu programa da Radar. Nuno Galopim fez um pequeno historial da existência do suplemento do jornal, nascido em 1998 com o nome de DN Mais e que, para além da música, incluía cinema, DVDs, jogos vídeo e internet, o que nós, leitores, gostaríamos de ver recuperado. O suplemento visa dois públicos, o do Diário de Notícias e o que se interessa pelo fenómeno musical. Daí, o suplemento falar de discos novos e de gostos menos recentes. E sintetizou com uma história: a mãe que tem três filhas com gostos estéticos diferentes, uma punk, uma gótica e uma betinha. Um jornal tem de agradar, dentro de um certo equílíbrio, públicos diferentes. E em fazer pedagogia, saber explicar porque gosta de uma banda ou de um disco, e não ir na corrente ou na agenda dos concertos. Explicou ainda como organiza o suplemento: as entrevistas, as resenhas, os editoriais, a análise das indústrias culturais [reprodução parcial da página 54 do suplemento de hoje].
Nuno Galopim teve também uns minutos para falar no jornal que ia sair hoje, sobre a new wave, um bom trabalho como ele e os seus colegas nos habituaram a ler. E mais uns minutos para responder a perguntas do auditório.
quinta-feira, 6 de outubro de 2005
Ontem, escrevi sobre as velhas lousas de ardósia. Hoje, opto por salientar o blogue Lousa Digital (de que já fiz aqui referência, e do qual tenho um link na coluna ao lado, nos meus blogues internacionais favoritos).
Há, ali, uma reflexão que parte do analógico - se quisermos, a lousa de ardósia - para o digital (a lousa do nosso tempo). A sua autora, Sônia Bertocchi, professora universitária na área do português, a partir de S. Paulo (Brasil), escreve com muito cuidado pedagógico e um sentido de harmonia estética que dá gosto de ler. Além disso, os seus posts, acompanhados geralmente por uma imagem, têm o espaço ideal - nunca ultrapassam a dimensão do ecrã, o que possibilita uma leitura completa.
Retiro do seu blogue uma reflexão recente (20 de Setembro): "A eletricidade (1873) passou a ser utilizada por 50 milhões de usuários no mundo apenas depois de 46 anos de existência. O automóvel foi criado em 1886 e somente 35 anos depois chegou a essa marca. O telefone (1876), idem: foram mais de três décadas para se disseminar. O rádio (1906), 22. A televisão (1926), 26. O forno de microondas (1953), 30. O microcomputador (1975), 16 e o celular (1983), 13 anos. A Internet alcançou essa marca em apenas quatro anos, entre 1995 e 1999, em seu período mais comercial. Em março de 2002, já éramos 561 milhões de pessoas plugadas à rede mundial de computadores. De acordo com cálculos do Instituto do Futuro, Califórnia (EUA), uma inovação tecnológica leva, em média, 30 anos para ser realmente absorvida pela sociedade. Será? Aguardamos comentários" [itálico meu].
Obrigado pelo seu blogue, Sônia. E parabéns!
[continuação da mensagem de 28 de Agosto]
Investimentos
Para o arranque de uma actividade, eles são maiores quando se passa da imprensa para a televisão. A auto-edição na internet veio reduzir os custos, assim como ocorre com a rádio na internet. Mas isto não representa garantia de visibilidade.
Desintermediação
Como nos casos do cinema digital, da indústria discográfica, o comércio, de que se destaca a Amazon. Isto pode reduzir patamares na cadeia de valor, logo a oferta, mas há sempre novas ideias que alcançam mais rapidamente o mercado.
[a desenvolver a ideia de catálogo (filmes) e colecção de produtos (jornais)].
Metáforas
Usar, para além da metáfora da geografia (geografias variáveis – produção, segmentação de consumos), a metáfora da geologia (camadas, espessuras, movimentos de encaixe e reencaixe).
A “promessa” (o ideal) de cada novo meio, com mais informação, mais conhecimento, mais igualdade, mais oportunidades (a abundância em Anthony Smith). Aconteceu com a rádio e depois com a televisão. Ressurgiu com a internet (de 2002-2003 até hoje, passou-se para os blogues). Talvez seja a marca do meu pessimismo.
Metáfora da ilha de trabalho
O jornalista produtor de conteúdos não tem um espaço físico definido – o computador que usa é wireless, em qualquer ponto do globo. Quando, na redacção, ocupa o computador disponível – mais outra ideia da geografia variável – quebrando elos de solidariedade, equipa de trabalho. Mas, ao mesmo tempo, este individualismo faz-se acompanhar pela necessidade do trabalho em grupo. Traduzível pela necessidade de uma nova ética, de novos valores. As redacções são espaço de produção colectiva; as novas redacções fomentam – pela sua virtualidade – o diferente, o diverso, o individualismo. E as pequenas equipas podem fazer trabalho mais complexo, porque polivalentes e por poderem ter acesso a mais informação. Há, assim, um movimento contraditório – menor espacialidade (física), maior diversidade.
Metáforas do espaço e do tempo e tomada de poder
Como evoluíram os media (telégrafo, telefone, redes informáticas)? Os usos iniciais podem não coincidir com os usos dominantes posteriores. Assim, as profissões podem evoluir num sentido não previsto, com relações de força distintas (tipógrafo versus jornalista; jornalista digital versus jornalista tradicional). As gerações que tomam o poder. O jornalista digital/produtor de conteúdos vai assumir o poder no final da actual década. Em 2010, 15 anos de digitalização (nas telecomunicações, começou cerca de 1985) significam maturidade, criação de redes/cadeia de valor (publicidade, produção, recepção). Além disso, os profissionais com 15 anos de actividade estão a atingir os 35-40 anos de idade, o que significa a tomada do poder decisório nas empresas e nas universidades.