terça-feira, 24 de janeiro de 2006

LANÇAMENTO DE LIVROS (I)

No próximo dia 2 de Fevereiro, pelas 19:30, na Cinemateca Nacional (Rua Barata Salgueiro, 39, em Lisboa), será lançado o livro de Jorge Leitão Barros, Dicionário do cinema português 1989-2003, editado pela Caminho. A apresentação da obra compete a João Brites.

jorgeleitaobarros.jpg

No mesmo local e dia, mas à noite, o lançamento da obra é complementado pela exibição do filme de João César Monteiro Vai-e-vem.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

REPOUSO

Por questões de ordem pessoal [hardware do blogueiro], o Indústrias Culturais estará sem mensagens e postais durante cerca de uma semana.
  • CICLO DE SEMINÁRIOS NA UNIVERSIDADE CATÓLICA

    Dentro do mestrado de Ciências da Comunicação daquela universidade, vão decorrer vários seminários (onze no todo) ao longo do segundo semestre lectivo, abertos ao público. O primeiro, com o professor José Miguel Sardica, versará o tema "Acordar" o país "a berros": a função sócio-política da imprensa no segundo liberalismo português (dia 25 deste mês, às 18:30, Sala de Expansão Missionária, edifício da Biblioteca).

    O segundo, a 9 de Fevereiro (também às 18:30), contará com a presença de Jorge Mouzinho de Carvalho (mestre em Comunicação), com o tema A transformação da linguagem cinematográfica e as TIC.

aguasfurtadas

A aguasfurtadas é uma revista de literatura, música e artes visuais, editada pelo Núcleo de Jornalismo Académico do Porto e coordenada por Rui Manuel Amaral (também co-autor do blogue Dias Felizes) e Luísa Marinho.

Agora, saíu o número 8, incluindo "poemas de Affonso Romano de Sant'Anna (um dos grandes poetas brasileiros vivos), Margarida Ferra e João Luís Barreto Guimarães [e] também uma tradução inédita de The Book of Ahania, de William Blake, da responsabilidade de Manuel Portela, e as primeiras traduções para português da poeta iraniana Forugh Farrokhzad e do poeta de língua ladina Moshe Ha-Elion, contos de Paulinho Assunção, Valério Romão, António Tavares Lopes e a estreia surpreendente de um jovem promissor: Lourenço Bray". Segundo o comunicado que recebi, a publicação insere ainda uma peça de teatro inédita de Regina Guimarães e Saguenail e um extraordinário ensaio de Jorge Mantas sobre Marcel Proust".

Pedidos directos da revista aguasfurtadas para jup@jup.pt ou Rua Miguel Bombarda, 187, 4050-381 Porto.

  • Prometo comentar com mais detalhe a revista aguasfurtadas quando tiver um exemplar em papel.
PRIMEIRA PÁGINA DO PÚBLICO

Há dias em que a capa do Público é um mimo, caso da de hoje. Para além do tema da seca como destaque, o tema que ocupa parte significativa dessa página - a notícia do investimento da Ikea em Portugal - tem um tratamento estético que quero aqui elogiar.

Embora não apareça identificado o designer - talvez porque as peças de mobiliário ali representadas façam parte do catálogo da marca -, há na edição de hoje um sentido de movimento e graciosidade mais natural nas capas de revistas. Isto porque os diários têm uma rotina de trabalho muito apertada em termos de tempo, que não lhes permite amadurecer opções estéticas. Pode-se olhar para a composição e pensar num puzzle ou numa colagem. Apesar de a imagem conter elementos reais, há um sentido de abstracção, como aquele que encontramos nos mapas das cidades ou nos percursos de autocarros ou metro ou, ainda, nos esquemas de equipamentos electrónicos.

Tenho aqui comentado que o grafismo do Público se tornou rapidamente clássico, se comparado com o do renovado Diário de Notícias. Mas estas páginas, apesar da estrutura mais antiga que suporta o jornal, dão uma vivacidade e um entusiasmo a quem o compra e lê. Já o novo layout do Diário de Notícias, passada a novidade dos primeiros dias, surge-me com algumas fragilidades. A falta de filetes, por exemplo. Henrique Cayate, certamente, não é apreciador do gestaltismo (forma), como Rudolf Arnheim preconizara na arte.

Ora, nós precisamos de ter linhas, apontadores, sequências, cortes. Um jornal de qualidade é lido por gente com hábitos de leitura enraizados, que olha o todo, a mancha da página no conjunto, antes de focar a notícia em particular. O leitor faz uma espécie de varrimento da página. Se olharmos o jornal de baixo para cima (ou de cima para baixo), a leitura é feita em termos de bloco. Ora, o editorial do dia confunde-se com as cartas de leitor ou com a coluna de opinião do colunista do dia. Por momentos, fica-se sem saber a quem pertence a escrita.
A NOIVA CADÁVER

Baseado num conto popular russo e com argumento e realização de Tim Burton, o filme conta a história de duas famílias, uma enriquecida pelo trabalho ligado à indústria conserveira e a outra vinda da alta nobreza mas empobrecida, que tencionam casar os seus filhos (Vítor van Dort e Vitória Everglot) para combinar o melhor de cada estatuto.

A uma imaginação delirante junta-se a tecnologia de ponta (com marionetas fotografadas fotograma a fotograma). Conforme se lê em Estreia.online [de onde também extrai a imagem], "algumas das cenas exigiam três ou quatro animadores por marioneta; que existiam 26 palcos de filmagem a funcionar em simultâneo, onde «contracenavam» centenas de marionetas".
BLOGUES E IMPACTO NO JORNALISMO ON-LINE E QUOTIDIANO

Christiani Rodrigues já tinha os filhos Amanda e Filipe (para além do marido Edson) e plantado árvores, sem contar com o magnífico blogue De Ponta Cabeça, em termos estéticos e de conteúdo; faltava-lhe agora escrever um texto.

Assim, o trabalho Perspectivas dos weblogs e seu impacto no jornalismo online e cotidiano, com que ela concluiu, no final de 2005, o grau de bacharelado em Comunicação na Escola de Comunicação e Artes (Rio de Janeiro (Brasil), é esse culminar.

O texto “mostra como o fenômeno tem impactado a mídia tradicional e salienta suas transformações e perspectivas. Fala do surgimento dos weblogs, a partir de seu boom, há aproximadamente dois anos atrás, até o momento atual em que foi pesquisado. Revela as mudanças, mesmo que incipientes, no impacto dos weblogs na cultura jornalística. Os atentados tornaram-se tão comuns ao Século XXI e as catástrofes naturais como a passagem do furacão Katrina e servem de amostra, revelando que os blogs não são modismo ou ferramenta efêmera. Parte-se da hipótese que estamos diante de uma nova concepção de comunicação, podendo ser individual ou não, repleta de potencialidades” [mantive o português original do texto].

Das suas conclusões, extraio o seguinte: “De início eram ensaios tímidos do dia a dia de adolescentes, diários íntimos, poesias, narcisismos. No entanto, em pouco tempo, trouxeram a descoberta do livre direito de comunicação, disponível e ao mesmo tempo ao alcance de qualquer pessoa. O chamariz desse sistema talvez possa ser ao uso descomplicado de suas ferramentas oferecidas como grande diferencial que o sistema tem. Nenhuma outra mídia ofereceu tanto espaço e visibilidade na internet e os weblogs surgiram como passaporte para esse novo mundo”.

Christiani Rodrigues nota ainda que, “através da observação da influência e da importância que os blogs tiveram na informação e na agenda de discussões públicas sobre a guerra, política brasileira e na cobertura de atentados e catástrofes”, se pode antever sua importância e transformação sobre o jornalismo.

Parabéns, Christiani. Desejo-lhe muito sucesso.
COMO PERSONALIZAR UM BLOGUE

Boas sugestões na mensagem de ontem do blogue Engrenagem, de João Pedro Pereira.
LEITURA DOS JORNAIS DE HOJE

1) Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) nomeada em 2 de Fevereiro. Já são conhecidos quatro de cinco nomes: Estrela Serrano, Elísio de Oliveira, Rui Assis Ferreira e Luís Gonçalves da Silva. A renovação das licenças da SIC e da TVI estará entre os próximos trabalhos da ERC.

2) Cinquenta anos da Fundação Calouste Gulbenkian. Do programa de comemorações, destaco a edição de livros (sobre a Fundação), um ciclo de cinema (50 dos melhores filmes do cinema mundial), conferências e prémios (para instituições e personalidades portuguesas).
NOVO LIVRO DE FERNANDO CORREIA

Jornalismo, grupos económicos e democracia, em edição da Caminho, é o novo livro de Fernando Correia, professor universitário e jornalista.

Do índice, destaco os seguintes elementos: realidade complexa dos media nos dias de hoje, concentração da propriedade, homogeneidade e distinções nos jornalistas, diversidade dos media, organização da redacção e estrutura dos noticiários, pluralismo e democracia, critérios jornalísticos, novas tecnologias, identidade profissional, deontologia, auto-regulação, e ensino e investigação.

Relevo ainda o anexo, onde o autor elabora uma cronologia do ensino e investigação do jornalismo em Portugal. Nesta cronologia, um conjunto de páginas imprescindíveis para se percepcionar o modo de evolução do tema no nosso país, lê-se: "É evidente que a evolução do ensino e da investigação é inseparável dos contextos político, económico, social, tecnológico, cultural e também propriamente mediático que lhe serviu de pano de fundo, e fora dos quais não pode ser integralmente compreendida" (p. 134).

Nota: agradeço ao autor o envio de um exemplar, o qual me permitiu fazer esta pequena nota. Com muita probabilidade, voltarei ao seu trabalho após ler as 156 páginas que constituem o volume.
CONTRA A INTERPRETAÇÃO

Os textos incluidos no livro foram escritos por Susan Sontag nos anos 1960. Na revisitação à obra, trinta anos depois, escreveria ela: "Tenho consciência de que Contra a interpretação é considerado como o texto quintessencial da era agora mítica conhecida como «os anos 60» (p. 353).

A autora chegara a Nova Iorque no começo dessa década [ela nascera em Nova Iorque em 1933, mas crescera em Tucson, no estado do Arizona, e estudara no secundário em Los Angeles, vindo a falecer em 2004], com vontade de se realizar como escritora, depois de uma "longa aprendizagem universitária (Berkeley, Chicago, Harvard), como Paris, onde começara a passar muitos Verões, com idas diárias à Cinémathèque [...]. Eram, Nova Iorque e Paris, exactamente como as tinha imaginado - cheias de descobertas, inspirações, do sentido da possibilidade" (p. 354).

Segundo Sontag esse era um tempo de ousadia, de optimismo, de desdém pelo comércio, começo do movimento contra a guerra do Vietname, como nos revela nas últimas páginas, de recuperação dessas actividades iniciáticas. Retenho mais duas ideias contidas das suas memórias: 1) a revelação do cinema ("sentia-me particularmente marcada pelos filmes de Godard e de Bresson. Escrevi mais sobre cinema do que sobre literatura"), 2) as polaridades (alta cultura/baixa cultura, forma/conteúdo, intelecto/sentimento).

É isso que se encontra em textos, aqui reunidos, como Sobre o estilo (pp. 33-61), Uma cultura e a nova sensibilidade (pp. 337-350) e Uma nota acerca de romances e filmes (pp. 283-287) [imagem retirada do sítio Susan Sontag] .

No primeiro, ela fala da pretensa distinção entre cultura literária-artística e cultura científica, a primeira vista como cultura geral e a segunda dedicada a especialistas, aquela aspirando à interiorização e absorção e esta a acumulação e exteriorização. Passando por T. S. Eliot e C. P. Snow, Sontag salienta a linguagem especializada das artes, como a pintura de Mark Rothko e Frank Stella e a dança de Merce Cunningham, com a necessidade de uma educação da sensibilidade, "cujas dificuldades e demorada aprendizagem se podem comparar pelo menos às dificuldades de aprender física ou engenharia" (p. 339).

A autora explica de outro modo no texto Sobre o estilo, entendendo que os estilos já não evoluem lenta e gradualmente mas de modo rápido, sem "deixarem ao público tempo de respiração para se preparar" (p. 59). Para ela, uma obra de arte é perceptível quando se respeita o princípio da variedade e da redundância; senão, as "obras estão condenadas a parecer aborrecidas, feias ou confusas" (p. 60).

Já em Uma nota acerca de romances e filmes, Sontag prefere enunciar as semelhanças e diferenças entre literatura e cinema, as suas grandes paixões estéticas. Depois de dizer que literatura e cinema nos oferecem uma visão sob o controlo do autor ("A câmara é um ditador do absoluto. Mostra-nos um rosto quando devemos ver um rosto, e nada mais") ou que existem correntes em cinema como em literatura (realismo, poesia), procura superar a relação existente entre o literário e visual, mas aceita a distinção entre análise e descrição ou exposição. Exemplos do primeiro tipo seriam os filmes de Bergman, Fellini e Visconti enquanto cinema psicológico, "que trata da revelação da motivação das personagens", ao passo que o segundo tipo de cinema, anti-psicológico e que trata "da transferência entre sentimento e coisas" seria o produzido por cineastas como Antonioni, Godard e Bresson.

Claro que os anos 1960 estão já esquecidos, ou melhor, como escreve a autora americana: "o espírito de dissidência [foi] sufocado, e transformado em intenso objecto de nostalgia. Os valores do consumismo capitalista cada vez mais triunfantes promovem [...] as fusões culturais" (p. 358). E termina assim: "Penso que não é errado ler, ou reler, hoje Contra a interpretação como um documento influente e pioneiro de uma época que já passou. [...] Os juízos de gosto expressos nestes artigos poderão ter prevalecido. Os valores que lhes estão subjacentes, não".

Leitura (intermitente): Susan Sontag (2004). Contra a interpretação e outros ensaios. Lisboa: Gótica

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

UM NOVO LIVRO DE RUI MARQUES



Do convite recebido, lê-se: "A Porto Editora, a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, Joaquim Fidalgo e Manuel Pinto, coordenadores da Colecção Comunicação, têm o prazer de convidar V. Exa. para a sessão de lançamento do livro Timor-Leste: O Agendamento Mediático, da autoria de Rui Marques, que se realizará no próximo dia 31 de Janeiro de 2006, pelas 18:00, no 2.° piso da Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. O livro será apresentado por Diogo Pires Aurélio e Adelino Gomes".

Rui Marques é licenciado em Medicina e mestre em Ciências da Comunicação (pela UCP) e actual ACIME (Alto-Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas). A Universidade Católica fica na Palma de Cima (por detrás do hospital Santa Maria), em Lisboa.

BIOGRAFIA DO FILME, DE MARK COUSINS

Trata-se de um livro escrito por um conceituado crítico de cinema, produtor e realizador, além de professor na Universidade de Stirling e na Edinburgh College of Art e colaborador de publicações como Sight and Sound, Prospect e The Times. O livro é editado pela Plátano e a tradução pertence a Artur Ramos e Cláudia Ramos.

Na introdução, Mark Cousins diz-nos: "Este livro conta-nos uma história: a da arte do cinema. Conta-nos a história de uma forma de arte que começou por ser fotográfica, fundamentalmente muda, foi depois um misterioso jogo de sombras e se transformou num negócio global digital que move milhares de milhões de dólares" (p. 7). O crítico e autor parte de uma estrutura apresentada numa obra de E. H. Gombrich (A história da arte), a da influência artística de uma geração sobre outra, de um artista sobre outro, no que chama de esquema seguido de correcção, a que Cousins altera para esquema e variações. As ideias sobre a forma, segundo Gombrich, "ziguezagueiam através de um médium, partindo ou distanciando-se daquilo que foram anteriormente" (p. 488).

O livro apresenta três grandes partes: 1) filme mudo, 2) filme sonoro, e 3) sistema digital. Destaca, por exemplo, o aparecimento de Hollywood, o star-system e os primeiros grandes realizadores, os géneros cinematográficos, o realismo, o ecrã largo, a influência do vídeo e do canal televisivo MTV e a digitalização. Os vários continentes, incluindo a África, estão contemplados na sua análise (escreve: "esta [obra] seria a história do cinema mundial e não apenas do cinema ocidental", p. 487). Claro que, numa análise de 507 páginas, nem tudo aparece. Como o caso do cinema português, em que não há uma só palavra. Talvez se o autor fosse francês ele escrevesse uma ou duas linhas sobre Manoel de Oliveira. Como ele previne ainda no começo: "Vão certamente descobrir que muitos dos vossos filmes favoritos não aparecem nesta Biografia" (p. 8).

Nas conclusões do livro, Cousins distingue dois tipos de história do cinema que anunciam que: 1) os melhores filmes são os que levam a montagem, a focagem, a composição, a iluminação e o trabalho de câmara até ao máximo; 2) os melhores filmes são os realistas, na linha defendida por André Bazin, ou aqueles como os de Dreyer, Ozu, Bresson e Antonioni, que ilustram a essência de um cinema metafísico ou abstracto [plano do filme La passion de Jeanne d'Arc (1928), do realizador dinamarquês Carl Theodor Dreyer, retirado do sítio El cinema de Dreyer, "pàgina realitzada per Carles Moreno, 2002"] .

No livro, é visível o olhar do cineasta: as lentes, os planos ou a influência exercida e recebida por cineastas e cinematografias acompanham constantemente a narrativa, sempre com a presença de imagens ilustrativas dos filmes mais marcantes. A narrativa dos filmes é, por vezes, prejudicada pelo número muito grande de obras referenciadas, muitas das quais se reduzem a uma ficha de leitura conquanto haja uma interligação entre elas, a nível de histórias, planos, fotógrafos ou influências. O filme noir, o western ou o samurai, o romantismo fechado dos anos 1940 e os novos temas como juventude, racismo ou sexualidade nas décadas de 1950 e 1960, ou a psicologização das obras, marcam as páginas deste livro que, quando o comprei, pensava ler aos bocadinhos mas acabei por devorar em escassos dias (deixando para trás outras tarefas talvez mais urgentes).

Deixo só uma parcela do texto:

"No ano seguinte [1955], a complexa cultura cinematográfica francesa assiste à chegada da modelo e bailarina de ballet de vinte e dois anos, Brigitte Bardot, em Et Dieu créa la femme/E Deus criou a mulher (Roger Vadim, França, 1956) (Foto 195). Ela foi símbolo sexual e de juventude no cinema e diz-se que terá sido, com o seu luxuriante cabelo e a recusa de se vestir como uma parisiense de classe média, mais importante em termos comerciais para a França do que os automóveis Renault" (pp. 263-264).



Leitura: Mark Cousins (2005). Biografia do filme. Lisboa: Plátano Editora. 507 páginas, preço: € 38,85.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

SOBRE O FILME DE JOÃO PEDRO RODRIGUES

De Odete, o novo filme de João Pedro Rodrigues, lia-se no Público de 12 de Janeiro que a entrada no circuito comercial francês mereceu crítica elogiosa. Retiro alguns elementos do texto assinado por Ana Navarro Pedro: "conjuga pintura melodramática dos sentimentos e estruturação de um dispositivo abstracto" (Le Monde); "Grande história de amor mórbida assediada pela sombra hitchcokiana de Vertigo" (Libération); "Elementos almodovarianos coexistem com uma certa frieza bressoniana, o cineasta tentando compor um universo simultaneamente melodramático e cerebral" (Libération).

No blogue sound+vision, João Lopes (autor do blogue a par de Nuno Galopim) destaca: "de acordo com elementos divulgados pelo distribuidor português do filme (Lusomundo), Odete já ultrapassou, entre nós, a barreira dos 10 mil espectadores — trata-se de um valor tanto mais interessante quanto estamos perante um lançamento de escala reduzida (10 salas), para mais num contexto de exibição dominado ainda pelos espectáculos típicos da quadra natalícia".

Parece haver uma unanimidade em torno do filme. Além disso, as críticas rodeiam a película com referências a outros cineastas, fazendo pensar mais em influências e menos em novidade, como se depreende de Cintra Ferreira, que escreveu no último Expresso sobre o filme: "As sombras de Douglas Sirk e Fassbinder pairam sobre este surpreendente filme de João Pedro Rodrigues, sobre uma jovem (magnífica Ana Cristina Oliveira) num percurso de «transformação» e «transfiguração» que a leva a assumir o papel do amante de um jovem homossexual".

Se nas críticas francesas, ou o que nos chegou depois do gatekeeping da jornalista, se fica a entender muito pouco da história, para além das citações cinéfilas, no texto do crítico do Expresso há um olhar para o fio da narrativa (ao filme, ele atribui 4 estrelas em 5, coisa que o seu colega V. Baptista Marques reduz para 1 em 5 estrelas, prova de que, afinal, não existe consenso).

O filme recordou-me Alice (2004), primeira longa-metragem de Marco Martins (e que eu reflecti aqui, em 9 de Outubro último), onde se conta a história de uma menina de três anos desaparecida, com os pais a procurarem-na. Aqui, há magníficos desempenhos de Nuno Lopes (Mário) e de Beatriz Batarda (Luísa). O grito lancinante desta ocupa todo o espaço no ecrã.

O que liga Alice e Odete, para além dos nomes femininos - o que significa um centrar em marcas de mulheres -, é a ausência de alguém: Alice apenas nomeada e de que conhecemos uma fotografia; Pedro, o jovem que morre no seu automóvel contra uma árvore, logo no começo da narrativa de Odete. As duas são elo de ligação nas histórias que envolvem homens (Mário em Alice; Rui em Odete). Ambos os filmes têm muitos planos nocturnos (mais Odete que Alice), o que significa filmes densos psicologicamente, histórias de subúrbios da grande cidade e de vidas tristes ou dramáticas.


    • O cinema pode constituir, enquanto indústria cultural, um sinal premonitório da realidade social, cultural e económica. Os filmes portugueses estreados vão do melancólico ao negro, desesperançados e violentos, de uma certa forma, pois nos obrigam a ficar encolhidos na cadeira enquanto assistimos à projecção das imagens e a sair apressadamente do cinema e com ar cabisbaixo, de culpa. É evidente que uma produção de seis a sete filmes por ano não nos dá uma tendência de sentido do cinema português, mas falta-nos alegria, comédia, confiança nas nossas capacidades e criatividade. Ou o mundo do cinema é um aparte da realidade social - e não passa de puro fingimento?
MEMÓRIA DO DNA



No começo de Dezembro último, na página assinada por Pedro Rolo Duarte, no DNA, escreveu-se sobre actrizes e marcas. O título era O fim dos modelos e o jornalista afirmava que, após o tempo das modelos, "cuja única qualidade era a imagem perfeita - ou exótica, ou sofisticada", nascia o período em que as actrizes representavam as marcas. Para ele, "Ver Demi Moore vender a Versace, Sofia Coppola associar-se a Marc Jacobs, Nicole Kidman a responder pela Ómega, Sharon Stone a vender portas de garagens, ou Uma Thurman alimentar o olhar misterioso para a marca Louis Vuitton, parece ser um caminho irreversível, que humaniza marcas, associa gente com profissão e vida e história a marcas aparentemente frias".

Parece que dei um passo atrás. Hoje, acordei com a nostalgia do DNA.

Nesse dia, a 9 de Dezembro, Rolo Duarte escreveu ainda sobre o filho, o António Maria: "O primeiro herói do meu filho não foi bem um Pokemon ou um actor dos Morangos com açúcar. Foi um músico [Rui Veloso]".

Só agora fiz as respectivas ligações. O António Maria foi o tema puxado à conversa por Sónia Morais Santos no último texto que ela escreveu no mesmo caderno.
CONGRESSO DE JORNALISMO NO PORTO



A Universidade Fernando Pessoa promove, no dia 23 de Fevereiro, as Jornadas Internacionais de Jornalismo - Horizontes do Jornalismo.

Das intenções destas jornadas, ressaltam as seguintes: 1)espaço para os professores e investigadores de instituições de ensino superior conveniadas com a Universidade Fernando Pessoa apresentarem e discutirem ideias e resultados de pesquisas, bem como para lançarem as bases de projectos comuns, 2) espaço para os estudantes de graduação e pós-graduação da UFP e das instituições conveniadas com a UFP tomarem contacto com a pesquisa avançada sobre jornalismo.

Informações e secretariado: professor Jorge Pedro Sousa (Centro de Estudos da Comunicação), Universidade Fernando Pessoa (cacifo 85), Praça 9 de Abril, 349, 4249-004 Porto ou telefone 225071300 (extensão 2210) ou e-mail j.p.sousa@mail.telepac.pt. Ou ainda contactar com drª Paula Dias, Gabinete de Comunicação e Imagem, Universidade Fernando Pessoa, telefone 225071355 ou e-mail pdias@ufp.pt.

domingo, 15 de janeiro de 2006

REVISTA COMUNICAÇÃO & CULTURA

Hoje é o último dia para entrega de textos para a revista Comunicação & Cultura, da Universidade Católica Portuguesa. O tema do primeiro número, a sair na Primavera, é A cor dos media. Ver o call for papers para o primeiro número ou contactar para comunicultura@fch.ucp.pt ou Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas, Revista Comunicação & Cultura, Palma de Cima, 1649-023 Lisboa.

  • UM BLOGUE COM INTERESSE

    Sílvia Vaz Guedes tem um blogue,
    Postais da província, muito interessante e agradável esteticamente. Espreitem o que ela escreve e organiza.
AUDIÊNCIAS NO DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Escreveu Nuno Azinheira, na edição de sexta-feira do Diário de Notícias: "Na linha de inovação iniciada na segunda-feira, no espaço que dedicamos diariamente à audimetria, com a inclusão da diferenciação dos blocos informativos da hora do almoço e do horário nobre, passaremos, à sexta-feira, a fazer as contas em outros períodos decisivos: manhã, fim de tarde e late-night. Esta é a forma de perceber como se comportam os públicos televisivos e entender as apostas dos programadores".

A fonte é a Marktest e a interpretação cabe ao jornalista. Um serviço muito útil, para se "entender a televisão de hoje".
A CULTURA CINEMATOGRÁFICA NO PÚBLICO, DE NOVO



Mais uma capa do jornal (anteontem) em que a cultura cinematográfica vem ao de cima. Neste caso, a referência ao filme agora estreado, Um passeio pela história, onde se fala dos últimos dias de vida do presidente francês François Mitterrand. Mas também alusão a outros destaques da revista "Y" saída nesse dia, como a banda musical portuguesa Pop dell'Arte.
A LER NOS JORNAIS DE HOJE

1) Chamadas gratuitas na internet em Portugal; uma breve história da telefonia pela internet (Público).
2) À reconquista de espectadores de cinema por parte Hollywood, este ano (Público).
3) Wikipédia como bem público e voluntário (Diário de Notícias).
4) Vila Nova de Gaia: a capital nortenha do hip-hop (Diário de Notícias).
AINDA CINTRA TORRES

Quando escrevi a mensagem anterior, e falei do acutilante Eduardo Cintra Torres enquanto crítico de televisão, ainda não lera a sua coluna de hoje (confesso que gostava mais de o ler à segunda-feira, como à sexta-feira me parecia melhor Bénard da Costa).

Cintra Torres começa por falar de Artur Ramos, nascido em 1926 e esta semana falecido, que, "Quando se tornou jovem realizador nos primórdios da RTP, reunia um currículo invejável: formação em filologia germânica e cinema, experiência no teatro em Portugal e na TV francesa. Para uma televisão no seu arranque, o currículo profissional de Artur Ramos era ideal: tinha a sabedoria do ao vivo, propiciada pelo teatro, e a da tecnologia audiovisual. Era isso a televisão no início: teatro e programas em directo". Logo depois, o texto de Torres explica: "Apesar de três gerações tecnológicas de gravação (o filme, o vídeo e o digital), o directo mantém-se ainda como uma das marcas identitárias da televisão".

O teatro na televisão morreu, conclui o articulista. Mas também a ópera, acrescento eu. "Nos anos 50, quando a televisão dava os primeiros passos como media de massas e não tinha ainda a sua própria identidade, o teatro era uma escolha natural. Tinha acontecido o mesmo com o cinema, que manteve uma teatralidade excessiva até quase aos anos 20, e com a rádio e suas adaptações e folhetins". Isto quer dizer, na minha interpretação do texto de Cintra Torres: um novo meio inova mas também se adapta a formatos dos media anteriores.

O último parágrafo do texto citado merece o nome que eu dei ao seu autor: acutilante. Nele lê-se: "Quem diz teatro, diz concertos. Por exemplo, a RTP não gravou em 50 anos um único concerto em palco ou estúdio de Helena Sá e Costa (1913-2006) [também falecida esta semana], personalidade marcante na vida cultural do Porto e do país durante dezenas de anos, principalmente como professora de piano. Fez um programa sobre ela, mas não teve tempo para gravar actuações".

Nem quero acreditar no que o crítico de televisão escreve. Afinal, o serviço público é um bem ainda mais frágil do que eu pensara. A memória que a televisão nos deixa é muito mais ténue que as gentes da cultura e das artes do país merecem. Além da elisão cultural e histórica, anote-se que os perfis para entrar na televisão são distintos, na actualidade. Ainda ontem, no Diário de Notícias, a propósito da nova co-apresentadora do "Programa da Manhã" da SIC, Vanessa Oliveira, lia-se o seu currículo: 24 anos, formada em Relações Públicas e Publicidade, começou a sua carreira em dois reality shows da TVI (Quinta das celebridades e 1ª Companhia) e fez uma pós-graduação em Apresentação em Televisão na Universidade Independente, "onde teve como professores Emídio Rangel e Júlia Pinheiro - como faz questão de frisar" (peça assinada por Marina Almeida).
A TRAGÉDIA TELEVISIVA, O NOVO LIVRO DE EDUARDO CINTRA TORRES

Eduardo Cintra Torres, professor universitário, escritor e acutilante crítico de televisão no Público, edita mais um livro. O título desta nova obra é A tragédia televisiva, com a chancela do Instituto de Ciências Sociais (Lisboa), a partir da tese de mestrado do autor. Ainda não comprei a obra, pois ainda não a vi nas livrarias; apenas folheei um exemplar (preço de capa: €23,90).

Lêem-se, no sítio do Instituto de Ciências Sociais, os seguintes comentários acerca do livro:

1) "Uma tese genuinamente original, que recorre a toda a literatura disponível desde os gregos antigos até às últimas teorias da Comunicação Social, para lidar com um fenómeno televisivo cada vez mais presente na nossa vida quotidiana" (Manuel Villaverde Cabral).

2) "A modernidade parece fazer-nos voltar teimosamente à antiguidade. A televisão faz-nos voltar à tragédia, agora transmitida pelo «directo», essa ficção do real instantâneo. É o mesmo? É e não é. A televisão recompôe com vigor o modus da tragédia, mas não a representa no espaço público da cidade, mas colada aos nossos olhos, colada à nossa casa. São estas semelhanças e diferenças que este livro analisa. Um estudo pioneiro e inovador do «discurso" televisivo» (José Pacheco Pereira).
CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO E PROCESSO DE BOLONHA

Anteontem, o Diário de Notícias, em peça de Elsa Costa e Silva, deu conta da insatisfação da SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação) quanto ao modo como foram feitas as designações para os cursos de ensino superior da área pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP).



Assim, segundo a SOPCOM (infelizmente, o seu sítio não dá conta do documento), a associação não está de acordo com a saida de Multimedia e Cinema das Ciências da Comunicação, agora áreas adstritas às Artes e Humanidades. A defesa passa por uma terminologia única de Ciências da Comunicação, com indicação de uma especialidade, que pode ir do jornalismo às artes digitais, lê-se na notícia acima referida. O blogue Jornalismo e Comunicação tem informação suplementar.
ESPECTÁCULOS EM LISBOA

Com menos dinheiro para publicidade que outras indústrias criativas, a informação de peças de teatro (e também bailado e música) faz-se muito em cartazes colocados em paredes de prédios em ruínas ou em paredes de estaleiros de obras. As imagens seguintes dão conta de vários espectáculos a decorrer em Lisboa.







sábado, 14 de janeiro de 2006

LEITURAS DOS JORNAIS

1) Edição dos livros Dicionário do cinema português, de Jorge Leitão Ramos (sobre a actividade entre 1989 e 2003) e Jornalismo, grupos económicos e democracia, de Fernando Correia, da Caminho ("Mil Folhas", Público de hoje).

2) "creio que hoje em dia ter uma banda já não significa só ter um grupo de amigos que tocam mas também ter um projecto estético. Qualquer banda, para existir, começa a ter que pensar que vai ter vídeos, qual é a estética que vai querer nesses vídeos, a estética que as coisas têm no site ou nos discos que fazem. Creio que hoje em dia as bandas já não se confinam somente a uma estética musical, têm que transpor isso para um terreno mais alargado" (João Peste, dos Pop Dell'Arte, "6ª", Diário de Notícias de ontem).

3) Curso de guionismo no Porto, organizado pela Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos, com o apoio do ICAM. Ministrado por Paulo Filipe Monteiro (Universidade Nova de Lisboa), o curso decorre em dois fins-de-semana, sendo o primeiro a 28 e 29 deste mês. Preço: €120. Inscrições até dia 17 para o email pfm@sapo.pt ("Actual", Expresso de hoje).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

O BLOGUE DE HILDA PORTELA

Com a devida autorização da autora do blogue Planeta Hilda, publico aqui uma imagem de boneca confeccionada pela própria Hilda Portela.

Confesso que os seus trabalhos - quando descobri o blogue - me entusiasmaram, dada a sensibilidade e elegância que ela coloca nas suas peças de materiais diversos: "o corpo é feito em tecido de linho ou de algodão, os cabelos em fio de seda, algodão ou lã e a roupa em materiais diversos como seda, algodão, feltro e outros".

Sem eu ter qualquer interesse comercial ou de outro tipo, dou as seguintes informações suplementares: a Hilda Portela aceita encomendas on-line, bastando enviar-lhe um e-mail. Cada boneca custa entre €100 e €150, conforme a complexidade do trabalho (a boneca que ilustra este postal custa/custava €150 e mede cerca de 50 centímetros de altura). A autora e artista pode fornecer as bonecas com uma base em madeira pintada para exposição (mais €15 e portes de correio para entrega).
A REVISTA DE SEXTA-FEIRA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Eduardo Prado Coelho escreveu na sua coluna de hoje do Público a tristeza do desaparecimento da revista DNa, como eu também o fiz aqui. Ele lembrou nomeadamente os textos de Pedro Rolo Duarte.

Na edição de hoje, o Diário de Notícias fez-se acompanhar da nova revista, a "6ª". Ao contrário do jornal em geral, a que me estou ainda a habituar em termos de design, gostei da revista. Primeiro, ela fez-me lembrar a revista de cultura do Sunday Times (não a actual, mas a que acabou há poucos meses). Depois, porque é dirigida por Nuno Galopim, que dá uma garantia de continuidade de qualidade deste tipo de publicações. Terceiro, porque se propõe falar de cultura, livros, música, cinema, as várias indústrias culturais.

A saudar e a ler.
CONGRESSO INTERNACIONAL DE CONTO

Segundo Margarida Vale de Gato (contacto: errata@sapo.pt), vai realizar-se, entre 21 e 25 de Junho próximo, a 9ª edição da International Conference of the Short Story in English, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Segundo a informação que recebi, "Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados".

A organização conta com as presenças de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de Alexandre Andrade, Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues. Presentes estarão os críticos Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer e Rolf Lunden. Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.

A lista completa de autores e mais informações pode ser consultada em short story, podendo aí fazer inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro).
CAMPANHAS POLÍTICAS E PODER DOS ASSESSORES

Saiu recentemente uma obra de Vítor Gonçalves, Nos bastidores do jogo político. O poder dos assessores (MinervaCoimbra, 2005). Trata-se de um livro útil que ajuda a compreender - ainda que parcelarmente - a actual campanha eleitoral para a presidência da República [imagem do autor retirada da badana do livro].

O texto de Vítor Gonçalves, editor de política nacional da RTP, produzido inicialmente como dissertação de mestrado no ISCSP, procura saber o papel desempenhado pelos assessores de imprensa de um Governo, isto é, as "tarefas ou funções predominantes, como se relacionam com o partido que sustenta o governo, com o político a quem assessoriam e com os jornalistas, quais as linhas mestras da sua actuação enquanto assessores de imprensa" (p. 27). No caso, os assessores dos governos de António Guterres (1995-2002), pelo que entrevistou 56 indivíduos (um outro não respondeu ao inquérito).

Os assessores possuem uma relativa juventude (43% têm entre 35 e 44 anos, 36% entre 25 e 34 anos), a maioria são homens (61%), têm como habilitações literárias indivíduos com licenciatura (68%) ou frequência universitária (23%), vindos de profissões como jornalista (66%) ou assessores e consultores de comunicação (30%) (pp. 129-131). Diz o autor que os políticos escolhem mais os jornalistas por razões como: 1) conhecimento profundo que estes têm das redacções, 2) motivações dos jornalistas e suas rotinas profissionais, 3) agenda de contactos, nomeadamente os contactos de outros jornalistas. Considera ainda na mesma página que "Essa informação é decisiva para a elaboração das agendas públicas dos políticos e das suas iniciativas mais importantes, aquelas que previsivelmente suscitam mais interesse dos jornalistas" (p. 132).

Há uma constatação interessante feita no livro: a admiração pelo político que o convidou figura como razão muito forte para aceitação do lugar de assessor de imprensa (60,7%) (p. 139). Já a ligação do assessor ao partido do político que o convidou é irrelevante. Vítor Gonçalves entende que tal distanciamento se deve ao facto da maioria dos assessores ser oriunda do jornalismo, onde tal prática em relação aos partidos significa isenção. O dinheiro a ganhar na função parece não ser um factor relevante, com quase metade dos assessores a responderem nesse sentido.

Para comparação com o livro aqui referenciado, destaquem-se dois outros: 1) As presidências abertas de Mário Soares, de Estrela Serrano (MinervaCoimbra, 2002), que analisa a estratégia e o aparelho de comunicação do antigo presidente da República, e 2) A Agenda de Cavaco Silva, do mesmo Vítor Gonçalves (Oficina do Livro, 2005), que reconstitui os últimos cinco anos do percurso do antigo primeiro-ministro, através do que foi publicado nos meios de comunicação social. Tratam-se, afinal, de textos sobre dois dos principais candidatos à Presidência da República, acto cívico a decorrer no próximo dia 22.

Televisão e outros media

Trabalhando na televisão, é evidente o entusiasmo que ele dedica a este meio e o relaciona com a política, onde salienta a "civilização da imagem". Ele situa alguns americanos: se Bill Clinton construiu a sua imagem em torno de ideias como juventude, vigor e radicalismo, Jimmy Carter ganhou as eleições por ser um self-made-man e um pequeno empresário e Ronald Reagan como o bom rapaz, bonito e simpático mas firme e inflexível com os inimigos da liberdade (p. 71). Olhando para Portugal, António Guterres candidatou-se a primeiro-ministro em 1985 como "homem de diálogo" e em que "as pessoas não são números", em contraponto com a ideia de "arrogância" de Cavaco Silva, então no cargo (p. 72). Este mesmo registaria uma evolução significativa na sua imagem, tendo tido aulas com uma actriz, Glória de Matos, para melhorar a sua dicção.

E, aí, entram os assessores de imprensa, que "contactam com os opinion makers ou mesmo os jornalistas, para vincar os aspectos mais positivos da intervenção do seu líder como também para justificar comportamentos que se revelaram mais frágeis durante o debate, de modo a serem «desvalorizados» nas apreciações que, indubitavelmente, irão ser feitas" (p. 67). É que há uma tendência dos jornalistas para olharem, com frequência, para uma frase no discurso do candidato ou do líder, os soundbites ou pequenas frases (p. 59).

Mais voltado para os candidatos, Vítor Gonçalves mostra o modo como o líder ocupa o espaço mediático: a sua imagem torna-se o principal ou único elemento de cartazes, enquanto nos palcos do comício ele fica isolado (p. 76) e faz os seus principais discursos na televisão (p. 81). Contudo, os jornais e os outdoors também são imprescindíveis, como podemos ler e observar na paisagem urbana.

Assim, deixo imagens dos candidatos a presidente da República, como os captei em cartazes na cidade, por ordem alfabética: Aníbal Cavaco Silva, Francisco Louçã, Garcia Pereira, Jerónimo (de Sousa), Manuel Alegre e Mário Soares.








Leitura (em progresso): Vítor Gonçalves (2005). Nos bastidores do jogo político. O poder dos assessores. Coimbra: MinervaCoimbra, 197 páginas. Preço: €17.