sábado, 11 de agosto de 2007

HAUS DES RUNDFUNKS


A Casa da Rádio em Berlim foi um edifício pensado para o efeito (1929-1931). É lá que, desde 2003, funciona a Rundfunks Berlin-Brandenburg (RBB). Em Lisboa, após a legislação que instituíu a Emissora Nacional (1933), falou-se igualmente numa Casa da Rádio. Chegou mesmo a haver um projecto, mas nunca houve dinheiro para a sua concretização. O edifício inaugurado esta década para albergar a RTP - rádio e televisão públicas - é o que se pode melhor assemelhar a esse desejo antigo.

Obrigado ao Eduardo por, ao visitar a Haus des Rundfunks, em Berlim, não se esquecer do meu interesse pela rádio; daí o postal. Um forte abraço (igualmente estival) para ele.


Agora efabulemos. Imagine-se que o senhor Mustafa Karakus, cujo nome parece turco, mas eu não o conheço nem sei se ele tem tez morena ou, quiçá, bigode, indica-me o transporte mais fácil para ir da rua Behrenstrasse, perto da avenida das Tílias, para a rua Masurenallee, em Charlottenburg. Certamente me indica o autocarro 12 para a Sophie-Charlotte Platz, ou o metro que passa por lá. Não sei a distância até à Casa da Rádio, mas, para além da visita, talvez se consiga igualmente assistir a um concerto. Que tal ouvir Schumann, opus 129, e Brahms, sinfonia nº 4?

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

BERND BECHER


O Arte Photographica, um dos blogues convidados do jornal Público, pertence a Sérgio B. (Barreiro) Gomes, que se inspira "na ousadia empreendedora da revista A Arte Photographica (1884-1885), exemplo pioneiro da paixão pelos assuntos estéticos e técnicos da fotografia no Portugal de Oitocentos".

Hoje, Sérgio B. Gomes publica um texto naquele jornal de qualidade sobre a morte de Bernd Becher, o elemento masculino do casal Becher, que se dedicou, durante quase cinquenta anos, a fotografar depósitos de água, elevadores e torres de carvão, silos, altos fornos e outras estruturas da revolução industrial entretanto tornadas obsoletas (em
21 de Agosto de 2005, eu escrevera sobre o casal, a partir de uma exposição da colecção Joe Berardo no Centro Cultural de Belém - Construir/Desconstruir/Habitar).

Foi um trabalho de "obsessão apaixonada", escreve o jornalista. Tratou-se, continua ele, "de um meticuloso programa de documentação fotográfica, minimalista e conceptual", ou, de outro modo, "uma forma sistemática e tipológica de fazer arqueologia industrial".

Trata-se de um texto que aconselho a ler na totalidade (ver o blogue Arte Photographica).

WEB 3.0


O principal responsável do Google, Eric Schmidt, esteve recentemente no Fórum Digital de Seul. Ao ser-lhe pedido como definia a Web 3.0, começou por gracejar dizendo que a Web 2.0 é "uma palavra de marketing". Mais a sério, Schmidt disse que enquanto a Web 2.0 se baseia numa arquitectura a que chamou Ajax, a Web 3.0 terá "aplicações que funcionam interrelacionadas". As características serão: aplicações pequenas e podendo correr em qualquer aparelho (computador ou telemóvel), muito adaptadas ao cliente e distribuídas de modo "viral" (redes sociais, e-mail, etc).

Eis a resposta dada por Schmidt recolhida no YouTube, feita por
Seokchan (Channy) Yun (via Journalism.co.uk [mail@journalism.co.uk].

SOBRE O PLÁGIO


1. Uma das desvantagens da internet é o esquecimento. Procura-se um tema no Google, chega-se a um texto, faz-se a busca num outro e outro textos.

Guardam-se ficheiros sem indexar títulos, autores e datas. Unem-se, com corte e cola, como se fosse um ready-made à Marcel Duchamp. Perde-se a origem, dá-se começo a um novo texto. Mas as frases, os tempos dos verbos e os sujeitos estão lá, continuam a ter uma origem remota. Se a frase for citada de frase citada de frase original há duas, três ou mais cópias de fragmentos de textos. Um texto fabricado com origem na internet é como a conversa em torno de um tema ou acontecimento, num dia e em vários locais e com várias pessoas: a originalidade em cada um dos sítios é escassa. Mas é muita, simultaneamente, porque cada indivíduo olha o tema de um ângulo específico.

Uma frase, uma página, uma ideia – será que pertence(m) a um autor? Por isso, a acusação de plágio a alguém pode apanhá-lo de surpresa, perguntando: "mas copiei o quê? Há hipóteses de me redimir e voltar a escrever"? O juíz tem um espaço curto para a decisão. Porque a sua decisão, por justa que possa parecer, pode criar mais injustiças. A copiou uma vez e é punido, B já copiou algumas vezes mas nunca foi detectado. O juíz pode ser um moralista com pecados mais pesados. Mas a sociedade deu-lhe essa legitimidade.

2. O espelho na água e a sombra do sol no indivíduo ou no edifício parece o princípio da cópia. Não existe na realidade, mas parece um duplo. A cópia é o que é análogo, imitado, copiado. O pintor renascentista retomava temas, feitos por ele próprio, da escola a que pertencia ou porque recebia outra encomenda sobre a mesma matéria. Quantas vezes o compositor romântico pegou nas melodias populares e as adaptou às suas harmonias? Curioso, o que é analógico é mais facilmente copiado pelo digital, quando este pretende ser puro e distinto daquele. A criança aprende por imitação – às vezes agarra-se a uma frase e repete-a sem cessar, porque lhe descobre uma sonoridade. Na sociedade de massa, os consumos seguem comportamentos. Compramos uma marca porque está na moda e entramos num círculo pessoal se adquirimos essa marca.

A natureza copia-se permanentemente, em forma de ciclo; isto é, repete-se. Todos os dias, o Sol nasce. Todos os dias precisamos de nos alimentar. Um período escolar é a repetição de gestos, acções. O percurso de ida e volta casa-emprego aborrece-nos, em especial quando encontramos uma fila de trânsito. Já as conversas intermináveis que temos com amigos e familiares agradam-nos, mesmo que desponte uma incompreensão ou desarmonia.

O eco é um sinal que retorna porque embate numa superfície. O que no concerto rock é aumentado pela amplificação. Quando queremos que a nossa voz seja mais forte – ou atinja um ponto mais longínquo – juntamos as mãos em volta da boca, como se fosse um funil ou megafone. Na publicidade, usam-se a iluminação e os espelhos para adequar a luz actual, se se filma em exteriores. Quando atravessamos uma alameda, indo de automóvel, há uma harmonia de sons resultante do ruído do motor, da deslocação do automóvel e do eco nos troncos das árvores. O vento é um propagador do som: um foguete de festa, o levantar vôo de um avião, uma conversa, chegam-nos com mais pormenor se a direcção do vento for favorável. Estamos no domínio da transmissão e da sua recepção.

3. As tecnologias electrónicas de reprodução levaram tal prática da cópia mais longe. Com a digitalização, as cópias são gémeas, nada as distingue. A partilha de ficheiros é o estádio mais recente e puro desse ideal de cópia e de semelhança.

O trabalho científico ressente-se disso. Por um lado, as cópias permitem acesso, como lembrou Benjamin quando escreveu sobre a perda da aura com a reprodução técnica (na fotografia, no cinema). O quadro num museu inacessível passou a estar disponível no ecrã, com explicações, comentários e críticos. Por outro lado, a cópia elimina a origem. Como disse atrás, a procura na internet faz-nos esquecer as ligações, o começo. Muito menos nos preocupa a propriedade das ideias. Há uma espécie de democracia de acesso e direito a usar as ideias. Hoje, toda a gente pesquisa na internet. Como se isso desse o direito a utilizar a informação produzida por outro. Existe uma atitude de quase despeito se se chama a atenção para o erro de plagiar.

Encontra-se um lado defensável. Com o correr do tempo, uma ideia original é partilhada. O indivíduo dá um contributo, uma inovação, por exemplo; a sociedade convida o indivíduo a partilhar a sua ideia. Com os anos, os direitos de um autor cessam, o seu património passa para a sociedade. O que significa que o trabalho colocado na internet é universal e legalmente acessível por todos. Mas deve mencionar-se o ponto de partida. O link (a ligação) existe para isso. Não o cumprir, é desrespeitar, é tomar por sua a propriedade de alguém.

O indivíduo copia, mas também se copia. Caso de um músico de capacidades limitadas. Os acordes, as músicas que escreve, são em número reduzido – ele passa a vida a repetir-se. O mesmo acontece ao pequeno escritor. Claro que um burocrata faz o mesmo ao longo da vida, mas não se preocupa com isso. Acha-o natural, como a Terra à volta do Sol. A literatura dá-nos exemplos dessa rotina, desse vaivém quase sincronizado, como Steinbeck, como em O inverno do nosso descontentamento, em que o merceeiro passa pela rua a caminho do emprego sempre à mesma hora, como se estivesse cronometrizado. Ou igualmente com o filósofo Kant, de casa para a universidade, durante décadas seguidas. Ou ainda com o cinema de João César Monteiro, em Vaivém.

Uma ruptura estética perde o seu valor quando a sociedade em geral recupera as qualidades dessa ruptura e a integra nos valores dominantes. Estamos no domínio das formas. Uma autoestrada ou um aeroporto são do domínio do equilíbrio, do previsível, do plano. Os objectos que nela se deslocam ou poisam têm um comportamento similar, pois o contrário redunda em acidente.

4. Ora, com a internet, há outro espaço. Tornamo-nos demiurgos, criadores. Mesmo que o objecto que criamos não seja nosso. Como o ficheiro está ali à mão e não tem quem o reivindique, é como se fosse nosso. Possui o mesmo valor que o ar, está disponível. Não precisamos de pagar por ele. Mas pergunto – não precisamos mesmo de pagar pelo valor disponibilizado pela internet? Ou, então, o que copiamos já não tinha valor antes da cópia?

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

EMPRÉSTIMO PAGO NAS BIBLIOTECAS?


A Clara Assunção, do blogue A Biblioteca de Jacinto, tem tomado parte na discussão sobre empréstimo ou aluguer de obras das bibliotecas aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Eu próprio aludira ao assunto
aqui, mas ela merece ser lida, pois tem muito mais autoridade na matéria!

GRANDELLA


Francisco Grandella (1853-1934), nascido em Aveiras de Cima, no concelho da Azambuja, filho de médico, veio para Lisboa trabalhar no comércio ainda muito jovem. De marçano na rua dos Fanqueiros, estabelece-se por conta própria aos 27 anos na rua da Prata. A loja chamava-se Fazendas Baratas, onde aplicou o preço fixo e faz propaganda comercial.


Em 1881, no Rossio, abriria a Loja do Povo. Nove anos depois, e após ter sido obrigado a sair da Loja do Povo, adquiria um prédio onde construiria os Armazéns Grandella.

Acusado de contrabando para conseguir preços baixos nos produtos que vendia, Grandella aproveitou a ideia em termos publicitários, anunciando uma remessa seguinte do seguinte modo: "Chegaram mais fazendas de contrabando". Ele obtinha preços mais em conta porque dispensara intermediários, indo às fábricas com dinheiro na mão e obtendo descontos, para além de comprar saldos.

Grandella, que viajaria pela Europa, ficara impressionado com o Printemps de Paris. Em Lisboa, os Grandes Armazéns do Chiado (abertos em 1894) seriam os seus concorrentes. Grandella introduziu o anúncio comercial, a possibilidade de trocar ou reembolsar o dinheiro caso o cliente não gostasse do produto, a entrega ao domicílio e a publicação de catálogos com as colecções.

Os Grandes Armazéns democratizariam o comércio da moda e impuseram modelos de vestuário e um novo gosto. Do ponto de vista arquitectónico, os Armazéns Grandella prestariam tributo ao ferro, para além das escadarias imponentes e de inúmeras secções que se tornaram uma atracção em toda a Lisboa. Os Armazéns funcionavam em articulação com a confecção de malhas, manufacturas de fiação e tecelagem de algodão e lã e mobiliário em ferro, com fábricas em Alhandra e Benfica. Em Benfica, Grandella edificou uma vila composta por muitas casas destinadas aos operários.


Grandella tinha a instrução primária, muito importante então, além de ter aprendido francês. Tornar-se-ia activista no combate ao analfabetismo, edificando escolas primárias em vários locais (Aveiras, Benfica, Tagarro, Foz do Arelho). Aqui, funcionava o seu ideal republicano, a que juntara a adesão à maçonaria, visível nos símbolos arquitectónicos da escola de Benfica, actual Biblioteca-Museu República e Resistência. Grandella passara igualmente pela política, tendo sido vereador na câmara de Lisboa em 1908.


Leitura: João Mário Mascarenhas (org.) (1994). Grandella, o grande homem. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa [usei a edição de 2001]

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

EXPOSIÇÕES EM BARCELONA


Se fosse a Barcelona, não perdia estas exposições. Em especial Mujer, etcétera - Moda y mujer en las colecciones.

UTILIZADORES DOS SÍTIOS DA RÁDIO NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2007


A RFM online liderou tanto em utilizadores únicos como em páginas visitadas (newsletter da Marktest de ontem). No primeiro semestre de 2007, recebeu 350 mil visitantes diferentes, que consultaram quase 9 milhões de páginas. Em segundo lugar, ficou a Cidade FM online, com 293 mil utilizadores únicos e 7,3 milhões de páginas. O sítio cotonete.clix.pt foi o terceiro com mais visitantes, os mesmos 293 mil da Cidade.

Já em tempo despendido, a liderança foi da Cidade FM online, com 123 mil horas. A RFM online ficou em segundo, com 112 mil horas e a Rádio Comercial online em terceiro, com 102 mil horas.


terça-feira, 7 de agosto de 2007

CINEMA PORTUGUÊS


Saiu agora, com a chancela da Campo das Letras, o livro O cinema português através dos seus filmes, obra coordenada por Carolin Overhoff Ferreira.

Segundo a coordenadora, docente na Universidade Católica Portuguesa (Porto), o livro surge no "panorama de novos cursos universitários relacionados com o audiovisual e o cinema, e no contexto de um maior número de estudos mais aprofundados das diferentes épocas e vertentes do cinema nacional". No livro, analisam-se 23 filmes que "pudessem ser representativos e indicar as características mais importantes para cada época do cinema português".

O livro está estruturado em seis capítulos, assim apresentados: 1) anos 30 e 40 - a primeira e única indústria, 2) anos 50 - estagnação e neo-realismo, 3) anos 60 - um cinema novo, 4) anos 70 - após o 25 de Abril [de 1974], 5) anos 80 - entre a escola portuguesa e o cinema comercial, 6) anos 90 até à actualidade - cinema contemporâneo.

Colaboram no livro: Bárbara Barroso, Carolin Overhoff Ferreira, Fausto Cruchinho, Jorge Campos, Jorge Leitão Ramos, Jorge Seabra, José de Matos-Cruz, Lisa Shaw, Luís Reis Torgal, Malte Hagener, Maria do Rosário Leitão Lupi Bello, Martin Barnier, Oliver Vogt, Paulo Cunha, Paulo Filipe Monteiro, Paulo Jorge Granja, Randal Johnson e Ronald Balczuweit. Daniel Ribas participou em capítulo escrito por Carolin Overhoff Ferreira e na correcção de traduções e artigos de investigadores estrangeiros. Além de nomes mais conhecidos como Jorge Leitão Ramos (crítico de cinema), Luís Reis Torgal(docente universitário e coordenador do livro O cinema sob o olhar de Salazar), Paulo Filipe Monteiro (docente universitário) e José de Matos-Cruz (Cinemateca Portuguesa), há uma pleîade de jovens investigadores, alguns saídos do curso de Som e Imagem da UCP (Porto), como Bárbara Barroso e Daniel Ribas, o que mostra a importância daquela licenciatura.


O livro agora à venda nas livrarias pode ser acompanhado pela leitura do texto de João Mário Grilo (O cinema da não-ilusão), com um capítulo sobre a história do cinema português, que o realizador e professor dividiu em quatro períodos (começos - 1896-1930; cinema de actores - 1930-1950; cinema de autores - 1960-1990; cinema de produtores - 1990 em diante). Do mesmo João Mário Grilo saíu recentemente o título As lições do cinema. Manual de filmologia, guiões das 23 aulas que o autor dá na cadeira de Filmologia na licenciatura de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa.

De realçar que será lançado, possivelmente já em Setembro, um livro de Carlos Capucho sobre vinte e cinco anos de filmes no circuito comercial em Portugal (1974-1999), baseado na sua tese de doutoramento.

LIVRO CASTELHANO E PORTUGUÊS


Tengo Algo de Arbol/Tenho Qualquer Coisa De Árvore, edição em castelhano e em português da editora Intensidez, será apresentado este mês em Salamanca e depois em Évora em Setembro.

Silvia Zayas apresenta uma obra de autores contemporâneos representativos como Antonio Gamoneda, José Luis Puerto, Gaspar Moisés Gómez, Juan Carlos Mestre, Tomás Sanchez Santiago, Ildefonso Rodríguez, Victor M. Díez, Silvia Zayas, Aldo Z. Sanz, Eloisa Otero, Miguel Suárez, Rubén Mielgo e Jorge Pascual.

[Para saber mais, ver o sítio http://www.intensidez.com/]

OS JOVENS E AS NOTÍCIAS


Retiro a seguinte informação do relatório do Joan Shorenstein Center sobre imprensa, política e políticas públicas, dirigido pelo professor Thomas E. Patterson (Universidade de Harvard) e publicado o mês passado (pode ser lido em aqui).

O relatório, assente num inquérito nacional de 1800 entrevistas a adolescentes e adultos jovens e mais velhos, procurou saber os consumos de notícias diárias por parte dos jovens. A conclusão a que se chegou indica que os jovens lêem menos os jornais e obtêm mais informação através da televisão e da internet.

Algumas décadas atrás não havia grandes diferenças em termos de hábitos de notícias entre jovens e mais velhos, mas hoje os mais novos não fazem da leitura diária uma rotina. Se há analistas que indicam que os mais jovens dedicam menos tempo às notícias, outros consideram que a revolução digital os está a trazer de volta. Outros ainda indicam que a internet leva os jovens a muitas outras coisas que não as notícias. O desacordo estende-se à definição do que é notícia: será que o conceito desta inclui os programas de “infotainment” e os que se relacionam com estilos de vida, crime e celebridades?

Sabe-se bem que a leitura de jornais tem descido abruptamente nos anos mais recentes. O que ilustra que o jornal não faz parte dos hábitos do jovem americano. Enquanto 35% dos respondentes acima dos 30 anos lêem jornais todos os dias, apenas 16% dos respondentes com idades compreendidas entre os 18 e os 30 dizem ler notícias todos os dias e apenas 9% dos com idades compreendidas entre 12 e 17 anos. Isto é, metade dos adolescentes raramente lê jornais diários.

Por outro lado, os noticiários de televisão (nacional e regional) perderam audiências na década passada. Perto de 60% dos respondentes mais velhos indicam ver diariamente notícias na televisão, número que baixa para 30% nos adolescentes e jovens adultos. A rádio, que teve um renascimento nas décadas passadas, em parte devido ao tempo gasto na condução de automóveis, apresenta um terço de ouvintes de entre os respondentes. Mas a audição de notícias na rádio é mais baixa que na televisão. E a escuta radiofónica é uma actividade menos activa que a leitura do jornal ou o acompanhamento do noticiário televisivo.

Já a exposição às notícias na internet está a crescer. Um quinto dos respondentes disseram seguir as notícias através da internet numa base diária. Mas há diferenças quando se fala de grupos etários. Entre os mais velhos, 55% lêem as notícias na internet, número que baixa para 46% entre os jovens adultos e 32% entre os adolescentes.

O relatório, com 35 páginas, traz uma conclusão perdida no seu interior e que me parece justo salientar aqui. Não é tão importante saber se o jornal de papel vai desaparecer e a internet ocupar o seu território como saber se o consumo de notícias irá reduzir com as gerações mais novas, atraídas por outros interesses. É que conhecer as notícias significa melhor cidadania, traduzível em espírito crítico e melhor democracia. O texto não é tão explícito como estas minhas palavras mas apreende-se o sentido.

Utilizadores das notícias

Um em cinco de adultos mais velhos tem necessidade de informação dada por jornais, mas apenas um em doze jovens adultos tem a mesma necessidade. O quadro é levemente mais brilhante no caso da televisão: um em seis jovens adultos vê notícias na televisão, com igual proporção nos adolescentes. Ouvir notícias pela rádio significa uma audiência regular mais pequena que a televisão.

As notícias da rádio e da internet conseguem ter mais atenção que as dos jornais, mas mesmo nestes casos muitos adolescentes e adultos jovens evitam-nas. Dois em cinco jovens têm pouco interesse nas notícias locais e nacionais fornecidas pela televisão. Mas o que causa mais impacto saber é que os jovens americanos dedicam pouca atenção aos jornais, apesar dos outros media despertarem igualmente pouco interesse.

Um indicador procurado pelo inquérito foi saber se os respondentes se lembravam das notícias de topo do dia anterior. Quase metade não se recordava da principal história do dia anterior. E apenas raramente uma notícia atingia toda a população, como aconteceu com os acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. E o nível etário também conta: os mais velhos lembram-se mais da história do dia anterior (62%) que os mais novos (43%), com os adolescentes no fundo da tabela (10%). Os mais novos são ainda os que têm mais dificuldades em identificar o elemento factual de cada história.

Nos anos 40, havia uma espécie de sobreposição das audiências noticiosas. As pessoas interessavam-se pelas notícias e não pelo meio que as veiculava. A diferença residia em que os mais velhos viam mais noticiários televisivos que os mais novos. Os estudos dos anos 60 e 70 encontram o mesmo modelo mas com uma alteração. Passa a haver um peso maior da televisão do que da imprensa. Ver televisão é um modo mais desatento de seguir as histórias. Além de que as notícias chegam à hora do jantar. A televisão passaria a ser um ritual, que inclui as crianças. Quando as crianças acabam a escola, muitas adquirem hábitos próprios de ver televisão, afastando-se desse ritual. A capacidade de gerar interesse pelas notícias da televisão generalista acaba nos anos 80, com o crescimento da televisão por cabo. Os espectadores já não precisam de ver as notícias à espera que chegue o programa de entretenimento.

A internet veio alterar ainda mais os hábitos, ao criar hábitos diários individuais. Cada utilizador serve-se da internet de acordo com os seus interesses muito pessoais. E a internet não é particularmente poderosa na fomentação de hábitos de leitura das notícias. O utilizador da internet gasta menos tempo que o leitor de jornais ou o espectador de televisão na procura de notícias. Claro que a internet, com o uso de imagens e texto e a sua versatilidade, poderá determinar o regresso da leitura das notícias: é que fornece um meio de comunicação em dois sentidos, o que os media mais velhos eram incapazes de fazer.



[pequenos vídeos realizados aquando da apresentação, no ISCTE, do número 8 da revista Trajectos, com os conceituados jornalistas Diana Andringa e Adelino Gomes como comentadores, em 19 de Outubro de 2006]

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A ILUSTRAÇÃO EM JUAN MARTÍNEZ (II)


[texto a partir do livro de Juan Martínez]

Autores como Omar Calabrese falam da influência exercida sobre o sistema cultural contemporâneo por noções científicas como teorias da catástrofe, fractais, teorias da complexidade e caos. A arte contemporânea adquire uma dinâmica de cariz barroco, estabelecendo-se um paralelismo entre a situação presente e a pluralidade dos mundos do século XVII, como consequência dos descobrimentos geográficos, científicos e perceptivos.

O princípio essencial do método surrealista põe em crise o significado das coisas tal como aparecem ou como se entendem sob o critério do sentido comum. O surrealismo atende a realidades como criações da mente na ausência de actividade consciente, situações paradoxais, alucinação e loucura.

Desde os anos 60, a actividade gráfica transformou os parâmetros espacio-temporais,aderindo aos mais diversos objectos em virtude de uma versatilidade inédita na escala e na sua adaptação a todo o tipo de suportes [imagem retirada do sítio de Juan Moro].

Nos últimos 500 anos de cultura ocidental produziu-se um crescimento exponencial no peso que adquiriu a imagem de reprodução gráfica, até atingir, no nosso tempo, o dos meios de comunicação de massa, o domínio da imagem mediática
. Estamos na época de obra de arte da reprodução (Walter Benjamin).

A arte do século XX fez a contínua revisão crítica das formas de percepção, representação, recepção de e sobre a imagem, experimentação exaustiva dos materiais, suportes, procedimentos e métodos geradores de produtos artísticos. Há a busca generalizada de novas formas de expressão, baseadas na novidade e idiossincrasia temática ou ideológica, iconográfica ou simbólica, estatística e física da imagem. Face ao império de um único sistema de representação dominante, que desde o Renascimento esteve assente nas perspectivas cónica e aérea, assim como no naturalismo do claro-escuro, a explosão morfológica e idiomática que começa no século XIX encontra a sua plenitude nas vanguardas da primeira metade do século XX. Assim, apresenta-se-nos como uma excepção e quase uma singularidade evolutiva.

Desde os anos 1960 com a arte pop e as tendências conceptuais foi-se derivando pouco a pouco para um tipo de obra em que iria dominar cada vez mais a utilização, de forma directa e indirecta, de meios mecanizados de reprodução e elaboração da imagem. Esta vê-se mais bidimensional e desmaterializada que nunca.

Com a criação digital nasce o conceito central de interface, de vínculos interligados ou interactivos. Mas a criação digital entronca estruturalmente nos sistemas gráficos históricos e bebe a tradição do pensamento e do conhecimento através de diagramas e esquemas, jogos visuais, labirintos e hieróglifos.

Nas artes plásticas produziu-se, de forma progressiva, uma passagem do objectual, que actuava directamente em e sobre o papel e a tela, ao visual, mediante um processo de desmaterialização da imagem que, começando com a fotografia e meios de reprodução gráfica como a serigrafia, se consumou na arte digital. O fenómeno de desmaterialização é a consequência lógica do crescente domínio dos meios de comunicação.

A imagem gráfica, sendo teoricamente uma, possui uma natureza dupla e diacrónica, pois pode ter uma multiplicidade e mutação quase infinita a partir de um original: repetição, redundância, variação, fragmentação, deformação, descontextualização, interferência, intervenção e instalação. A nova imagem mediatizada converte-se numa parte discreta de material plástico, codificado em cada caso, formando parte do património pessoal, colectivo ou universal para seu uso consciente ou aleatório.


Leitura: Juan Martínez Moro (2004). La ilustración como categoría. Una teoría unificada sobre arte y conocimiento. Gijón: Ediciones Trea, pp. 174- 187

domingo, 5 de agosto de 2007

FRAUDE LITERÁRIA


Há 35 anos, Nixon mandara ilegalmente escutar o que se dizia no congresso dos democratas (hotel Watergate), processo que mais tarde resultou na sua resignação ao cargo de presidente dos Estados Unidos.


Quase nessa mesma altura, um romancista de novelas e de uma biografia de um falsificador de quadros, Clifford Irving, estava a publicar uma biografia do milionário e excêntrico Howard Hughes, garantindo ter a autorização devida para o fazer. Editora: McGraw-Hill. A revista Life, então a perder leitores, comprou os direitos para a sua pré-publicação.

Mas provou-se ser uma fraude. Quase perfeita, envolvendo um outro romancista, que fazia o trabalho de pesquisa, Richard Susskind. Para além dos dois autores, apenas a quinta mulher de Irving e uma antiga namorada deste, Nina van Pallandt, do antigo duo dinamarquês Nina & Frederick, sabiam da falsidade. Irving forjara cartas de Hughes imitando a sua forma de escrever.

Estava-se entre o final de 1971 e o princípio de 1972, quando o próprio Howard Hughes, homem ligado aos media, aviador e excêntrico, desmentiu ter autorizado a escrita do livro. Curioso é que - nota Philip French na sua coluna de cinema na edição de hoje do Observer - nessa semana de Janeiro de 1972 o filme mais visto nos Estados Unidos se chamava Diamonds are forever, em que James Bond visita Las Vegas e protege um milionário que vivia recluso chamado Willard White, claramente inspirado em Hughes.


Clifford Irving foi julgado e preso, a sua mulher igualmente presa na Suíça, por movimentar a conta do dinheiro antecipado pela editora para pagar ao milionário [fotografias de Irving, Hughes e Susskind retiradas do sítio Crime Library].

O filme Golpe quase perfeito tem Richard Gere e Alfred Molina como interpretando os papéis dos dois escritores. Realizado pelo sueco Lasse Hallström, autor de outros filmes como Chocolate e Regras da casa, Golpe quase perfeito é um filme agradável de ver. Isto apesar do próprio Irving declarar que a história é inexacta.

Na história do filme é clara a dupla realidade traçada por Clifford Irving: a realidade propriamente dita e a recriada por si. Esta passava pela gravação de conversas inexistentes e por igualmente inventada violência exercida por colaboradores directos do milionário sobre o escritor.

Um último pormenor também curioso é o da antiga namorada de Irving, a dinamarquesa Nina van Pallandt, ter ganho com a visibilidade do caso. Ela foi convidada para entrar no filme de Altman The long goodbye (1973) e desempenhou o papel de uma das clientes de Richard Gere no filme American gigolo (1980).

TELEVISÃO DIGITAL NO BRASIL


"A televisão digital terrestre é uma inovação que pode representar a continuidade do processo de exclusão típico do país ou a abertura para a inclusão", afirmam César Ricardo Siqueira Bolaño e Valério Cruz Brittos, autores do novo livro da PAULUS Editora: A televisão brasileira na era digital – Exclusão, esfera pública e movimentos estruturantes.

A obra está organizada em duas partes principais (A lógica digital na indústria televisiva e Mercado brasileiro de televisão (e rádio) e as tendências de transição ao digital). Cada uma explora aspectos culturais, políticos, tecnológicos e outras particularidades que envolvem a questão da televisão digital.

Valério Cruz Brittos é professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), pesquisador na área da Economia Política da Comunicação, com ênfase no audiovisual e presidente do Capítulo Brasil da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC-Brasil).


César Ricardo Siqueira Bolaño é professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), pesquisador do CNPq, presidente da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC), vice-presidente da Associación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (ALAIC) e tesoureiro da International Association for Media and Communication Research (IAMCR).

[do press release da editora]

A ILUSTRAÇÃO EM JUAN MARTÍNEZ


[texto a partir do livro de Juan Martínez]

Com a invenção dos tipos móveis por Johannes G. Gutenberg (1397-1468) - e com eles a indústria editorial - começa o declínio do império do "livro dos livros". O lugar para o livro já não é o recôndito mosteiro ou a abadia medieval, nem as poderosas universidades pertencentes ao clero, em cujos mercados o papel passa a ser mais um produto de troca. Além disso, o livro impresso torna-se no meio que configura formalmente, através de texto e imagem, o conhecimento humano. O homem moderno afigura-se como leitor. O livro é discurso narrativo, sequência organizada, esquema e estrutura organizada do conhecimento. No seu conjunto, o mundo editorial define-se pela multiplicidade e renovação.

A partir do século XV, e sobretudo do XVI e XVII, o horizonte europeu dilatou-se graças aos descobrimentos geográficos mas, principalmente, através da edição de livros. A imprensa teve um especial efeito estimulante sobre as faculdades imaginativas e inventivas.

O desenvolvimento da imprensa moderna e o êxito e expansão da Reforma Luterana na Europa do século XV são dois fenómenos intimamente ligados. Os herejes eram conhecidos como comunidades textuais. A participação da imprensa na revolução reformista contribuíu para liquidar o monopólio que ostentava o clero sobre a produção e transmissão de todo o tipo de conhecimento. O surgimento posterior do Index como ferramenta inquisitorial evidencia o problema que a expansão do livro tinha para o poder religioso de então.

Mais importante ainda era o uso da imagem impressa como meio de propaganda. O património visual do Ocidente cresceu exponencialmente a partir da invenção da imprensa. Em alguns campos do conhecimento como a arquitectura, a geometria, a geografia e as ciências biológicas, a cultura da estampa cumpriu um papel essencial.

A função mais sensível e eficaz que cumpre a ilustração gráfica no livro é a descritiva. Há a consolidação de um novo padrão visual de aproximação ao mundo. A relação entre arte e ciência sobreviveria no terreno específico da ilustração gráfica, dado que a ciência se serviu dos recursos oferecidos pelas artes gráficas. Os grandes tratados de arquitectura passaram a ser modelo para a edição de livros ilustrados durante todo o Renascimento, caso de Leon Battista Alberti com o seu De re aedificatoria (1452).

O trabalho descritivo baseia-se na observação visual centrada no: 1) tangível, próximo e imediato, 2) desconhecido, inalcançável e oculto. Em termos gerais, e a partir do Renascimento, produz-se uma ampliação do horizonte visual em todas as suas dimensões.

O desenvolvimento da óptica com a construção de lentes macroscópicas e microcóspicas terá um protagonismo chave na superação das fronteiras perceptivas. A nova ferramenta óptica tem no século XVI o começo do seu desenvolvimento e no século XVII o momento do seu máximo esplendor e integração plena na cultura visual da época.


[continua]

Leitura: Juan Martínez Moro (2004). La ilustración como categoría. Una teoría unificada sobre arte y conocimiento. Gijón: Ediciones Trea, pp. 107-116

sábado, 4 de agosto de 2007

WORLD PRESS PHOTO


A entrega do Prémio Fotojornalismo Visão/BES, na sua sétima edição, realiza-se no próximo dia 16, às 19:00, no Museu da Electricidade.


sexta-feira, 3 de agosto de 2007

IMAGENS


Enquanto reorganizo ficheiros, descubro e recordo Londres (concerto de jazz em clube de Chelsea, Agosto de 2005), Évora (Praça do Giraldo, Dezembro de 2005), Salamanca (Novembro de 2004) e subida do rio Douro (Setembro de 2004).

ESTATUTO DO JORNALISTA

O Presidente da República não promulgou o Estatuto dos Jornalistas. Retiro a informação directamente do Público on-line (15:02):

"Cavaco Silva remete o decreto nº 130/X para uma nova apreciação dos deputados da Assembleia da República e propõe que sejam revistas as matérias relacionadas com as condições da quebra do sigilo profissional dos jornalistas, os pressupostos da revelação das suas fontes e o regime sancionatório aplicado aos profissionais do sector".

Foi uma boa decisão. Aqui, já havia comentado nesse sentido.

AINDA O MNAA


Copio directamente do Público on-line: "[Dalila Rodrigues, demitida directora do Museu Nacional de Arte Antiga] Ficou três anos, esperava ficar seis. Diz que fez tudo o que pôde para que o principal museu público português se modernizasse e não se arrepende de ter manifestado a sua oposição à tutela (a ministra da Cultura e Manuel Bairrão Oleiro, director do Instituto dos Museus e da Conservação, IMC). Com ela o público cresceu (192 mil visitantes em 2006, mais 154 por cento que em 2004), as receitas aumentaram (1,1 milhões em 2006, segundo dados do museu) e o edifício foi restaurado. Dalila Rodrigues queria um MNAA autónomo, o Ministério da Cultura não quis sequer pensar nisso".

A ministra da Cultura soma mais um desaire. Isto é, apesar de ter o poder de demissão de uma directora "insubordinada", o apreço dos cidadãos pela ministra é cada vez menor.

Pergunta que já aqui formulei: e não se pode demitir a ministra?

GRATUITO DA CONTROLINVEST EM SETEMBRO


Chama-se Global Notícias e pertence à Controlinvest, proprietária de jornais como o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias. Vai sair em Setembro.

JORNAIS GRATUITOS


Escreve Rita Espanha na mais recente newsletter do OberCom:

Podemos então sugerir que o crescimento dos gratuitos, pode ser também uma oportunidade. Ou seja, uma forma de estimular "o regresso à leitura". A própria apetência dos mais novos para a utilização da internet, em detrimento de mais horas em frente ao televisor, parece poder gerar hábitos mais próximos da leitura do que o visionamento televisivo e audiovisual. Susceptíveis a uma socialização entre várias realidades mediáticas, onde a leitura tem, apesar de tudo, uma importância grande, realidades essas umas vezes concorrentes mas a maior parte das vezes complementares, os jovens desenvolvem-se no meio de uma multiplicidade de escolhas e opções de comunicação, informação e entretenimento. Essas opções levam ao estímulo de novas e "velhas" competências, adquiridas quase intuitivamente, pelos mais novos. A leitura, em novos ou diferentes suportes, parece ser uma delas. Estamos assim, aparentemente, perante novos leitores, quase inesperados, num contexto em que nos habituamos a "julgar" os mais jovens como não leitores. Serão leitores sim, não necessariamente dos mesmo conteúdos e não necessariamente nos mesmo suportes. Enquanto os jornais tradicionais parecem ter alguns problemas em atrair uma audiência mais jovem, os jornais gratuitos têm uma audiência bastante mais juvenil. A Metro Internacional divulgou recentemente que 70% dos seus leitores se encontra nas faixas etárias com menos de 45 anos.

Será mesmo assim, pergunto?

Da minha observação empírica, há pontos em que discordo de Rita Espanha. Ler jornais gratuitos é feito onde eles os há: junto a estações de metro ou em cruzamentos de ruas movimentadas nas principais cidades. O que significa: onde existe mais população e maior consumo de bens. Os jornais gratuitos vivem da publicidade neles contida, a publicidade surge onde há mais consumo. Qualquer nível etário lê esses jornais, basta andar de metro. Jovens e não jovens lêem esses meios de comunicação. Os jornais gratuitos não dão informação de profundidade. Por exemplo, os jornais gratuitos não incluem informação produzida pelas newsletters do OberCom. Para se ser cidadão consciente (informado) é preciso ler mais.

Certo é que há uma mudança de consumos, e ignorar isso é esconder a cabeça na areia. Os conteúdos oferecidos são crescentemente mais lúdicos. Basta pensar nos consumos de televisão, videojogos e serviços de telemóvel. Mas isso corresponde a uma mais lenta maturação intelectual em cada indivíduo. A oferta de serviços, desde o correio electrónico gratuito à música retirada da internet sem qualquer pagamento faz parte de uma cultura actual, em que o jornal gratuito se inclui. Claro que há contrapartidas, algumas delas ainda não vislumbradas por nós.

Um exemplo apenas, e noutro sector: a "festa" feita esta semana com a inauguração de uma loja IKEA em Matosinhos, com directos pela televisão, representará, por muito que se diga ao contrário, a perda do tecido produtivo directo e indirecto da indústria tradicional de mobiliário e das lojas espalhadas por muitas ruas e cidades do país. Basta dar uma volta pela avenida de Almirante Reis, em Lisboa, e ver o comércio dedicado ao mobiliário. Eram lojas anacrónicas que já deviam ter fechado há muito, dizem. Possivelmente sim, mas esses lugares estão a tornar-se medonhos, com as portas fechadas e grafitadas, onde não circula quase ninguém nos passeios.

Sem ser pessimista, quero alertar a atenção para o modelo optimista de alguns sociólogos das consideradas novas tecnologias. Há novas tendências mas elas precisam de ser analisadas, para ver o que se ganha, o que se perde e, em especial, o que altera no tecido social e cultural.

O "regresso à leitura" significa um tempo anterior de leitura. E ele existiu? Portugal teve sempre a malapata de ler poucos jornais, o que significa que o postulado inicial é errado.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

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Sem legendas.


SAÍDA DE DALILA RODRIGUES DO MNAA


Notícia de ontem publicada nos media de hoje: a não recondução da comissão de serviço de Dalila Rodrigues como directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

Da minha óptica, ela fez um bom lugar no MNAA. Como o comprova a exposição inaugurada esta semana no museu. Estou de acordo com o que o director do Público escreveu em editorial: "É certo que não Dalila Rodrigues não se calou depois da nova lei sair, como não se tinha calado o antigo director do Teatro Nacional de São Carlos, Pinamonti".

O que sucedeu a Pinamonti sucedeu a Dalila Rodrigues. Parece que mais vale não fazer nada, aceitar silenciosamente o que o poder superior impõe.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

IDEIAS PARA HOJE (II)

Vem, no Público de hoje, a segunda parte do texto de Avelino Rodrigues (primeira parte editada no passado domingo e que eu referi aqui). Tema: um artigo escrito por Eduardo Cintra Torres em Agosto de 2006 sobre os incêndios e a não publicitação dos mesmos pela televisão pública.

Se, no domingo, eu mostrara alguma perplexidade pela actualização do tema, hoje fico com uma ideia mais clara dos objectivos do jornalista e investigador de jornalismo. A Cintra Torres, o autor faz referência directa na primeira coluna, apenas. Depois, enquadra - embora não o explicite - o artigo de Cintra Torres dentro da actual moldura da legislação do jornalismo.

Escreve nomeadamente sobre o código deontológico do jornalista, e chama a atenção para a contradição existente no seu artigo 6º (para ele, Avelino Rodrigues). Num sítio, "o jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes"; logo a seguir, indica que "o jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação".

O último ponto do artigo de Avelino Rodrigues é mais preciso ainda. Escreve ele: "O jornalismo real é o que é e o jornalista não é infalível. Aconteça o que acontecer, cabe ao jornalista (e ao seu jornal) a responsabilidade de avaliar a veracidade dos factos e das fontes, não podendo revelar fontes confidenciais, embora se saiba que a divulgação de acusações graves, sem pública comprovação, fragiliza o texto e põe em xeque a credibilidade do autor e do jornal que o acolhe".

Como pano de fundo, e segundo a minha leitura, a legislação sobre o jornalismo, agora em depósito na Presidência da República para homologação. Mas também uma crítica a Cintra Torres, embora não explícita. E, a meu ver, uma demarcação - pela ausência de alusão - à posição da ERC tomada em Agosto do ano passado.

Assim, o texto de Avelino Rodrigues resulta mais transparente. Apenas um reparo: quando escreve sobre "ritual de objectividade" e associa este conceito a sociologia da informação, refere-se a sociologia do jornalismo e a Gaye Tuchman, autora do conceito (objectividade como ritual estratégico). Ora, Tuchman é uma importante académica americana e a sua obra de uma grande reputação, pelo que a afirmação de Avelino Rodrigues deveria ser mais cautelosa e enquadrada. O uso da citação ou a estruturação da informação numa sequência apropriada (o mais importante à frente) são opções jornalísticas usadas com regularidade e sem reparo profissional.

IDEIAS PARA HOJE (I)

"O que se augura com o fim dos suplementos literários (Diário de Notícias) e Mil Folhas (Público) não é famoso para a crítica [literária]. Há cada vez menos espaço para escrever sobre livros e menos espaço ainda para escrever sobre literatura de qualidade" (revista Os Meus Livros, edição de Agosto, em artigo de Andreia Brites sobre Pedro Mexia).

A era muito mais do que uma revista de crítica literária. Era um espaço fundamental de escrita sobre as indústrias culturais, como o cinema, a televisão e a literatura. O Diário de Notícias, como aqui já escrevi, perdeu muita da sua marca, ao eliminar o suplemento (ou outro que cubra essa vasta área de actividades e crítica).

Mas há novos espaços a descobrir. Um deles, por exemplo, é o blogue do próprio Pedro Mexia. E as publicações on-line, que têm à partida muito mais liberdade, pois não estão tão dependentes de investimentos financeiros ou audiências e tiragens. Faltam ainda critérios de selecção que premeiem as melhores publicações e uma adequada publicitação.

terça-feira, 31 de julho de 2007

TEATRO IMAGINÁRIO


O Teatro Imaginário, ciclo de homenagem a Eduardo Street, continua em Agosto, na Antena 2. Estão agendadas as seguintes peças (todas a começar às 18:00):

1º domingo, dia 5: As três irmãs, de Anton Tchekov,
2º domingo, dia 12: A sapateira prodigiosa, de Frederico García Lorca,
3º domingo, dia 19: O auto de Mofina Mendes, de Gil Vicente,
4º domingo, dia 26: A estalajadeira, de Carlo Goldoni.

Eduardo Street faleceu no final do ano passado. Dedicou toda a sua vida à rádio, tendo começado na Rádio Universitária, quando frequentava a Universidade. A rádio foi mais forte que o curso de Farmácia, não completado, e o teatro uma paixão dentro da rádio. Dirigiu peças de Sófocles, Aristófanes, Molière, Dostoievsky, Ibsen, Kafka, Torga, Sttau Monteiro, Alexandre O'Neil e muitos outros autores. O total de peças radiofónicas orientadas por Eduardo Street terá chegado às 700. Organizado, escolhia as peças com um mês de antecedência e convidava os actores/actrizes que lhe pareciam mais adequados aos papéis. Fazia ainda adaptações, apoiado pela mulher nas traduções.

TAPETES


Hoje, ao fim da tarde, foi inaugurada no Museu Nacional de Arte Antiga a exposição O tapete oriental em Portugal, comissariada por Teresa Pacheco Pereira e Jessica Hallett. Na apresentação, a directora do museu, Dalila Rodrigues, também falou.

Da introdução do magnífico catálogo retiro a seguinte frase: "O elevado apreço pelos tapetes é também confirmado pelas inúmeras pinturas portuguesas onde aparecem em retratos reais e em temas religiosos, especialmente em representações da Anunciação e da Missa de S. Gregório, e vidas de santos".

Exposição que recomendo vivamente!



ANTONIONI


Ontem, foi Bergman; hoje foi o cineasta Michelangelo Antonioni que morreu. Nascera em 1912. Tendo começado a filmar em 1943, dele lembro, entre outros, Deserto vermelho (1964), Blow up (1966), Profissão: repórter (1975) (vi-o há muito pouco tempo).

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A MORTE DE INGMAR BERGMAN


Bergman nascera em 1918. Foi um cineasta que jamais esqueceremos, como é o caso do filme Saraband.

MEMÓRIA EM REDE

A Associação Museu da Pessoa, com sede na Universidade do Minho, em Braga, está a organizar o Portugal Memória em Rede - II Congresso Nacional de História Oral, nos dias 25, 26 e 27 de Outubro de 2007, na Casa das Artes de Arcos de Valdevez.

O principal objectivo da iniciativa é divulgar, reflectir e agir em torno da História Oral e da Memória. O Congresso pretende, para além da apresentação de trabalhos realizados, a criação de grupos de trabalho, mediante áreas de interesse comuns.

Para saber mais, clicar em
Memória em Rede.