domingo, 21 de julho de 2013

Tertúlia sobre rádio

1Hoje à tarde, na Praça da Liberdade, no Porto, realizou-se a tertúlia Porto, uma novela da rádio, organizada por Cultureprint e Rádio Manobras dentro do programa Letras na Avenida, com Jorge Guimarães Silva (ao centro, na fotografia em baixo). Presente, também Bernardino Guimarães, daquela estação e fundador da Rádio Caos, no tempo das rádios livres (década de 1980), à direita na fotografia em baixo. No primeiro vídeo, eu (quase sempre fora de imagem) falo sobre o Portuense Rádio Clube (1937-1954). No segundo, Carlos Magno, atual presidente da ERC, faz um comentário sobre a rádio na década de 1980.

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sábado, 20 de julho de 2013

Joana Vasconcelos

A exposição de Joana Vasconcelos, no Palácio Nacional da Ajuda, tem dois objectivos: além da própria obra dela, os visitantes acedem a um espaço pouco visto, o dos aposentos reais de D. Luís I e Maria Pia de Saboia (1847-1911).

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Maria Keil, de propósito

Maria Keil (1914-2012) trabalhou em sucessivas áreas, como azulejo, pintura e desenho, cenografia e figurinos, design gráfico e publicidade, ilustração, mobiliário e decoração e tapeçaria mural. Uma obra gráfica e visual notável de uma mulher que viu um dos seus quadros ser retirado pela PIDE em 1947 devido ao tema, de índole neo-realista. Ela desenhou cenários e figurinos para o Verde Gaio, grupo de bailado criado por António Ferro, tem conjuntos de azulejos seus em estações do comboio metropolitano de Lisboa, trabalhou no Estúdio Técnico de Publicidade, fundado por José Rocha, fez capas e desenhos de livros infantis, desenhou selos e anúncios, colaborou com a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre. Título da exposição: De propósito. Maria Keil, obra artística.

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A ver no Palácio da Cidadela de Cascais. Igualmente a visitar o palácio presidencial, restaurado com muito requinte e agora aberto ao público visitante.

sábado, 13 de julho de 2013

Os cortes nas indústrias culturais no Reino Unido

O DMCS (Department of Media, Culture and Sports), organismo público britânico da área das indústrias culturais, anunciou um corte no orçamento de 5% nos museus e outras organizações artísticas e 10% no Instituto do Cinema (BFI). O corte nesta última instituição causou muita preocupação, dada a atividade cinematográfica (e no geral as indústrias culturais e criativas) ser muito elevada e considerada no Reino Unido. Um dos argumentos é que se considera as indústrias criativas uma das jóias da coroa inglesa mas, ao mesmo tempo, introduzem-se cortes significativos.

Sena da Silva

Sena da Silva. Uma Antologia fotográfica é uma magnífica exposição na Cordoaria Nacional. Entre muitas atividades, Sena da Silva (1926-2001) foi professor da Cooperativa de Ensino Superior Árvore (Porto) entre 1983 e 1987. Cruzámo-nos por ali, então. Inspirado por ele, em especial nas suas fotografias a preto e branco, procurei usar o dispositivo fotográfico que trazia comigo. A qualidade não é boa mas ficam as ideias.

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sexta-feira, 12 de julho de 2013

O olhar da China

Beijing, a capital da China, quer estreitar a cooperação com Macau nas indústrias culturais e criativas. Antigo território administrado por Portugal, Macau continua a ser uma porta de entrada e de saída para os países de língua portuguesa, onde o Brasil se inclui. Este ano, Beijing planeia investir 31 mil milhões de yuans (cerca de 3,8 mil milhões de euros) em projetos culturais, o que se traduz em muitas oportunidades de negócio para Macau.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Peças de finalistas

No teatro Helena Sá e Costa, a ESMAE apresentou uma peça de Federico Garcia Lorca, Público, metáfora sobre o teatro, os tópicos e os ensaios, a sua visão e públicos. É uma alusão aos espaços do teatro com a distinção entre ar livre e da areia, entre as convenções e a ilusão da realidade, buscando exemplos na Grécia de Helena e na Inglaterra de Julieta, histórias do património artístico universal. A peça esteve proibida durante bastante tempo, pelo tema e pela sensualidade. No teatro Carlos Alberto, a ESAD apresentou uma peça a partir de Ésquilo (Agamémnon) e Eurípides (As Troianas), Máquina-Tróia, sobre a guerra, a vitória e a derrota, e sobre a vingança. O sacrifício de Ifigénia, a ira de Clitemnestra, o regresso de Agamnémnon e o cavalo de Tróia compõem a trama patente no palco.

Ambas as peças resultam de trabalhos dos alunos finalistas das duas escolas do Porto. Por isso, são textos clássicos que põem alunos e encenadores em diálogo, numa procura dos limites e das exigências da profissão. Como provas finais de alunos, há um recurso que não se encontra nas companhias profissionais: grupos grandes de atores e atrizes, com histórias mais gerais, sobre a sociedade e a humanidade. As histórias representadas nas companhias profissionais são sobre famílias ou indivíduos, extraindo o espectador inferências da sociedade.

A encenação de Público é complexa, cheia de luz, movimento e contra-movimento, com grande rapidez e muita ocupação de espaço, a extravasar o palco, com figurinos coloridos (roupa muito quente para os atores em dias de muito calor, como neste fim de semana). A peça da ESAD tem um primeiro quadro de uma luminosidade muito poética, retomada em alguns outros momentos. Posso dizer que uma é mais exuberante e a outra mais austera.

As duas peças são sobre a palavra mas a da ESAD disponibiliza uma atenção mais intensa. Ambas as peças incorporam alunos estrangeiros, de onde tiram partido: o inglês, o francês e o castelhano na peça da ESMAE; o castelhano e o grego na peça da ESAD. O teatro é, como a literatura, um domínio privilegiado da palavra, dos significados e das entoações. Mas é também dos gestos, dos movimentos e da música. Se em Público, se privilegia a música, em Máquina-Tróia o ruído do vento é dominante.

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domingo, 7 de julho de 2013

Ler Jorge Luís Borges

gatoOntem à tarde, Ana Sofia Ferreira e Rui Manuel Amaral leram Jorge Luís Borges na livraria Gato Vadio. Ana Sofia Ferreira está a fazer doutoramento em literatura, Rui Manuel Amaral é licenciado em História e redator publicitário, um dos autores do blogue http://last-tapes.blogspot.pt/, autor de Caravana (Angelus Novus, 2008) e Doutor Avalanche (Angelus Novus, 2010) e fundador e coordenador literário de Águas Furtadas, revista que fiz já alusão aqui no blogue.

Além da leitura de textos em diversas obras, que mostram a universalidade, profundidade e soberba imaginação do autor, que partia regra geral de uma premissa verdadeira ou tão próxima da verdade quanto possível ou verosímil para nos levar a mundos estranhos, minuciosos e de grande requinte filosófico, que enganavam o leitor que, seduzido, aceitava esse engano, houve comentários dos dois leitores e dos participantes na tertúlia.

Foram lidos, entre outros, os textos O Borges e eu, Os mortos, Diálogo sobre um diálogo, O punhal, O problema, O sono e O episódio do inimigo. Eu ouvi, fotografei e fiz imagens em movimento e som. Para o próximo outono, Rui Manuel Amaral promete uma terceira série de tertúlias literárias naquele espaço acolhedor de livraria e pequeno-bar à rua do Rosário, no Porto.

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sábado, 6 de julho de 2013

Eldorado

eldoradoCamila, Tânia e Maria da Luz são jovens com cerca de 25 à procura de emprego. Respondem a um anúncio que prometia o emprego da vida. Encontram-se na sala de espera da empresa. Como concorrentes, a relação entre elas é fria. Mas fica-se a conhecer rapidamente a personalidade de cada uma. A primeira é mais extrovertida, a segunda é mais tímida, a terceira parece dissimulada. O entrevistador chega contente e reforça a ideia de um emprego de sonho, o Eldorado do título da peça.

Perguntas de perfil psicológico, provas de dramatização pessoal (para ver as capacidades individuais), algumas delas violentas. Mas o objetivo é conseguir o lugar. Mais peripécia menos peripécia, há lugar para as três. Só nessa altura perguntam o salário e o tipo de trabalho. O entrevistador e empregador é ambíguo mas continua a dizer que elas vão gostar de trabalhar no novo emprego. Elas vão para fora da cidade preparar kits alimentares de sobrevivência (ou outra coisa parecida). As habilitações literárias, as performances desempenhadas nas entrevistas e, até, a insinuação sensual já não parecem contar.

No ar paira a incerteza e a dúvida. Quando uma ameaça ir-se embora buscar uma coisa a casa, o empregador aponta o dedo ameaçador. As jovens ficam à espera do autocarro que as vai levar ao posto de trabalho. Além da precariedade evidente, a relação entre empregador e empregado é violenta, a lembrar o tempo da longa espera, na praça principal da aldeia, do camião que leva os candidatos a trabalhador para a plantação ou fábrica. Os mais ágeis saltam para cima do camião, os outros só lá entram com a ajuda e solidariedade dos já instalados.

Da parca sinopse que acompanha o programa lê-se “As personagens agarram-se de forma desesperada a uma esperança que pensam ser a solução dos seus problemas. Eldorado reflete (de forma irónica?) o panorama atual”. Eldorado tem direção artística, criação e construção do texto de Joana Moraes, com Ana Vargas, Gilberto Oliveira, Joana Carvalho e Sara Costa. Cartaz de Pascal Ferreira. Encenação minimalista, uma espécie de teatro pobre e direto ao espectador, boa condução dos atores. Os risos dos espectadores na representação de estreia (que não compreendi a maior parte das vezes) perturbou o trabalho dos atores. A sala, improvisada no Campo Mártires da Pátria, junto à antiga prisão central do Porto, mostra uma casa portentosa. Século XVIII? Um improvisado espaço, por generoso que seja, encobre dificuldades de organização dos eventos e das estruturas. Assim, o trabalho daquele grupo de jovens que ama o teatro, no coletivo chamado Musgo, tem uma mais árdua tarefa de continuidade.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Resistência

No sábado à noite, antes do começo da estreia da peça O Preço, de Arthur Miller, João Lourenço, da direcção do Teatro Aberto, leu um texto sobre a situação muito precária do teatro português em geral e do seu teatro em particular, com os significativos cortes estatais aos apoios ao teatro. A sala apoiou longamente o texto, com as suas palmas. Em mim, ecoaram a palavra medo e a ideia não ter medo. A palavra que se formou em mim e ficou depois desse eco foi resistência, que quer dizer aguentar, ser ágil e perceber quais os rumos para obter de novo a confiança e a alegria de viver.

Nos dois últimos dias, a sucessão de factos políticos envolvendo o governo do país, com as demissões dos ministros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros, não sendo uma tragédia em si levanta uma série de questões e lembra o que a peça de Miller trata: será que o contrato de credibilidade dos cidadãos nos agentes políticos se mantém ou está quebrado de um modo irremediável? Ou resta a resistência através da cultura e da solidariedade?

O Preço

PreçoSobre a peça de Arthur Miller, O Preço, estreada no sábado passado no Teatro Aberto retiro informação e imagem: "Dois irmãos [Vítor Franz, interpretado por Marco Delgado, e Walter Franz, representado por António Fonseca] voltam a encontrar-se, dezasseis anos depois da morte do pai, para desocuparem a casa que deixaram intacta ao longo de todos aqueles anos. Um velho avaliador [Gregório Salomão, pelo actor João Perry] vem dar-lhes um preço pelos móveis e objectos de que se querem desfazer. No entanto, a transacção não é tão simples como imaginaram: todas aquelas coisas fazem parte da história da família, estão repletas de memórias e obrigam-nos a confrontarem-se com o passado e com as escolhas que fizeram na vida. Qual foi o preço dessas escolhas? Qual é o preço das contas que ficam em aberto? Entre o deve e o haver, o que se perde e o que se ganha? Neste encontro cheio de emoções, debatem-se as grandes questões da vida, com a esperança sempre acesa de uma maior compreensão do que é profundamente humano".

O Preço

O polícia Vítor parece mais perto da realidade do que o irmão médico Walter, mas ambos representam uma desconfiguração perante a realidade, cada um tem um modo de focar a realidade que é diferente da própria realidade. Apesar da simpatia que o espectador atribui à personagem Vítor, o velho negociador Salomão vem chamar a atenção para a igual desatenção face aos factos. E não se regista a reconciliação entre irmãos que não se viam há muitos anos - que Ester Franz [São José Correia no papel], a mulher de Vítor, queria e que o negociador achava ser a melhor solução.

É que os dois irmãos partilhavam poucas coisas e a avaliação dos velhos móveis dividia-os de modo quase irremediável. Queriam um preço justo ou um preço alto, mas o negociante judeu chamou a atenção para os tempos modernos: os apartamentos são pequenos, sem espaço para móveis grandes, e o que as pessoas querem é comprar, mesmo que nisso haja alienação. Do mesmo modo que a aparente mudança psicológica e sociológica do irmão mais ilustrado e rico face ao mais novo e que entrara para a polícia. O preço, ou o custo, de um bem ou de uma atitude ou de um sentimento - tudo isso dividia os irmãos. O que os unia era a memória - dos berlindes ainda guardados num local secreto à recordação da mãe a tocar harpa e ao modo como ela distinguia os filhos.

A peça de Miller foi escrita em 1967 e produzida em 1968, num contexto da guerra do Vietname. Mas a história aborda a situação da década de 1930 - a derrocada da economia que levou à falência os pais de Vítor e Walter. A Grande Depressão foi, do mesmo modo que a Primeira Guerra Mundial, uma ocorrência que estabeleceu a desconfiança moderna dos cidadãos perante os governos: serão estes capazes de cumprir e honrar os seus compromissos?

Arthur Miller (1915-2005) ficou muito conhecido pelo seu casamento efémero com Marilyn Monroe, pelas peças Morte de um Caixeiro Viajante (1949), O Homem que Tinha Toda a Sorte (1940), Eram Todos Meus Filhos (1947), pela presidência do PEN Internacional (1965-1968) e pela acusação de simpatias comunistas (depôs em 1965 perante o Comité para as Actividades Anti-Americanas).

sexta-feira, 28 de junho de 2013

European Television Memories

VIEW-02-option-03-txtEuropean Television Memories, Jun 28, 2013 11:11 am. "Third issue of the peer-reviewed, multi-media and open access VIEW Journal for European Television History & Culture highlights debates on how television fosters the moving borders of national memories. The journal is proud to present its third issue: European Television Memories. It has been guest-edited by Jérôme Bourdon & Berber Hagedoorn and is freely available at: http://www.viewjournal.eu.

"In the context of the fast development of memory studies, the third issue of VIEW highlights debates around the moving borders of national memories, fostered by television in the context of European history. The articles in this issue focus on the contribution of European television researchers, covering all three areas of media studies: production, text and reception. They touch upon a broad range of topics, including:
  • the reconstruction of the national past after regime changes in both Southern and Eastern Europe;
  • competing versions of the “same” past;
  • the fragile fostering of a European identity;
  • the regional/would-be national past.

The issue emphasizes the different ethnographic & historical uses of life-stories from television viewers. It hints at the possible changes to memory formation brought about by television in the post-network digital era. Finally, this issue charts the field of European television memories and suggests ways it can be researched further, both nationally and transnationally" (read more at: European Television Memories).

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Reuters Institute Digital News Report

"News is becoming more mobile, more social, and more real-time. This year’s survey reveals continuing shifts in how, when, and where people access the news, with digital patterns becoming more entrenched – particularly amongst the younger half of the population. Audiences increasingly want news on any device, in any format, and at any time of day. But our survey reveals that the multi-platform and digital revolution is not proceeding at an even pace in all countries. What happens in the US does not necessary follow automatically in Europe or elsewhere. Geography, culture, and government policy also play their part, with Germany and France still showing strong allegiance to traditional forms of media. We also see marked differences in ‘participatory cultures’, with very different rates of take up in social media, commenting, and voting across our surveyed countries" (Executive summary and key findings) Read all Reuters Institute Digital News Report here.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

História da rádio no Brasil

Nos anos mais recentes, tem havido uma forte investigação no Brasil sobre a sua história da rádio. Pela montra que aqui coloco, há quatro áreas essenciais: estações de rádio e serviço público, jornalismo, desporto e cantores da rádio (no caso, as rainhas).

O repórter Esso marca a história da rádio brasileira. Marca de combustíveis, a Esso patrocinou no Brasil e noutros países da América Latina a produção dos noticiários curtos de três a cinco minutos e esteve no ar naquele país da nossa língua entre 28 de Agosto de 1941 e 31 de Dezembro de 1968. Assim, formou gerações no conhecimento do mundo através dos media. O trabalho de Luciano Klöckner, docente da Universidade Católica de Rio Grande do Sul, revela essa tessitura de informações de síntese e de locução vibrante conhecida pelo nome da Esso com as notícias da United Press Association. Já o estudo de Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia Moreira sobre a Rádio Nacional, cuja primeira edição remonta a 1984, transporta-nos para o Rio de Janeiro e para a liderança nacional dessa estação nascida em 1936, um lar de grandes nomes da época de ouro da rádio, como Emilinha e Marlene, as eternas rainhas da rádio, como outro livro aqui analisa. A cultura brasileira foi moldada, de certo modo, pela Rádio Nacional, instalada na Praça Mauá, 7, no centro histórico do Rio de Janeiro.

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Os dois livros de Vauci Zucoloto tem virtudes especiais. Se em No Ar, a autora descreve e analisa a história da construção da notícia da rádio brasileira, recuperando o repórter Esso, ela também releva os textos, os formatos, as linguagens e as técnicas empregadas, no livro sobre a programação das rádios públicas no Brasil identifica as influências, as directrizes e as concepções das programações e alerta para a urgência de novas políticas para a radiodifusão.

Quanto aos livros de Maria Luisa Rinaldi Huper (rainhas da rádio) e o organizado por Patrícia Rangel e Márcio Guerra (a rádio e os campeonatos do mundo) são os mais gostosos de ler na medida em que contam histórias que emociona(ra)m os ouvintes ao longo das décadas. A rádio fez-se dessas paixões de seguir as disputas entre Emilinha Borba e Marlene como a rainha da rádio (em Portugal, muito mais tarde, tivemos a querela Simone de Oliveira e Madalena Iglésias) e da formação de uma certa identidade nacional proporcionada pela equipa do Brasil e pelas torcidas (claques) que se formaram. O Brasil reunia-se e separava-se perante as figuras populares dos cantores da rádio e dos futebolistas, num tempo em que a televisão não tinha ainda estabelecido a hegemonia mediática nestas áreas.

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Leituras: Luciano Klöckner (2008). O repórter Esso. Porto Alegre: Age e EDIPUCRS, 315 p.
Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia Moreira (2005). Rádio Nacional. O Brasil em sintonia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 225 p.
Vauci Zucoloto (2012). No ar. A história da notícia de rádio no Brasil. Florianópolis: Insular, 183 p. Vauci Zucoloto (2012). A programação de rádios públicas brasileiras. Florianópolis: Insular, 263 p. Maria Luisa Rinaldi Huper (2009). As rainhas do rádio. Símbolos da nascente indústria cultural brasileira. São Paulo: Senac, 228 p.
Patrícia Rangel e Márcio Guerra (org.) (2012). O rádio e as copas do mundo. Juiz de Fora: Juizforana, 270 p.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Florbela Espanca no Porto

espancaEspanca - eu não sou de ninguém, com encenação de Roberto Merino, direção artística de Isabel Maya e direção musical de Emma Sørås e Francisco Reis, esteve no pequeno auditório do teatro Rivoli, Porto, entre 21 e 23 de Junho, com os atores Inês Cardoso, Daniel Pinheiro, Joana Bastardo, Herivelton Santana e Angélica Neves. A música original pertence a Isabel Maya. Produzido pela Vocare, integrado no projeto Roteiros da Poesia Portuguesa, e depois de Ary dos Santos e Bocage, a peça sobre Florbela Espanca.

Através de leitura encenada da sua obra, combinou-se poesia e música, entre o recital e o musical. Na peça, falou-se do misticismo na sua poesia, da sua emancipação enquanto mulher, dos seus desgostos de amor, da morte inesperada do seu irmão e do agravamento da sua neurose. Alguns poemas editados no livro Charneca em flor (1931) seriam interpretados, ocupando o lado direito do palco. Em palco, duas atrizes representaram idades diferentes de Florbela Espanca, uma mais jovem e outra mais velha. O lado esquerdo do palco foi o espaço dos músicos, o Ensemble Tutti per l'Arte, ensemble original da Vocare.

A Vocare - Instituto Profissional da Voz e da Comunicação é uma entidade de formação especializada no estudo da voz e das artes performativas do espetáculo. Isabel Maya e Angélica Neves fazem parte do seu corpo docente. Roberto Merino é o diretor do curso de Teatro da Escola Superior Artística do Porto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O punk em estudo universitário

punkHoje à noite, no Gallery Hostel Porto, foi apresentado o projecto A different kind of tension, com Paula Guerra, Andy Bennett, Carlos Feixa e Hugo Ferro. Para Paula Guerra, o projecto, agora com um ano de investigação e mais dois pela frente, envolve perspectivas distintas como sociologia, história, antropologia, psicologia, media e jornalismo sobre o punk, desde 1977.

A socióloga chamou a atenção para a necessidade de uma cartografia do punk, com recolha de informação como os fanzines e edições discográficas, pelo que a Hemeroteca de Lisboa e a Bedeteca de Lisboa, Anoise Recs, Raging Planet, República dos Kágados e outras instituições estão envolvidas no estudo liderado pela Faculdade de Letras do Porto.

Como objectivos, Paula Guerra identificou o estudo da genealogia do movimento punk em Portugal, relação com idade e género, lugar e normalização do risco, memória e artefacto, culturas juvenis, cosmopolitismo e resistência, intervenção dos movimentos sociais. A constituição de um arquivo virtual é um dos alvos a atingir com o projecto, onde já foram feitas 60 entrevistas em profundidade em Lisboa, Porto e Braga.

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Verifica-se que o movimento punk é predominantemente masculino (como resultado, 90% das entrevistas foram a homens). Há uma base de bandas organizadas desde 1977: cerca de 600. Alguns indivíduos chegaram a estar envolvidos na constituição de diversas bandas. Também já foi feito um levantamento de 400 textos de músicas, estando agora a proceder-se a uma análise de conteúdo sociológico. Outros resultados saídos do primeiro ano do projecto: dois artigos científicos e um documentário em construção.

Por seu lado, Andy Bennett destacou a importância de ser o primeiro projecto no mundo sobre o punk a ser financiado por uma instituição ligada à investigação (FCT). O punk, além da música, é um estilo de vida e um modo de adição, e a sua pesquisa leva-o a ser comparável, em termos de importância, ao rock e ao reggae, destacando-se a tolerância, o cosmopolitismo e a globalização. Já Carlos Feixa, cujo primeiro livro foi sobre a cultura juvenil do punk, descreveu-a a partir de quatro elementos: 1) filosofia (relação do dandy, do flaneur e do punk), 2) arte (movimentos de vanguarda: dada, surrealismo, punk), 3) música (rock na década de 1950, pop na década de 1960, punk na década de 1970), 4) subcultura (skinhead, rastafari, punk), e 5) contracultura (beatniks, hippies, punk).

O punk, para Feixa, aparece sempre como síntese e superação de contradições nos movimentos anteriores. Daí, ele traçar cinco tensões: 1) espaços sociais (hegemonia versus subalternidade), 2) espacialidade geográfica (local versus global), 3) geracional (juvenil versus transgeracional), 4) consumo (comercial ou personalizado do it yourself), 5) identitário (colectivo versus individual).

Finalmente, Hugo Ferro, que se considera um “inflitrado” no projecto, traz um contributo mais pessoal ao procurar encontrar as origens e as ramificações do punk em Portugal. Se a palavra aparece a primeira vez numa crítica musical em 1969, no Reino Unido, há ainda pouca informação sobre o começo e crescimento do movimento do punk no nosso país. Um dos responsáveis, já falecido, seria António Sérgio, na Rádio Renascença e numa coluna em Música e Som.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A Guerra dos Mundos foi há 75 anos

meditschSaiu agora o livro organizado por Eduardo Meditsch, Rádio e Pânico 2. A Guerra dos Mundos 75 anos depois. Na apresentação, Nair Prata escreve sobre o grupo de pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Intercom, que publicara o seu primeiro livro em 1998 Rádio e Pânico: a Guerra dos Mundos, 60 Anos Depois, igualmente organizado pela figura importante de Meditsch, pouco depois de ele concluir o seu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa.

Nesse primeiro livro, tinham colaborado nomeadamente Gisela Ortriwano, Luiz Carlos Saroldi e Valério Cruz Brittos, entretanto desaparecidos. O grupo de media sonoras fora proposto por outra figura importante da investigação da rádio no Brasil que é Sônia Virgínia Moreira em 1990. Na liderança do grupo da Intercom, para além da sua proponente inicial, passaram Dóris Fagundes Haussen, Nélia Del Bianco, Eduardo Meditsch, Mágda Cunha, Luiz Ferraretto e Nair Prata, actual coordenadora.

Agora, para além de uma tradução do guião (roteiro) original de A Guerra dos Mundos, de Howard Koch, por Eglê Malheiros, há um conjunto de textos sobre a peça original de H. G. Wells e a sua contextualização social, cultural e política, da sua utilização na rádio por Orson Welles e que a tornou no programa de rádio mais famoso desde sempre, das edições radiofónicas de invasões de marcianos no Brasil e noutros países da América Latina e também em Portugal (pela mão de Matos Maia, como já recordei aqui, aqui e aqui). Destaco, sem qualquer nível de hierarquizar a sua importância, os capítulos de Carlos Esch e Nélia Del Bianco, Sergio Endler, Mágda Cunha, Dóris Haussen, Valci Zuculoto e Luiz Ferraretto.

Fico com a leitura do capítulo de Meditsch (Preparação. Construindo a arte de assombrar o público, pp. 45-56), onde se conta a azáfama semanal do Mercury Theatre, em que o guião da peça radiofónica era preparado em seis dias, de terça-feira a domingo. Howard Koch escrevia a lápis e uma estagiária da CBS dactilografava, refazendo conforme as críticas e sugestões de Orson Welles, então um jovem de 23 anos.

Na peça radiodifundida na noite do dia das bruxas de 1938 (31 de Outubro), um dos elementos essenciais foi a inserção de noticiários (nomeadamente na sequência de uma música transmitida de um teatro imaginado, Park Plaza, La Cumparsita), numa altura em que os americanos já consumiam muita informação pela rádio, considerado um meio credível, o que reforçou a ideia de programa sério. A equipa não calcularia o impacto da emissão, caso de Koch, que se foi deitar sem saber o que aconteceu durante e depois da peça ter ido para o ar. Apenas no dia seguinte, no barbeiro, ao ler as notícias dos jornais, é que teve consciência do que sucedera. A invasão, no programa, demorou 42 minutos, quando inicialmente se prevera 30, retardado pelo director, conforme uma leitura atenta da imagem do livro sugere. Apenas no último terço da peça é que o guião desfaz o engano provocado nos ouvintes, quando se abandona o formato de programa musical e jornalístico. Mas os efeitos já tinham sido alcançados.

Leitura: Eduardo Meditsch (2013). Rádio e Pânico 2. A Guerra dos Mundos 75 anos depois. Florianópolis: Insular

terça-feira, 18 de junho de 2013

Modos de ouvir segundo Mônica Kaseker

kasekerMônica Kaseker defendeu tese de doutoramento em 2010 o texto publicado recentemente sob o título Modos de ouvir. A escuta da rádio ao longo de três gerações (2012). Além de uma parte teórica clara e objectiva (Barthes, Schaeffer, Schafer, Kerckhove, Mix, Wisnik, Bourdieu, Certeau, Mattalana, Martín-Barbero, García Canclini, Orozco), e de um capítulo sobre a história da rádio no Brasil e no Estado do Paraná, a autora fez um longo trabalho empírico.

Primeiro, explorou 110 famílias de alunos seus na universidade, no segundo semestre de 2007 das turmas que cursavam disciplinas de rádio, observando os hábitos de apropriação radiofónica no quotidiano familiar (p. 23). A seguir, seleccionou dez residências para aprofundamento da sua observação - e que constitui o centro do capítulo 5. Antes, tinha definido cinco tipos de mediação da escuta: tecnológica, cognoscitiva, situacional, institucional e referencial. Tal definição permitiu encontrar características do habitus (Bourdieu) do ouvinte.

No referente à história da rádio no Brasil, a autora distingue várias fases que incluem a expansão e impacto das ondas médias, primeiro, e do FM, depois. À implantação da rádio no país (1922-1932) e expansão (década de 1930), a autora juntou as fases de era de ouro (anos 40 e 50), retracção (final dos anos 50 e década de 1960), ressurgimento (final dos anos 70 e década de 1980) e reconfiguração (a partir dos anos 90). Todo o texto, em especial o capítulo 5, é muito gostoso de ler, pelo que se aconselha baixar o trabalho daqui (intitulado O que escutar quer dizer. A constituição do habitus do ouvinte de rádio no cotidiano familiar).

A amostra de famílias trabalhada no capítulo não tem representatividade estatística (p. 164), mas a amostra de conveniência (famílias de classe B e C, com rendimentos de mil a quatro mil e quinhentos reais, com casa própria e automóvel) tem a vantagem de traçar percursos de três gerações e sua utilização dos media (rádio, televisão, internet, mp3). Como elemento de apoio à sua caracterização das famílias, retiro parte do Quado 4 (p. 227 do texto incluído na internet, pp. 176-177 do livro), onde se ilustra a riqueza das observações sociológicas de Mônica Kaseker.

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Nas conclusões, a autora identifica os traços de cada geração no seu consumo da rádio: "Depois de analisar como os hábitos de apropriação radiofônica surgem e se modificam em diferentes famílias, a partir do gosto, estilo de vida e da distribuição de espaços e tempos cotidianos, assim como a organização das rotinas de acordo com o pertencimento sociocultural de cada uma delas, buscaremos pensar na constituição do habitus do ouvinte ao longo das diferentes gerações. Este movimento já não busca distinguir cada família em seu ecossistema, mas sim procurar o que elas tem em comum na perspectiva geracional. É possível observar que, embora os hábitos dos ouvintes e até mesmo o lugar social atribuído ao rádio no cotidiano se modifiquem muito nesse período, a maneira como se constitui o habitus não se modifica. As escolhas e os vínculos estabelecidos com o rádio dependem em grande medida das relações sociais de cada sujeito em esferas como a própria família, trabalho, estudos e em seu entorno cultural" (pp. 252-253 do texto da internet).

Leitura: Mônica Panis Kaseker (2012). Modos de ouvir. A escuta da rádio ao longo de três gerações. Curitiba, PR: Editora Universitária Champagnat, 299 p.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Different Kind of Tension. Propedêutica punk

punkNo dia 20 de Junho, pelas 20:00, no Gallery Hostel Porto (Rua Miguel Bombarda 222, Porto), haverá a apresentação e discussão pública do projecto de Andy Bennet (sociólogo da Griffith University), Carles Feixa (antropólogo da Universidade de Lleida), Hugo Ferro e Paula Guerra com o nome Keep it simple, make it fast! Prolegómenos e cenas punk (1977-2015).

Em notícia ontem publicada no jornal Público, escrevia-se que a socióloga Paula Guerra faria a apresentação de um estudo sobre o movimento punk em Portugal, realçando modos de vida e cultura dos que o seguiram. No campo musical, ela identifica o início na banda Faíscas, que deu origem ao Corpo Diplomático, depois tornada Heróis do Mar. Ainda de acordo com a mesma fonte, o movimento português foi constituído por 98% de indivíduos do género masculino. O estudo aborda ainda o envelhecimento e o modo como as referências ao movimento se mantêm ou não ao longo da vida.

sábado, 15 de junho de 2013

A história das freguesias de Lisboa

A exposição Freguesias de Lisboa: passado e presente, patente na câmara municipal da cidade, desenvolve-se em dois núcleos principais: 1) histórico, com as diferentes fases e evolução das freguesias, ocupando o átrio e a galeria do edifício da câmara, 2) actual, com as novas 24 freguesias, caracterização e competências. Já na praça, doze elementos desenham um percurso, fazendo-se acompanhar por fotografias de Daniel Rodrigues, fotógrafo recentemente galardoado com uma distinção da World Press Photo (texto retirado do sítio da Câmara).

Motorista como auxiliar da reportagem

MoretzsohnSylvia Moretzsohn editou o livro Repórter no volante, um relato de como os motoristas são elementos importantes nas reportagens mas negligenciados na notícia. A autora coloca o motorista no centro do livro: "em geral provenientes das camadas mais pobres da população, conhecedores de todos os cantos da cidade e muito hábeis ao volante, esses profissionais transmitem, antes de tudo, uma sensação de segurança para a equipa de reportagem" (p. 10). A habilidade na condução do veículo é fundamental para a segurança do jornalista (p. 41), repete quase sem cessar Sylvia Moretzsohn, antiga repórter e hoje docente na Universidade Federal Fluminense.

Os media retratados são os jornais e as rádios de Rio de Janeiro, com os motoristas a conduzirem repórteres e fotógrafos em busca de "matéria" para os seus trabalhos, em especial notícias sobre criminalidade e banditismo nas comunidades (favelas). Alguns dos motoristas viveram nesses locais mais perigosos (p. 44) e conhecem soluções úteis para ultrapassar situações complexas, imprevistas e perigosas. Por via disso, o motorista tem mais facilidade a aceder a fontes de informação informais, imprescindíveis para obter dados secundários mas que se podem revelar fundamentais, e apoiavam os fotógrafos num tempo pré-digital, em que era necessário montar o laboratório de revelação fotográfico (p. 42).

A base do trabalho de Sylvia Moretzsohn foram entrevistas a actuais e antigos motoristas, feitas em 2011, gravadas em áudio e muitas também em vídeo (p. 13). Ela dá conta do crescimento da frota automóvel dos media impressos na década de 1950, caso do jornal A Última Hora (1951), onde se fizeram inovações como a profissionalização da redacção e a introdução da frota de carros de reportagem. Estes carros eram ainda aproveitados para a distribuição dos jornais. Na passagem da década de 1980 para a de 1990, o processo de terceirização atingiu o sector (p. 25), com a passagem da actividade de motorista para empresas independentes do jornal ou com o antigo profissional do jornal a tornar-se trabalhador autónomo, com carro próprio e salário mais baixo (p. 27), aqueles com um salário de 1200 reais mais horas extras e este com 880 reais (p. 31). A autora releva ainda a passagem do tipo de veículo: do jipe da década de 1950 para o carro blindado dos anos mais recentes, indicador de melhores vias de transporte ao mesmo tempo que aumento de violência urbana.

A segunda parte do livro contém uma selecção de entrevistas com motoristas (pp. 75-172), onde se identificam percursos de vida, ideais de solidariedade, muitas histórias e, acima de tudo, a colaboração entre jornalistas e motoristas, estes heróis sempre esquecidos do registo do sociólogo e do historiador, que a autora resgata de uma forma simples e objectiva.

Leitura: Sylvia Debossan Moretzsohn (2013). Repórter no volante. S. Paulo: Publifolha, 183 p.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Do transporte à comunicação

JFUma exposição actualmente patente no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (Juiz de Fora) deu-me o mote para encontrar exemplos práticos de comunicação, a partir de uma perspectiva antropológica. Da exposição, retive as belas obras do pintor Sílvio Aragão e as histórias em volta destes e de outros quadros.

O caminho velho de ligação das minas ao Rio de Janeiro que serviu para escoamento do ouro deu lugar ao caminho novo (1702-1725), com quase 500 quilómetros. Assim, a potência colonial controlava melhor o tráfego do ouro e outras mercadorias, com postos de fiscalização ao longo do percurso da estrada real. Luiz Bustamante, magistrado que exerceu a função de juiz de fora do Rio de Janeiro (1711-1713), comprou uma sesmaria na margem do rio Paraibuna, época que inicia a história da cidade.

Volvidos os Tempos de Inconfidência, outras pessoas consolidaram e emanciparam o município, como o alemão Henrique Halfeld , que melhorou o caminho novo, a actual avenida Barão de Rio Branco, e Mariano Procópio, responsável pela construção da primeira estrada de macadame, a União e Indústria, de Juiz de Fora a Petropólis. A cidade expandia-se nessas vias de ligação. De ponto de passagem passava a lugar de fixação. Após a febre do ouro e emancipado o Brasil, o café passou a motor de prosperidade da região, transportado pelo trem inaugurado em 1870. Lembremo-nos que Jurgen Habermas, em Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962), analisa o nascimento da opinião pública europeia através da leitura e discussão de jornais em espaços públicos como os cafés, onde se bebia tão delicada e prestigiada bebida.

Logo depois, instalou-se em Juiz de Fora uma fábrica de tecidos, a fábrica dos ingleses, o que levou a chamar-se à cidade a Manchester Mineira. A electricidade viria no final do século XIX e Juiz de Fora alargar-se-ia para o outro lado do rio Paraibuna. Hoje, tem uma prestigiada universidade que já atrai muitos alunos de outros estados da federação graças ao novo Sisu (Sistema de Selecção Unificada): 15,5% conforme notícia do jornal Tribuna de Minas (2.6.2013).

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Uma cidade funciona como uma grande empresa, com sucessivos dirigentes e directores, incorporação de novos produtos e novas estratégias. Podemos aplicar conceitos que pertencem ao marketing mas empregados na comunicação, como cluster (feixe de actividades interdependentes), franchising (franquia, representação) e lobing (associações de classe), sem esquecer a educação, a inovação e o empreendedorismo. Aqui, utilizo empreendedorismo no sentido dado pelo professor Aluizio Trinta (2010: 23) quando aplicado à empresa: projecto, operação comercial, cálculo de riscos, acções afirmativas. Empreendedorismo, continua o mesmo autor, é sinónimo de criatividade empresarial no que tange à organização, à estratégia de comunicação e aos seus públicos. O empreendedorismo exige também cultura. Para Jenkins (2006), nos últimos séculos e no novo mundo (a América latina) misturaram-se tradições de folclore de populações indígenas e de imigrantes e capacidades criativas inovadoras, que passaram de geração para geração.

Já no século XX, essa cultura popular de fusão era quase dissolvida pelos meios de comunicação de massa. Porém, a indústria emergente do entretenimento faz o seu desenvolvimento graças à cultura folclórica. Dito de outro modo: tradição e modernidade tiveram de se entender, mesmo que nem sempre de forma harmoniosa. A escola, os jornais, as tertúlias [bate-papos], a política, o teatro e o cinema aproximaram valores e serviram também como veículos de novidade, fazendo mudar sempre e sempre a estrutura empresarial que é a cidade.

No caso de Juiz de Fora, registo sucessivas actividades como ouro, café, tecidos e universidade, com novos especialistas, profissões, alargamento de instalações e necessidade de comunicar e de estabelecer parcerias e contactos comerciais e políticos. Os edifícios, os textos publicados, as intervenções nos espaços públicos e políticos são formas sempre actuais de comunicar. Retenho conceitos como a visão e a missão dos fundadores e pioneiros, o alojamento como ideia de aculturação (Giles, 2012), a mediação (Harwood e Joyce, 2012) entre interesses diferentes e vontades próprias, a identidade cultural. E penso num conceito a atribuir à comunicação aplicado à sociologia dos espaços: ela é, em simultâneo, ponto de passagem (imagem publicitária, comunicado de imprensa) e de fixação (fábricas e escritórios, identidade e valores culturais).

Maria Lucília Moita em Abrantes

Maria Lucília Moita (1928-2011) foi considerada das últimas herdeiras dos pintores naturalistas (casos de Silva Porto e Henrique Pousão). As suas pinturas estão presentes em colecções particulares e museus (Chiado, Centro de Arte Moderna/Fundação Calouste Gulbenkian, José Malhoa, Dr. Anastácio Gonçalves, Museu de Setúbal).

maria lucília moita


da mãe
Agora, na Galeria Municipal de Arte de Abrantes, está patente a exposição da mãe, de Miguel Simão, filho da pintora, numa leitura íntima de Maria Lucília Moita onde se misturam fotografia e pintura.

Escreveu Miguel Simão: "Quando começava uma tela tinha de ir para a rua, ao encontro da natureza que a fazia pintar. Nos dias seguintes, já no atelier, iluminado pela luz da rua ou do candeeiro quando noite, raspava, colocava tinta com os pincéis meio gastos, dando a forma última".

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um americano em Belvedere

Ele é americano e ensina psicologia e história da psicologia em New Hampshire, Boston. Fomos companheiros de uma ainda longa viagem, onde me contou a história do massacre do Ruanda (a luta fratricida entre hutus e tutsis) e da miséria da África. Não foi meigo para o complexo militar-industrial americano que é o poder mais forte do seu país.

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viagem

Na viagem, deparámo-nos com um burro e a sua carroça preso a uma árvore que existia mesmo perto do asfalto da auto-estrada, enquanto meninos jogavam à bola na proximidade e algumas pessoas usavam a berma da auto-estrada como se fosse um passeio de rua, havendo mesmo algumas que intentavam atravessá-la. Transumâncias tropicais que aqui não é costume ver-se. Só faltariam meninas de tranças a jogar à corda e meninos a correr com arcos, mas isso foi há muito tempo e noutro lugar.

O americano fotografava a paisagem. O motorista explicava o que se via, o rio Paraibuna a separar os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, as fazendas e o peso do sector agro-pecuário, enquanto se lamentava que a selecção brasileira de futebol já não era o que foi (tinha empatado na véspera com a Inglaterra). Eu ia traduzindo para o americano. Quando chegámos ao posto de gasolina de Belvedere, nome de museu vienense onde estão obras de Klimt e Kokoschka [ver aqui], dispus-me a beber um sumo (suco) de goiaba e um pequeno pão de queijo. O americano não trazia dinheiro do país, só possuía cartão de crédito. Também quis lanchar. Lá lhe paguei os cinco reais da sua conta.

domingo, 9 de junho de 2013

Memórias

Memórias de duas participações, a primeira na mesa temática Interfaces da História da Mídia no Brasil e em Portugal, em Ouro Preto, ao lado de Marialva Barbosa (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Eduardo Meditsch (Universidade Federal de Santa Catarina) (1 de Junho) [foto retirada de http://www.jornalismo.ufop.br/historiadamidia/], a segunda em conferência sobre comunicação na empresa, ao lado de Boanerges Lopes (Universidade Federal de Juiz de Fora) (7 de Junho).

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Museus de Belo Horizonte

Museu dos Brinquedos (possui um acervo de mais de cinco mil peças, das quais 800 estão expostas), Centro de Referência da Moda (vestidos de cerimónica e baile, nomeadamente) e Museu de Artes e Ofícios (couro, ourivesaria, mineração, fogo, transportes, madeira, cerâmica, comércio), este em edifícios recuperados junto à estação ferroviária e de metro [ver slideshow abaixo]. Faltou o de minas (gerais).

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quinta-feira, 6 de junho de 2013

A visita

José Luiz Ribeiro, autor e director da peça A Visita escreve sobre o vaudeville, que é "um tipo de teatro que se caracteriza pelas entradas e saídas de personagens diante de eventos indeterminados". A história decorre numa casa onde estão alojados estudantes universitários (uma república), subitamente confrontados com dois problemas: a aposentação da empregada doméstica e a vinda da fazenda para a cidade, por causa de exames médicos, da tia de Micha, o jovem que tinha a responsabilidade do aluguer do espaço. Uma só casa de banho (banheiro), a falta de um quarto para alojar a tia Lola e o seu empregado (que aparentemente quase dizia "Sim, madrinha" mas revelou uma grande sagacidade na resolução de problemas) e o poder reivindicativo do novo ajudante da aposentada Luzia tornam a peça num grande momento de divertimento tendo por fundo questões sérias.

Retomo o texto do autor: a peça é uma "fábula que mostra o conflito entre o campo e a cidade, entre a religiosidade politizada [...] e a ascensão de uma classe que aprendeu a exigir seus direitos sem se preocupar com deveres". O tempo é de hoje, quando no Brasil se assiste a uma forte ascensão social, da classe D e E para a C1 e um em quatro estudantes universitários ganha uma bolsa. Além da muito recente disposição de as bolsas para fora do país se reorientarem para os países de língua inglesa (o que deixou o governo português em pânico há duas ou três semanas, mas me parece irreversível porque o Brasil quer ganhar competências, como já ouvi nestes últimos dias pessoas colocadas dentro da questão). A elevação económica e social precisa de ser completada pela educação, elemento sempre muito frágil como ilustraram os anos de muito dinheiro em Portugal e que não resolveram os problemas, apesar do aumento de licenciados no geral.

Além da questão interclassista há também uma razão racial, embora mais mitigada: a empregada é de cor e os empregadores são brancos, a tia Lola é a fazendeira branca e o seu afilhado é de cor. Entre a fazendeira e a empregada doméstica há uma antiga zanga, que, nos novos tempos, se procura reverter. E uma crítica política evidente, embora apontada à televisão. Os muitos canais de televisão emitem todos a mesma coisa, a novela que representa a cidade não é compreendida no campo e a novela que fala do campo não é entendida na cidade, como diz a fazendeira, que estudara na faculdade antes de ir para o campo e que abandonara as ideias revolucionárias (neste caso, parece colar-se à crítica de Adorno) para se tornar conservadora, porque descobrira a sabedoria do povo.

O grupo que representa a peça é o Divulgação, surgido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1966, a partir de um grupo de estudantes da Faculdade de Filosofia desta cidade, realizando "um trabalho ininterrupto, que está fundamentado na pesquisa, no ensino e na extensão, visando o exercício da cidadania, através da participação cultural e da difusão e discussão de ideias e valores ligados à comunidade" (Márcia Falabella, 2004, Grupo Divulgação. O teatro como devoção, Juiz de Fora, Centro de Estudos Teatrais, p. 18). Em texto comemorativo de 40 anos de actividade, lembrava-se que, na década de 1960, a cidade tinha um forte movimento de teatro, trovadores, poetas, cinéfilos e músicos (Memória). O golpe militar de 1964 e o AI-5, em 1968, acto que estabelecia a censura nas indústrias culturais, estabeleceram dificuldades tornadas resistência. Lorca, por exemplo,seria representado, mas também Gogol, Górki, Gil Vicente (A farsa do velho da horta), Genet, Pirandelo, Camus e José Luiz Ribeiro. Este último já escreve peças há 50 anos. Foi muito bom conhecer o autor e falar com ele uns curtos mas memoráveis minutos antes do começo da representação.

  visita

[imagem retirada da página de Facebook de José Luiz Ribeiro]

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Valci Zuculoto sobre a investigação em rádio e media sonoros

Entrevista a Valci Zuculoto, coordenadora do grupo de História da Mídia Sonora da Rede Alcar, a propósito do 9º Encontro Nacional de História da Mídia, realizado em Ouro Preto (dia 1 de junho). Valci Zuculoto editou recentemente No ar. A história da notícia de rádio no Brasil (2012) - que espero comentar aqui ainda este mês - e A programação de rádios públicas brasileiras (2012). A secção teve 44 comunicações, o que evidencia o impacto da rádio, da fonografia e das outras áreas de media sonoras no Brasil.

Controlinveste

Para o jornal i, o grupo Controlinveste, que detém Diário de Notícias, Jornal de Notícias, O Jogo e a rádio TSF, foi vendido a um grupo de capital de risco, com maioria do capital fica nas mãos de António Mosquito, empresário angolano (51%), e BCP, BES e Joaquim Oliveira (49%). Com o fundo de capital de risco vender-se-ão ativos do grupo para amortizar a dívida. No caso do Diário de Notícias, prevê-se a saída de cerca de 200 colaboradores. Trata-se de uma muito má notícia.